Partindo do conceito de “estrangeiro” de Freud, revisitado por Pontalis, a autora percorre um trajecto em que a reflexão pessoal se vai integrando com a clínica psicanalítica, identificando a experiência do “estrangeiro” como facilitadora ou inibidora da experiência criativa. Ao longo deste percurso vai evocando autores como Freud, Winnicott, Pontalis, Bion, Green e Coimbra de Matos. Apresenta exemplos clínicos e termina chamando a atenção para a diferença entre a experiência criativa e os modelos defensivos baseados nos processos de idealização.
Embora o conceito remonte a Freud (refiro-me ao sentido da inquietante estranheza, que Freud dá ao seu artigo “O estranho” (1919), bem como ao sentido do ódio pelo diferente expresso no seu artigo “O mal-estar na civilização” (1929), foi o “estrangeiro” de Pontalis (1988) que me despertou os sentidos e me conduziu à reflexão a que agora aqui vos convido.
Começaria, então, por dizer que foram precisos mais de mil quilómetros de distância da “terra-mãe” para que alguma coisa me ensoalheirasse o espírito – o que, desde já, mostra o quanto a separação e a distância são caras ao retorno ao próprio e à emergência da experiência criativa.
Sentia-me, na verdade, bastante infértil em relação a alguma coisa que evocasse Pontalis e a sua obra e que, ao mesmo tempo, me convocasse o desejo de partilha. Mesmo assim fui fazendo algumas leituras, sem grande fé ou paixão, embora mantendo alguma confiança… Atravessei a longa aridez espanhola sem que nada de novo acontecesse e
Psicanalista. Membro Associado da Sociedade Portuguesa de Psicanálise.
Comunicação apresentada numa Sessão Científica da Sociedade Portuguesa de Psicanálise, em Lisboa a 10 de Dezembro de 2009.
Recebido para publicação em 28.11.2010. Revisão recebida em 16.06.2011. Aceite para publicação em 27.06.2011.
só já completamente envolvida na paisagem francesa, lá para a zona de Perrigout, entre a evocação dos cheiros e dos sabores e a ambivalência posta em evidência pelo contraste entre o prazer de um bom “foie gras” e os processos bárbaros, conhecidos, para o obter; foi então possível rascunhar mentalmente ou, melhor dizendo, ter acesso ao “sumo” (ao “néctar”) de tudo o que agora aqui vos trago.
A primeira leitura a reter da minha viagem é que o estrangeiro não é, obviamente, todo igual – seja pela sua própria natureza, seja pela forma como é abordado. Quer dizer, há uma diferença enorme entre a aridez que evoquei no quase deserto espanhol e a riqueza da diversidade francesa; embora noutras alturas, uma e outra me tivessem mobilizado estados afectivos diferentes. Em todo o caso, no contexto desta viagem, uma e outra evocaram, em mim, sentimentos específicos – neste caso, o bloqueio ou o desbloqueio da minha criatividade ou, se quiserem, da minha capacidade de rêverie.
A questão parece residir no impacto estético (no sentido que Meltzer (1988) lhe deu) produzido pelo encontro entre o estrangeiro e as condições subjectivas inerentes ao sujeito naquele momento; nomeadamente, uma maior ou menor sensibilidade a determinada realidade contida nessa parcela do real vivida como “estranha” ao Eu. Assim sendo, mesmo contextos aparentemente familiares (como é o caso da minha viagem) ou sem impacto estético evidente, podem accionar cadeias associativas, vividas como novas ou mesmo estranhas (quer seja pela mobilização de afectos positivos, quer seja pela mobilização de afectos negativos).
O certo é que, para que tal aconteça, é preciso um certo nível de distância e separação do equilíbrio interno preexistente.
São variadíssimos os exemplos dos conhecidos fenómenos de impasse, cuja resolução passa pela distância do problema a resolver e consequente mudança de perspectiva. Ocorre-me, por exemplo, uma adolescente que segui em psicoterapia, que me contava que para resolver um problema de matemática que lhe parecia sem solução (pois, sem se dar conta cometia sempre o mesmo erro), precisou desistir dele e deixar de o querer resolver para que, subitamente, lhe surgisse a solução. Da mesma forma, todos nós já tivemos a experiência de termos perdido algo que não conseguimos encontrar (a maioria das vezes, porque insistimos em procurar sempre nos mesmos sítios) e de só o encontrarmos quando desistimos de o procurar. Uma mulher que sigo em análise, um dia, até me confessou que só conseguiu encontrar homem quando deixou de o procurar…
Além do mais, esta repetição do erro (que fecha o ciclo vicioso do impasse e do bloqueio) remete, a meu ver, para a tentativa de retomar uma via promissora (embora esta se tenha revelado falhada) de resolver o problema. Refiro-me àquela sensação (mais ou menos consciente) de ficarmos em suspenso, quando a nossa expectativa é frustrada. Acontece, por exemplo, quando alguém nos anuncia (ou nos dá a entender) que nos vai fazer uma revelação – levando-nos a afinar os sentidos para recebermos uma tão preciosa informação – e depois gora as nossas expectativas, falando-nos de alguma coisa que se revela, afinal, banal e sem interesse especial. O resultado é, muitas vezes, sentirmos esta decepção num registo quase corporal (como se não tivéssemos tido tempo de accionar os processos de mentalização) e, no mesmo registo, esquecermos esta informação “frustrante” e funcionarmos como se o outro não nos tivesse dito nada. Por vezes, até voltamos a fazer novamente a pergunta, para ouvirmos um desconcertante “mas ainda agora te disse…” – E tantas vezes a realidade se vai impondo (contrariando o nosso fantasma; pois sem esta afirmação da realidade, a repetição não cederia) que não temos outro remédio se não ceder e integrar a experiência frustrante, desistindo desta fonte – o que se traduz, neste exemplo, em deixarmos de fazer a pergunta…
Este facto é de relevância particular em contexto analítico, onde a repetição (quando acontece) se afigura simultaneamente como resistência e via possível de resolução do impasse. Via esta, que se afirma pela introdução da realidade que, neste caso, é a resposta inovadora do analista que contraria a expectativa inconsciente (inscrita nos modelos relacionais adquiridos com as figuras significativas do passado). Dito de outro modo, só pela superação da repetição – ou, se quisermos, do já conhecido, ainda que estrangeiro ao sujeito – é possível chegar ao desconhecido (novo e disruptivo, estrangeiro, ou não, ao interior do sujeito). Ao estrangeiro da repetição cabe, portanto, ao analista, responder com o seu negativo (no segundo, terceiro, ou mesmo quarto significado do negativo, propostos por Green).
O negativo a que nos iremos referir, neste texto, será, portanto, o negativo entendido nos quatro sentidos propostos por Green (1993) no seu trabalho “Aspectos de lo negativo: Semântico, linguístico, psíquico”, sendo que, no primeiro sentido, o negativo está em oposição ao positivo e a relação entre eles é conflituosa; no segundo, o negativo encontra-se numa relação simétrica, mas inversa, com o positivo – é a acepção que inclui o fenómeno e o seu oposto complementar (tal como o temos na
técnica fotográfica), quer ao nível dos processos internos (e aqui, temos o terceiro significado – e o mais utilizado por Green – em que o negativo tem uma representação latente; algo que continua a existir virtualmente, mesmo quando não é perceptível: é aquilo que se opõe ao manifesto – o recalcado ou pré-consciente), quer ao nível dos processos externos onde se encontra o objecto e se desenha a intersubjectividade da relação. Finalmente, ainda, num quarto sentido, em que o negativo representa o nada (substantivo) e remete para o que nunca aconteceu.
Na mesma linha de pensamento, também sabemos que não são raras as vezes em que só é possível, ao analisando, ir encontrando o seu caminho quando (ele e nós próprios) desistimos de o procurar (e muitas vezes, como sabemos, após um caminho árduo em que os movimentos de repetição parecem perpetuar-se). Só então surgem momentos especiais – na vida como na análise: contextos possibilitadores de sonho, e, nomeadamente, de um sonho com características particulares; uma espécie de sonho sem conteúdo – onde apenas reside a presença ausente do objecto, no sentido greeniano – palco da projecção infinita dos nossos sonhos mais íntimos; ou, se quisermos, uma espécie de ventre mental, pronto a ser fecundado por partículas prenhes de conteúdo, que permaneciam, até então, desligadas e aparentemente sem sentido. “Expectativa vazia”, no sentido bioniano (Bion 1965), ou, melhor dizendo, “pré-concepção confiante”, já que, a meu ver, em condições de criatividade, no lugar do vazio tem de estar a confiança – refiro-me à confiança básica, no sentido que lhe é dado por Erikson (1976, 1987). Creio que era também a este terreno fértil que Bion se referia quando falava em “acto de fé” e na rejeição deliberada da memória e do desejo (Bion 1970). É precisamente sobre memórias e sobre estas condições de emergência do gesto espontâneo – nas acepções de Winnicott (1987) – que pensei propor-vos que pensássemos em conjunto.
O que eu pensei sobre o estrangeiro, é que há pelo menos dois tipos de estrangeiros (ou duas formas de o viver) que se distinguem entre si (isto para não falar nas infinitas nuances que ligam estes dois extremos). Assim, embora ambos contenham a junção entre o idêntico e o diferente; conforme a qualidade do idêntico reactivada, assim predomina a rejeição ou o fascínio perante o estranho (só assim se pode compreender a minha aversão à monótona aridez espanhola e o meu fascínio pelos bosques franceses – uns e outros já tantas vezes percorridos e revisitados por mim e, no entanto, agora vividos como se da primeira vez se tratasse).
Está bom de ver que o primeiro estrangeiro a que me refiro (ou a primeira forma de o viver) evoca em nós tudo o que de dor mental e sofrimento existe; enquanto que o segundo, pelo contrário, evoca tudo o que em nós existe de experiência de prazer, amor e promessa de esperança. Ou, para ser mais específica, o primeiro evoca, algures no tempo, experiências (conscientes, ou não) de rejeição e de desamor (eventualmente, aquela parte do sujeito que foi rejeitada e simultaneamente sentida como diferente do seu objecto de amor); enquanto que o segundo remete para a experiência (também consciente, ou não) de ter sido amado, algures no tempo, sem reservas nem restrições. Quer num caso, quer no outro, não é necessário que haja uma memória imageticamente organizada; ou, para ser mais precisa, não é sequer necessário que a memória exista em termos conscientes. Trata-se, a maior parte das vezes, da emergência de estados afectivos, sob a forma de “feeling memories”, na feliz expressão de Melanie Klein (1957) – uma espécie de proto-memórias, que se difundem e alastram pela totalidade do self, projectando no futuro a continuidade desse estado afectivo. Provocando, no caso da evocação de sentimentos positivos, um movimento ascendente de esperança e no caso da evocação de sentimentos negativos, uma impregnação de angústia (qualquer que seja o tipo de medo), vergonha, culpa ou tristeza. Ou seja, a evocação desencadeada pelo estrangeiro – e conviria aqui reafirmar que para merecer este nome terá sempre que conter o semelhante, mas também o novo, o disruptivo da organização interna do sujeito – esta evocação (como dizíamos) dirige-se, na verdade, grande parte das vezes, aos resíduos primários do nosso inconsciente (ou, se quisermos, ao Inconsciente Primário, tal como Freud (1969, , ) o concebeu).
Esta experiência do estrangeiro, comum a todos nós, traduz-se, portanto, em impressões vagas perante o desconhecido – que depois organizamos, e nos servem o pensamento (naturalmente), mas que, na sua essência, não são mais do que impressões irracionais que se resumem a sensações do género “esta cara agrada-me, ou, não me agrada” (Pontalis, 1991, pgs. 34-46).
A experiência analítica confronta-nos permanentemente com todos estes processos, quer ao nível das vivências fora da análise, quer ao nível dos movimentos transferências e contratransferências. Ouçamos, por exemplo, a voz de um paciente, numa situação de contacto com o “estrangeiro angustiante”: “Ontem fui levar a minha filha ao colégio, e já fui tarde – houve uma série de coisas de manhã que me fizeram atrasar…” – Podemos antever já, no discurso do paciente, um dia a começar
com tonalidade disfórica – “Quando cheguei e entrei, pela entrada que dá acesso ao refeitório, aconteceu-me uma coisa estranhíssima! Fui inundado por uma nuvem de cheiro a comida que, embora normalmente não me seja desagradável, ontem teve o efeito de me pôr, literalmente, dali a fugir! A náusea foi de tal ordem que estava a ver que vomitava! – Não sei o que me deu! Deixei a miúda e fugi dali, com uma sensação de angústia horrível! Fiquei com aquela sensação o dia todo, e só à noite – já tarde, porque não conseguia dormir – me ocorreu o cheiro do meu próprio colégio, quando era criança… e a sensação de abandono que (como sabe) lhe está associada…” – Estamos no pólo angustiante da experiência do estrangeiro, núcleo das fobias e dos ataques de pânico; filão a ser explorado na análise, num contexto transferencial e contra transferencial que permita o contacto com a experiência do estrangeiro que lhe é oposta – construída ou evocada, na análise, conforme os casos – ou, se quisermos, como seu negativo (no segundo e terceiro sentidos propostos por Green (1995a, 1993).
Com efeito, só é possível a boa progressão do processo analítico quando o que predomina (na relação analítica) é o contacto com este estrangeiro libertador – que pode evocar o “semelhante” (o que eventualmente já se viveu), ou que se configura como experiência nova adquirida na análise, mas que (em qualquer dos casos) abre perspectivas ao contacto com o “diferente”. De outra forma, a interpretação será sempre sentida como se de um estranho intrusivo se tratasse (em ligação sináptica directa com os maus objectos internos), incapaz de produzir um efeito estético integrativo e o afrouxamento, necessário, dos níveis internos da organização defensiva.
Assim, na análise como na vida, quando o que predomina é a experiência de repulsa perante o estrangeiro, abrem-se as vias da angústia e da repetição; inevitáveis, mas não suficientes para se compreender e ultrapassar o fenómeno – tal como nos casos de bloqueio ou de impasse, que anteriormente referíamos, também não chega repetirmos sistematicamente o mesmo erro e sistematicamente sentirmos a mesma angústia, se a realidade tem o efeito de confirmar essa angústia. Como já foi dito anteriormente, é preciso introduzir uma mudança de perspectiva significativa; nomeadamente, é preciso que a realidade contrarie o fantasma; assim como é preciso criarmos condições para a apreensão dessa nova realidade. Na relação terapêutica, nomeadamente, é preciso que surja um “terreno de confiança” que possibilite a predominância e integração da Nova Relação. Quando o que predomina é o fascínio, abrem-se as vias
da esperança e da experiência inovadora (sustentada pela Nova Relação, no sentido que lhe dá Coimbra de Matos (1993).
Sílvio é um homem de cerca de quarenta anos, que me procurou há cerca de quatro anos, em grande sofrimento narcísico. Inicia uma análise, manifestando desejo consciente de se compreender e de se “encontrar consigo próprio”, embora nos primeiros tempos, o máximo que consiga seja um discurso “pseudo-próximo” em que exibe uma ágil actividade intelectual. Assemelhava-se bastante aos fazedores de sonhos, descritos por Pontalis (1999), indiciando (ainda seguindo Pontalis (Idem)) um padrão particular de relação com o “objecto-sonho” que, por sua vez remete para uma modalidade particular de relação com o materno, e nomeadamente com o corpo materno – neste caso, marcadamente fálica – situada muito aquém do desejo inconsciente do sonhador “ de manter a impossível união com o objecto primário, de preservar a totalidade indivisa, de mover-se num espaço antes do tempo” (Pontalis, 1999, pg. 32).
Contratransferencialmente, vivia com irritação a falta de espontaneidade e a racionalidade perfeccionista com que cobria longos períodos da análise. E, voltando a recorrer a Pontalis (Idem), vou começando a reconhecer em mim as sensações corporais que denunciam a impotência do movimento: “Paralisia vivida como forçada, que começa por vezes por atingir a pulsação mais «natural» do corpo; respiração contida, músculos abdominais apertados, acabando por conquistar progressivamente toda a superfície” (Pontalis 1999, pgs. 247, 248), bloqueando gestos, ruídos ou qualquer outro movimento.
Procurando entender melhor o que em mim era mobilizado, ou imobilizado, e volvidas as minhas próprias questões internas, vou-me aproximando de um olhar mais lúcido (sobre ele e sobre mim) e consigo libertar-me daquele estado paralisante, aceitando que o processo fosse inteiramente conduzido por ele. Não estava ausente, nem desatenta, mas pouco intervinha, pois sentia que a estranheza do meu discurso, em nada iria contribuir para que algum movimento de mudança acontecesse. De vez em quando surgiam momentos de alguma proximidade; pequenos ensaios de intimidade.
Do discurso defensivo, Sílvio passa, progressivamente, a um queixume interminável, igualmente impenetrável e sem solução. Um dia, já bastante exausto de tanto sofrimento, Sílvio deita-se no divã e diz uma coisa muito simples, que foi sentida por mim como se, pela primeira vez, me tivesse contado um sonho em verdadeira associação livre: “É estranho…
Não sei porquê, assim que me deitei aqui hoje, evoquei imediatamente um cheiro que me provocou um bem-estar enorme, uma enorme sensação de paz, de harmonia interior, de liberdade, de esperança, não sei bem… nem sei bem que cheiro é… mas agora que lhe falo nisto, acho que é uma espécie de mistura entre sabonete e perfume… Uma coisa difusa, não sei explicar bem… parece que desaparece se eu tento explicar…“ – Sensação que nos remete para a vivência de experiência emocional, no sentido que lhe é dado por Bion (1984, 1965): Experiência em O, incognoscível, apenas tangível (mesmo para o analisando); pré-concepções (em si mesmas incognoscíveis) que no instante da experiência se transformam em experiência emocional; não mais pensamento vazio (Kant, 1978), mas antes transformação realizada em função alfa… E que, ao mesmo tempo, também nos faz pensar numa certa ambivalência; como se (inconscientemente) o paciente temesse que o contacto com esta emoção o colocasse numa viagem onde outras emoções (nomeadamente de dor e sofrimento) o pudessem surpreender… Mais adiante revelaremos um pouco mais da história do paciente; o que nos ajudará a compreender melhor este movimento ambivalente e esta fuga inconsciente à tomada de consciência de acontecimentos do passado que se associam a dor e a sofrimento; nomeadamento, a sentimentos depressivos; ao abandono e ao desamparo e ao consequente isolamento defensivo – ”… Não sei bem o que é, nem o que me evoca… Sei apenas isto… Evoca-me alguma coisa de novo e ao mesmo tempo de conhecido… Alguma coisa que me faz sentir esperança… Não sei o que é… “
…É… É uma espécie de “déjà vu”… impressão fugidia que condensa presente, passado e futuro – movimento de identificação e de contacto com o desconhecido2 (onde se funda a identidade); dialética entre identificação e diferenciação, entre ligação e dispersão, entre proximidade e distância; uma rápida incursão a um momento de completude total, de fusão ideal, de encantamento narcísico apaixonado algures vivido com o objecto – encontro criativo com a realidade – nicho da capacidade de sonhar, da criatividade e da verdadeira intimidade… Bem-vindo a terras francas, companheiro do deserto!
Pois bem, deixem-me voltar um pouco à minha viagem – interna e externa, por terras desertas e caminhos incertos – já que estou em
Aqui, o desconhecido é o afecto novo emergente na sessão – como se se sentisse estrangeiro a si próprio – decorrente da experiência emocional de “não exigência” vivida com a analista (o que contraria a exigência vivida com os primeiros objectos de relação, nomeadamente com a mãe).
maré de confissão – deixem-me então contar-vos que o momento de inspiração que me levou a pensar nestas linhas em nada se diferencia do momento de excitação tranquila (como diria Winnicott (1975, 1971)) que transportou definitivamente o meu paciente para novos territórios da análise – Dir-vos-ia até mais – que ao longo da minha vida reconheço alguns destes momentos, em pontos nodais do meu percurso – evoco, por exemplo, algumas das minhas passagens por África, a leitura de alguns livros, algumas passagens simples da vida, ou mesmo alguns momentos da minha própria análise pessoal. Trata-se da emergência de um estado afectivo quase nirvânico (como tão bem descreveu o meu paciente), proveniente de um nível de descontração quase absoluto (conseguido entre nós, ao longo dos áridos anos de análise) – próximo do que os místicos chamaram “estado de graça” – numa área neutra de experiência (como lhe chamaria Winnicott (1975, 1971)); num nível de confiança implícita que permite um contacto novo e descomprometido com a realidade (e aqui talvez valha a pena notar que, tal como para mim França não era estranha, também para ele aquele cheiro de sabonete misturado com perfume não o era – na verdade é o cheiro que o acompanha em cada sessão de análise, quatro vezes por semana, à cerca de quatro anos – dado que a sua sessão é das primeiras da manhã e que eu tenho por hábito tomar banho…). Trata-se, portanto, do encontro fecundo entre os conteúdos internos e as partículas da realidade exterior – simultaneamente de recepção e penetração no meio envolvente.
Claro que aqui conta, não só o reservatório interno como a qualidade do que é exterior – volto a dizer que é diferente estar aterrado no deserto ou embrenhado na floresta tropical, o que quer que seja que cada coisa possa ser para cada um de nós (gostos não se discutem). E é por isso que, numa análise conta, não só as condições de analisabilidade do analisando, como também, as condições de analisar do analista; e finalmente, o que a ambos é possível construir neste espaço neutro que Winnicott (1975, 1971) definiu como espaço transitivo ou espaço potencial e que caracteriza a relação e o processo terapêutico.
Expectativa confiante, descontração máxima, terreno fértil à rêverie, como queiram chamar-lhe: Trata-se, portanto – na vida, como na análise – de um momento de retorno (ou de construção, no caso da experiência analítica) ao que de melhor se viveu com o objecto – movimento em suspenso (nas palavras de Coimbra de Matos (1993) à espera de ser retomado – estado de fusão ideal, mas não maligna (porque não aprisionante – antes, libertadora); junção da união perfeita, com o desejo de
futuro (rumo a novos portos) – memória do passado simultaneamente memória de futuro – momento “mágico” vivido no presente… Não será esta, afinal, a diferença entre a imitação maçuda e enfadonha e o nascimento da verdadeira obra de arte?
E não será esta, também, uma bela medida da nossa capacidade de amar? De nos fundirmos e nos misturarmos no outro, na certeza confiante de nos encontrarmos e de nos reconhecermos nessa mistura? Mesmo que já nem pés nem mãos saibam a quem pertencem? E que importância terá isso, afinal? Quem é que estará realmente interessado em ter dono ou em ser dono do que quer que seja?
E, no limite, não será esta capacidade de fusão, também ela, a capacidade mais radical de desprendimento total? De tal forma que só nos sobra o âmago mais íntimo da nossa identidade? E haverá, afinal, mais alguma coisa que nos faça falta, além disto? Além desta capacidade de nos ligarmos, em verdadeira intimidade, seja qual for a cor do afecto que está em jogo?
Após a evocação do cheiro, Sílvio prossegue a sessão, em tom vivo, mas ainda atordoado, como se tivesse sido surpreendido por si próprio; associando o fenómeno a uma recordação de infância, também ela inesperada e surpreendente. Recorda, então, um episódio em que seria muito pequeno (três, quatro anos) e em que, após o banho, a avó o aconchega na toalha enquanto o seca, colocando-lhe, de seguida, uma água-de-colónia para crianças – e a par com esta recordação, recorda também a harmonia e o amor que o ligava a avó. Pela primeira vez, chora a morte da avó – inesperada e violenta para o seu equilíbrio emocional – teria cerca de sete anos. Desde então, apercebe-se ainda nesta sessão, não mais voltou a sentir a vida como antes: fica numa espécie de indiferença – que se mantém até hoje – e que o impossibilita de aprofundar as relações, fechando-o obsessivamente em preocupações narcísicas (que passaram a reger a sua vida – nomeadamente, uma grande arrogância face aos outros e uma enorme exigência consigo próprio; que o fazem ter o sentimento de viver permanentemente em esforço e sem verdadeiro proveito).
De notar ainda que este paciente sofre uma primeira separação (precoce e traumática) aos quinze dias de idade, quando a mãe (deprimida e imatura) parte numa viagem de dois meses, exausta, por não conseguir cuidar dele; deixando-o com esta avó – o que remete para a teoria do traumatismo cumulativo de que nos fala Masud Khan (1974, 1963).
Perante a perda da avó, que reenvia para esta perda primária – só mais tarde abordada na análise – o paciente fecha-se num movimento
narcísico desobjectalizante (evocando ainda as concepções de Green, 1995a, 1993) e só a partir desta sessão é possível descongelar o desgosto (a morte da avó) e chegar ao núcleo do self verdadeiro (no sentido que lhe dá Winnicott (1983, 1960)). Progressivamente, o luto vai sendo elaborado – as sessões tornam-se vivas e a analista deixa de sentir o incómodo e a impotência que caracterizavam os primeiros tempos da análise – e da elaboração deste luto vão surgindo os afectos congelados e que se mantinham numa parte clivada do self – afectos de amor e de ódio, agora revividos sob a forma de gesto espontâneo (na expressão de Winnicott (1983, 1960)). A nova relação (no sentido que lhe dá Coimbra de Matos (1993) retoma agora a experiência emocional vivida com avó e eventualmente, também, vivida fugazmente com a mãe (numa fase muito precoce do seu contacto com o mundo – um dia?, dois dias?, uma hora? – talvez nunca o venhamos a saber) e brutalmente interrompida (quer num caso, quer noutro) sob a forma de abandono; conduzindo-o ao vazio afectivo preenchido narcisicamente em falso self (Winnicott (1983, 1960)).
Sílvio guardava no seu íntimo mais recôndito este pequeno tesouro, a partir do qual pudemos sair da dura travessia do deserto (para ele e para mim), na direção dos bosques verdejantes que passaram a avistar-se (embora o caminho seja, por vezes, sinuoso e o refugio no deserto seja ainda uma tentação). Ou seja, não obstante a decepção sentida na relação com o objecto (que está na origem do bloqueio da sua espontaneidade) há uma vivência (por mais remota que seja) de satisfação plena; algures vivida com o objecto (à qual procura aceder por caminhos errantes: através da defesa narcísica e marcadamente obsessiva). E é a esta vivência (algures perdida no seu interior, e porque as condições relacionais no contexto analítico assim o permitiram) que Sílvio tem acesso neste momento específico da sua análise – Sonho suspenso, agora em condições de ser sonhado e de evoluir para novos sonhos, porque encontrou um novo objecto (a analista) que lhe permitiu sair da paralisia em que tinha ficado.
Noutros casos, este tesouro tem de ser construído na análise – É o caso das psicoses, de algumas perturbações borderleine ou mesmo das doenças psicossomáticas (como um caso que descrevi noutro trabalho: Gomes, 2011). Nestes casos, será então necessário construir este nicho de sonho, a par com a deflexão da agressividade para os objectos internos frustrantes, desamantes e rejeitantes (necessária, em qualquer dos casos). Será, então, necessário identificar e expulsar o estrangeiro rejeitante do
interior do espaço mental – que significa, retirar-lhe força, e deixar de o ter como foco incompreensível de angústia (que bloqueia e impede o acesso a novas associações) – permitindo que emirja um novo estado de confiança e consequente fascínio perante o (agora também novo) estrangeiro.
Não posso, nesta altura, deixar de evocar o que me dizia um outro paciente – um jovem que sigo em psicoterapia há cerca de três anos, na sequência de um surto psicótico: Ainda em grandes dificuldades de integração, agora que retomou os estudos, dizia-me na última sessão: “Ainda me custa muito sair de casa… ainda tenho muito medo das pessoas e a maior parte das vezes estou a fazer um esforço nas aulas, em vez de estar entusiasmado (como poderia estar, já que sei que as matérias, a maior parte das vezes, até me interessam)… Na última sessão fez-me bem ter-me dito que eu, por vezes, ainda vejo o mundo com os olhos dos meus pais – a exigência do meu pai, por um lado, e o medo e a insegurança da minha mãe, por outro – Pode parecer uma coisa simples, mas isso libertou-me. Nesse dia consegui estar mais à-vontade na escola e ter prazer… Sobretudo, o mais importante é esta descoberta: Realmente, se eu vir o mundo com os meus olhos, tudo muda de figura…”
O “estrangeiro positivo”- quer dizer, o estrangeiro sustentado pela experiência relacional positiva (ora experiência nova vivida na análise, ora guardada no interior do sujeito e actualizada no presente, por oposição ao “estrangeiro angustiante”) será, então, o impacto estético que permite o duplo movimento da projecção da fantasia e da integração de novos elementos à criatividade e à capacidade de brincar (no sentido que lhe deu Winnicott (1975, 1971)) – Movimento libertador que reenvia para a fusão plena e que se movimenta imediatamente para a dispersão sob a forma de “pensamento-sonho” no sentido Bioniano (Bion).
O trabalho da análise residirá, pois, em primeiro lugar, na evocação ou na construção deste núcleo de harmonia, a partir do qual tudo se desenvolve – experiência do diferente (ou do estrangeiro) potenciada em cada nova relação e que, na análise como na vida, terá de ser alimentada para que não definhe ou degenere. Será, então, desse “estranho encontro (…)” entre “dois desconhecidos abertos” aos“ seus próprios desconhecidos” (Pontalis, 1998, p. 269.), que a repetição cederá, dando finalmente lugar à experiência inovadora e surpreendente onde ambos se reconhecem e (re)descobrem.
Uma última nota de reflexão sobre este fascínio perante o estranho (ou perante o estrangeiro, como preferirmos chamar-lhe) reside, evidentemente, na confusão entre este movimento de expansão e a fixação
num modelo de funcionamento que privilegia a idealização como defesa – e que pode até, em casos extremos (casos em que o movimento é despertado, mais pelo negativo do que pela vivência emocional realmente experimentada – o negativo, no quarto sentido que lhe é dado por Green (1995a, 1993)), ser o mote desencadeador da actividade delirante. Exemplo disto, são aqueles pacientes com uma atitude predominantemente contemplativa perante o mundo; muitas vezes fixados num discurso sem conteúdo, esgotado em imagens e afectos difusos (frequentemente sentidos por nós como “lamechas” ou mesmo “pirosos”) – São os doentes que evocam sobretudo contextos e ambientes: por exemplo, paisagens lindíssimas sem as chegarem a descrever; e muito raramente se referem ao contacto e á relação entre as pessoas.
Embora sejam frequentes a descrição de sensações e de impressões; nestes casos, estes momentos não selam a verdadeira intuição nem servem o acesso às representações e ao verdadeiro pensamento – muitas vezes funcionam até como “recordações encobridoras” (Freud, 1969, 1899) – idealizações que escondem uma paisagem bem mais negra.
Aqui, o trabalho da análise será, naturalmente, ir ao encontro do negativo deste discurso (nos quatro sentidos descritos por Green (1995a, 1993)) e, como reflectia Pontalis (1999) acerca dos pacientes “fazedores de sonhos”, também aqui temos de entender a falsa produção onírica como uma forma de desvio e de manipulação instrumental do “objecto-sonho”; cabendo ao analista, portanto, assumir uma postura desencorajadora da defesa – desvalorizando a produção defensiva e orientando a atenção para os pequenos movimentos submersos e só acessíveis ao olhar intuitivo e interessado do analista. A confirmação de que estamos no rumo certo ser-nos-á então dada pelo analisando, que após um primeiro movimento de desconforto, nos mostra o alívio que sentiu por o termos tirado do registo de funcionamento em “falso self” (novamente nas acepções de Winnicott (1983,1960)), brindando-nos com um momento (ainda que breve ou fugaz) de verdadeira intimidade.
Diria, como Pontalis, que por vezes, “o sofrimento é a melhor companhia que poderíamos ter… todo o trabalho da psicanálise consiste em tentar vencer estas resistências e levar, não a uma mudança radical, brutal, como aquela que evoca ”A Metamorfose“ de Kafka, mas a uma forma que vai restabelecer o movimento. – entendendo aqui movimento como equilíbrio dinâmico entre o ”ir“ e o ”voltar“, a ligação e a separação, as identificações e as diferenciações, o ”eu“ e o seu estrangeiro, ou o estrangeiro e o seu negativo…
ABSTRACT: The author goes through a path where her personal reflexion integrates with psychoanalytical practice, identifying the experience of the “foreigner”, from the “foreigner” concept (Freud's (1969, 1919), revisited by Pontalis (1991, 1988)) has an easier or inhibitor of the creative experience.
Along this path, she refers to authors such as Freud, Winnicott, Pontalis, Bion, Green and Coimbra de Matos.
She presents clinical examples and ends pointing out for the difference between creative experience and the defensive models based on idealization processes.
KEYWORDS: Foreigner; Negative; Repetition; Creative experience.