A tradição multissecular de contar histórias, e mais especificamente, de contar histórias a crianças é atestada por um rico património dos chamados contos tradicionais ou de fadas. A riqueza humana e pedagógica desta prática tem sido objecto do estudo de muitos autores e merece ser estudada e valorizada. A prática de passar a escrito estes contos trouxe uma alteração importante à reacção da criança que passava a estar sozinha com as fantasias que o conteúdo da história nela evocava, sem a protecção da presença de um narrador adulto. A compreensão deste processo leva a uma comparação com a distinção estabelecida por Serge Lebovici entre a neurose da criança, a neurose infantil e a neurose de transferência.
A teoria psicanalítica, a cuja elaboração Freud se dedicou e que tem sido continuamente enriquecida pelo esforço de tantos notáveis continuadores, permite-nos uma compreensão original do “fenómeno humano”, e das várias manifestações e produções do psiquismo. Assim, as várias criações da cultura, nas suas formas contemporâneas e na sua evolução ao longo da história da humanidade, são objecto do interesse do psicanalista, que com o seu estudo se enriquece e enriquece o seu trabalho clínico. É com satisfação que contribuo com a publicação deste texto sem pretensões para a homenagem que a RPP presta a Pedro Luzes, homem de cultura sempre interessado em muitos ramos do saber, e psicanalista cuja acção marcou o nascimento e desenvolvimento da psicanálise em Portugal. Com reconhecimento pelo seu longo trabalho, que a tantos de nós mostrou o caminho.
Psicanalista. Membro Titular e Didacta da Sociedade Portuguesa de Psicanálise e da International Psychoanalytical Association. Presidente da Sociedade Portuguesa de Psicanálise.
Desde que começamos a existir, os contactos de vária ordem que estabelecemos vão ficando registados, constituindo um depósito de memória, que, em condições normais, é sujeito a um processo que Winnicott (1988) descreve como sendo de “elaboração imaginativa”. Este conduz a uma aprendizagem, que é também uma descoberta, em que podemos considerar duas vertentes – uma virada para o próprio sujeito, outra virada para a realidade externa que o envolve.
Aprendemos, assim, a conhecer-nos a nós próprios e ao ambiente que nos rodeia. É um processo que continua por toda a vida, a vários níveis de complexidade e de profundidade.
Mas todas as coisas que aprendemos, só nos são verdadeiramente úteis quando, além de as sabermos, as conseguimos também sentir. Essas passam a fazer parte de nós e contribuem para que sejamos aquilo que somos, isto é, contribuem para a nossa construção pessoal. Só elas constituem uma “experiência” no sentido pleno do termo. Uma experiência humana e humanizante no sentido de que enriquecem aquilo que somos como seres humanos. As outras coisas que aprendemos, mas ficam distantes do que sentimos, representam um conhecimento, mas nunca se tornarão uma sabedoria.
Aprender com a experiência é um elemento decisivo para o crescimento do indivíduo e para o seu enriquecimento. Modifica a maneira como cada um se sente e sente o mundo à sua volta, num sentido mais rico e adaptado. Dá melhor qualidade às relações pessoais e à intervenção na realidade.
A experiência vivida e pensada faz a originalidade da pessoa. É indispensável para que não se percam os frutos do tempo vivido, mas sejam assimilados pelo indivíduo, e assim o desenrolar da vida possa constituir um processo significativo e coerente. Um processo vivido como história, que se pode contar e com a qual se pode aprender. Será essa a nossa história.
Este processo de crescimento, ninguém o pode viver sozinho. A experiência individual vai-se tecendo com a experiência de outros mais velhos, que já vivem a própria experiência como história pessoal, que gostam de a recordar e de a contar. Olhando para a criança pequena ocupada em descobrir o mundo e absorvida pela novidade permanente em que mergulha, o adulto identifica-se também com o que nela encontra de si próprio e enternece-se, ao reviver um percurso ao qual ficaram para sempre ligados os afectos fundamentais e mais estruturantes da vida de uma pessoa.
Um conhecimento registado sem ter sido integrado nesta dinâmica global da pessoa tende a ficar subaproveitado ou a ser esquecido. Não adquire qualquer significado existencial e, provavelmente, não será usado nas situações em que seria pertinente. Não é útil, portanto.
Tenho vindo a acentuar a importância de poder sentir o que se aprende. Mas é importante dizer que nem todas as maneiras de sentir são positivas. Há experiências difíceis de suportar, que marcam negativamente a pessoa. São as experiências que realizam o contacto com os aspectos negativos da vida, sem veicularem, ao mesmo tempo, os apoios e as capacidades de ultrapassar os seus efeitos malignos.
Há pessoas que transformam as experiências negativas em sabedoria de vida, e outras há que ficam destruídas por elas. Isso só mostra a força dessas mesmas experiências, e não pode deixar de ser tido em consideração.
Qualquer bom educador conhece a importância de, para além de transmitir conhecimentos, proporcionar à criança experiências adequadas ao seu nível de desenvolvimento. E não estou só a pensar em educadores profissionais, mas em todos aqueles a quem a vida confia a missão de educar uma criança. Há pessoas sem formação específica, mas com admiráveis capacidades para isso. Pessoas com uma experiência rica, que sabem comunicar-se.
A este propósito, pode afirmar-se que a forma de educar as crianças constitui um dos elementos da cultura de um povo e da sua transmissão. Trata-se de uma sabedoria pedagógica implícita, que depende de um conjunto de convicções sobre alguns pontos fundamentais. As convicções daquele grupo humano sobre o que é e deve ser o adulto, quanto ao que é uma criança, quanto ao modo como se desenrolam os processos do desenvolvimento humano e, finalmente, quanto ao tipo de sociedade que se pretende construir.
Tudo isto condiciona decisivamente as atitudes profundas dos adultos em relação às crianças, e, portanto, a forma como com elas se relacionam.
Para transmitir todo este vasto património cultural, desde sempre os povos utilizaram narrativas, que vão desde os mitos cosmogónicos até às mais simples histórias acerca do quotidiano. Mais tarde, os historiadores teorizaram este movimento, dando ao estudo da história a finalidade de apresentar a experiência dos antepassados como lição e exemplo com que os contemporâneos deveriam aprender, para se enraizarem nas virtudes tradicionais do seu povo, evitarem os erros cometidos no passado e perpetuarem o ideal da raça ou da nação.
O estudo das tradições e a fidelidade a elas parecem-me ter o mesmo objectivo pedagógico, ou seja, garantir a conformidade com aquilo que retrospectivamente se idealizou como sendo as boas experiências do passado e assim promover, perante a vida e os seus problemas, as atitudes consideradas mais adequadas.
Também a construção de uma narrativa para transmitir o conhecimento do passado comum tem, como um dos seus efeitos, promover um sentir partilhado a respeito da vivência em grupo, que sustenta uma certa forma de identidade colectiva.
A narrativa é uma forma eficaz e prática de proporcionar experiências emocionais e de transmitir conhecimentos, ligando-os aos afectos. Através de uma narrativa, identificando-nos com os sentimentos do herói ou da figura central, como que participamos na experiência dos outros, alargando e enriquecendo a nossa própria experiência.
Contar histórias às crianças não é, pois, um acto banal e sem importância. É uma experiência milenar que merece a nossa melhor atenção. Nas reflexões que vou apresentar, tentarei explicar por que é que isso é assim.
A evolução e maturação do psiquismo resultam da interacção e articulação da experiência da realidade externa com um mundo fantasmático, que cada vez se vai tornando mais complexo, à medida que progride a evolução psicológica da criança.
Não podemos, porém, esquecer que, de início, o fantasma, ou seja, esta actividade da fantasia, surge como resposta a uma necessidade pulsional, na ausência de satisfação específica, vinda do mundo externo. O fantasma representa o conteúdo das necessidades ou sentimentos que dominam o psiquismo num dado momento. Os primeiros fantasmas surgem, assim, das pulsões corpóreas e estão profundamente interligados com estas e com os afectos. Todas as pulsões, todos os sentimentos, todos os modos de defesa são vividos sob a forma de fantasmas. É uma tentativa de satisfação através da fantasia.
Podemos dizer que esta actividade compensatória da vida mental permite suportar as esperas inevitáveis e tolerar sem desorganização as frustrações e desadequações, que os condicionalismos próprios da realidade externa não deixam de fazer sentir. De início, trata-se de situações bastante elementares. Mas à medida que a vida mental se vai tornando mais complexa, a actividade da fantasia é solicitada como protecção ou defesa contra situações de tensão ou de ansiedade, que se tornam muito variadas. Trata-se da organização de meios mentais que permitam
enfrentar e suportar as dificuldades próprias do viver humano, que de outro modo comportariam um grau excessivo de sofrimento.
Há uma parte desta actividade da fantasia, ou seja, desta actividade mental, que com o progredir do desenvolvimento acaba por ficar mais longe do contacto com o mundo externo e mais ligada aos movimentos do desejo, segundo uma lógica própria do princípio do prazer. É aquilo a que se chama em teoria a “actividade fantasmática”.
Outra parte da vida mental, a que chamamos habitualmente “pensamento”, desenvolve-se em contacto com a realidade externa, procurando conhecê-la, para conseguir uma adaptação eficaz às condições do ambiente, quer humano quer material.
Estas duas actividades mentais, que funcionam numa constante influência recíproca, permitem ambas suportar as tensões que surgem, sem uma descarga motora imediata. Quer dizer, é através desta actividade mental – da actividade fantasmática e do pensamento – que se torna possível suportar as tensões inerentes à não satisfação imediata do desejo e promover sobre a realidade externa as acções adequadas e necessárias para realizar as condições que proporcionam essa satisfação. Um agir “pensado”, em vez de um agir “impulsivo”.
Olhando as coisas de um ponto de vista evolutivo, podemos dizer que, ressalvadas as devidas proporções, o fantasma desempenha, nos primeiros tempos de vida, algumas das funções que, mais tarde, vêm a caber ao pensamento propriamente dito. Segundo esta maneira de ver, o pensamento deriva do fantasma e assenta sobre ele.
A boa organização do pensamento depende, em parte, da capacidade da criança pequena de suportar a frustração e das possibilidades oferecidas pelo ambiente, de manter essa frustração dentro de limites suportáveis.
Este “confronto” da fantasia, ou do fantasma inconsciente, com a realidade externa e com as suas “resistências”, é inevitavelmente causa de uma certa dose de desilusão ou mesmo de sofrimento. Quase nunca a realidade corresponde plenamente às nossas expectativas. Que acontecerá então?
A qualidade do resultado deste confronto depende muito da capacidade que a criança tiver para tolerar essa frustração e, ao mesmo tempo, dos meios proporcionados pelo ambiente para a manter dentro dos limites suportáveis.
Se tudo correr bem, ela irá percebendo, a pouco e pouco, que é mais satisfatório abandonar o sentimento de omnipotência, que procurava na
fantasia, a troco da eficácia e da solidez da satisfação, que o bom contacto com a realidade proporciona. Mas, nos bons casos, realidade e fantasia ficam para sempre ligadas de uma forma maleável, que permite um comportamento adequado ao ambiente físico e social, sem que se perca a originalidade própria de cada pessoa. E quanto mais rica é a experiência da pessoa, quanto mais maleável é esta relação única que estabelece entre aquilo que é a realidade como todos a vêem e a realidade do seu mundo interno, tanto mais rica e criativa será a sua participação na vida comum.
É neste espaço que o “faz de conta” proporciona um compromisso que é satisfatório, sem fazer perder o sentido da realidade, porque coloca cada coisa no seu lugar próprio. Um dos grandes prazeres das histórias vem de que, com elas, se encontra uma maneira de permear a realidade com os movimentos da fantasia. É isso que a criança faz quando brinca.
Neste caso, que podemos considerar favorável, ou seja, o da criança capaz de brincar, a diferença existente entre a expectativa fantasmática e a realidade da percepção é dinamizadora de uma boa actividade do pensamento. Será esta que vai tornar possível a intervenção eficiente sobre a realidade, mas, por assim dizer, “fecundada” pela actividade criadora da fantasia.
Deste modo, a acção, qualquer que ela seja, não se reduzirá à mera descarga motora para aliviar tensões, mas será uma forma “inteligente” e adequada de relacionar o mundo interno com o mundo externo. Por outras palavras, será uma acção que foi antes trabalhada pela fantasia, confrontada com a dinâmica do desejo, antecipada e programada mediante a acção do pensamento.
Podemos dizer que as produções culturais de boa qualidade estão na linha evolutiva desta função adaptativa e criadora da fantasia. Constituem um conjunto partilhável de referências simbólicas, que, conseguindo representar, compreender e comunicar os afectos, forma como que um envolvimento emocional que nos protege da excessiva dureza do mundo externo. E um dos aspectos intoleráveis do mundo externo poderá ser o vazio de significados emocionais. Por isso, não pode existir verdadeiro bem-estar se não é possível “humanizar” o mundo que nos rodeia, pondo-o em contacto com o mundo que está dentro de nós, quer dizer, atribuindo-lhe um “significado” humano, um “sentido” que tenha a ver com aquilo que os homens sentem.
Creio que se pode dizer sem exagero que, para vivermos bem, precisamos de um “ecossistema de afectos”, que é necessário para a nossa sobrevivência como seres psíquicos.
As crianças gostam de brincar umas com outras porque encontram um mesmo modo de funcionar e de tratar o que vão sentindo e pensando. Falam a mesma linguagem e reagem da mesma maneira. Mas há adultos que conseguem brincar com as crianças de uma forma que elas aceitam com grande prazer, porque sabem acompanhar os movimentos simbólicos com que se exprimem os seus conteúdos interiores e o uso que fazem dos objectos que utilizam. Compreendem a sua linguagem, e sem perderem a riqueza da sua experiência de adultos, sabem aproveitar o que lhes ficou das suas memórias de infância para contactar com a infância dos outros.
No famoso rapport “L'Expérience du psychanalyste chez l'enfant et chez l'adulte, devant le modèle de la névrose infantile et de la névrose de transfert”, apresentado ao Congresso dos Psicanalistas de Língua Francesa, em Junho de 1979 (Paris: Presses Universitaires de France, ) Serge Lebovici elaborou a distinção, que de certa forma se tornou clássica, entre a “neurose da criança”, “a neurose infantil” e a “neurose de transferência”.
O autor verifica que os estudos longitudinais permitem concluir que não há continuidade entre as “organizações patológicas agrupadas sob a designação de neuroses mais ou menos francas do adulto e as da criança” (, p. 6). (1)
Segundo ele deverá distinguir-se conceptualmente a neurose sintomática da criança, com as suas variadas manifestações, da neurose infantil que poderá ser reconstituída a partir da interpretação da neurose de transferência (, p. 7).
Lebovici entende que “neurose de transferência e neurose infantil são dois modelos ligados que são da ordem dos conceitos metapsicológicos” (, p. 7).
“A neurose de transferência é o modelo que dá sentido às transferências e às manifestações neuróticas da transferência. Enraíza na neurose infantil, que pode ser reconstituída a partir dela, mas é claramente diferente das manifestações neuróticas que surgem durante a infância”. “Por esse motivo, a neurose de transferência é um dos efeitos do ”après coup“ que organiza as consequências da neurose infantil e lhe dá um valor preditivo” (, p. 9).
Um pouco mais adiante explica de outro modo: “A neurose da criança é uma realidade clínica, que se exprime sob aspectos muito variados (…)
e que se deve distinguir da neurose infantil, conceito de desenvolvimento, modelo da neurose do adulto“ (, p. 26).
No seu artigo Réflexions sur l'oeuvre de Serge Lebovici, Bernard Golse (La Psychiatrie de l'enfant, Vol. XLIV, 1/2001), assinala como linhas de força do trabalho deste autor, entre outras que aqui nos interessam menos,
“uma tentativa permanente de articulação do conceito de desenvolvimento com a noção de estrutura”, o que, segundo uma expressão de Widlocher, corresponderia à tentativa de “mostrar a diferença entre uma temporalidade do desenvolvimento e uma temporalidade da elaboração psíquica, onde se constrói a lembrança” (, Rapport ao XL Congresso dos Psicanalistas de Língua Francesa)
e “uma análise das relações entre a psicanálise do adulto e a psicanálise da criança”, numa atenção à dupla dimensão da noção de après-coup, segundo a qual “o passado influencia o presente, mas em que o presente, rectroactivamente, dá um sentido ao passado” (Golse, 2001, pp. 8-9).
Estas ideias são importantes para estabelecer a ligação do que irei dizer a seguir com alguns dos aspectos importantes da obra de Serge Lebovici.
O adulto que conta à criança, e os contos infantis em geral, podem ver-se como duas articulações complexas. A primeira é a articulação da experiência do adulto com o que este recorda e compreendeu da sua infância. A segunda é a articulação do que ele compreende, ou julga compreender da criança, com o que o leva a investir naquele contacto uma quantidade importante de afecto, motivado pelo seu desejo de proporcionar a um indivíduo em processo de desenvolvimento os meios mentais que o ajudem a fazer uma evolução de boa qualidade. Desta forma, adulto e criança partilham um prazer que estrutura uma forma de relação, que tem efeitos maturativos e organizadores.
Peço licença para fazer uma citação do mesmo artigo de Golse, um pouco longa, mas muito oportuna para o que quero dizer. Refere-se directamente ao bebé, mas o sentido pode perfeitamente alargar-se ao caso de crianças mais velhas. Diz ele: “Para se construir, o bebé tem necessidade de uma história e de uma história que não seja apenas uma história genética, mas também uma história relacional. Os pais, tal como os profissionais, têm que o ajudar a inscrever-se, ou a reinscrever-se em toda a história da família, mesmo do seu grupo social e mesmo da sua
cultura, o que é o reconhecimento do efeito de encontro, que faz com que o destino não seja apenas um simples desenvolvimento”.
“À diferença da amiba, o ser humano não está prisioneiro do seu genoma, e de resto, é toda a questão da liberdade que se joga neste espaço entre genoma e narratividade, a qual dá acesso a uma história dos desejos e das relações, que talvez seja diferente da história verdadeira, mas que é uma história ”rectrodita“, e, por isso mesmo, constituída e constituinte” (Golse, 2001, p. 11).
Creio que isto se integra perfeitamente na linha de pensamento que comecei por desenvolver.
Aquilo a que vulgarmente se chama a educação das crianças é fundamentalmente, e como já disse, a sua integração numa cultura. Isto, na prática, significa comunicar um sistema simbólico e ensinar o uso que dele se faz nas posições que se assumem e nas relações que se estabelecem, ou dito de outro modo, comunicar meios de organização pessoal, de comunicação com o ambiente humano e um sistema defensivo de boa qualidade.
A propósito de dois pontos de vista possíveis, que reconhecera na obra de Lebovici, Golse lembra que “o conceito de desenvolvimento nos leva mais para o lado do endógeno, enquanto que o conceito de destino nos remete principalmente para o efeito de encontro, e em especial de encontro com um outro portador de uma história, o que mostra bem até que ponto o crescimento e a maturação psíquicas da criança se jogam no ponto preciso de cruzamento entre o endógeno e o exógeno” (Golse, 2001, p. 12).
Este outro portador de uma história põe espontaneamente ao serviço da criança a sua experiência infantil já elaborada pela sua vivência adulta.
Imagino não estar muito longe do que pensava Lebovici se disser que o adulto em contacto com a criança se refere implicitamente ao modelo da neurose infantil, que sustenta a concepção que ele tem de como funciona uma criança, de quais as dificuldades que ela encontra e do que se lhe deva dizer para promover o seu bom desenvolvimento.
Suponho que depois de tudo o que tenho dito se tornará claro, mesmo para as pessoas não familiarizadas com este tipo de assunto, que o estudo do psiquismo humano consiste fundamentalmente no estudo das relações que vão possibilitando e condicionando a evolução da criança desde o início e a organização da sua personalidade.
Essas relações são diferentes conforme a fase evolutiva em que acontecem e também conforme a função específica que desempenham, isto é, dependendo da modalidade de resposta que proporcionam às necessidades físicas e psíquicas de um determinado momento, do tipo de satisfações que oferecem ou das frustrações que provocam, e da forma como estas se inserem na complexa organização fantasmática, activa na circunstância concreta.
Assim, na teoria, costuma usar-se, por exemplo, o termo “relação oral”, e fala-se de oralidade, para designar o tipo específico de relações que se organizam a partir da função alimentar e das satisfações (ou frustrações) por ela induzidas, e às quais se aplicam predominantemente os modelos fantasmáticos típicos dessa fase, ou seja, as fantasias orais.
De modo semelhante se usam os termos “relação anal”, “fálica”, “edipiana”, etc.
De uma forma menos especializada, usam-se também termos como “relação educativa” para designar finalidades, características e modalidades de uma determinada relação, que por isso mesmo, adquire uma certa especificidade, bem distinta de outras relações possíveis. Essa relação é vivida inserida num conjunto de fantasias, conscientes e inconscientes, relacionadas com a situação externa e com a história individual. É fácil ver que uma relação educativa, considerada em geral, é bem diferente de uma relação de camaradagem, também geralmente considerada. Ambas terão necessariamente concretizações próprias, segundo as suas várias componentes circunstanciais.
Dentro da mesma ordem de ideias, penso que será legítimo propor a designação de “Relação Narrativa”, para referir todo o vasto mundo de fenómenos psicológicos que se produzem entre quem conta uma história e quem a ouve e lê, em especial se se trata de uma criança. Esses fenómenos parecem-me ser suficientemente característicos e identificáveis para permitir considerar e definir um tipo especial de relação.
A relação narrativa é a que resulta de uma história partilhada, mas não de uma qualquer maneira. É uma história comunicada por alguém que se supõe ter alguma coisa de interessante para dizer, uma sabedoria a comunicar. Alguém mais experiente, que sabe despertar o desejo do ouvinte através da magia do “era uma vez”.
As histórias começam cedo, mas referem-se sempre ao passado. “Era uma vez…” Era uma vez é uma espécie de formula mágica, com o enorme poder de captar o interesse dos ouvintes. Liga a experiência
dos outros com a nossa, o passado com o presente, que enche de prazer com a promessa que faz de preencher esse espaço com uma narrativa.
Trata-se de uma vivência complexa, onde os desejos se dizem e parecem realizar-se. Onde é permitido esquecer por algum tempo as dimensões exactas da vida exterior. O espaço e o tempo são outros. É o reino interior da fantasia. Por isso mesmo, nem tudo são rosas, porque esse mundo não é feito só de prazeres. Não é raro notarem-se nas crianças ou adultos que escutam, manifestações de ansiedade, medo ou mesmo agressividade.
Este narrador, quer esteja fisicamente presente ou só através do livro, assume implicitamente para o ouvinte um estatuto de certa superioridade e a atitude de benevolência e afecto de quem não julga nem reprime. A verdadeira atitude do narrador não se improvisa nem se finge. Supõe uma riqueza interior que se comunica com autenticidade e com generosidade.
Correlativamente, o ouvinte-leitor está, em princípio, numa atitude de recepção confiante e acrítica, que parte do reconhecimento espontâneo da boa qualidade do mundo interno do narrador-autor. É assim um acto de intimidade especial entre duas pessoas que assumem espontaneamente, uma perante a outra, posições diferentes e bem definidas. É pois muito diferente do que poderíamos chamar uma “relação de bisbilhotice”, que também se organiza em torno de perguntas que se fazem e de histórias que se contam e se querem ouvir. Mas esta “relação de bisbilhotice” é um subproduto, que me parece resultar da fixação a uma posição “voyeurista”, privilegiando, portanto a realidade externa actual, por empobrecimento da realidade interna.
Irei falar desta “relação narrativa” e do que eu penso serem os seus aspectos principais. Naturalmente o termo poderá não agradar a todos, mas estou convencido de ele designa de forma suficientemente clara um conjunto de fenómenos importantes, que outra designação não permitiria relacionar entre si da mesma forma. Julgo, além disso, que esta maneira de os agrupar é esclarecedora em relação à sua dinâmica própria.
Porque a história, a história psíquica de cada um, começa sempre com alguém, como já disse ao princípio. Com alguém que teve também a sua história pessoal, na qual entrou em determinada altura uma criança. Não é, pois, de estranhar que em grande parte, a história pessoal dependa da forma como foi possível identificar e reconhecer esse alguém, e das características da relação que se estabeleceu.
Como exemplo simples vou servir-me de uma história que já referi noutra circunstância, mas que pela sua beleza e pertinência merece ser de novo contada.
Ana Maria Machado é uma professora universitária brasileira, colaboradora habitual da imprensa periódica. Em determinada altura, um jornal pediu-lhe que escrevesse regularmente histórias para crianças. Ouvi-a contar, numa conferência feita em Lisboa, a história que a seguir apresento.
Ao receber esse convite Ana Maria ficou muito hesitante. Nunca tinha escrito para crianças. Mas a ideia começou a tentá-la e naturalmente que nesse movimento afectivo estavam presentes as suas recordações infantis.
Começou a pensar que seria uma boa solução escrever as histórias do Miguelzinho, que a avó materna lhe contava em pequena e de que guardava uma recordação cheia de encanto. Sentia que o Miguelzinho estava vivo dentro de si e que era dele que lhe apetecia falar.
Procurando na memória, começou a ficar desconcertada, porque o herói estava lá, mas a história, por mais que procurasse, não a conseguia encontrar. Havia o Miguelzinho, mas as histórias das suas aventuras tinham desaparecido. Como era possível?
Perguntou à mãe. Certamente também ela teria ouvido aquelas narrativas que agora lhe fugiam. Mas a mãe, do Miguelzinho nunca ouvira falar. Era mistério que só a avó saberia resolver.
Foi preciso esperar as férias, para ir visitar a avó, na longínqua fazenda onde sempre vivia. E a resposta veio sob a forma de uma história.
Uma história da própria Ana Maria, que uma vez em pequenina fora para a fazenda da avó, convalescer de uma longa doença. Sozinha, sem os irmãos com quem habitualmente lá estava nas férias, tinha ela muito mais liberdade e a avó tinha muito mais tempo para lhe dar atenção. A menina vivia durante o dia fascinantes aventuras.
Um dia subiu a uma árvore e não foi capaz de descer. Outro dia descobriu o ninho de uma galinha que escondida chocava os seus ovos, num local que ninguém conhecia. Outro dia tinha ficado muito assustada com qualquer coisa. Á noite, para a acalmar e dar um destino agradável àquelas experiências emocionais, a avó ia-lhe contando todos aqueles factos como tendo sido vividos por um menino inventado, a quem tinha resolvido chamar Miguelzinho.
O que poderia ter sido a intensidade, por vezes excessiva, de todas aquelas vivências, ou mesmo o sentimento de medo ou de culpa ligados a algumas delas, atenuava-se com o facto de serem apresentadas como
vividas por outro e, sobretudo, por serem contadas, naquele tom benevolente e sonolento, pela avó, que na fazenda representava a autoridade suprema. Se ela contava aquelas aventuras todas sem se mostrar incomodada, tudo passava a poder ser visto a uma luz diferente.
O Miguelzinho tinha ficado para sempre ligado às suas recordações de infância, mas não a umas recordações de infância quaisquer. Tinha ficado ligado à experiência de uma criança que ouve um adulto apresentar “como história” experiências que ela sente que lhe dizem directamente respeito, e ao prazer proporcionado pela elaboração mental positiva e integrativa que esta forma de relação representa.
O talento e a poesia daquela avó contadora de histórias, servia-se das experiências banais do quotidiano para as transformar em material narrativo. Deste modo, Ana Maria revivia os factos da sua experiência directa, mas já transformados pelo olhar e pelo sentir de uma outra pessoa. Era fascinante porque se tratava de um processo de elaboração psíquica da sua própria experiência, mas feito em comum, ajudada pela experiência e pelo afecto de outra pessoa mais velha. Era inesquecível, uma dádiva de afecto, mas não tinha história, porque era a história da sua própria experiência, que dia a dia o Miguelzinho ia assumindo.
Não era, pois, o desconhecido do argumento que fazia prender a atenção da criança, como nós, adultos, seriamos tentados a pensar que deveria ser. O que a fascinava era a nova maneira de experimentar a emoção e a integração afectiva da experiência vivida que isso proporcionava. Assim, o Miguelzinho, na sua experiência interior, estava vivo, era uma personagem que se impunha. Mas a história não tinha autonomia suficiente para aparecer individualizada. Era o quotidiano da Ana Maria visto pela avó. Era a sua própria personagem.
Chegados aqui, somos remetidos para a condição adulta do narrador, que para transmitir à criança a sabedoria e a intuição das coisas que a vida lhe deu, procura e usa a forma de uma história. Mas nesse desejo de transmissão de conhecimento e de experiência deve incluir-se, também, a visão que o adulto tem das dificuldades que a criança enfrenta e de qual é a sua situação nesse momento. Mesmo que não tenha consciência clara, a forma como se coloca naquele momento perante a criança depende de tudo isso. Quero dizer com isto que entendo que só pode ser um bom narrador quem tem um bom contacto com o mundo infantil.
Nem todas as pessoas têm o gosto nem a intuição necessária para usarem esta forma de contactar com as crianças e de as ajudarem a crescer. Mas desde há milénios que esta forma narrativa de transmissão de conteúdos
e atitudes é usada regularmente por indivíduos que, habitualmente, eram reconhecidos nas comunidades humanas em que viviam pelo talento que punham no desempenho desta sua função de narradores. A estas pessoas eram pedidas histórias, não como simples passatempo, mas quase como que exigindo o desempenho de uma função social importante.
A estas histórias era atribuído um valor colectivo que as tornava depositárias, no seu conjunto, de uma espécie de património comum de sabedoria, reconhecido como tal.
Muitos contadores de histórias, como é sabido, iam de terra em terra, oferecendo os seus serviços e desempenhando a sua função.
As crianças faziam geralmente parte do grupo que escutava, sem grandes distinções. Mas existe em várias culturas – e talvez se pudesse dizer que em todas – um conjunto importante de contos tradicionais que mostra que elas eram suficientemente identificadas como um público especial, com necessidades próprias a que valia a pena atender.
Creio que se poderá dizer, sem forçar indevidamente os termos, que isso estava relacionado com o que poderíamos considerar como uma percepção cultural da neurose infantil, que é também, sem dúvida, culturalmente determinada. E corresponde também à convicção de que entre o narrador e os seus ouvintes se estabelece uma certa forma de relação que lhes é favorável para uma evolução positiva das dificuldades próprias da situação em que se encontram.
Deste ponto de vista não tenho dificuldade em dizer que os contos usam elementos difundidos na cultura para representar a neurose infantil e lhe propõem um caminho fantasmático que proporciona uma evolução positiva.
Porque os contos apresentam um problema, mas não o deixam sem uma solução prática, que é apresentada ao nível da criança e lhe é útil para ultrapassar a ansiedade e a depressão.
O estudo do conjunto dos contos tradicionais conhecidos na nossa cultura permite afirmar que se podem encontrar contos para responder a todos os principais problemas ou questões com que uma criança normal terá que defrontar-se no decorrer das várias etapas da sua evolução. Poderia fazer-se um catálogo dos contos tradicionais infantis correspondendo às várias etapas do desenvolvimento da criança. Seria interessante, mas não teremos hoje tempo para isso.
Entre o narrador e o seu ou os seus pequenos ouvintes estabelece-se, através da história contada, uma relação particular, que tem uma função que, em rigor, não pode classificar-se de interpretativa, mas que me
parece ser claramente “elaborativa”. Com efeito, através de repetidas narrações, pela mesma pessoa aos mesmos ouvintes, tantas vezes da mesma história, proporciona-se a ultrapassagem de dificuldades evolutivas e a integração de novas aquisições.
O conteúdo da história e a presença do narrador formam um conjunto dinâmico que é importante ter em conta para compreendermos o que se passa. Sem que se possa falar, em temos técnicos rigorosos, de uma verdadeira transferência, o que me parece acontecer é que a criança “transfere” os seus medos, angústias, sentimentos de culpa, etc., para o herói da história, com o qual se identifica, podendo viver esses conteúdos mentais com particular intensidade, mas em segurança, porque está protegida pela presença do narrador.
Este, sendo pessoa investida de afecto pela criança, e revestida da autoridade que lhe dá a sua condição de adulto, ao narrar a história, assume aqueles conteúdos dentro da dinâmica da relação, colocando-os numa área a que, em linguagem winnicottiana, poderíamos chamar transitiva, e onde podem ser trabalhados pela fantasia com maior liberdade e distância.
Tenho observado reacções de crianças que me levam a pensar que esta dinâmica se torna especialmente significativa quando o narrador é a mãe ou o pai.
Um jovem pai queixou-se-me um dia de que tinha, todas as noites, de contar à filha pequena a história do Capuchinho Vermelho, antes de adormecer. E isto acontecia mesmo quando, antes de ele chegar, a mãe já lhe tinha contado a mesma história. E queria perceber por que é que a mesma história, se contada pela mãe, não produzia o mesmo efeito tranquilizante.
Respondi-lhe que o problema estava na relação da filha com o lobo, tal como ela a imaginava na sua fantasia, como representação da relação que tinha com ele, pai. Olhou-me, compreendendo subitamente. E exclamou divertido: “Ah! Então é por isso que ela, sempre na mesma altura da história, me pergunta – o pai não come a Lena, pois não?”
Quer dizer, todas as noites, para poder adormecer, tinha de ouvir da boca do pai a resposta tranquilizadora.
O narrador não fala da criança presente, mas toma a iniciativa de lhe propor um material associativo onde ela reconhecerá sem dificuldade aquilo que sente e que de alguma maneira a preocupa, assusta ou culpabiliza. Revive esses sentimentos difíceis, mas sem deixar de ouvir a voz familiar e amiga do narrador, que avança tranquilo na sua narrativa,
sem censuras nem ameaças, mostrando até o prazer que tem naquele momento vivido em comum.
É por esta razão que me parece justificado reconhecer uma relação com uma dinâmica própria, para a qual propus a designação de “relação narrativa”.
As primeiras histórias da vida de uma criança, muitas vezes não são contadas. Ficam como um pressuposto, uma espécie de terreno preparado, onde as outras irão germinar. “Acontecem” antes do seu nascimento. São as que a mãe imaginou e sonhou, a sua história de menina, que culminou na possibilidade real e no desejo autêntico de ser mulher e mãe. São histórias que ela imagina junto do seu bebé, quando o embala, quando o afaga, quando deslumbrada o contempla, quando o alimenta, quando lhe canta. Histórias suas, passadas, que se confundem com projectos de futuro.
E não são raras as vezes em que lhas conta mesmo em palavras, desde os primeiros tempos de vida, sem se perguntar se ele compreende ou não. Naturalmente, isto que aqui se diz da mãe pode aplicar-se igualmente ao pai.
Nem todas as mães são contadoras de histórias. Mas há adultos que, levados por um gosto especial, espontaneamente assumem junto de uma ou de algumas crianças o papel de narradores. E as crianças, depois, procuram essas pessoas para lhes pedirem histórias, no reconhecimento de qualquer coisa que só com elas se passa e que querem ver repetida.
Isto nada tem de estranho. Como tenho vindo a acentuar já desde há muitos anos narrar, contar é um acto especificamente humano. Organizar interiormente uma história contável, é um momento fundador do psiquismo. A memória partilhada torna-se um património de emoção e sabedoria, que se gosta de guardar e transmitir aos mais novos. A fantasia criadora anima todas as acções humanas. Ligando-as com os mais profundos movimentos do desejo, dá à experiência individual, interior e exterior, uma continuidade e uma coerência que são vividas sob a forma de narrativa.
A identidade do Eu pensante surge no seio desta história interior, como sujeito estável dessa mesma história, que é originada e constituída por experiências relacionais, trocas de afectos, positivos e negativos. Por isso, em princípio, essa narrativa interior é para se dizer. Naturalmente não para dizer a qualquer um, mas para partilhar com o outro, que desde o início faz parte dessa mesma história. É uma comunicação de intimidade dirigida a outra intimidade. O psiquismo humano é uma relação dinâmica, uma “história com”…
De tudo o que tem sido dito, e dentro do conceito que procurei esboçar de relação narrativa, pode concluir-se que o ouvir contar uma história é, simultaneamente um conteúdo intelectual, uma dinâmica afectiva e um acontecimento relacional, como procurei desenvolver noutra ocasião .
Correspondendo à verdade da vida, nas histórias tradicionais há pessoas boas e pessoas más, há a alegria e o sofrimento, o medo, a cólera e até a morte. Realidades que não podem ser ignoradas. Houve uma altura no passado recente, em que muitas pessoas ligadas à educação começaram a chocar-se com isso. As histórias tradicionais passaram a ser vistas com menos interesse, e deixaram mesmo de ser contadas às crianças. Casos houve em que se tentou uma solução de compromisso, mantendo a história mas alterando-a, para suprimir pura e simplesmente as partes consideradas não aceitáveis.
Quanto a mim, resultou daí uma perda da verdade psicológica, e o facto não constituiu, de modo nenhum, um benefício de carácter educativo. A solução não está em fazer de conta que a agressividade, o medo e a angustia não existem, mas em ensinar os caminhos e fornecer os meios para os enfrentar, integrar e ultrapassar, de acordo com as características e as capacidades da fase evolutiva em que a criança se encontra.
Muitas das histórias tradicionais, tinham sido passadas a escrito. Mergulhadas como estavam na civilização do livro, as pessoas em causa tinham esquecido essa diferença fundamental que existe entre ouvir contar e ler. E as histórias tradicionais não são para ser lidas. Nasceram e mantiveram-se em contextos em que muito pouco gente lia. São para ser contadas. E isto é uma coisa que transforma tudo, devido à dinâmica própria da relação narrativa. Além disso, foram integrando uma sabedoria que vinha das reacções espontâneas dos diferentes auditórios, o que permitiu ir seleccionando as variantes que melhor efeito produziam.
Dar a ler a história, altera decisivamente o acontecimento relacional, o que desequilibra a dinâmica afectiva. Mudar o conteúdo da história é continuar a esquecer o aspecto relacional, procurando resolver o problema afectivo através da manipulação do conteúdo intelectual.
Digamos que a criança precisa de viver aqueles medos, mas precisa da companhia do adulto, para que isso lhe seja positivo. Tal como muitos outros problemas da vida, é com o adulto que aprende a enfrentá-los. Isso está na ordem natural das coisas.
Só que através da narrativa, esses medos e violências apresentam-se de maneira diferente, porque foram já compreendidos e elaborados por
um adulto, que na sua vivência mais íntima os ultrapassou. E são ditos ali, por um adulto que está sereno, medos contados por quem não tem medo – a mãe, a avó, a educadora. Figuras ternas e acolhedoras, que, na vida real, são para a criança fonte de bem estar e tranquilidade.
É preciso não esquecer a força decisiva deste aspecto relacional.
No caso da história tradicional escrita, bem diferente é a situação da criança que, com o livro na mão, enfrenta sozinha a crueza da história, sem estar protegida por uma relação actual. Fica assim muito mais entregue à violência dos seus fantasmas e movimentos inconscientes, sujeita às interpretações distorcidas que possa dar-lhes, em relação com os conflitos do mundo infantil que no momento estejam mais activos dentro de si.
Tudo será diferente no caso de ler uma história que já ouviu contar várias vezes. Aí não há o elemento surpresa, e embora não esteja presente mais ninguém, a dinâmica afectiva que se desencadeia não deixará de tomar como referência a experiência relacional vivida anteriormente, a propósito do mesmo conteúdo intelectual, isto é da mesma história. O narrador tem outra forma de presença, mas é a sua voz que se faz ouvir, mesmo estando ausente.
Dentro desta visão das coisas, penso que o prazer de ler tem como primeiro tempo indispensável o prazer do contacto com alguém e o prazer de ouvir contar. O narrador vai-se tornando uma personagem interior que nos acompanha e com quem aprendemos a dialogar, mesmo quando estamos sozinhos. É ele que empresta a voz ao autor do livro, que não conhecemos, mas que rapidamente se nos torna familiar.
E ainda propósito dos conteúdos assustadores de tantas histórias tradicionais, deve dizer-se que assim vividos na boa companhia do narrador, tantas vezes em grupo, têm um efeito libertador. Proporcionam uma certa forma de prazer, que me aparece ligada com o sentimento positivo de poder vencer ou controlar o medo, embora com a ajuda da presença de outros. Vivência estruturante de poder enfrentar o medo e a culpabilidade, que dá uma qualidade mais evoluída à relação com o adulto.
Inevitavelmente o adulto narrador oferece-se à fantasia da criança ouvinte como uma pessoa a desvendar e a conhecer. Um jovem pai tinha o hábito de, deitado o filho, antes de ele adormecer lhe contar uma história que inventava no momento, como acontecia com as histórias do Miguelzinho de que falei atrás. Uma noite, fosse por cansaço ou porque a imaginação lhe faltava, pegou num livro e começou a ler. Logo a criança protestou: “quero histórias da tua boca”. Claramente,
sentia que as histórias do livro não a punham da mesma maneira em contacto com o pai.
Creio que muito do que aqui fica dito a propósito daquilo a que chamei “relação narrativa” tem uma nítida proximidade com o trabalho que se realiza durante a psicanálise de uma criança. Pode ajudar a compreender a relação que se estabelece, as formas de linguagem que se usam e o tipo de elaboração que se obtém. Considero que pode servir de base para uma troca de impressões frutuosa.
De um modo mais geral, espero que possa contribuir para uma melhor compreensão do mundo infantil e para a revalorização de uma sabedoria tradicional que, por vezes apressadamente, se foi pondo de lado com preocupações de modernização.
Será que já encontrámos substitutos de melhor qualidade?
RÉSUMÉ: La très ancienne tradition de raconter des histoires et particulièrement de raconter des histoires aux enfants, est attestée par tout un riche patrimoine de «contes de fées». La richesse humaine et pédagogique de cette pratique, qui a été étudiée par beaucoup d'auteurs, mérite bien d‘être étudiée et mise en valeur. L'habitude moderne d‘écrire ces contes et de les présenter aux enfants sous la forme de livre, a entraîné un important changement dans la réaction de l'enfant, désormais seul avec les fantasmes évoqués par le contenu de l'histoire, sans la protection que lui offre la présence de l'adulte en train de la raconter. La compréhension de ce processus permet la comparaison avec la distinction jadis introduite par Serge Lebovici entre névrose de l'enfant, névrose infantile et névrose de transfert.
MOTS CLÉS: Contes de fées; Psychanalyse de l'enfant; Névrose de l'enfant; Névrose infantile; Névrose de transfert.