O livro “Bion today”, publicado pela Routledge em 2011 e editado por Chris Mawson, consta de 6 grandes secções: 1 – Introdução a Bion; 2 – Principalmente conceptual; 3 – Principalmente clínica; 4 – Estética; 5 – Mentalidade de grupo e 6 – Bion tardio.
Estas secções desdobram-se em 21 capítulos (a que se adiciona um apêndice com a bibliografia de Bion) que colocam, lado a lado, um total de 21 autores: 14 britânicos, 4 norte-americanos, 1 argentina; 1 italiano e 1 belga. Por conseguinte, o livro pode considerar-se uma aproximação às formas que a apreensão do pensamento bioniano hoje reveste no mundo anglo-saxónico, sobretudo na psicanálise britânica. O editor adverte-nos de que muitos dos capítulos não foram originalmente escritos para esta colecção.
O livro pretende explicitamente mostrar como “o trabalho de Bion é hoje utilizado na clínica”, quais os “fenómenos que se tornaram mais compreensíveis através das lentes dos seus conceitos” e “quais as ideias de Bion que são hoje melhor compreendidas e quais as que, nesta fase, permanecem mais opacas”.
Na Introdução feita pelo editor, que compreende a apresentação dos vários capítulos do livro, somos levados a interrogar-nos sobre se as ideias de Bion constituíram uma ruptura com a psicanálise que o precedeu ou se, pelo contrário, evoluíram mais na continuidade e na reformulação do trabalho desenvolvido pelos analistas kleinianos que se dedicaram à análise de doentes psicóticos, nos anos cinquenta do século passado (H. Rosenfeld, Henry Rey, Hanna Segal). A resposta do editor, embora refira as perspectivas contrárias de Symington & Symington, 1996, Ferro, 1999 e Grotstein, 2007, particularmente no que respeita ao conceito de O, inclina-se para a segunda hipótese. E fundamenta esta posição no que concerne, entre outros, aos conceitos de contra-transferência e enactment (pôr em acto), citando vários autores.
No segundo capítulo, “Quem é Bion?”, da responsabilidade de Edna O'Shaughnessy foca-se sobretudo a obra e não o autor, Bion. A autora deste capítulo, como aliás uma boa parte dos outros autores dos vários capítulos, identifica-se mais com as ideias de Bion que estão em estreita conexão com o legado dos empiristas britânicos, que considera mais conectadas com a clínica (textos até final do década de 60, do século passado). A vertente empírica, tão fundamental na psicanálise, é tomada como a vertente clínica por excelência, colocando esta autora reticências em relação ao conceito de O (realidade última) e aos autores que, fundamentando-se nos conceitos
de fé e experiência mística, na obra de Bion, quanto a ela, entendem a terapia como “uma forma de oração”.
Chamando a atenção para o facto de os textos de Bion não serem “textos sagrados”, reclama para o conjunto dos psicanalistas o direito de os interpretar.
Na secção Conceptual, James Fisher assina o terceiro capítulo intitulado “A experiência emocional de K”. Considera que a experiência emocional de sentir curiosidade, no primeiro Bion, evolui posteriormente para o vínculo K (knowledge), “um vínculo emocional” à partida intrigante (qual é a experiência emocional inerente ao vínculo K?). Sublinha a importância de conceber o “continente-em-K”, se se pretende considerar o continente como uma dinâmica ao serviço do desenvolvimento.
Segundo este autor, o que Bion designou como menos K será fundamentalmente um ataque ao estado-emocional-K (que tenderá a fortalecer o princípio da realidade) pela intrusão de L/H (procura do prazer e fuga ao desprazer) que pode ter o efeito de contaminar e dominar o impulso para conhecer (K).
Revendo o percurso conceptual do instinto epistemofílico (Freud e Klein), da pulsão para o conhecimento (Britton), a da pulsão para a verdade (Grotstein), o autor coloca a curiosidade, desde que conserve “uma estrutura lógica”, como a “base instintiva” da “razão”. Só “querendo saber o que é verdade” podemos colocar o impulso para saber (a curiosidade) fora do domínio do princípio do prazer.
De acordo com Bion, se o objecto rejeita (não contém) a identificação projectiva, ao serviço da comunicação, impossibilita o exercício da curiosidade, o acesso a K e a aprendizagem. A procura da verdade a qualquer preço traduzir-se-ia, então, na arrogância. James Fisher procede a uma revisão dos textos de Bion para tornar saliente a progressão deste autor, na definição do continente que é, por fim, plenamente dotado da capacidade para simbolizar e sobretudo de “permanecer-em-K” apesar da experiência emocional (turbulenta e/ou tóxica).
Não são contempladas, neste longo capítulo, as formas como Bion concebia a ligação de K com O. Embora Bion venha a conceber a psicanálise como uma das formas de apreender O (a realidade última que só “acidentalmente entra no domínio da aprendizagem e do conhecimento”, podendo “ser sida”, mas não conhecida1), Fisher entende a psicanálise como uma experiência emocional de K (conhecimento).
O quarto capítulo tem por título “O princípio do prazer, o princípio da realidade e o princípio da incerteza” e é assinado por Ronald Britton. O autor investiga com profundidade a influência que os modelos adoptados na física podem ter tido nos modelos psicanalíticos.
Segundo este autor, não podemos prescindir do conceito de princípio do prazer, mas podemos e devemos prescindir do princípio do prazer acoplado à perspectiva económica.
Com a abolição da influência de Fechner (a que Freud terá procedido em 1924) poder-se-á então considerar o princípio do nirvana “em bases analíticas”. Todavia, acrescenta, seria irónico que, ao tentarmos ver-nos livres do determinismo
(1974, 1970). L'attention et l'interpretation. Une approche scientifique de la compréhension intuitive en psychanalyse et dans les groupes. Payot: Paris. Tradução da edição inglesa.
inerente à velha física, tivéssemos que cair num idealismo subsidiário do princípio da incerteza de Heinsenberg. Segundo Britton, Bion terá enfatizado a importância do princípio da incerteza e, com isso, para além de facilitar a mudança das “leis do determinismo físico para as fórmulas probabilísticas” no que à psicanálise diz respeito, terá encorajado alguns seguidores, a que, a coberto da valorização da “realidade última”, promovessem o retorno do “religioso reprimido” e uma forma de escapar à frustração que o princípio da realidade impõe.
Contudo, Britton refere que “há tempos em que o princípio da realidade é o princípio da incerteza”, esses tempos serão os da “posição pós-depressiva”, que este autor aproxima da fase pós-paradigmática de Kuhn. Entende que “a probabilidade é necessária: pode chamar-se-lhe fé.” Fé “em que as coisas fazem sentido, embora ele possa ser desconhecido”.
“Bion: o fenomenologista da perda” é o título do capítulo seguinte, da autoria de David Bell. Bion será “um retorno inglês a Freud” através de um pequeno número de textos freudianos que, através dele (Bion), ganham referência clínica embora fossem tidos por abstractos e teóricos.
A subtileza da observação fenomenológica bioniana expressar-se-ia na distinção entre ausência do objecto e consciência da ausência do objecto para o sujeito, sem a qual não se distinguiria um facto externo de um “fenómeno endopsiquíco”. Da mesma forma, não deve confundir-se experiência de satisfação e consciência de que o desejo foi satisfeito, que atesta a presença de actividade reflexiva.
Lançando mão de curtas vinhetas, mostra como as ideias de Bion podem ser esclarecedoras e úteis na prática clínica.
Por fim, chama a atenção para algumas formas que podem determinar a degradação da teoria do pensamento e das contribuições técnicas de Bion em dogmas estáticos e práticas de rituais, tendo por base pensamentos religiosos mágicos e moralistas. Em suma, pugna por uma actividade de pensar que passe pela função alfa do analista e não seja apenas uma roupagem em segunda mão que “degrada e ritualiza a prática analítica” e a supervisão.
David Taylor é responsável pelo capítulo intitulado “Antecipação e interpretação”. Explora a “dinâmica da atenção” do analista e a conexão existente entre consciência (ou sua perturbação) e passividade profundamente situada no self, e enfatiza a importância de que o analista esteja atento a ponto de poder captar quais os fragmentos da personalidade do sujeito, dispersos pelos seus objectos, que contêm partes da personalidade essenciais para a reintegração do self.
A secção conceptual termina com o interessante capítulo “Ciência e ficção no campo analítico”, assinado por Lia Pistiner Cortiñas.
A transformação dos factos em narrativa (ficção) envolveria o desenvolvimento da capacidade para sonhar o material suscitada na sessão e daria origem a um processo de externalização de conteúdos “pré-natais” do paciente para continentes mais apropriados (apresenta pacientes com sintomas psicossomáticos, actings, etc.). Mediante a instituição do jogo e de dramatizações entre personagens criadas a partir do mundo interno (a culpa pode ser um personagem), a autora mostra como é possível criar novas associações num espaço mental expandido.
A secção clínica começa com um capítulo intitulado “Implicações clínicas do pensamento de Bion”, da autoria de Antonino Ferro. Das implicações elencadas para a clínica destacam-se: a) o pensamento onírico da vigília que permite monitorizar o estado do campo analítico, da relação terapêutica e do aparelho mental que pensa o acontecido na sessão e b) o jogo permanente entre identificação projectiva e rêverie. Todas estas implicações são suportadas por vinhetas clínicas que iluminam as afirmações do autor.
No capítulo seguinte, “Relacionando-se com o super-ego”, Edna O'Shaughnessy propõe-se investigar um conceito bioniano particular (“ego destrutive super-ego”) através de auxílio de material clínico referente a dois casos.
“A consolação que se retira da verdade: a análise de um paciente incapaz de sofrer a experiência” é o título do capítulo assinado por Howard Levine.
James Grotstein escreve um brevíssimo capítulo de 3 páginas, intitulado “Vinheta clínica incluindo as ideias técnicas de Bion”. Este autor tem a particularidade de se referir às transformações de O em K.
No capítulo seguinte, elaborado por Judith Mitrani, “Suportando a transferência: algumas implicações técnicas em três artigos de Bion”, a autora, através de vinhetas clínicas muito esclarecedoras, dá a entender como, segundo Bion, o ênfase em sentir e não fugir da experiência emocional da sessão era “a teoria”.
Na secção Estética, o primeiro capítulo, da autoria de Anna Dartington, “W. R. Bion e T. S. Elliot”, aproxima estes dois autores no que respeita a características de personalidade, mas também em relação a muitos outros assuntos como seja, por exemplo, a questão da temporalidade e a forma como entendem a vivência do tempo.
O segundo capítulo desta secção, intitulado “As transformações de Bion: arte e psicanálise” é assinado por Janet Sayers e, além de prodigalizar inúmeras reproduções de aguarelas de Bion, parte de muitas das analogias que nos legou entre o trabalho de esvaziamento da mente do pintor e do psicanalista, no tratamento da percepção, para poderem chegar a produzir a sua obra e interpretações.
Na riquíssima secção dedicada à mentalidade de grupo, que abre com um capítulo de David Armstrong (“A pluralidade da experiência”), merece destaque o capítulo de Caroline Garland, “Terapia de grupo: o mito ao serviço do [grupo de] trabalho”. Com o objectivo de mostrar como um grupo passa do uso predominante dos pressupostos básicos de Bion, para a mentalidade de grupo de trabalho, a autora percorre minuciosa e vividamente várias semanas do trabalho com um grupo em crise, facultando dados da vivência grupal, actings e interpretações produzidas.
Robert Lipgar no capítulo “Aprendendo com o legado de Bion aos grupos”, faz uma revisão sobre as críticas publicadas ao trabalho teórico de Bion, enquanto terapeuta de grupos, e confronta-as com os resultados das investigações levadas a cabo na instituição em que trabalha em Chicago.
“Material clínico esquecido no Experiências em grupos de Bion”, da autoria de John Gordon contém referências e comentários numerosos àquele texto tão divulgado de Bion e apresenta material clínico de uma sessão de grupo.
No primeiro capítulo da secção sobre O Último Bion, “A aproximação crítica de Bion à psicanálise”, Rudi Vermote incide
sobre o conceito de O e no “tornar-se O” através da experiência emocional, sobre o objecto psicanalítico, bem como sobre o conceito de fé e na forma como Bion entende a verdade, em psicanálise. É o único autor a aventurar-se, numa brevíssima passagem, a discorrer sobre a grelha de Bion, de forma controversa, creio, dado que a aplica também ao material da história clínica e não ao discurso do paciente na sessão.2
“Da semelhança à identidade”: a narrativa interna de uma hora de cinquenta minutos“, de Margot Waddell é um dos capítulos com material clínico mais interessante. Numa única sessão, de reencontro após a interrupção de férias, salta diante de nós a ”tessitura dos pensamentos através do trabalho de sonho na vigília, na sessão analítica“.
Utilizando com profusão materiais provenientes do livro de Bion com o mesmo título, Meg Harris Williams, por fim, no capítulo “Padrão subjacente na Memória do Futuro de Bion” apresenta-nos um capítulo de introdução à leitura deste livro difícil.
Concluindo, diríamos que Bion Today é um livro sobre o pensamento de Bion que convive razoavelmente bem com as duas fases iniciais das publicações do autor (sobre grupos e clínica de psicóticos)3 e não tão abrangente, em termos das consequências para a clínica, das duas fases posteriores: epistemológica e mística (continuando a seguir a sistematização de Grotstein). Compreende-se, dado que essas fases posteriores foram aquelas a partir das quais Bion se distanciou dos britânicos e da Grã-Bertanha.
Assinalam-se as magníficas ilustrações clínicas das ideias de Bion de Margot Waddell, de Judith Mitrani e de Lia Pistiner Cortiñas (sessões individuais), bem como a já salientada de Caroline Garland (de grupo).
Muito útil se torna também o capítulo de introdução à leitura de “Uma Memória do Futuro”.
Além disso, em artigos riquíssimos, como por exemplo o de David Bell, que não é caso único, vemos um trabalho conseguido para extrair do Bion empirista e fenomenologista todas as virtualidades que pode permitir na clínica, colocando simultaneamente sob escrutínio o Bion místico, para o qual este autor pretende colocar os leitores de sobreaviso dada a degradação do pensamento a que, segundo diz e provavelmente com fundamento, a vulgarização das ideias de Bion poderá conduzir (no caso do leitor menos exigente).
Como pensar as contribuições do último Bion parece continuar a ser um desafio para a Psicanálise contemporânea.
Por tudo isto e pelo estímulo que constitui para pensar com Bion, pensando com os autores que deram, através dele, a sua contribuição, o livro Bion Today é uma excelente ocasião para revisitar ou visitar pela primeira vez este sentidor/pensador do campo psicanalítico.
Cristina Fabião
Membro Titular e Didacta da Sociedade Portuguesa de Psicanálise
Nota: Este livro encontra-se disponível na biblioteca da Sociedade Portuguesa de Psicanálise
Sandler, P. Um Grid Tridimensional. Conferência proferida na Sociedade Portuguesa de Psicanálise. Lisboa: 2004, p.1.
De acordo com a sistematização de Grotstein (, ): Um facho de intensa escuridão. O legado de Wilfred Bion à psicanálise. Porto Alegre: Artmed, p. 63. Tradução da edição inglesa.