Escolher as palavras para falar de Pedro Luzes e da relação de amizade, de admiração e de longos anos de trabalho e de convívio, torna-se uma tarefa árdua e quase impraticável. Ficamos com a impressão de que as palavras, quando queremos falar de alguém que estimamos, são demasiado estreitas impondo-nos limites a uma panóplia de afectos que transvazam e querem sobrepor-se a essa escrita. Mas as palavras de amizade e de admiração, embora dificilmente ultrapassem os afectos vividos, devem ser sempre ditas e, se possível, lançadas ao vento porque, “nada efectivamente acontece até ser contado”, como sublinha Virgina Woolf. Contar, portanto, com esta consciência dos limites estreitos das nossas palavras.
Tivemos o privilégio de ter conhecido Pedro Luzes há cerca de trinta anos, quando da nossa entrada na Sociedade Portuguesa de Psicanálise, nos anos oitenta do século vinte. Ao longo destes anos foi-se edificando uma sólida e profunda amizade que ganhou raízes e que ainda hoje se mantém bem viva. A arquitectura desta amizade foi alicerçada na admiração que sempre sentimos pelas suas qualidades como psicanalista com uma intensa e rica prática clínica de muitas décadas e com uma preocupação constante em questionar e teorizar essas experiências, como está patente nos seus imensos escritos dentro desta área, publicados em Portugal e no estrangeiro. As pessoas que lhe são próximas, que conhecem a sua extensa e variada biblioteca pessoal, confirmam o seu interesse apaixonado pelos livros de diferentes áreas do conhecimento e a profunda experiência teórica que cultiva, através de constantes releituras, em relação à obra de Freud, assim como dos analistas mais actuais da escola francesa, inglesa e americana.
Homenagem feita a Pedro Luzes no âmbito das Jornadas Internas do Instituto de Psicanálise, da Sociedade Portuguesa de Psicanálise, no dia 05.11.2011.
Psicanalista, Membro Titular e Didacta da Sociedade Portuguesa de Psicanálise (SPP) e da Associação Internacional de Psicanalistas (API).
Pedro Luzes, para além de ser Médico Neurologista, Psiquiatra e Psicanalista, tem a particularidade – o que suscita nas pessoas que com ele convivem de perto uma profunda curiosidade e admiração – de ser um homem de uma vasta cultura humanística, com uma postura de permanente questionamento e aprofundamento sobre os problemas fundamentais a propósito da natureza humana, do conhecimento, da existência, da verdade, da beleza e das questões de ordem filosófica em geral – é também formado em Filosofia –, assim como dos temas da cultura e da história como ciência que estudam o homem e a sua acção no tempo e no espaço.
Pedro Luzes nasce nos finais dos anos vinte na cidade de Lisboa. O clima emocional que se vivia nesse Portugal dos anos vinte oscilava, segundo relatos da altura, entre opostos que iam, segundo Joaquim Vieira , “de um afrouxamento da autoridade para uma disciplina espartana, de um violento radicalismo para uma apertada ditadura, de um descontrolo financeiro para uma austeridade inflexível, de um cosmopolismo pagão para um nacionalismo místico, de uma libertinagem impenitente para uma moral carrancuda”. Pedro Luzes nasce numa cidade que à época lutava contra a instabilidade política e contra a impossibilidade do regime encontrar um rumo de segurança interna que, provavelmente, além dos desentendimentos dos partidos não foi alheia aos resquícios da herança deixada pela Grande Guerra de 14-18. Nesta altura assiste-se em Portugal, após a carestia da Grande Guerra, a um incremento da abundância associado “a uma esfuziante alegria de viver que rompe de vez com os tabus do passado e abraça a modernidade nos costumes sociais” . O ambiente que se vivia nessa época em Portugal e especialmente em Lisboa, é descrito de uma forma acutilante por Almada Negreiros no seu romance “Nome de Guerra” escrito em 1925. Pedro Luzes nasce e cresce numa cidade, onde existe um intenso debate sobre as ideias filosóficas, sobre a literatura, a estética, a doutrina política, nesta época que muito provavelmente moldar a sua enorme curiosidade pela cultura e em que a escrita, como forma de expressão deste ambiente em que viviam, impulsiona o aparecimento de dezenas de revistas publicadas na altura e da qual destacarei a Seara Nova, fundada em 1921, por intelectuais como Raul Proença, Jaime Cortesão e António Sérgio. Para termos uma ideia do ambiente que se vivia nessa Lisboa, podemos fazer uma viagem através dos jornais que se publicavam ou do traço e da pintura de desenhadores e pintores como Jorge Barradas, Stuart Carvalhais, Bernardo Marques, Carlos Botelho, que ilustram os
costumes da época, influenciados pelo modernismo da década anterior. Assiste-se, nesta altura, à decoração modernista do café A Brasileira do Chiado por Viana, Soares, Barradas de Almada, José Pacheco e Bernardo Marques e o ambiente em que se vive é de grande criatividade e inovação com Sarah Afonso, Almeida Negreiros, Abel Manta, Eduardo Viana, Canto da Maia e muitos outros. Pedro Luzes tem mantido, ao longo da sua vida, uma relação próxima e atenta com o meio cultural do nosso país e alguns homens distintos de letras e da pintura fizeram parte do seu mais chegado círculo de amigos como o grande poeta e escritor David Mourão Ferreira – tivemos o prazer de escutar e de apreciar a melodia dos seus versos em vários Colóquios organizados pela SPP – assim como o pintor Nikias Skapinakis e outros.
Pedro Luzes nasce no bairro das Avenidas Novas, considerado na altura como um dos bairros mais modernos de Lisboa e numa família de médicos, desde há várias gerações, com uma forte presença dos valores culturais e humanísticos que acompanharam o seu crescimento e educação. A construção da sua identidade própria como pessoa e como analista, como acontece com a maioria das pessoas, resultou de um longo caminho de reconhecimento de diferentes elaborações que se foram organizando, ao longo dos anos, através de distintas formas de identificações à matriz familiar, identificações a uma época onde a cultura, a arte e as ciências humanas tinham um papel predominante, mas também às identificações com os seus Mestres e Amigos, com os seus analistas e com os seus pares. Estes processos identificatórios com os seus Mestres e Amigos, como Diogo Furtado, Raymond de Saussure, J. Ajuriaguerra e com os seus analistas Michel Gressot e Marcelle Spira, funcionaram como portos seguros que lhe permitiram muito cedo a conquista de uma diferenciação e de uma identidade própria como psicanalista. Pedro Luzes, que fez toda a sua formação na Suíça, aos trinta e quatro anos já era Membro Titular e Didacta da Sociedade Suíça de Psicanálise.
Foi na cidade de Genebra, na Suíça, que viveu com a sua mulher e com a sua primeira filha – o seu filho nasceu em Lisboa – e foi aí que fez toda a sua formação psicanalítica e conviveu com os amigos com quem desejou partilhar o sonho da construção da Sociedade Portuguesa de Psicanálise. Genebra foi a cidade que viu surgir dois dos primeiros analistas portugueses, Pedro Luzes e Francisco Alvim, que se mantiveram unidos por uma amizade sólida ao longo de toda a sua vida. Com alguns desses seus amigos, como Francisco Alvim vai, numa primeira etapa,
fundar a Sociedade Luso-Espanhola de Psicanálise em 1957 e, mais tarde com João dos Santos, a Sociedade Portuguesa de Psicanálise em 1981.
No convívio com Pedro Luzes o que mais nos chama a atenção é que, por detrás de um aparente recato com que lida com as pessoas, esconde-se alguém onde a pulsão epistemofílica é intensa assim como a sua inquietude de procura, de investigar sobre a história da natureza humana e sobre o seu devir futuro. Por isso toda a sua obra escrita, assim como as diversas comunicações feitas ao longo de anos, trazem, no seu conjunto, um sólido contributo para o aprofundamento teórico da Psicanálise, através da divulgação em Portugal de diferentes correntes do pensamento dentro desta área.
Trouxe também uma intensa e valiosa contribuição para as relações da Psicanálise com a Cultura. Foi um dos obreiros da criação e do desenvolvimento da Formação dos Psicanalistas e da consolidação da Psicanálise em Portugal e deu um contributo valioso na reafirmação das relações Internacionais da Psicanálise Portuguesa.
Toda a sua obra, quer teórica como técnica ou cultural, é aprofundada, como não podia deixar de ser, segundo o modelo de investigação psicanalítico, onde os processos mentais se baseiam em concepções psicológicas e metapsicológicos. Os seus trabalhos em geral, exceptuando os seus primeiros anos de Medicina, em que os artigos científicos tinham o seu enfoque sobretudo na Neurologia ou na Psiquiatria, são inspirados, como anteriormente disse, na teoria e na prática psicanalítica ou na utilização deste modelo na compreensão de certos aspectos da literatura, da pintura, da filosofia ou da história.
Pedro Luzes, como analista, desde muito cedo – provavelmente influenciado pela sua análise pessoal com Marcelle Spira que ao longo da sua vida trocou correspondência com Melanie Klein, de quem se sentia próxima do seu modelo teórico – e também na sequência da sua formação em Inglaterra com psicanalistas kleinianos – tinha um interesse entusiasmante pela aplicação deste modelo de pensamento na psicanálise em geral, assim como na psicanálise da criança e do adolescente. Nos anos oitenta organizou na Sociedade Portuguesa de Psicanálise Seminários de Psicanálise da Criança e do Adolescente que se mantiveram cerca de uma vintena de anos. Nesses Seminários, orientados por Psicanalistas de crianças e adolescentes convidados por Pedro Luzes, o debate fazia-se em torno da apresentação de um caso clínico, dos aspectos teóricos
e técnicos do processo analítico. Foi um período de enorme entusiasmo, de uma diversidade teórica assinalável, onde o pensamento kleiniano e pós-kleiniano eram dominantes e o debate com colegas estrangeiros como Donald Meltzer, Florence Guignard, Jean Bégoin, Annie Anzieu, Didier Houzel, Antonino Ferro e muitos outros foi de uma riqueza contagiante. Nesses seminários, as questões teóricas à volta dos casos clínicos apresentados, assentavam num pensamento de investigação a que não estávamos muito habituados na época. A importância do jogo como metáfora da associação livre, regra fundamental para a escuta analítica, a importância da transferência quer positiva como negativa que se encontra activa desde o começo da psicanálise, a transferência como resultado de uma fantasia inconsciente, a situação total como situação transferencial tendo em conta as emoções, as defesas e as relações objectais, a importância dos objectos internos e as identificações introjectivas e projectivas e muitos outros conceitos que mostravam a evolução da teoria kleiniana para um pensamento pós-kleiniano e bioniano e de outros analistas que integravam a teoria das relações de objectos.
Pedro Luzes, convidando colegas seus para vir a Portugal, de algum modo partilhava connosco também um pensamento analítico que lhe era caro e mostrava-nos outras formas de estar na clínica. Para quem assistiu a esses Seminários era evidente que Pedro Luzes granjeava da parte dos colegas convidados uma enorme admiração como pessoa e como analista.
Foi, através dos seus trabalhos, um impulsionador da psicanálise da criança e do adolescente em Portugal e um divulgador da psicoterapia psicanalítica no meio da Psicologia Clínica – criou a Associação de Psicoterapia Analítica da Criança e do Jovem – para a formação de psicoterapeutas. Nesta área publicou diferentes trabalhos como: “Psicoses e pré-psicoses na infância” (do Autor, SPP), “Du surmoi – Héritier du Complexe Oedipe” , “Fantasias sexuais dos adolescentes através dos jogos” – uma comunicação sobre a adolescência feita num Congresso – assim como participou num livro sobre o Desenvolvimento Psicológico da Criança.
Pedro Luzes tinha surpreendido em 1968 os seus colegas europeus, no XIX Congresso dos Psicanalistas de Línguas Romanas que se realizou em Lisboa, quando apresentou um relatório, na área da clínica e da técnica – “As perturbações do pensamento na clínica psicanalítica” . Neste trabalho estuda, sob o ponto de vista clínico e teórico, as perturbações do pensamento tal como são observáveis no decorrer do
processo psicanalítico. Inspirado no material clínico utilizado por Freud ao longo de algumas das suas obras, analisa as diferentes qualidades das perturbações do pensamento, a partir da teoria do pensamento de Bion. Assim descreve as diversas perturbações do pensamento, que se encontram na dinâmica da relação analítica, exemplificando a complexidade das variadas formas de pensar nas diferentes patologias como, por exemplo, as perturbações do pensamento na histeria, com um funcionamento em equação simbólica, nas fobias em que o pensamento é desinvestido em favor da projecção e da acção, assim como na neurose obsessiva onde há um isolamento do afecto e da representação, etc. Pedro Luzes, pela primeira vez nestas Conferências, introduziu as teorias de Bion – autor que na altura era desconhecido sobretudo no continente e na zona francófona – e defendeu o seu importante contributo para a teoria do pensamento. Para ele as teorias de Bion, após Freud, foram as que mais contribuíram de uma forma fecunda para o estudo dos processos do pensamento. Neste relatório diz prever que à volta dos trabalhos de Bion assim como de Freud e de Melanie Klein se manteria aberto um longo debate durante muitos anos. Felizmente, temos assistido nos nossos dias a uma maior integração e compreensão destas diferentes correntes do pensamento psicanalítico.
Pedro Luzes, como a maior parte dos investigadores que se preocupam por uma área específica de investigação, interessou-se sempre pela construção do pensamento e pela emoção. No seu livro “Do Pensamento à Emoção. Perspectivas Psicanalíticas” mostra, através da ilustração de certos casos clínicos, como se processa em psicanálise a evolução e modificação das representações sob a acção dos factores cognitivos e emocionais. Estuda a degradação das representações por insuficiência da clivagem binária, ou por acção da clivagem múltipla, ou por acção da identificação projectiva. Neste livro, também aborda as perturbações do pensamento em clínica psicanalítica através da descrição de dois casos onde omnipotência do pensamento, identificação projectiva, e clivagem estão presente.
Podemos dizer que Pedro Luzes escreveu um importante número de artigos para revistas portuguesas e estrangeiras assim como fez um número assinalável de comunicações e conferências sobre variados assuntos, mas o seu interesse clínico e teórico sobre a emoção e o pensamento estão sempre presentes como pano de fundo da sua elaboração nesses últimos trabalhos.
No convívio com Pedro Luzes impressiona-nos, embora de uma forma muito recatada, o seu enorme interesse pela epistemologia ou a origem das coisas que o rodeiam e a sua curiosidade pela história das pessoas. A propósito desta questão, não podemos deixar de associar esta experiência de vida pessoal aos trabalhos de Freud , de que é um grande estudioso e profundo conhecedor, quando salientou que “a melhor forma de compreender a psicanálise ainda é dedicarmo-nos à sua génese e ao seu desenvolvimento”, ou seja, à sua História. Pedro Luzes sempre utilizou nas suas diversas investigações o suporte teórico que se inspirava e assentava na teoria psicanalítica, tal como Freud a definiu , isto, é através “de um método de investigação dos processos psíquicos; de um método de tratamento das perturbações neuróticas que se baseia nessa investigação e, finalmente, por uma série de concepções psicológicas adquiridas por este meio e que se fundem numa nova disciplina científica”.
Pedro Luzes, provavelmente devido à sua longa prática clínica, teve sempre um interesse particular pela história em geral, pela história das pessoas, pela história das instituições, pela história dos países. A história como método de investigação de um conjunto de factos ou acontecimentos sociais e institucionais do passado que são relevantes na evolução de um povo ou de uma instituição como é o caso da Sociedade Portuguesa de Psicanálise (SPP). Este seu interesse leva-o a um profundo trabalho de pesquisa sobre os escritos ou trabalhos da cultura portuguesa que abordam temas da Psicanálise e que têm um papel de relevo na compreensão das vicissitudes vividas ao longo do desenvolvimento da história da Psicanálise em Portugal. O seu livro “Cem anos de Psicanálise” (ISPA, ) é um profundo e excelente trabalho de pesquisa histórica sobre o desenvolvimento da psicanálise em Portugal. Nele, descreve a fase precursora da psicanálise com Abade Faria, assim como os primeiros trabalhos sobre psicanálise através dos escritos de Egas Moniz e Sobral Cid, inspirados nos trabalhos de Freud. Também descreve os trabalhos que mostram o interesse pela psicanálise e o início da sua expansão com a formação na Suíça nos anos cinquenta. Fala ainda sobre a formação da Sociedade Portuguesa de Psicanálise, dos seus primórdios ligados à Sociedade Luso-Espanhola e à sua separação, autonomia e evolução até ao actual momento como Sociedade Portuguesa de Psicanálise.
Neste capítulo podemos falar do seu trabalho, em colaboração com outros analistas, sobre as quatro cartas de Freud descobertas em Portugal
e dirigidas a um português, Abel de Castro, adquiridas posteriormente pela Sociedade Portuguesa de Psicanálise. Estas cartas têm por um lado a importância de serem as primeiras cartas escritas por Freud a um português o que permitiu, segundo os autores, reconstruir os traços psicológicos deste correspondente e mostrar os aspectos afáveis e a capacidade de comunicação e interligação de Freud.
Pedro Luzes, na senda de Freud e de outros analistas, utilizou como instrumento de investigação a teoria psicanalítica para poder perceber a construção dramática de certas personagens da literatura assim como de certos pintores. Desde muito cedo que se interessa pelas personagens queirosianas e pelos seus complexos enredos e ao longo dos anos foi publicando, sobre esta temática, vários escritos e trabalhos assim como colaborou no Dicionário de Eça de Queiroz de Campos Matos. Através do suporte psicanalítico vai revisitando as personagens de Eça de Queiroz e constrói pontes entre a construção fantasmática dessas figuras queirosianas e a vida do escritor que nasce sob o signo da falha narcísica e da perda. O sentimento de não pertencer a nenhum lugar e não poder ter sido olhado pelo objecto materno naturalmente potenciou a construção do romance familiar no autor a partir do qual, provavelmente, se foram construindo e configurando as personagens queirosianas que tanto nos fascinam. O livro de Pedro Luzes “Sob o manto diáfano do realismo-Psicanálise de Eça de Queiroz” é entusiasmante e remete-nos para uma análise das fantasias universais e os seus elos com o processo criativo e com a criação das personagens. Pedro Luzes constata, partindo da construção do romance familiar do autor, que todas as personagens queirosianas significativas são órfãos e que as mulheres são envolvidas num manto de penumbra inquietante e enigmático, tal como foram os seus pais. Pedro Luzes tentou, através de uma visão psicanalítica, entender a complexidade e densidade das personagens da narrativa queirosiana e encontrou elos de ligação que se escondiam sob o manto da fantasia inconsciente.
Pedro Luzes, em colaboração com Francisco Alvim e João dos Santos, deu um precioso contributo na organização e constituição dos grupos de estudo Luso-Espanhol e Português, assim como participou na formação dos candidatos através de Seminários e de supervisões. Quando a Sociedade Portuguesa passou de provisória a definitiva, esteve presente na
escolha do seu programa científico, fazia parte da Comissão de Ensino e foi Formador e Supervisor. Foi nesta fase que conhecemos Pedro Luzes como formador – deu-nos um Seminário sobre A interpretação dos Sonhos de Freud e um Seminário Clínico e mais tarde, a nosso pedido, fez um Seminário sobre Bion – posteriormente foi nosso supervisor durante cinco anos. Pedro Luzes era um supervisor que em silêncio seguia passo a passo a descrição da sessão apresentada pelo candidato. As suas intervenções eram curtas e precisas e habitualmente surpreendiam-nos pelo detalhe do material escolhido para comentar que escondia, quase sempre, uma profunda riqueza simbólica e que nos aproximava do modelo do sonho como forma de escuta analítica.
Nestes primeiros tempos da formação da nossa Sociedade havia necessidade de expandir a Psicanálise para outros meios, sobretudo universitários, e é desta forma que integra a Comissão Instaladora da Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação. Mais tarde na Faculdade de Psicologia, doutora-se com uma tese intitulada Da Emoção ao Pensamento. Teve um papel primordial na expansão da psicanálise e da psicologia dinâmica colaborando na criação de uma Unidade de Investigação em Psicologia Clínica na sua Faculdade.
Pedro Luzes foi fundador e o primeiro director da Revista de Análise Psicológica onde publicou, assim como alguns analistas, diversos artigos sobre a área analítica. Colaborou, com os seus colegas da Sociedade Portuguesa de Psicanálise na expansão da Psicanálise e no acesso ao seu conhecimento através da organização e participação de congressos e simpósios abertos a uma população sequiosa de fazer pontes entre a Psicanálise, a clínica e a cultura.
Pedro Luzes, tendo uma vasta cultura em diferentes áreas do conhecimento humano, quando estabelecia uma relação de proximidade com alguém, tornava-se um excelente contador de histórias que arrastava a imaginação daqueles que o rodeavam e ouviam. Foi dessa forma que, ainda como jovens analistas, através das suas histórias e do seu olhar, imaginámos viagens inacreditáveis a várias partes do mundo e na nossa fantasia frequentámos certos círculos da Associação Internacional de Psicanalistas. Através das suas histórias a nossa imaginação percorreu quilómetros e estivemos no Congresso da API em Zurique, onde ele esteve. Ao contar a sua ida a esse Congresso, na nossa fantasia de jovens analistas,
víamos, tal como ele, Melanie Klein e imaginámos um infindável diálogo sobre as relações de objecto e as conjugações, os meandros e os encontros e desencontros da teoria kleiniana. Através dele descobrimos que Melanie Klein, com o seu pequeno chapéu, não estava rodeada de muita gente mas que a sua conferência tinha agradado e sido muito debatida. Através dele, imaginámo-nos no Congresso de Helsinquia em 1981 e foi com orgulho que, dentro de nós, ouvimos um aplauso quando a nossa Sociedade foi aceite pela Associação Internacional de Psicanalistas. Através das suas histórias fomos conhecendo muitos analistas de toda a parte do mundo, convivemos com os seus modelos de pensamento e percebemos, trabalhando com ele na Direcção da Sociedade e na Direcção do Instituto, os meandros da dinâmica e da história da nossa Sociedade e da Associação Internacional de Psicanalistas.
Pedro Luzes foi o analista português que teve maior visibilidade a nível internacional. Publicou artigos em revistas internacionais e era uma presença assídua em Congressos Internacionais de Psicanálise, apresentando comunicações e intervenções. Tendo feito três mandatos como Presidente da Sociedade e dois mandatos como Presidente do Instituto, as suas funções exigiam um contacto estreito com as Sociedades da IPA que frequentemente o convidavam para fazer Conferências e supervisões. Tivemos a oportunidade de verificar, quando estávamos em Congressos, como era acarinhado pelos seus colegas de longa data.
Pedro Luzes esteve na organização de muitos Congressos internacionais assim como participou com trabalhos em outros tantos eventos científicos. Participou na criação dos Congressos Ibéricos, hoje Jornadas Ibéricas, e foi o impulsionador entusiasmante da fundação do Anuário Ibérico, espaço de debate psicanalítico das três Sociedades Ibéricas, que infelizmente desapareceu. Pedro Luzes, assim como muitos analistas portugueses, publicaram trabalhos nessa revista e mostraram como os analistas portugueses trabalhavam em Psicanálise.
Last but not least a reafirmação da presença constante de Pedro Luzes e a sua contribuição de uma forma substantiva para a divulgação da Psicanálise em Portugal através, como sublinhámos, da divulgação de modelos teóricos analíticos e do seu valioso contributo para a teorização da sua longa prática clínica, das pontes que construiu entre a cultura e a psicanálise, da sua presença assídua e continuada na formação dos psicanalistas e dos Psicólogos clínicos e pela reafirmação da presença da Sociedade Portuguesa de Psicanálise junto de outras Sociedades que integram a Associação Internacional de Psicanalistas (API).
Pedro Luzes, como psicanalista dedicou uma obra e uma vida à Sociedade Portuguesa de Psicanálise. Terminamos com a sensação com que começámos. A de que as palavras, quando queremos falar de alguém que estimamos, são demasiado estreitas, mas devem, apesar disso, ser ditas. E estas são as palavras que escolhemos para o Pedro Luzes: Nós nunca o esqueceremos!