Pretendemos neste trabalho levantar algumas interrogações sobre as evoluções psíquicas de diferentes fantasias internas, ligadas à experiência da perda e separação que ocorrem ao longo do processo analítico, que se podem exprimir através dos conflitos, das defesas e das distintas qualidades dos objectos internos. Estas fantasias convocam uma constelação de distintas ansiedades que se organizam como um baluarte defensivo contra a mudança psíquica, podendo configurar-se uma dolorosa ameaça psíquica contra a sua própria integridade face à perda ou transformação dos objectos infantis.
Ao Pedro Luzes com amizade e profunda estima
Tentaremos abordar a experiência da perda e da separação ao longo do processo analítico e os seus efeitos, sob o ponto de vista da dinâmica da relação transferencial e contratransferencial, que podem funcionar como impulsionadores ou como limitadores das mudanças ou crescimento psíquico. Constatamos, ao longo do desenvolvimento do processo analítico – que se desenrola desde a primeira fase do início do tratamento à etapa intermédia até ao final do processo –, que a experiência da elaboração da perda e da separação de certas fantasias nucleares do paciente, que estão ligadas à sua vida pulsional e objectal, estão sempre presentes e em contínuo movimento. A elaboração psíquica dessas fantasias originais que se exprimem na estrutura psíquica, nos seus conflitos, nas suas defesas e nas suas relações de objectos internos e externos é crucial para um desenvolvimento mais apaziguador e um importante contributo para as modificações psíquicas.
Conferência realizada na Sociedade Portuguesa de Psicanálise em Novembro de 2010.
Psicanalista, Membro Titular e Didacta da Sociedade Portuguesa de Psicanálise e da International Psychoanalytical Association – IPA.
A questão que se coloca é de saber como, no processo analítico, nos podemos aproximar desses fantasmas nucleares que quando começam a ser elaborados são desencadeadores de conflitos ligados aos sentimentos de perda e de separação dos objectos internos que espalham no campo analítico afectos de desespero, de traição e de culpabilidade. Como contactar, sob o ponto de vista analítico, com as identificações a esses objectos abandonados, mortos, ignorados ou excessivamente presentes mas que impedem o paciente de se sentir livre? Quais os sinais psíquicos que nos indicam que estamos a aproximar-nos de uma zona de turbulência, de conflito e de ameaça, de perda ou de separação?
Muito se tem escrito sobre estas questões. Contudo, constatamos, através da experiência clínica, que a aproximação de um núcleo de conflitos de ameaça de perda ou a própria perda, ao longo do processo analítico, é acompanhada, geralmente, pela convocação inesperada de uma diversidade de ansiedades que devem merecer a atenção técnica do analista. Em momentos inesperados do processo analítico, essas diferentes ansiedades de separação e perda podem funcionar muitas vezes como um bastião que esconde, por detrás delas, outras qualidades de ansiedades como, por exemplo, as ansiedades depressivas, as catastróficas, as confusionais ou as paranóides. Qual a importância da dinâmica da ansiedade no contexto da narrativa do processo analítico? Freud lembra-nos em “Inibições, Sintomas e Ansiedade” (1926) que a ansiedade é a reacção natural a um perigo que se aproxima. Acrescenta ainda “que o motivo pelo qual o afecto da ansiedade ocupa uma posição sui generis na economia da mente tem algo a ver com a natureza essencial do perigo”, que, naturalmente, acompanha todo o ser humano na sua viagem ao longo da vida. Assim, o afecto da ansiedade funciona, quase sempre, como uma forma de expectativa ou de uma incerteza em relação à presença ou ausência das qualidades dos objectos sobre os quais recaem perplexidades, dúvidas e receios, ou porque estão ausentes, distantes, ou porque estão excessivamente presentes mas são pouco confiáveis e abandónicos. Como Freud (1926) sublinha na obra citada, “…a ansiedade por um lado é uma expectativa do trauma e por outro lado uma repetição dele em forma atenuada…”. A ausência do objecto ou todas as situações de desprazer desencadeiam desalento, desamparo e insatisfação. Assim, a ansiedade é um sinal indicativo de que estamos a aproximar-nos de uma área de conflito e mostra-nos como as diferentes defesas que o Eu
dispõe para evitar essa dor e inquietação, como o recalcamento, condensação, deslocamento, isolamento, formações reactivas, podem ser destronadas. A ansiedade, como refere Freud (1926), é a reacção original ao desamparo no trauma que se pode verificar no processo analítico e que se reproduz face a uma situação de perigo como indício de que estamos face a um apelo de ajuda e compreensão. Assim, a ansiedade mostra-nos por um lado que estamos a aproximar-nos de uma zona de conflito psíquico mas também, como acima mencionámos, um apelo de auxílio.
Alguns autores chamam a atenção para a importância do acolhimento da ansiedade como um indicativo ou momento privilegiado no desenvolvimento da técnica psicanalítica. Os analistas, ao longo da literatura, têm de uma forma ou de outra chamado a atenção para a importância do papel da ansiedade como um sinal ou reacção que nos indica que estamos a aproximar-nos de um núcleo de conflitos que se unem através de um denominador comum que é marcado pelo receio do sentimento da separação. Face a estas circunstâncias o self prepara-se, através da sua vida fantasmática, para um combate contra aos perigos que se aproximam e defende-se num desejo de sobrevivência em relação à ameaça do risco da perda dos objectos internos que são temidos mas amados.
Estas representações internas em relação aos objectos podem sofrer transformações assinaláveis consoante a intensidade dos afectos. A propósito desta questão, Klein (1929), inspirando-se na ópera de Ravel constituída por uma fantasia lírica em duas partes – L'enfant et les sortilèges (libreto escrito por Colette) –, faz uma leitura psicanalítica dessa obra e mostra-nos como na fantasia inconsciente os objectos maltratados podem de repente animar-se e transformarem-se em perseguidores que trazem com eles terror e uma intensa culpabilidade. Assim, a ansiedade face a esses perseguidores amplia-se através do medo ou do pavor e desta forma a realidade interna pode ser deformada. De acordo com este ponto de vista, os objectos internos que foram fonte de frustração podem desencadear um sadismo primário infantil que por sua vez vai alimentar e transformar as qualidades do conflito edipiano. Nesta fase do desenvolvimento edipiano a maior situação de perigo para a rapariga, é a elaboração da perda do objecto com todas as ansiedades, terror e sofrimento que daí resultam, enquanto que para o rapaz será a angústia de castração que nos indica que nos aproximamos de um perigo ameaçador. Assim, a ansiedade reforça a compulsão de repetição e, a culpa que daí resulta é seguida pela necessidade de ser punido. Desta forma, como descreve Grinberg (1992), a ansiedade persecutória é desencadeada por
uma projecção das próprias pulsões agressivas ou destrutivas nos objectos internos e externos enquanto que a ansiedade depressiva está muito ligada ao sentimento de culpabilidade e a uma tendência à reparação.
Freud (1926), na obra anteriormente citada, mostra-nos como “a dor é a reacção real à perda de objecto, enquanto a ansiedade é a reacção ao perigo que essa perda acarreta e por deslocamento ulterior uma reacção ao perigo da perda do próprio objecto”. Nesse sentido, ao longo da vida e no processo analítico, a reacção à perda é de uma qualidade bem diferente daquela que é o receio de perder. Perder ou ter receio de perder são afectos de qualidades distintas e trazem consigo uma constelação de fantasias, conflitos e defesas bem distintas das duas situações. Freud (1917) fala-nos do trabalho do luto que seria uma forma de elaboração de uma reacção a uma perda de alguém próximo ou perda de uma situação a que a pessoa estava ligada. Pensamos, embora não seja explícito nesta questão, que também se refere à perda de determinadas configurações psíquicas que se organizaram em redor de certas fantasias, conflitos e de diferentes qualidades de objectos que o processo analítico permitiu amplificar através da transferência, dando espaço à sua elaboração psíquica. A elaboração do luto destas configurações psíquicas, como refere Freud (1917), reveste-se de um “processo longo e doloroso, que acaba por se resolver por si só, quando o enlutado encontra objectos de substituição para o que foi perdido”. A própria elaboração do luto ao longo do processo analítico tem o seu tempo. Não é fácil fazer o luto daqueles objectos internos, que eram fonte de sofrimento mas que traziam a garantia de serem conhecidos e substituí-los por outros, que sendo mais apaziguadores, ainda não merecem a total confiança do paciente. Por isso o luto, no processo analítico, reveste-se de algumas dificuldades no sentido em que cada pessoa tem a medida da sua própria dor e dimensionará os recursos internos e externos para ultrapassá-la. No decurso do luto normal a libido retirada do objecto amado perdido é substituída por outro objecto, mas isso traz uma dinâmica ao processo analítico que faz com que também se possa estabelecer identificações de certos aspectos do self ao objecto abandonado. Como Freud assinalou, a sombra do objecto pode cair sobre o self construindo-se uma rede de conflitos. Neste sentido, o luto vai acontecendo progressivamente e necessita de tempo. Como Grinberg (1992) assinala, é preciso “uma energia psíquica considerável” para que cada
uma das recordações e esperanças que constituíam o ponto de ligação com o objecto sejam sobreinvestidas enquanto que simultaneamente se efectua uma retirada da libido. Como acabámos de assinalar, o conceito de luto, no processo analítico, pressupõe um procedimento que põe em jogo de uma forma inconsciente ou consciente, todas as funções do na sua relação com os objectos internos e externos. Assim, cada evolução do processo de luto resulta num profundo contacto com a relação da pessoa com os seus objectos internos no sentido da reparação e no desenvolvimento da confiança.
Contudo é de assinalar, dentro da perspectiva acima indicada, que o trabalho de reparação e do luto pode ser interrompido ou pode ser abalado, como assinala Klein (1929), na sequência do paciente sentir uma satisfação sádica em relação ao objecto tentando, desta forma, humilhá-lo e excluí-lo. Desta forma, estes objectos internos ou externos que não conseguiram ser restaurados, transformam-se em perseguidores e surgem as ansiedades paranóides. No processo analítico o maior constrangimento que pode surgir é quando o paciente volta contra ele próprio o ódio que ressentia em relação à pessoa amada ou morta criando, desta forma, uma relação masoquista onde a culpa inconsciente não permite a evolução psíquica. A culpabilidade, como assinala Grinberg (1992), pode, desta forma, ter duas qualidades diferentes: a depressiva que pode instalar-se e que permite a reparação dos objectos, e o luto patológico que transforma o seu mundo interno em perseguidores que empedem a reparação.
O processo analítico, como tentaremos demonstrar a seguir, indica-nos que toda a perda de um objecto se faz acompanhar por perdas de partes do self e a forma de percebermos como se desenrola o luto é estarmos atentos ao seu estado. Assim, ao longo do processo clínico, constatamos que a impossibilidade de fazer o luto de uma figura significativa da sua infância faz com que o paciente, por desespero, se identifique narcisicamente a esse objecto interno. Desta forma, a relação transferencial fica assombrada por esses objectos omnipresentes que se manifestam de várias formas. Com o avançar do processo analítico, a dificuldade da elaboração do luto em relação a essas figuras que ameaçam a dinâmica transferencial pode transformar-se num impasse terapêutico. Tentaremos, através da descrição de um caso de uma jovem mulher, mostrar como a separação e a perda de certos aspectos do self são vividos e como o processo de separação e luto pode dar lugar à recuperação e reparação dos seus objectos internos.
Recebi, há muitos anos atrás, uma jovem mulher, de uma vintena de anos, que me procurou por indicação de um colega e amigo. O primeiro contacto que tenho com ela vai ser marcado por um sentimento interno de paradoxalidade. Fiquei na altura, num primeiro momento, impressionada com a doce melodia da sua voz que senti como tranquilizadora mas que simultaneamente me parecia, para o meu gosto, excessivamente embaladora. Por outro lado, ficava incomodada com a entoação em falsetes esganiçados que me feriam os ouvidos e que surgiam em momentos em que a narrativa era evadida por material que trazia destruição e agressividade. Ao nível da minha contratransferência, fui sensível à paradoxalidade que tal situação desencadeava em mim nos primeiros contactos que tive com esta mulher. Na sua narrativa, nesta primeira fase, surgiam sinais de urgência envolvidos por uma intensa ansiedade persecutória que resultavam da confusão que fazia entre o material que emanava da sua vida libidinal e aquele que derivava dos aspectos destrutivos da sua mente. Ao longo das primeiras sessões, realizadas num face-a-face, senti, ao nível da minha contratransferência, que a minha mente funcionava como um ecrã onde ela projectava sentimentos de paralisação do pensamento e do afecto transformando, desta forma, a minha capacidade de rêverie num deserto de um vazio infindável. Ainda nesta primeira fase, a par do material anteriormente descrito, aparecem, através de material onírico, as inquietações e o terror que sentia face às multidões de demónios ou de monstros que invadiam o seu mundo interior desencadeando-lhe angústias de morte intensas que a impediam de dormir há longos anos.
Com o desenrolar do processo analítico, que se foi instalando e criando elos de relação, esta paciente pôde mostrar, através do material transferencial, como as suas ansiedades primitivas podiam trazer-lhe sentimentos de dissociação sentindo-se internamente dividida e com a impressão de falta de integridade e de coesão interna. Este sentimento de dissociação, como descreve Bion (1965), pressupõe a preexistência de um pensamento, de uma capacidade para se deprimir, para elaborar as fases normais do processo de separação do psiquismo, e funciona de uma forma clivada contra os vínculos ou ligações. Nessa primeira fase do processo analítico houve uma necessidade técnica de separar o material de origem libidinal daquele que era de origem destrutiva para não se confundirem e para facilitar posteriormente a construção de pontes de ligação entre estas duas qualidades da vida pulsional. Mas a construção destas
pontes de ligação revelou-se, nessa fase, tecnicamente quase impossível devido à intensidade dos mecanismos de defesa de clivagem. Assim, na sequência deste funcionamento clivado, descrevia os membros da sua família de uma forma imprecisa e um pouco confusa, provocando ao nível da nossa contratransferência, o sentimento de nunca saber de quem estava a falar, assim como a sensação de estranheza em relação às diferentes personagens. Na descrição que fazia dos membros da sua família e dos afectos que os ligavam, parecia haver uma indiferenciação entre eles o que nos levou a pensar que estávamos face a uma família com uma patologia narcísica grave. Representava internamente os pais como um casal que funcionava com ela numa “cumplicidade psíquica”, formando com eles uma espécie de muralha simbiótica que impedia toda a tentativa de comunicação do exterior.
Pouco a pouco, com o evoluir do processo analítico, começa a fazer o luto deste mito familiar. Assim, começa a ganhar espaço psíquico interno, que antes estava ocupado por esse mito, permitindo-lhe contactar com aspectos autênticos e verdadeiros da mente donde emerge uma família interna que é representada como triste, desunida e distante, face à qual tinha o sentimento de desamparo e incompreensão. Nesta fase permite-se partilhar, na relação psicanalítica, a representação interna que faz da mãe quando a descreve como uma mulher muito deprimida, com os olhos sempre cheios de lágrimas e olhar distante. A paciente tinha a impressão que era uma sombra ou era imperceptível para o olhar da mãe, que não a conseguia ver. O pai, por razões profissionais, estava frequentemente distante e era uma figura ausente ou esfumada no seu pensamento. A descrição da restante família é assombrada por uma fantasia que se caracterizava pelo sentimento de que os seus membros eram pessoas distantes.
A primeira fase do processo analítico, como anteriormente assinalámos, vai ser marcada por uma dolorosa elaboração da separação e perda do objecto materno que era representado internamente por uma relação de possessividade. A dinâmica da relação transferencial, nesta fase, torna-se problemática devido à intensidade da avidez oral e do sentimento de posse do objecto. Toda a comunicação consciente ou inconsciente como as interpretações, as fantasias, os silêncios, os não ditos, os pequenos ruídos, são transformados por ela, em benefício próprio, negando a diferenciação do outro com quem ela partilha. Assim, analista e paciente, nas suas fantasias internas, estão numa relação de igualdade formando um elo asfixiante que não tem lugar para um
terceiro. Naturalmente, estas fantasias de possessividade são acolhidas pelo inconsciente do analista e têm expressão representativa através da sua contratransferência. Desta forma, nessa fase do processo analítico, sentíamo-nos presas por tanta possessividade demonstrada ao longo das sessões, com consequências evidentes para o esvaecer da capacidade de rêverie e perda da vitalidade psíquica. Interrogamo-nos se este estado mental vivido na contratransferência não representaria uma projecção de experiências internas vividas pela paciente em relação ao objecto interno materno sentido como distante, em constante esvaziamento e abandono. A elaboração da contratranferência, as respectivas interpretações na transferência, pusera em evidência sentimentos de inquietação por parte da paciente, na sequência do reconhecimento da proximidade e da diferença entre o analista e os seus objectos internos. Começa a ter uma percepção mais clara das diferenças entre o seu mundo interno e o mundo externo. O reconhecimento de tais diferenças vai ser marcado por uma convocação intensa de angústias de perda e separação, indicando-nos que estamos a aproximar-nos de um núcleo de conflito e de perigo para a paciente. A partir dessa altura todo o contacto com separações, ausências ou diferenças de pensamento será vivido sob o signo da ameaça catastrófica da perda dos objectos que constituem o seu mundo interno. A diferenciação entre self e objecto desencadeava sentimentos de raiva, violência e ataque ao analista. A transferência negativa instalou-se e a analista configura-se, sob o ponto de vista fantasmático, numa mãe distante, de olhar vazio, que não entendia ou compreendia o seu sofrimento psíquico. Desta forma, a relação analítica vai ser evadida por fantasias de humilhação e de decepção em relação ao analista. Constrói, sob o ponto de vista fantasmático, a partir dos silêncios ou pensamentos que ela supunha que a analista tinha, um campo de relação onde as angústias paranóides se instalam. Tudo o que vinha do analista era sentido como um terceiro que sentia como uma ameaça persecutória. Os aspectos destrutivos do são colocados na relação de campo analítico. Na altura, assistimos a movimentos de aproximação e afastamento da relação analítica mas é de assinalar que os elos de relação marcados pelo ódio voltaram a trazer sentimentos de dissociação e de parcialidade do pensamento. O trabalho analítico foi particularmente difícil, sob o ponto de vista da compreensão e contenção da dinâmica da transferência e contratransferência, mas permitiu construir uma confiança significativa para que se assistisse à transformação da parcialidade para a coesão do seu mundo interno. Nesta fase
Na sequência da dinâmica edipiana, acima assinalada, trouxe material onírico que nos mostra com clareza as diferentes dimensões do seu mundo interno na relação transferencial. Descreve o espaço do sonho como se de um recinto desconhecido se tratasse, onde ela está acompanhada por uma mulher conhecida mas que não sabia quem era. No sonho, tem um sobressalto com a chegada inesperada de um homem que desconhece mas que lhe desencadeia uma angústia intensa que não consegue disfarçar. Tenta não ser notada e refugia-se num canto como se estivesse hipnotizada. Para que o homem não dê por ela, não se mexe e sente-se paralisada.
A experiência interna, vivida no cenário do sonho, mostra como a relação de um terceiro, que pode ter várias configurações, é experimentada com sentimentos de pânico e intensas defesas de negação em relação ao sentimento de exclusão. Esta experiência emocional de paralisação esconde um profundo sofrimento psíquico, em relação ao contacto com o diferente ou desconhecido. As associações em relação a este sonho são, ao contrário do que é habitual, muito parcas. Na relação do campo analítico os silêncios instalam-se mas, ao nível contratransferencial, vão-se criando elos de ligação descobertos a partir do encadeamento entre a experiência edipiana do paciente e a experiência interna do analista. Nesta fase da sessão surge um colorido depressivo onde se instala um longo silêncio. Após este silêncio recorda-se que lhe faltava uma segunda parte do sonho. Conta que estava com uma amiga de infância com quem fazia um jogo, num país estrangeiro onde se falava outra língua. O jogo consistia numa competição de mergulho no mar entre as duas para se confirmar quem seria a recompensada se fosse mais fundo. A paciente, ao contrário da sua amiga, mergulha mais fundo e é recompensada, enquanto a outra é punida através da transformação do corpo numa espécie de monstro que perde todos os dentes.
Como podemos constatar, a experiência emocional deste sonho funciona como um prolongamento do anterior. A experiência psíquica do desconhecido é sentido como estrangeiro e funciona como uma metáfora da negação, através do recalcamento, da genitalidade dos pais, onde se fala uma língua desconhecida. Esta paciente, reconhecendo a aproximação do terceiro, convoca, face ao perigo que tal situação desencadeia, angústias de terror que nos indicam que estamos a aproximar-nos de um
terreno minado onde aparecem sentimentos catastróficos em relação à aceitação do elo criativo que une os pais. O sofrimento psíquico desencadeado pelo reconhecimento da relação psíquica entre os pais e o sentimento de exclusão vão convocar sentimentos de perda e de separação que lhe são insuportáveis. Estas experiências que descrevemos, devido à intensidade da exclusão, vão ser negadas através de um movimento de recuo. Assim, como defesa, faz uma tentativa de fusão em relação ao objecto narcísico, simbolizado pelo mar, e, metaforicamente, recorre a um mergulho como se com ele se quisesse unir para sempre. Mas, como podemos constatar, a mulher que a acompanha, por não ir ao fundo da relação narcísica, é castigada e transformada num mostro a quem os dentes caem. Na fantasia inconsciente desta paciente só há uma única forma de amar que é a de qualidade narcísica pois as outras formas de se relacionar são perigosas e inacessíveis.
Ao longo desta fase do desenvolvimento analítico, a relação de campo entre analista e analisando, vai ser ensombrada por uma transferência negativa onde o espectro da ruptura ameaça a relação. Instala-se, nesta fase, a fantasia de que se fizesse análise com outro analista tudo seria diferente. Seria uma análise rápida, mais interessante e menos dolorosa. Esta introdução do terceiro permitiu, ao nível da relação transferencial e contratransferencial, elaborar o sentimento de exclusão. No espaço analítico convocam-se intensas projecções de forma a poder viver, na relação da transferência, o sentimento de abandono ou de exclusão. Ao longo das sessões, o analista é atacado, desvalorizado, e assim a paciente projecta no seu interior os sentimentos de exclusão e de abandono. A elaboração destes sentimentos, vividos pela dupla analítica, permite a criação de um espaço mais apaziguador e criativo onde se faz a passagem e a ponte entre os aspectos libidinais e os destrutivos da mente. A transferência negativa que se caracterizava, nesta altura pela humilhação, desprezo e arrogância em relação à capacidade do analista se envolver numa relação analítica, vai dar lugar a outra fase. Nessa fase, o surgimento do reconhecimento da bondade dos objectos internos que nasce da capacidade de reparação interna, é vivido com uma intensa angústia e recorre à ridicularização e à humilhação para evitar as mudanças que estavam em movimento. A persistência na elaboração das diferentes qualidades dos elos de ligação que estavam em curso no processo analítico trazem consigo um esboço de uma maior aceitação do sentimento de exclusão. Assiste-se a uma integração progressiva no campo psíquico da problemática edipiana com
movimentos de oscilação entre formas violentas e opressoras e formas mais integradas e pacíficas.
Todo este material, que emergiu ao longo dos três primeiros anos de uma análise, exemplifica como as transformações psíquicas são acompanhadas de experiências intensas de perda e separação que devem merecer toda a atenção do analista.
Neste trabalho tentámos, a partir do desenvolvimento do processo analítico, abordar as diferentes interrogações colocadas na elaboração psíquica de fantasias internas, que se exprimem de diferentes formas e cuja elaboração vai ser acompanhada de sentimentos de perda, de separação e de culpabilidade.
Tentámos também demonstrar como a elaboração psíquica das fantasias que se exprimem nos conflitos, defesas e nas qualidades dos objectos internos, convocam uma constelação de diferentes ansiedades que se organizam, como um bastião defensivo contra a mudança psíquica que, por vezes, pode configurar uma dolorosa ameaça psíquica e física contra a sua própria integridade.
Também a propósito da elaboração da perda e separação, falámos da complexidade da elaboração do luto que põe em causa de uma forma inconsciente e consciente todas as funções do self na sua relação com o mundo interno e externo.
Através do processo clínico mostramos como o ser humano, devido à inevitabilidade da separação e de individuação em relação aos outros, tem que viver e elaborar as angústias dissociativas e de castração que esse movimento desencadeia. O caso apresentado levantou importantes problemas técnicos no manejo da transferência e da contratransferência porque o psicanalista tem uma dupla função que é a de interpretar as pulsões inconscientes mas ele próprio torna-se, através da transferência, objecto dessas mesmas pulsões. Daqui resulta uma dinâmica psíquica complexa que tem uma dupla função: a de assistir como observador à encenação psíquica trazida pelo material no processo analítico mas, simultaneamente, também, o analista torna-se num actor, através da sua contratransferência, trazendo para o seu espaço interno experiências psíquicas da vida pulsional do seu paciente.
ABSTRACT: With this paper we aim to raise some questions about some mental evolutions of the different internal fantasies that are linked to the experience of loss and separation which occur throughout the analytical process, and can be expressed through conflicts, defenses and the different qualities of the internal objects. These fantasies gather some different anxieties that are organized as a defense mechanism against mental change, which might result in a painful mental threat against its own integrity when confronted with the loss or transformation of the childhood objects.
KEYWORDS: Loss experience; Separation experience; Analytical process.
esboçaram-se tentativas de reparação dos objectos que povoam o seu mundo interno e instalaram-se tonalidades depressivas que nascem da dinâmica edipiana.