Na oportunidade de dar testemunho das contribuições de Pedro Luzes à Faculdade de Psicologia da Universidade de Lisboa, elegemos aquela que o faz presente no dia-a-dia da vida do núcleo de Clínica Dinâmica – o Instituto de Psicologia das Relações Humanas, que criou e dinamizou, e se mantém vivo e a dar vida ao ensino e à aprendizagem dos psicólogos que elegem esta orientação.
No entanto, não podemos considerar como secundário o empenhamento de Pedro Luzes no desenvolvimento da Faculdade de Psicologia. É verdade que quando inicia a sua colaboração, em 1978, ainda no quadro da Universidade de Letras, se encontra já num momento avançado da sua carreira e do seu percurso intelectual. Num momento em que outros tendem já a restringir as suas actividades. No seu caso, pelo contrário, parece-nos ter sido um momento de generosidade e entusiasmo. Com efeito, a partir dessa data, a sua participação tenderá sempre a alargar-se e a aprofundar-se, constituindo um esteio fundamental no projecto de criação da Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação, cuja Comissão Instaladora integrará.
Os méritos científicos e a longa formação, então já adquirida, eram condição suficiente para que fosse convidado a dar o seu contributo ao ensino da Psicologia. No entanto, fez questão em seguir a via de uma carreira académica clássica, apresentando o seu doutoramento em Psicologia em 1983. Após essa data, contratado como Professor Auxiliar (e logo, dois anos depois, como Professor Associado), pôde assumir, de pleno direito, a regência de várias cadeiras essenciais no currículo da licenciatura. Tratava-se, nomeadamente, de Psicologia da Motivação e Personalidade I, Psicologia da Motivação e Personalidade II e das Psicoterapias Dinâmicas. É importante sublinhar que não se tratava apenas
Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação, Universidade de Lisboa
ou principalmente de cadeiras especificamente ligadas à sua formação de psicanalista – como seria o caso da cadeira de Introdução à Psicanálise (pela qual foi, aliás, igualmente responsável) ou de Psicoterapias Dinâmicas. As duas cadeiras de Motivação e Personalidade eram cadeiras centrais no currículo, e fez questão de sempre as apresentar duma forma ampla e abrangente, articulada com todas as correntes da Psicologia. Cadeiras essenciais, que marcarão várias gerações de estudantes e que assegurará até à aposentação, sempre com o mesmo empenho e a mesma generosidade.
Empenhamento científico e pedagógico pleno. Mas também participação na vida institucional, com todo o peso por vezes excessivamente burocrático que isso acarreta. E prosseguindo com uma carreira universitária (com as provas de agregação, em ) de cujos louros, embora justos e merecidos, certamente já não precisava.
No contexto dos cursos de pós-graduação, coordenou o mestrado de Psicologia Clínica Dinâmica, desde a criação deste mestrado, em 1994, até à sua aposentação. No âmbito destes cursos apoiou activamente a criação de uma disciplina de Psicogerontologia, então pioneira nos currículos da Faculdade de Psicologia, manifestando uma enorme disponibilidade para apoiar esse projecto e uma abertura de espírito para novos desafios, e disponibilizando ainda os seus contactos pessoais. O desafio desta nova disciplina representava o tentar evoluir do modelo médico, que enfatizava o défice, para uma perspectiva que englobasse o psicológico, de cariz mais positivo, num ponto de vista de desenvolvimento ao longo da vida, em voga desde os anos 70.
De facto, a clínica de adultos mais velhos, não tinha grande tradição entre os psicoterapeutas psicodinâmicos (recorde-se a posição de Freud relativamente à psicanálise com estes indivíduos). Não tinha também grande procura pelos próprios, na medida em que imperam ainda ideias compatíveis com o idadismo (Butler, 1975) – os sintomas depressivos fazem parte inerente da velhice e não são “tratáveis”.
A formação e o ensino foram sempre, para Pedro Luzes, linhas entretecidas com a actividade clínica. E, uma vez mais, com empenho e determinação levou este pensamento à prática, planeando a clínica dos mais velhos como uma valência clínica a contemplar, e abrindo caminho para essa formação à docente que iria reger a cadeira de Psicogerontologia. Assim, em 1994, estabeleceu contactos com colegas suíços, a trabalharem desde há muito com esta população, no sentido de viabilizar um estágio na Clinique de Bel-Air das Institutions Universitaires
de Genève. Convidou ainda um desses colegas, o Dr. G. Goda, a vir a Portugal, a fim de contactar com toda a equipa e colaborar na docência dessa disciplina.
Esta preocupação de contemplar uma clínica também orientada para os adultos mais velhos não teria sido estranha à sensibilidade relativa ao mundo a envelhecer (Powell, 2010). Estes adultos, confrontados com perdas e adversidades do processo de envelhecimento – perda da saúde física, da robustez, beleza, capacidades cognitivas, potência sexual, perda da independência e perda de companheiro e amigos – poderiam vir a procurar, com frequência, uma ajuda psicológica, particularmente quando gerações mais informadas e mais escolarizadas atingissem uma idade avançada.
A formação orientada para a intervenção com os adultos mais velhos iria pois desafiar a visão tradicional de que estes não possuiriam a flexibilidade mental para beneficiar da psicoterapia. Seria concebida como uma intervenção psicoterapêutica breve, orientada para problemas relacionais, com objectivos de reparação e não visando propriamente mudanças na personalidade.
Centrar-se-ia também no trabalho do luto, permitindo aceitar a realidade dolorosa, experimentada primeiro que tudo no corpo – a aparência física alterada, a diminuição da autonomia funcional –, reconhecendo as inúmeras perdas – capacidades diminuídas, perdas dos objectos amados, de oportunidades e ambições, lidando com múltilpas alterações, externas e internas. Numa perspectiva kleiniana, que sempre lhe foi muito querida, que sempre o orientou…, enfatiza-se a necessidade de aprender a lidar com a experiência interna da solidão, o sentir-se só mesmo entre familiares e amigos, associada quer à insegurança paranóide, com a ansiedade persecutória, quer à ansiedade de não ser capaz de integrar as partes boas e más de si e dos objectos, quer ainda ao medo da morte, com a perda do bom objecto interno. Porque envelhecer representa um desafio para o mundo interno, o equilíbrio entre amor e ódio, inveja e gratidão, em que bom e mau estarão constantemente postos à prova (Hess, 2004).
Com estes adultos mais velhos, tratar-se-ia, também, de acompanhar a elaboração de uma história de vida, na reconstrução de memórias e significados, que permita viver o presente com uma projecção no futuro aceite como limitado. Admitindo a teoria psicanalítica como uma teoria de desenvolvimento e partindo da concepção do modelo epigenético de Erikson, com a polaridade de forças em conflito, a compreensão da
velhice passa pela negociação entre a integridade e o desespero do Eu. Integridade no sentido da capacidade para valorizar as suas próprias experiências de vida e o seu self, no processo de revisão de vida, resultante da visão panorâmica desse percurso, tarefa de cada um, mas também com o apoio do psicoterapeuta. Aceitar pois a sua vida com as suas complexidades, aspectos bons e maus de si e dos outros.
Admitir-se-ia o desafio para o narcisismo, na possibilidade de este se constituir como um recurso associado a todas as funções mentais e relacionais e à auto-estima, ou, muito exacerbado, originar comportamentos pautados pela excessiva auto-suficiência e omnipotência.
A clínica dos mais velhos e a Psicogerontologia têm sido tema de numerosas dissertações de mestrado e ainda de doutoramento, dando testemunho do pleno empenhamento pedagógico e científico de Pedro Luzes. Nos últimos cinco anos da sua carreira participa na criação (em ) do Centro de Psicologia Clínica e Experimental: Desenvolvimento, Cognição e Personalidade, unidade de I&D da FCT de que assume a Coordenação Científica. É ainda neste período, em 1992, que, já Professor Catedrático, assume a coordenação do Ramo de Psicologia Clínica, ou, como hoje é chamado, Núcleo de Psicologia Clínica Dinâmica. Cientificamente, nada mais adequado à sua formação e ao seu percurso.
Mas, o que podia parecer apenas o coroar formal de uma carreira, saberá ainda transformá-lo numa transmissão e numa criação viva. O melhor exemplo dessa transmissão e desse legado é talvez justamente a criação do Instituto de Psicologia das Relações Humanas (IPRH).
Quando Pedro Luzes assumiu a coordenação do Núcleo de Psicologia Clínica Dinâmica, encontrou um grupo de colaboradores que o haviam conhecido enquanto alunos, e um deles enquanto seu assistente em disciplinas da licenciatura em Psicologia. Todos respeitávamos o seu saber e a sua cultura. Tínhamos todos os motivos para confiar no seu empenho e dedicação e na sua competência na condução do grupo de docentes da clínica de orientação psicodinâmica. Olhávamos para ele com confiança, mas com alguma distância. Parecia-nos um homem reservado. Tínhamos à época acabado de inaugurar, as actuais instalações, na Cidade Universitária, com condições adequadas para funcionamento de consultas (uma sala especialmente planeada para consulta de crianças e três para adultos). Desde o início do nosso trabalho docente, todos os que optámos pelo regime de dedicação exclusiva, vínhamos exercendo a actividade clínica indispensável à nossa formação enquanto psicoterapeutas
e formadores de psicólogos, no contexto dos Serviços à Comunidade da Faculdade (na altura, na verdade, ainda insuficientemente estruturados). Ao assumir o papel de coordenador, Pedro Luzes aceitou igualmente o papel de supervisor dos docentes do Núcleo que asseguravam essas consultas. Às terças-feiras de manhã reuníamo-nos todos (também os docentes que não tinham esta actividade podiam participar) à volta de uma mesa, partilhando casos e reflectindo sobre o seu entendimento e as formas mais adequadas de resposta. Neste espaço de reflexão partilhada, fomos descobrindo o seu fino humor, a sólida cultura que abria outros ângulos de visão, e o afecto foi transformando o Professor num Mestre e num Amigo.
Dadas as múltiplas polémicas que têm surgido à volta do assunto, vale a pena sublinhar que a distinção entre a psicanálise e a psicoterapia psicanalítica nunca foi aqui obstáculo a um bom entendimento. A posição de Pedro Luzes, tal como também a exprimiu ocasionalmente no seu ensino, sempre se caracterizou por uma grande flexibilidade e abertura, recusando fronteiras rígidas ou dogmáticas, mas simultaneamente seguro das diferenças e das especificidades inerentes às diferentes formas de abordagem.
E um dia o Professor Luzes surgiu com a ideia pioneira de transformar essa consulta externa numa Instituição Privada de Solidariedade Social – cujos serviços poderiam ser pagos, não com objectivo do lucro, mas permitindo que o trabalho clínico pudesse realizar-se em melhores condições, responsabilizando os utentes por um pequeno pagamento (que seria ele próprio investido na formação dos docentes). E pôs ao serviço desta ideia a sua experiência e o seu conhecimento. Foi um tempo de entusiasmo, de “fazer nascer”. O nome, por imperativos legais, sujeito a várias alterações, veio a fixar-se em Instituto de Psicologia das Relações Humanas – IPRH – como hoje (tempo de siglas…) é conhecido.
Com o andar do tempo, e na medida em que os Serviços à Comunidade tiveram permissão para receber estagiários profissionais, o IPRH foi admitindo sucessivos grupos de psicólogos recém-formados que, sob supervisão dos docentes, aí iniciaram os primeiros passos da sua formação como psicoterapeutas de crianças, adolescentes e adultos (até à data, várias dezenas). Paralelamente, e em consequência deste alargamento do número de colaboradores e de consultas, o núcleo de Psicologia Clínica Dinâmica foi-se revitalizando pela partilha da actividade clínica, da qual beneficiou o próprio processo de ensino ao dispor de consultas que
podiam ser observadas pelos alunos (através dos espelhos de visão unilateral que as instalações já garantiam, mas eram à data pouco utilizadas). Tínhamos pois uma clínica universitária que dava vida ao ensino. E tudo isso se mantém, atestando a qualidade duma formação universitária que se pretende activa e participativa, mobilizando docentes e discentes no desenvolvimento de conhecimentos e nas respostas a novos desafios.
Com 20 anos de existência, o IPRH tem constituído uma referência de formação e prestação de serviços à comunidade. Encara, neste momento, a possibilidade de se autonomizar e independentizar da casa que o tem abrigado. A circunstância de ser uma IPPS favorece essa perspectiva. Venha a situar-se onde quer que seja, levará sempre a gratidão para com o seu fundador.
Por último, e quase em nota de rodapé, uma referência à criação da Associação de Psicoterapia Psicanalítica na Infância e nos Jovens (APPIJ). Uma vez mais, a intuição e o pioneirismo de Pedro Luzes ao conceber e dinamizar uma associação destinada à formação de psicólogos e pedopsiquiatras neste tipo de psicoterapia. Juntando sinergias de colaboradores do Instituto de Psicanálise de Lisboa e do Núcleo de Psicologia Dinâmica, fundou uma nova IPSS. Durante vários anos, uma vez por trimestre, às sextas-feiras ao fim da tarde, na Faculdade de Psicologia, reputados psicanalistas, seus amigos de longa data, realizavam uma conferência sobre temas de psicoterapia psicanalítica. Toda a manhã do sábado seguinte era ocupada com apresentação e discussão, em grupo, de casos de psicoterapia de crianças ou de adolescentes. Dum modo geral, organizavam-se 3 grupos, orientados por uma psicanalista e uma docente do Núcleo de Psicologia Dinâmica. Foram vinte e dois os Seminários organizados. A experiência de colaboração entre o Instituto de Psicanálise e a Faculdade juntou os dois pilares de investimento de Pedro Luzes, estreitou contactos (os jantares pós-conferência foram momentos que perduram na nossa memória). Mas, fundamentalmente, apontou uma lacuna na formação de psicólogos e pedopsiquiatras, como as várias associações que actualmente a ela se dedicam podem atestar.
Dar testemunho do nosso reconhecimento e da nossa gratidão, ao Professor, ao Mestre, e ao Amigo, é um acto de justiça. Procurar manter vivo o seu exemplo de seriedade, generosidade, empenhamento e pioneirismo, é tentar dar continuidade ao seu legado.