Este artigo técnico, de rigoroso recorte teórico e epistemológico, é, como o próprio autor indica, a versão corrigida e ampliada de um capítulo do seu livro sobre “Entrevista e Indicadores em Psicoterapia e Psicanálise”, e de uma Conferência que realizou no Instituto de Formação e Terapêutica Psicanalítica do Porto, à qual tive o gosto de assistir e que foi complementada por uma riquíssima ilustração clínica, que serviu, nessa ocasião, de “fils rouge” para um debate esclarecedor sobre algumas das hipóteses mais interessantes do seu excurso teórico-técnico sobre a delimitação metodológica do processo terapêutico em cada uma das diferentes modalidades de tratamento psicanalítico que a sua taxonomia compreensiva nos propõe (psicanálise, psicoterapia psicanalítica, psicoterapia breve psicodinâmica, psicoterapia de apoio e entrevista psicoterapêutica“).
Na senda do famoso manifesto em prol da pureza do método que o Mestre de Viena, e fundador do Método, S. Freud, proclamou em 1919 no Congresso de Budapeste (que aparece transcrita na primeira página da “Introdução”), Pérez-Sánchez conduz-nos por um texto bem sistematizado e actualizado, em que procura escapar a um esquematismo seco e redutor (a que as 3 tabelas em que sintetiza os eixos temáticos da sua abordagem – “método e enquadre”, “tempo”, e “objectivos e processo” – poderiam expor o leitor), no qual faz a defesa de um emprego rigoroso e coerente da técnica psicanalítica, a fim de que o “metal” utilizado nas “psicoterapias derivadas” da psicanálise seja “tão nobre” como aquele que é utilizado na psicanálise, e que seja evitado, da sorte, o recurso a “formas espúrias de práticas psicoterapêuticas e psicanalíticas que dão lugar a pseudopsicanálises e pseudopsicoterapias”.
Membro Titular da Sociedade Portuguesa de Psicanálise.
Recebido a 7 de Março de 2013.
Este seu propósito é desenvolvido num texto pedagógico, também marcado pela cuidada definição dos conceitos a que recorre, no qual começa pela descrição das condições que, em sua opinião, são comuns a todas as formas de tratamento psicanalítico (“observação, ou “escuta”, psicanalítica”, “estabelecimento do setting”, “compreensão e elaboração das vicissitudes do vínculo entre terapeuta e paciente”, “valorização do “aqui e agora” na situação terapêutica” e “trabalho interpretativo”), embora doseadas de modo diferente, em função da maior ou menor profundidade da modalidade psicoterapêutica em causa, para depois desenvolver a sua argumentação, também a tese central do seu texto, em favor da especificidade da psicanálise (o “ouro”, metal precioso por excelência), relativamente às formas de tratamento mais operativas, mas não menos valiosas quando bem “cravejadas”, a saber, a psicoterapia psicanalítica (a “prata de lei”) e a psicoterapia breve psicodinâmica (o “cobre autêntico”).
O autor toma a compreensão e, sobretudo, a interpretação da transferência, a um tempo, como “denominador comum” e “instrumento técnico distintivo” do tratamento psicanalítico, sendo as variações da profundidade, do alcance e da amplitude desta última competência psicanalítica a “marca de água” da distinção que estabelece entre as diferentes formas de tratamento acima enunciadas. A esta competência terapêutica associa, ainda, a organização do setting (nos seus aspectos formais e materiais, isto é, com base em critérios externos como o uso do divã e a frequência de sessões) e os objectivos e alcance da mudança psíquica.
Tendo a teoria de relação de objecto como “bússola”, mas atento ao legado técnico e ético de Freud, Pérez-Sánchez centra-se na concepção do processo psicanalítico como agente de transformação da mente do paciente para delinear as diferenças entre psicanálise e psicoterapias psicanalíticas, segundo cinco eixos, ou argumentos: o trabalho de escuta e interpretação do material inconsciente (mais profundo na psicanálise, já que está em condições de aceder e interpretar os aspectos primitivos/“arcaicos” e psicóticos, e não apenas actuais, da transferência do paciente, em função da frequência das sessões, superior à metade dos dias de semana, e uso do divã); o nível de identificação da, e de resposta à, resistência psíquica à mudança por parte da mente do paciente; a amplitude e alcance do confronto com o sofrimento implícito à mudança psíquica (distinguindo, neste particular, o âmbito amplo da mudança psíquica acessível à psicanálise dos âmbitos “zonal”, para a psicoterapia psicanalítica, e “focal”, para a psicoterapia breve psicanalítica, que estão
circunscritos a áreas relacionais e a processos mentais pré-conscientes e/ou conscientes); o campo do observável, que refere em analogia à noção bioniana de vértice de observação (e elaboração) do material psíquico trazido pelo paciente à sessão; e, o trabalho de elaboração por parte do paciente, a partir das condições de “insight” oferecidas pelo analista/psicoterapeuta.
Em relação aos dois últimos argumentos, realço, por um lado, a delimitação de um vértice “intrapsíquico”, específico à psicanálise, relativamente aos vértices “transferencial” e “defensivo”, acessíveis às outras formas de terapia psicanalítica, e isto, sempre de um modo que é norteado tanto pelas condições do setting, como pelo âmbito da mudança, mais ou menos circunscrita, isto é “zonal” ou “focal”, que são inerentes à interacção face-a-face entre terapeuta e paciente (a este propósito, Pérez-Sánchez valoriza o papel terapêutico que podem ter quer a interpretação transferencial “extraterapêutica”, quer intervenções como a clarificação, o confronto e o apoio empático, mais próximas, estas últimas, dos planos pré-consciente e consciente da relação terapêutica).
Se bem que inscrita numa leitura dinâmica da relação entre analista e paciente, esta perspectiva afasta-se das correntes intersubjectivistas e relacionais (em particular destas últimas), já que toma o setting como condição objectiva da relação analítica, e não como entidade estrutural, intersubjectiva, da relação contratransferencial/transferencial do par psicoterapêutico (uma posição atinente quer com as formulações técnicas e éticas de autores como Ogden, Ferro, ou Donnet, mais próximos do legado tácito de Ferenczi e de Winnicott, e dos aportes dos Baranger à relação psicanalítica como campo bipessoal, quer à hipótese de um “aparelho psíquico em comum” ao par analítico que venho desenvolvendo há alguns anos a esta parte).
Por outro lado, e em coerência com a sua perspectiva técnica, Pérez-Sánchez advoga que tanto o trabalho de elaboração psíquica do conflito interno, como a interpretação transferencial, potencialmente mutativa, dos aspectos primitivos (“arcaicos”) e psicóticos da mente do paciente, isto é, os “objectivos analíticos” do tratamento, são apanágio da psicanálise (o que é coerente com a colocação maiêutica do trabalho de perlaboração psíquica proporcionado pela relação analítica), enquanto os “objectivos terapêuticos” (melhoria sintomática e certo grau de mudança relacional) seriam apanágio das psicoterapias psicanalíticas (com excepção da psicoterapia de apoio e da entrevista psicoterapêutica). E o mesmo posicionamento teórico subjaz à diferenciação entre “processo psicanalítico”
e “processo psicoterapêutico” com que conclui este interessante contributo à teoria da técnica psicanalítica, sendo ainda de realçar, neste particular, a importância que atribui aos processos de vinculação e de separação do objecto como eixos estruturantes do processo psicanalítico.
Em suma, entendo que este excelente artigo, para além da sua dimensão pedagógica, constitui um interessante ensaio de clarificação sobre a prática terapêutica da psicanálise, numa época marcada quer por mudanças sociais aceleradas, com impacto significativo nos equilíbrios psíquicos e relacionais do individuo contemporâneo, quer por novas formas de apresentação e expressão do sofrimento mental que nos desafiam a investigar e fazer evoluir, cada vez mais, as nossas práticas psicoterapêuticas, sem perder de vista o inscriptio epistemológico da teoria psicanalítica.