Este livro, primeiramente editado em inglês, pela Yale University Press, em 1998, pode considerar-se um trabalho de Psicanálise Aplicada, procurando, através da análise da vida e mundo interno do autor, chegar a compreender a relação existente com a sua obra. Neste caso, o autor é Freud. E a análise procura circunscrever-se à “influência da Bíblia e das histórias sobre Deus na mente de Freud” no contexto do Judaísmo de então.
Trata-se de um livro denso, no qual o método psicanalítico é rigorosamente aplicado a material e episódios da vida de Freud e da sua família, mesmo antes do seu nascimento. Tal trabalho conduz a autora, ao integrar novos dados, a uma re-análise de sonhos de Freud que constam do livro A interpretação dos sonhos, para dar apenas um exemplo, bem como a argumentar contra afirmações de Freud acerca do seu passado e o da sua família.
Partindo da colecção de antiguidades de Freud, de fotografias documentando a disposição dessa colecção no consultório e de testemunhos escritos e orais sobre a forma íntima e vívida como estes objectos constituíam uma plateia de “companheiros silenciosos”, “imensamente confortadores” para o fundador da Psicanálise, a autora empreende uma investigação que partiu de uma primeira constatação: existiam “muitas similitudes” entre os objectos antigos comprados por Freud para a sua colecção e as ilustrações da Bíblia de Philippson, com a qual o seu pai, Jakob, o ensinou a ler. Desta constatação surge a primeira das ideias que propulsionou o laborioso trabalho da autora: “as ilustrações bíblicas devem ter influenciado Freud na escolha dos objectos” que comprou e “até mesmo a sua paixão por coleccionar”.
O livro desdobra-se em 12 capítulos: 1 – A compulsão de Freud por coleccionar antiguidades; 2 – A história da família; 3 – Jakob e a “catástrofe”; 4 – Jakob, homem e pai; 5 – A dedicatória e a resposta de Freud; 6 – As impressões da Bíblia de Philippson na infância de Freud; 7 – A Bíblia de Philippson e a colecção de antiguidades de Freud; 8 – A evolução religiosa de Freud; 9 – As teorias de Freud acerca da religião; 10 – Amalie Nathansohn Freud; 11 – Amalie Freud, a natureza, Deus e a morte; 12 – Por que Freud rejeitou Deus? Uma interpretação psicodinâmica.
A autora leva-nos a imaginar as condições de extrema precariedade económica e isolamento social que a família de Freud suportou, fornecendo dados sobre dados. E chama à colação afirmações da revolta refreada do jovem ainda Shlomo Sigismund, pouco antes de ele chegar a declarar-se “o médico e empirista sem Deus”. A correspondência da adolescência é revista no que respeita a afirmações sobre a família, a referências a Deus e a histórias da Bíblia.
O leitor é igualmente confrontado com a profunda desilusão narcisista do jovem Freud em relação ao seu pai e aos projectos deste em relação a si próprio (que compreenderiam, nas conclusões da autora, o assumir de um papel de relevo como judeu ilustrado…).
A autora verifica que a compra das primeiras antiguidades da colecção ocorreu escassas semanas após a morte de Jakob, pouco depois de Freud ter escrito a Fliess: “A morte do velho homem me afectou profundamente” (2 de Novembro) e foram “uma extraordinária fonte de revigoramento”(6 de Dezembro). Os efeitos emocionais da posse e contemplação das estatuetas e peças antigas em Freud, a forma como se relacionava com elas e o facto de ser um coleccionador compulsivo, o recalcamento a que as lembranças das ilustrações bíblicas, tão semelhantes às antiguidades, foram sujeitas, quer na actividade onírica da vigília, quer nos sonhos, levam Rizzuto a tirar conclusões, de acordo com… as teorias do próprio Freud: ele recusaria em absoluto as recordações ternas da sua infância (as ilustrações bíblicas), contempladas em conjunto com o seu velho pai, mas “o que não podia lembrar do livro que tinha partilhado com o pai na sua meninice, comprava na loja de antiguidades”. Comprando compulsivamente antiguidades que se assemelhavam às imagens da Bíblia de Philippson, repetia a experiência infantil do contacto com o pai, sem a recordar, ou seja re-encontrava “objectos perdidos da infância sem reconhecê-los”.
No capítulo As teorias de Freud acerca da religião, merece destaque a caracterização da atitude estóica e de defesa do estoicismo em Freud: “a atitude de Freud era de profunda desilusão. Não há ninguém em quem confiar ou se apoiar (…) o único consolo está em nós mesmos, em usar a suave voz do intelecto”.
Destaque-se também a análise empreendida sobre a relação de Freud com a figura de Moisés e que veio a dar origem ao livro Moisés e o Monoteísmo.
Novamente neste capítulo a autora proporciona interessantes insights relativamente á relação de Freud com o pai, agora no final da sua vida.
Refere que “o ideal do ego adolescente de Freud interferira no reconhecimento de sua necessidade da presença do pai” real, mas “sustentou-o e lhe conferiu coragem intelectual e moral até o último momento de sua vida”.
“Freud tinha um certo direito de negar que suas superstições estavam ligadas a “desejos maus”, pois, tal como o Moisés de Miguel Ângelo, ele realmente refreou sua raiva por ter sido decepcionado pela sua família. Freud usou a força psíquica e moral desse auto-refreamento para criar um novo campo de conhecimento e para se sustentar na sua carreira solitária. Sua raiva contida, agora de forma sublimada, permaneceu na função de sustentar o seu ideal do ego”.
Trata-se, a nosso ver, de um trabalho que apresenta conclusões originais e que poderemos classificar não só no âmbito da investigação, sempre inacabada, da auto-análise de Freud, bem como no da Psicanálise Aplicada. Para além disso, trata-se de um livro estimulante sobre as ligações psicanálise-crença e experiência religiosa e/ou espiritual sobretudo no contexto do Judaísmo.
Cristina Fabião
Psiquiatra. Psicanalista. Universidade Católica Portuguesa, Braga, 2012
Nota: Sempre que foi julgado necessário, as citações da tradução brasileira foram ligeiramente alteradas de forma a corresponderem ao português de Portugal.