Este manual de técnica psicanalítica tem dois volumes (num total de 456 páginas) e uma pormenorizada bibliografia de 42 páginas, onde encontramos referências a psicanalistas europeus e americanos. Adoptado nos Institutos de formação e terapêutica psicanalítica de quase todo o Mundo, continua actualizado nos seus traços gerais. Continuamos, por isso, a pensar nas vantagens da sua leitura pelos candidatos em formação.
Começa, na “Introdução”, por uma interessante opinião pessoal sobre a relutância que os analistas têm, de um modo geral, em se exporem no seu próprio trabalho. A intimidade do processo, para qualquer dos intervenientes, inclusive o facto do analista se manter atrás do divã, não facilita essa abertura, conduzindo a um certo imobilismo a à tendência a fixar-se numa técnica e numa leitura que não se abre a outras interpretações. O candidato pode ficar demasiado dependente do seu supervisor e acabar por ser uma cópia dele – há candidatos que, ouvindo os seus relatos, quase adivinhamos o supervisor. Portanto, a troca de impressões com outros analistas fora do grupo, sobre a psicanálise, será sempre uma vantagem.
Segundo Greenson “a psicanálise é uma profissão solitária e a pessoa sente-se bem pertencendo a um grupo, mas isto bloqueia e impede o progresso científico porque encoraja o conformismo. Há uma ameaça adicional vocacional na solidão da prática psicanalítica – a ausência, como regra, de outro observador experiente que possa acompanhar a situação analítica à medida que esta vai avançando. (…) O facto de tantos analistas ficarem inibidos, ao discutir publicamente o que fazem nas suas práticas, deixa o psicanalista particularmente propenso a cair numa das duas posições radicais: a ortodoxia ou o sectarismo”.
Os analistas que Greenson mais referencia, remetendo-nos para os seus estudos, são Freud, Edward Glover, Otto Fenichel e Phyllis Greenacre. A sua escola é, portanto, predominantemente europeia, embora fosse membro da LAPSI (Sociedade e Instituto de Psicanálise de Los Angeles), didacta no Instituto de Psicanálise de Los Angeles e professor de psiquiatria na Faculdade de Medicina da UCLA (Universidade da Califórnia, Los Angeles).
Greenson cursou Medicina na Suíça, em Berna, e fez análise com Wilhelm Stekel. Segue o pensamento de Freud e mantém com Anna Freud uma correspondência assídua e de recíproca admiração, chegando a falar com ela sobre Marilyn Monroe, até da sua profunda decepção com o suicídio da actriz.
Nesta altura, em que estamos ainda influenciados pelo desfecho da análise de Marilyn e pelas muitas transgressões às regras ortodoxas de uma psicanálise verificadas nesse processo, poderíamos hesitar em voltar a este autor e a este seu trabalho normativo. Pela nossa parte achámos que Greenson merece esta reflexão. O manual, “A Técnica e a Prática da Psicanálise”, é um livro sério e reflectido. Diríamos mesmo que é um texto muito pensado e baseado numa sólida experiência clínica com muitas e oportunas vinhetas clínicas.
O primeiro volume tem três capítulos (“Exame dos conceitos básicos”, “Resistência” e “Transferência”) e aborda questões fundamentais da teoria psicanalítica. É, fundamentalmente, uma teoria da prática, exposta de forma muito clara, embora, por vezes, os inúmeros exemplos o possam tornar fastidioso. Neste primeiro volume Greenson começa por definir a psicanálise como uma terapia que caminha no sentido inverso das terapias até então utilizadas por Freud; sem recurso à hipnose e à sugestão e antes com o objectivo de revelar ao paciente os conteúdos dolorosos e frustrantes tornando-os conscientes. Esses conteúdos estavam reprimidos e apenas se revelavam por resistências e actos falhados, sendo que a sua exclusão da consciência era relacionada com o facto de provocarem dor, angústia e mal-estar. Os conteúdos dolorosos, sobretudo esses, devem ser arredados da consciência. O autor enfatiza a associação livre como a regra fundamental da psicanálise. Através da confrontação, do esclarecimento e da interpretação (que o analista propõe e deve ser aceite pelo analisando), seguidos de uma elaboração (à qual Greenson chama “aliança de trabalho”), vai constituir-se a integração que permite o avanço da psicanálise. Esta etapa indispensável deve ter a participação do par analítico. O acesso ao Eu racional faz-nos admitir uma análise talvez demasiado intelectualizada. Se esta descrição não é muito original, a verdade é que é muito pedagógica.
No segundo volume Ralph Greeenson trabalha de forma exaustiva as reacções transferenciais, desde as transferências como resistência às diversas modalidades que podem desenvolver-se na situação analítica: positiva, negativa, amorosa, erotizada. Aborda, também, embora já nos pareçam mais antiquadas, as classificações da transferência em relação à estrutura (Supereu, Id e Eu) e em relação às fases libidinais (oral, anal, sadomasoquista, fálica, etc.). Ainda relativamente às reacções transferenciais, fala do acting out e do acting in.
Na interpretação da transferência Greenson chama a atenção (evidenciando um particular cuidado) para a avaliação da capacidade que o paciente tem em tolerar a dor mental. Há um grande respeito pelo analisando e chega a explicar que nem sempre responderá as suas perguntas directas. Trabalha ainda e analisa o modo como analisando vivencia os fins-de-semana, as férias e as faltas; ou seja, aprecia e lida com o problema tão importante da separação.
Descreve, finalmente, o que chama de transferências intratáveis – pomos a hipótese de que, neste ponto, possa estar a referir-se a Marilyn, embora não o afirme expressamente. Nas suas palavras: “Em ambos os casos de mulheres, desde as entrevistas preliminares, tive a impressão clínica de que estava lidando fundamentalmente com uma mistura de elementos neuróticos – depressivos e
histéricos. As duas pacientes pareciam relacionar-se adequadamente comigo nas entrevistas iniciais.
Não consegui descobrir nenhum defeito importante no funcionamento do ego; pareciam interessadas do ponto de vista psicológico, eram imaginativas, tinham uma boa lista de realizações, vida social adequada, etc. Os dois casos incluíam dificuldades sexuais e vida amorosa insatisfatória em seus casamentos, tendência para fantasias obsessivas de ciúmes, promiscuidade e problemas para dormir. As duas pacientes desenvolveram uma transferência sexual muito forte por mim nas primeiras sessões em que ficaram deitadas no divã Seus sentimentos impressionavam pela intensidade e primitivismo. Em ambos os casos tive muita dificuldade para conseguir que a paciente trabalhasse com esse material. (…) Se concordavam com uma interpretação era mais uma forma de me fazer parar de falar. Vinham ansiosamente para as sessões, mas não em busca da compreensão interna mas unicamente para usufruir da intimidade física. As minhas intervenções pareciam não ter importância para elas.
De início, achei que estas pacientes tinham desenvolvido uma transferência erótica, aguda, intensa e muito regressiva. Mas não consegui manter uma aliança de trabalho. As suas reacções transferenciais eram totalmente egossintónicas e não se submetiam à auto-observação. Pude perceber um desespero nas declarações de amor que me faziam. O que parecia uma paixão sensual dava mais ideia de uma fome premente e corrosiva. Seus sentimentos a meu respeito não eram simplesmente distorcidos neuroticamente mas sim de uma ansiedade terrível. Em qualquer dos casos, percebi que a paciente estava prestes a cair no abismo do amor homossexual pela mãe. Havia perda dos objectos internos. Em pouco tempo percebi que a minha avaliação inicial destas pacientes tinha sido um erro. (…) Do ponto de vista de diagnóstico percebi que estas pacientes não podiam ficar expostas aos rigores de uma psicanálise clássica. Precisavam de uma psicoterapia que não ameaçasse o equilíbrio defesa-instinto. Tentei reforçar aquelas oferecendo-me como ego auxiliar e as sessões eram realizadas face-a-face. Transformei-me em mentor e guia das pacientes.“
Embora Greenson não identifique as pacientes, não erramos muito ao admitir que uma delas poderia ser Marilyn Monroe.
O autor termina o segundo volume com uma interessante exposição sobre a situação psicanalítica e o que ela exige do paciente e do psicanalista. O primeiro passo é avaliar, nas entrevistas preliminares, a motivação do paciente, bem como a sua capacidade para tolerar a dor mental e a frustração que se espera da situação analítica. De um modo geral considera que aquilo que se põe em jogo é a capacidade para melhorar a flexibilidade de assumir as funções antitéticas do Eu – ou seja para regredir e progredir, para ser passivo e activo, perder temporariamente o controlo, renunciar ao teste da realidade e poder mantê-lo. O paciente deve ter capacidade para suportar a incerteza, as ansiedades, as frustrações e as humilhações que vão surgindo no decurso da psicanálise.
Em relação ao analista espera-se que seja inteligente, com bom nível cultural, acessível à leitura do Inconsciente, que utilize uma linguagem clara, capaz de fazer uso do silêncio, com boa entoação e ritmo e sabendo lidar bem com a empatia e intuição, qualidades de que geralmente é dotado.
Chegamos a “algumas forças inconscientes importantes que têm influência para motivar uma pessoa para escolher uma carreira em que uma das funções mais importantes é a de ser o colector e portador da compreensão (…). As gradações de neutralização vão decidir até que ponto a função de servir de portador da compreensão pode transformar-se num função do Ego digna de confiança, autónoma e relativamente livre de conflitos”. Por exemplo, acha que não importa que a transmissão de compreensão para o paciente signifique alimentar, nutrir, proteger ou ensinar para o analista: “O que é importante é que alimentar, nutrir, proteger ou ensinar esteja livre das suas conotações sexuais ou agressivas, e, dessa maneira, não seja nem indevidamente excitante nem causadora de culpa.
O analista é uma reminiscência da mãe, da intimidade corpórea, assim como o representante das fantasias sadomasoquistas envolvendo tanto o pai como a mãe.
É principalmente a dedicação subjacente ao dever de ajudar e curar a pessoa doente que permite ao analista conservar a preocupação emocional e compaixão pelo paciente, sem se tornar superprotector como uma mãe ou sem compromisso como um investigador. A atitude tipo médico implica uma percepção constante (…) da situação desamparada e dolorosa do paciente assim como um respeito pelos instrumentais, procedimentos e processos que são necessários para os resultados terapêuticos. O médico merece muito mais confiança ao avaliar a dose de sofrimento que o seu paciente pode suportar do que o pai, a mãe ou o investigador. (…) Acho que o analista ideal é uma figura paterna do tipo mãe ou uma figura materna do tipo pai, sendo que a dualidade existe em relação às funções como uma característica sexual. O terapeuta analítico deve estar num contacto empático (tipo maternal) muito estreito com os seus pacientes para promover as suas potencialidades, proteger os seus direitos e dignidade, saber qual a diferença entre gratificações prejudiciais e inofensivas, os limites da tolerância à frustração nos pacientes e estar disposto a esperar anos e anos pelos frutos dos seus esforços. Como terapeuta ele também deve ser capaz de manter a distância entre ele próprio e o paciente, para que possa investigar os dados do paciente, isto é, recordar, seleccionar, pensar, julgar, teorizar e especular sobre eles. Acima de tudo o terapeuta deve ser capaz de ter um acesso fácil tanto às posições como mãe quanto às posições quanto investigador e deve ser capaz de intervir ocupando essas duas posições“.
Corre uma piada com muitas parcelas de verdade sobre essa questão: “o que é um psicanalista? É um médico judeu que não pode ver sangue!”.
Na sua análise pessoal ou em novas tranches que venha a fazer, o analista vai-se consciencializando de motivos mais profundos que estejam a interferir nos movimentos transferenciais ou contratransferenciais das análises que segue.
Celeste Malpique
Membro Titular e Didacta da Sociedade Portuguesa de Psicanálise.
Nota: Este livro encontra-se disponível na biblioteca da Sociedade Portuguesa de Psicanálise.