A partir da definição do objecto de estudo da teoria psicanalítica, os autores elaboram uma perspectiva histórica evolutiva da investigação do processo terapêutico em psicanálise e em psicoterapia psicanalítica. Diferenciam aspectos conceptuais e metodológicos na investigação clínica em psicanálise e na investigação não-clínica empírica e experimental, apontando críticas e soluções possíveis.
Pela sua particular complexidade, o objecto de estudo da teoria psicanalítica nem sempre se revelou fácil no que ao campo específico da sua operacionalização e avaliação sistemática diz respeito. Freud, não alheio a estes factos, propôs um método de investigação singular, levando justamente em conta as dificuldades que o seu então novo objecto de estudo (o inconsciente) levantava. Não obstante, a preocupação metodológica sobre a validade das intervenções terapêuticas efectuadas foi algo assumidamente presente em todo o percurso de investigação freudiano (Freud, 1938 [1940]).
Num quadro de investigação contemporânea, tem-se vindo a realçar todo um conjunto de estudos sobre as experiências subjectivas associadas aos processos psicoterapêuticos de base psicanalítica, que têm demonstrado
Membro Associado da Sociedade Portuguesa de Psicanálise. Professor Auxiliar Convidado da Universidade de Évora e do ISPA-IU, raragao@clinipinel.com.
Sócia Candidata da Sociedade Portuguesa de Psicanálise. Professora Auxiliar do Instituto Superior Miguel Torga, sandraoliveira@interacesso.pt.
Recebido para publicação em 20.05.2011. Revisão recebida em 05.09.2011. Aceite para publicação em 19.09.2011.
novos e importantes desenvolvimentos para a prática clínica, bem como para a elaboração e discussão de conceptualizações de natureza teórica (Wallerstein & Fonagy, 1999; Sandell et al., 2001; Bateman & Fonagy, 2006; Busch & Milrod, 2010).
O método clínico, pela sua riqueza intrínseca, tem permitido evoluções extraordinárias na compreensão da dinâmica do mundo mental, assumindo como principal objecto de trabalho o estudo do inconsciente e subsequentemente dos processos da dinâmica e comunicação inconscientes. Associadamente, os procedimentos metodológicos com estruturas operacionais, também elas cada vez mais complexas, têm originado contributos preciosos. Tais metodologias, muito embora tenham sido quase sempre realizadas a partir da perspectiva semiológico-descritiva, têm sem dúvida impulsionado de forma particular o desenvolvimento da ciência psicanalítica e da técnica terapêutica (Fonagy et al., 2002; Roth & Fonagy, 2005; Bateman & Fonagy, 2006; Falkenström et al., 2007). Ora, ainda que estes estudos não sejam totalmente isentos de controvérsia no seio da comunidade psicanalítica, não podemos contudo deixar de sublinhar o quanto os resultados destas mesmas investigações sobre a eficácia do processo psicoterapêutico (Wallerstein, 1999; Sandell et al., 2000, 2006; Bateman & Fonagy, 2006; Gerber et al., 2010), se têm revelado cruciais, não só para a consolidação da teoria psicanalítica e para a técnica clínica, mas também para a implementação de programas de saúde pública (; Sandell et al., 2000; Leichsenring, 2005; Leichsenring & Rabung, 2008; Lazar, Sandell & Grant, 2006; Gelman et al., 2010).
Glen Gabbard et al. (1997) realizaram um importantíssimo e histórico trabalho sobre o impacto económico da psicoterapia, demonstrando como esta contribui para a redução de custos nos tratamentos de pessoas com transtornos mentais graves, sendo capaz, além disso, de promover uma significativa diminuição nas faltas ao trabalho desta população. Gabbard relançou, sem dúvida, a relevância desta temática dentro e fora do meio psicanalítico, reforçando, portanto, a ênfase na necessidade de aprofundamento do conhecimento científico sobre o processo psicoterapêutico.
Nesta última década têm surgido diversas e significativas publicações que abordam especificidades várias do processo psicoterapêutico psicanalítico, sob uma égide comparativa com outros modelos de intervenção terapêutica (Leichsenring et al., 2009) Daqui destacam-se particularmente os resultados alcançados em grupos de população com quadros sintomatológicos bem determinados, que vão desde as perturbações de pânico (Milrod et al., 2007), aos grupos de pacientes com síndromes
depressivas e alterações ansiosas (Fonagy, Roth & Higgitt, 2005). Falk Leichsenring (2005, 2008, 2009) é especialmente bem conhecido pelas suas meticulosas revisões científicas sobre os resultados da psicoterapia psicanalítica, procurando insistentemente colocar em evidência o contributo desta abordagem psicoterapêutica. Se por um lado, as suas meta-análises têm realçado a escassez de estudos rigorosos sobre o tema, fazem também, por outro lado, sublinhar todo um conjunto de dificuldades na sua operacionalização. Tais limitações, assinaladas pelo próprio Leichsenring apontam fundamentalmente os seguintes aspectos: a ausência de metodologias de avaliação que permitam a realização de comparações inter-estudos, a existência de entendimentos divergentes sobre o que pretende ser a psicoterapia psicanalítica, a ausência de dados complementares fundamentais no delineamento metodológico, ou, ainda, a escassa existência de estudos que contemplem a realização de ensaios. Não obstante, o autor não deixa igualmente de expressar a evidência de uma real diferenciação da psicoterapia psicanalítica de longa duração no que respeita aos resultados obtidos e à sua estabilização a longo prazo, comprovando, assim, o quanto esta abordagem psicoterapêutica se destaca claramente no tratamento de, por exemplo, pacientes crónicos graves.
Acresce-se, aliás, como os estudos sobre a eficácia da psicoterapia psicanalítica de longa duração se têm assumido como um objecto de investigação per si (Leichsenring & Rabung, 2008; de Maat et al., 2009), privilegiando a reflexão teórica sobre as particularidades alcançadas pelo método psicanalítico (Fonagy & Kächele, 2009).
As dificuldades existentes em torno do objecto de trabalho privilegiado das psicoterapias psicanalíticas – a saber, os processos inconscientes na dinâmica do mundo mental – implicaram, durante um bom período de tempo, que os estudos sobre a eficácia psicoterapêutica não incluíssem este mesmo objecto nas suas revisões. Por outro lado, nos casos em que essa inclusão era respeitada a sua avaliação resultava potencialmente desconexa, uma vez que esses estudos eram realizados sob condições ideais, onde prevalecia sobretudo uma descrição de quadros semiológico – descritivos, centrados quase exclusivamente nos sintomas. Na verdade estes processos resultavam pouco semelhantes à prática clínica privada da actualidade. Estes trabalhos, decorrentes de abordagens de natureza experimental, remetem portanto para condições de estudo onde o controlo de variáveis é elevado, com resultados expectáveis bem determinados, logo, reafirme-se, com condições psicoterapêuticas desfasadas daquelas que são as características usualmente presentes na realidade clínica. Parale-lamente,
foram-se desenvolvendo estudos naturalistas sobre o processo psicoterapêutico, enquadrados na efectividade, isto é, na capacidade do método para promover resultados pretendidos, realçando os ganhos obtidos pelos pacientes, ainda que por vezes articulados com a avaliação de sintomas. Já os estudos sobre eficiência dizem respeito àqueles que se debruçam sobre o tema do processo terapêutico, tendo em conta a competência para produzir resultados com o dispêndio mínimo de recursos e esforços, e que portanto procuram analisar aquilo se transforma, como se organiza e como evolui essa mudança.
Certamente que a síntese destas três vertentes que aqui expomos peca por um excesso reducionista, sendo que cada uma delas seria porventura por si só merecedora de uma maior atenção e exploração. Ainda assim, não deixam de nos permitir introduzir problemáticas centrais para o campo da investigação em Psicanálise e Psicoterapia Psicanalítica, as quais procuraremos desenvolver.
Independentemente do método utilizado, pensamos que não podemos fazer um bom trabalho de investigação, sem esclarecer para nós próprios duas questões básicas fundamentais: qual o objecto de investigação? → o que é que queremos saber?; E qual o método que pretendemos utilizar? → como vamos tentar saber?
Trata-se de questões particularmente complexas, dada a natureza do nosso objecto de estudo – o inconsciente (e processos inconscientes). Para facilmente aceder-nos à complexidade e dificuldade que enfrentamos basta apercebermo-nos da evolução do conceito “inconsciente” e as implicações dessa transformação na especificidade do trabalho clínico e na investigação psicanalítica.
O inconsciente, inscrito na 1.a tópica freudiana, é entendido como tudo o que se encontra fora do campo consciente, e cujo dinamismo se adivinhava ainda longe da conceptualização actual. Tomado por um rasgo de génio, Freud, a partir dos contactos com a clínica de Charcot, acrescido da descoberta da talking cure, compreendeu de forma bem diferenciada o fenómeno da histeria e do seu mundo mental, onde o fenómeno da recordação “selectiva” inconsciente assumiu particular interesse. A veracidade do facto recordado e relatado pelo paciente perdeu o seu lugar e papel de destaque, ganhando relevância o porquê de um tal facto ser recordado, e também o porquê de ser assim recordado. Permite-se pois
ver para além do cenário apresentado explicitamente pelos sintomas, buscando alcançar um significado e sentido que o próprio sujeito desconhece quase sempre em si mesmo. O inconsciente é assim formado por conteúdos recalcados, inacessíveis ao consciente por efeito da acção de recalcamento, processo esse também eminentemente inconsciente.
Ainda neste primeiro tempo, a psicanálise introduziu um problema determinante para a investigação científica e para as metodologias empíricas: a relação entre sintoma e significado. Como bem sabemos, o sintoma pode modificar-se, desaparecer e transformar-se, ainda que a problemática inconsciente se mantenha inalterada, surgindo então sintomas substitutivos de expressões bem diversificadas. Aliás, em algumas circunstâncias particulares, o desaparecimento de sintomas, que sabemos possuir um valor defensivo, pode até significar uma pior condição do paciente, pelo que as classificações nosográficas habituais da psiquiatria como critério de avaliação do processo psicoterapêutico têm, na realidade, um valor profundamente limitado em psicanálise e em psicoterapia psicanalítica.
Existem mesmo alguns casos de êxito terapêutico que embora não expressem grande alteração a nível dos sintomas manifestos, melhoram significativamente noutras dimensões do seu sofrimento, beneficiando assim de uma não degradação da sua condição psíquica, e portanto evitando a construção de uma verdadeira “carreira psiquiátrica” bastante mais grave.
Mais tarde, com a evolução do conhecimento psicanalítico e concomitante ampliação da experiência clínica, a conceptualização da dinâmica do mundo mental e dos processos inconscientes complexifica-se extraordinariamente, sofrendo inevitáveis transformações evolutivas.
Na 2.a tópica freudiana, a dinâmica inconsciente do psiquismo (progressivamente elaborada nas obras de Freud antes mesmo da sua nomeação em 1923, com o célebre texto “O Eu e o Id”), passa a ver-se consideravelmente ampliada através da ideia de que funcionaria como uma estrutura onde os seus diversos elementos interagem dinamicamente entre si. O inconsciente deixa de ser algo próprio de uma única e especial instância, passando a qualificar o Id, o Eu e o Supereu. Neste contexto, assume-se como um sistema com características próprias, de onde sobressaem a atemporalidade, bem como a ausência de negação e de dúvida. A expressão do sintoma, e do comportamento associado, remete não só para aspectos do mundo inconsciente, mas essencialmente para padrões relacionais do mundo interno conscientes e inconscientes,
num dinamismo nem sempre fácil de descrever sem correr o risco de o reduzir ou menosprezar. Ora, as implicações na técnica psicoterapêutica daqui resultantes são extraordinárias, não apenas no que respeita às concepções de cura, de doença e saúde mental, mas também no que se refere aos objectivos assumidos no quadro terapêutico. Deste modo, a mera diminuição ou apaziguamento dos sintomas manifestos, deixa de ser, uma vez mais, o objectivo de intervenção major ou mesmo o objecto privilegiado do trabalho psicanalítico.
Alguns anos mais tarde, Freud, com o texto “Clivagem do Ego e mecanismos de defesa” (1938/1940), embora certamente muito atento aos contributos de colegas (nomeadamente de Ferenczi e de Klein), decide introduzir novas alterações ao conceito de inconsciente, introduções essas a que alguns vêm mais tarde denominar 3.a tópica (Marucco, 1978; Raggio, 1989).
Freud descreve a situação particular onde o confronto do Eu com uma realidade traumática, capaz de lhe despertar ambivalência face à pressão das exigências do instinto que procura satisfazer e um qualquer perigo eminente, faz mobilizar este mesmo Eu numa duplicidade complexa de atitude: por um lado, renuncia, em parte, à satisfação pulsional e por outro rejeita a realidade, socorrendo-se inconscientemente de partes omnipotentes capazes de assim também rejeitar a percepção traumatizante (sugerimos a consulta dos excelentes e recentes textos organizados por Bokanowski, & Lewkowicz, 2009, entre outros). Ora, enquanto Klein concebe o processo de clivagem como partes do Eu que são depois inconscientemente colocadas nas relações mais significativas, essencialmente através de mecanismos de identificação projectiva, quer comunicacional quer patológica, Freud remete-nos para uma dimensão particular dos processos inconscientes, também constituído por partes resultantes de uma retirada de significado, via clivagem do Eu seguida da actuação de mecanismos de negação, com apelo à crença omnipotente, marcada pela ferida narcísica3. Passamos assim a ter um inconsciente, também ele clivado, com modalidades próprias de registo e de retorno, que nos remete para que o facto da objectividade e a subjectividade se constituírem simétrica e simultaneamente no processo de desenvolvimento do Eu. John Steiner (1993), no seu trabalho “Psychic Retreats” demonstra-nos as implicações na compreensão das organizações psíquicas patológicas e na sua abordagem clínica.
Ver outros desenvolvimentos no texto de R. Aragão Oliveira, 2008.
Podemos assim facilmente conceber as maiores dificuldades nos trabalhos de investigação sobre o processo psicoterapêutico, e particularmente assumir a estranheza na limitação de muitos dos resultados encontrados, pela negligência mais ou menos assumida da avaliação das temáticas inconscientes.
Esta complexidade inerente ao objecto fundamental de trabalho obriga a uma reflexão profunda sobre o problema particular da investigação sobre a eficácia psicoterapêutica, onde a redução de sintomas, as alterações de comportamentos e acções do paciente, as mudanças dos padrões relacionais internos vs externos, as manifestações de ansiedades esquizoparanoides, ou a pujança do funcionamento egoico têm constituído, por vezes de forma claramente parcial, critérios díspares e nem sempre fáceis de integrar.
Não nos parece possível simplesmente ignorar estes considerandos e avançar com simplificações, condicionados pelos métodos inerentes a outros ramos da ciência. Estamos mesmo convictos que a noção de uma unidade científica, baseada nos desenhos experimentais da física clássica, que tanto serviu de base a muitos dos argumentos críticos à Psicanálise, pode hoje ser considerada um mito. Tal como nos refere Marianne Leuzinger-Bohleber “…we live in an age of scientific pluralism” (2010, p. 24).
Os acontecimentos do mundo mental, conscientes, uns, e inconscientes, outros, são acontecimentos que se podem “relacionar” certamente, mas não têm propriamente que se “correlacionar” com significado estatístico; são acontecimentos que, em situações especificas, se apresentam como disjuntos, não se intercepcionando, apesar de constituintes do mesmo mundo mental.
Se cedermos à tentação de acumular estéril e incompreensivelmente todo um conjunto de dados numa mera atitude mimética de outros campos da ciência, centrados na idealização do método, redundaremos com probabilidade no que Paulo Cesar Sandler (2003) afirma ser o realista ingénuo. Situar-nos-íamos então no lugar do clássico investigador positivista, reforçando ilusoriamente a ideia de que estudar e compreender as acções do ser humano se pode centrar simplesmente na junção pormenorizada de todas as suas ligações sinápticas. Se assim fosse, passaríamos na realidade a trabalhar com fenómenos esquizóides, desprovidos da singularidade Humana. Por outro lado, se intentarmos investigar num registo parco em traço e rigor metodológicos, abdicando de um humilde questionamento, submergidos na pura prática clínica e evitando a
frustração dos eventuais insucessos, confrontar-nos-emos então com o idealista ingénuo, resguardado que está na sua crença de que o “seio” (e na idade adulta, o “ser”) é simplesmente aquilo que ele acredita que deveria ser. Tal como o analista ingénuo poderá simplesmente acreditar que a “verdadeira clínica” é na realidade a sua “prática clínica”.
Juan Pablo Jiménez (2009) recorda-nos as particularidades do trabalho artesanal do analista, que vai utilizando somente quantidades limitadas de materiais e de instrumentos teórico-práticos para criar a sua obra, utilizando informação heterogénea, acumulada no seu percurso formativo e experiência clínica, e que vai sendo criativamente adaptada a cada caso concreto (Jiménez, 2009). Comparar regularmente algo que se inscreve num constante dinamismo exige, certamente, uma reflexão profunda sobre os métodos de validação.
Esta questão, sobre como validar o trabalho psicoterapêutico foi sempre uma preocupação em Freud e na comunidade psicanalítica em geral. No seu texto “Construções em Análise” (1937), deixou bem claras as suas preocupações, e de como o exercício constante de validação da construção interpretativa sempre esteve presente, bem diferenciado da sugestão (esta associada à infantilização, e à desvalorização da capacidade reflexiva) ou das técnicas activas. A interpretação é uma oferta para o paciente depois validar através das mudanças e construções que conseguir criar. Deslocamo-nos assim de um modelo psicanalítico baseado na arqueologia, na busca da verdade escondida, para um modelo arquitectónico (Jiménez, 2009), onde a nova construção, a criatividade e a flexibilidade mental ganham lugar. A reconstrução do passado é somente um objectivo preliminar e sempre incompleto, para depois se construir novas e diferentes narrativas. E a validação advém então, não apenas do retorno do reprimido, mas fundamentalmente da transformação, da mudança, do progresso, da criatividade e do crescimento.
Posto isto, o problema de uma boa parte da investigação realizada sobre a eficácia psicoterapêutica psicanalítica parte da consideração de que ela é eficaz em função dos objectivos, ou das melhoras. No entanto, decorrente destes considerandos, podemos então questionar: quais objectivos e que melhoras?
As melhoras não parecem susceptíveis de fundamentar uma validação meramente centrada na redução de sintomas (como já anteriormente o justificámos). Quanto aos objectivos, estes parecem alterar-se ao longo do processo psicoterapêutico. Ou de forma mais precisa: eles alteram-se como consequência da própria evolução terapêutica. A grande maioria dos
pacientes não tem objectivos precisos: querem conhecer-se, perceber-se e sentir que conseguem mudar alguns padrões repetitivos, sentirem-se livres do peso de um passado doloroso, com capacidade criativa que lhes permita obter maior satisfação no contacto com a realidade.
Para o analista, o objectivo é quase sempre o alcance de uma menor rigidez mental, de maior mobilidade intrapsíquica e utilização de mecanismos mentais menos primitivos. Logo, compreendemos como ambos estes critérios – melhoras e objectivos – colocam questões bem complexas na sua validação.
Alguns estudiosos procuram colmatar este facto, conjugando instrumentos de avaliação de sintomas com opiniões dos pacientes e/ou terapeutas. Contudo, trata-se de um problema pouco simples, uma vez que as razões inconscientes presentes nas respostas aos instrumentos são imensas e enviezantes (encontrar a melhor resposta para agradar e gratificar o analista, ou para não descredibilizar o tempo e dinheiro gasto; também a resposta validada pelo analista contém muitas variáveis difíceis de contornar – daí a razão da necessidade das supervisões clínicas).
É justamente esta confusão de tons que tem potenciado, não raras vezes, fortes desentendimentos e más compreensões dos fenómenos estudados numa actualidade de pluralismo científico (Leuzinger-Bohleber, 2010).
Daniel Widlocher (2003), num importante e clarificador texto, discriminou entre: Investigação in psychoanalysis/psychoanalytic psychotherapy – que enquadra todo o trabalho que procura compreender o que acontece durante o processo terapêutico, podendo ser somente realizado por especialistas/clínicos devidamente treinados; e Investigação on psychoanalysis/psychoanalytic psychotherapy, que, por seu lado, remete para qualquer abordagem proveniente do exterior ao processo (como sejam, trabalhos sobre indicações terapêuticas, resultados, técnicas terapêuticas, etc.). Pode ser realizada quem domine as técnicas avaliativas e que trabalhe em proximidade e em conjunto com o psicanalista. Sublinhe-se bem que estas duas áreas de investigação não são confundíveis: relacionam-se entre si e pensamos que beneficiam ambas uma da outra. Porém, resultam nitidamente diferenciadas no seu campo e respectivas especificidades.
Leuzinger-Bohleber (2010), numa classificação semelhante, propõe a diferenciação básica entre a investigação clínica em psicanálise e a investigação não-clínica (ausente do setting psicanalítico), e que subdivide em: investigação psicanalítica conceptual, investigação empírica, investigação experimental e investigação interdisciplinar. Estas classificações, advêm de diversas críticas e complexas controvérsias que Teresa Santos Neves explorou no seu importante artigo “Research in psychoanalysis: an area of controversy” (2008).
De um ponto de vista estritamente experimental, a simples utilização do terapeuta como elemento único e crucial para a recolha de dados surge como um contaminador absolutamente indesejável (pela não neutralidade na observação). A utilização de outros recursos técnicos como o vídeo ou a gravação áudio não parecem, no entanto, possibilitar a captação de toda a dinâmica de processos inconscientes que se encontram em comunicação na relação terapêutica, para além de suscitarem inúmeras questões do foro ético.
O esforço para assegurar a confidencialidade e a continuidade da fluidez do processo de associação livre, regra indispensável do processo psicoterapêutico, surge como elemento central na evolução história da investigação em psicanálise.
Se atentarmos aos trabalhos desenvolvidos sobre o estudo do processo terapêutico durante o decorrer da primeira metade do século XX (Leichsenring 2005; Jung et al., 2007; Falkenström et al., 2007; de Maat et al., 2009), podemos facilmente verificar a existência sistemática de um investimento diminuto nesta área. Até cerca de 1960, as investigações resumiam-se quase sempre a meras contagens estatísticas de resultados categorizados em função de diferentes classes de pacientes, e a partir do relato pouco rigoroso da sua evolução.
Surgem posteriormente métodos de avaliação mais complexos, estudados com profundidade e inerentes a um conhecimento conceptual abrangente e bem reflexivo. Os desenhos longitudinais assumiram lugar de destaque e a abordagem dos processos de mudança passou a contemplar a aplicação de instrumentos antes e pós-tratamento, naquela que foi a busca da expressão de uma maior objectividade dos preditores associados ao êxito terapêutico, e sequentemente, como forma de potencializar eficazmente o processo terapêutico. Mais tarde, durante as décadas de 80 e 90, desenvolvem-se processos de análise meticulosos da estrutura psicológica dos pacientes, procurando descrever e avaliar processos de mudança estrutural que acompanham o desenvolvimento
do processo psicoterapêutico. Assim, a abordagem da temática da relação terapêutica ganha nova importância como instrumento passível de operacionalização.
É todavia no presente século XXI que, de forma mais ampla e aprofundada, assumem particular protagonismo os grandes estudos de follow-up que incidem na análise dos processos de mudança terapêutica, bem como nos efeitos da longevidade e intensidade psicoterapêuticas. De facto, os trabalhos de investigação em psicoterapias longas de base psicanalítica são raros, ainda que tenham vindo a ser introduzidos e valorizados de forma sistemática pelo Menninger Project (Wallerstein, 1989; Fonagy & Kächele, 2009). Um dos argumentos óbvios prende-se com o facto de ser extremamente difícil integrar todo um conjunto de princípios metodológicos usualmente utilizados nos estudos sobre a eficácia terapêutica, decorrentes de outras intervenções mais curtas, e portanto limitadas às dimensões temporais dos próprios investigadores. Estes, como bem nos afirma Falkenström (2007) socorrem-se de procedimentos operacionais limitantes no que aos contextos psicanalíticos diz respeito (grupos de controlo, randomização de grupos de população, abordagens de tratamento estandardizadas de acordo com manuais de tratamento, etc.). Mais recentemente, têm surgido grupos de investigadores que, realizando trabalhos naturalistas, têm contribuído com dimensões fundamentais para a clínica analítica (destacam-se os exemplos do STOPP Project na Suécia (Sandell et al., 2000, 2006), ou da OPD Task Force (2008), já a um nível mundial). Tais estudos têm em muito promovido o aprofundamento do processo terapêutico e paralelamente enriquecido a discussão sempre controversa entre a psicoterapia e a psicanálise (Kächele, 2010). Para além da mera remoção de sintomas, têm fundamentalmente realçado as diferenciações constatadas durante um alargado período de tempo pós-tratamento dos pacientes psicanalisados, onde estes parecem mostrar-se mais capazes de, consciente ou inconscientemente, continuar algo inerente ao processo terapêutico, mesmo anos após o seu término. Falkenström (2007) adianta a hipótese de que os pacientes submetidos a psicanálise desenvolvem uma função interna analítica de forma mais evidente do que os sujeitos submetidos a psicoterapia, compreendendo-se assim, como mesmo após o finalizar do encontro terapêutico, e num processo inconsciente, eles dão continuidade ao trabalho de transformação e desenvolvimento mental por si mesmos. Este processo é usualmente compreendido como um produto de processos identificatórios inconscientes à função analítica do
Este processo de interiorização da função analítica tem sido ele próprio muito discutido e interpretado sob múltiplas formas, por vezes até contraditórias. No extremo, Kohut, defendia mesmo que tal não deveria existir pois um paciente “curado” deveria não necessitar de ter esta capacidade de auto-análise. Contudo, mesmo concordando com a importância desta capacidade como critério fundamental para a finalização do processo terapêutico (e discordando claramente de Kohut), não podemos descuidar o facto da operacionalização e avaliação desta capacidade ser extraordinariamente complexo, e sem dúvida controverso (Wallerstein, 1999; Kantrowitz, 1990).
Tal como já sublinhamos atrás, o estudo levado a cabo pela Associação Psicanalítica Alemã defende, a este propósito, que os pacientes que realizam uma psicanálise, cuja frequência de sessões semanais é maior, desenvolvem uma capacidade de auto-análise diferenciada dos sujeitos submetidos a uma psicoterapia (Leuzinger-Bohleber et al., 2003). Sublinhe-se, todavia, que os dados onde fundamentam esta posição carecem ainda de uma maior consistência (Falkenström, 2007).
O estudo sueco STOPP, abrangente e ambicioso na longevidade, tem privilegiado, por seu torno, uma metodologia de natureza quantitativa. Ora, não podemos deixar de notar que muitas das temáticas investigadas, pela sua natural complexidade e subjectividade, resultam pouco acessíveis a uma válida aplicação de questionários e escalas de auto-preenchimento. Assim sendo, as reflexões daí advindas surgem claramente limitadas e condicionadas, posto que mesmo que realçando aspectos importantes, não conseguem, contudo, alcançar dimensões cruciais próprias do campo da terapia psicanalítica. Estes trabalhos quantitativos revelam-se talvez mais úteis no assinalamento de dimensões passíveis de um maior aprofundamento em estudos quantitativos posteriores, potenciando igualmente o desenvolvimento de metodologias específicas, mas rigorosas.
Não obstante todas as dificuldades próprias de um campo de investigação intersubjectivo sublinhe-se como a utilização de metodologias mais elaboradas, com recurso a várias entrevistas (Moustakas, 1994), têm assumido cada vez mais um particular lugar de destaque na investigação de base psicanalítica (Jung et al., 2007), num crescendo de criatividade e enriquecimento científico. Tais estudos têm-se fundamentado em abordagens que permitem o acesso à análise de conteúdos inconscientes através
dos processos transferenciais e contratransferenciais, e onde os sujeitos realcem livremente as representações da sua satisfação e ganhos com o tratamento, as transformações e suas repercussões em múltiplas áreas da vida, bem como ainda a satisfação e relação terapêuticas.
Torna-se portanto cada vez mais premente reforçar-se a necessidade da promoção e ampliação rigorosas dos achados que todos estes estudos têm vindo a consolidar, na vez de uma entrega repetitiva a discussões sobre a exequibilidade da pesquisa em psicanálise ou em terapias de base psicanalítica. Trata-se, sem dúvida, de um campo fértil para a investigação, onde a validação do método e dos pressupostos psicanalíticos pode certamente ser reforçada e paralelamente abrir um espaço relevante para novos dados científicos.
ABSTRACT: The scientific object of study in psychoanalytic theory is discussed. The authors show a historical perspective of the research done on therapeutic process in psychoanalysis and in psychoanalytic psychotherapy. Conceptual and methodological developments in clinical research in psychoanalysis and in non-clinical research in psychoanalysis (empirical and experimental designs) are discussed. The authors present some with critics and some possible solutions.
KEYWORDS: Psychoanalysis; Psychoanalytic psychotherapy; Therapeutic process; Research.
psicanalista, podendo inclusive assumir-se como um critério determinante para o estabelecimento do finalizar do acompanhamento.