O título “A Invenção da Alma” tem um seu peso próprio e presumo que seja intencionalmente um pouco provocatório. Sinto que é, em si, uma tomada de posição. Uma tomada de posição veemente.
O autor não nos deixa muito tempo na dúvida, pois que nos diz sem ambiguidades:
«Resolvidos muitos dos seus pressupostos, a alma tornou-se num objecto inaceitável no tempo que corre. Deverá acrescentar-se ainda, ao contrário do que milenarmente se difundiu, que as boas práticas éticas, morais ou comportamentais do Sapiens dela intrinsecamente não dependem (p. 28)».
Torna-se claro, à medida que vamos lendo, que pretende denunciar os abusos, violências e mesmo atrocidades que em nome das várias concepções religiosas têm sido cometidos ao longo dos tempos. Abraça, portanto, uma causa nobre.
Mas porquê escolher este termo? Que alma é esta de que nos fala?
Porque não há dúvida de que o conceito tem uma longa história. Vejamos brevemente.
A narrativa bíblica da criação do mundo diz que, quando Deus começou a criação do céu e da terra, a terra «era deserta e vazia (…) e o sopro de Deus pairava sobre a superfície das águas». E os comentadores dizem-nos que este sopro de Deus é o que permite a vida do homem e de todos os seres.
Mais adiante diz que «Deus modelou o homem com o pó da terra e lhe insuflou no nariz um sopro de vida, e o homem tornou-se um ser vivo». O termo hebraico usado para referir este sopro que torna o homem num ser vivo é «ruah», termo que ainda hoje é usado como nome por famílias de origem judaica.
Creio que já se pode ver aqui uma alusão poética à percepção dramática do dissídio causado pelo que mais tarde viria a ser visto como a clivagem entre natureza e cultura. O homem é um ser psíquico, porque é feito à imagem de Deus, mas é feito do pó da terra, quer dizer, tributário dos processos da evolução natural. E sabemos como os deuses foram sendo feitos à imagem do homem, o que neste passo da Bíblia é expresso dizendo que o homem foi feito à imagem de Deus. Há a ideia clara de que se trata de uma relação especular.
Por outro lado, e mantendo-nos ainda na Antiguidade, embora num período muito mais tardio, referirei que o responsável pela tradução francesa do Tratado da Alma de Aristóteles, publicado pela Gallimard (Paris, , p.9), Pierre Thillet, diz-nos na sua introdução que a alma é «antes de mais a vida, ou antes, o princípio da vida». E Aristóteles, logo no início do seu tratado, afirma que «o conhecimento da alma contribui grandemente para o conhecimento de toda a verdade e sobretudo para o conhecimento
da natureza. A alma é, com efeito, como que o princípio dos animais» (p. 67).
Mantendo sempre a ideia de que a alma é o princípio de vida, S. Tomás de Aquino, a quem de resto o autor também cita, é levado a distinguir três almas, correspondendo a três níveis de vida. Assim considera a alma vegetativa, que seria a das plantas, a alma sensitiva, que seria a dos animais, e a alma intelectiva que seria a dos seres humanos.
Pessoalmente, penso que a alma é a psique humana, o que chamamos o mundo interno, e a partir daqui, como representante da parte mais nobre do homem, o termo é usado para o representar, para bem e para mal. Assim se diz de alguém que é uma boa alma, uma bela alma, ou uma alma danada. Um homem sem sentimentos é um desalmado.
Alguém que dá vida a uma actividade diz-se que é a alma da iniciativa, ou a alma de um projecto.
O objecto amado e idealizado é referido como “Alma”, como no célebre soneto de Petrarca
“Anima bella da quel nodo sciolta”
que serviu de inspiração ao conhecido soneto de Camões
“Alma minha gentil que te partiste”.
Mme du Deffand, numa célebre carta ao homem por quem estava apaixonada, em pleno séc. XVIII mas antecipando já os tons do romantismo que em breve começaria a fazer-se sentir, diz: je voudrais pouvoir vous envoyer mon âme à la place d'une lettre.
Não é desta alma que se ocupa Jaime Milheiro.
Encurtando razões, e esperando não atraiçoar o seu pensamento, penso que a alma “inventada” de que ele não gosta, corresponde a uma entidade que teria servido para aprisionar o homem a uma espécie de tirania de Deus, ou melhor, que o punha à mercê das intervenções perversas que se têm verificado ao longo dos séculos da parte de muitos homens das várias Igrejas, e das várias religiões. Seria esta alma, com a sua imortalidade, que permitiria ameaçar o homem com os castigos divinos numa outra vida.
Creio que estamos, de facto, mergulhados numa reflexão sobre a problemática da vida humana e das suas relações com o divino. Cito três frases:
«Se retirássemos a alma do horizonte só poderíamos beneficiar.(p. 31)».
«Retirada a alma, Deus passaria a ser uma respeitável abstracção, associada a um respeitável sentimento e a uma respeitável intimidade» (p. 32)
«Assassinando a alma (…) seremos de facto mais conscientes e mais precisos» (p. 33).
Chegado a este ponto, não posso adiar mais uma interrogação, que imagino já se terá apresentado a muitos dos que fazem o favor de me ler: afinal, este livro é o quê? Um livro de Filosofia, de Antropologia, de Psicologia, de Psicanálise?
Considero que é o livro de um psicanalista, que nos dá conta das suas reflexões. E neste sentido é uma obra muito pessoal. E é uma obra de maturidade.
Penso que Jaime Milheiro não teria dúvida em fazer sua a seguinte frase de Fernando Pessoa.
Não sou assediado pela consciência, mas sim pela consciência do ser.
Não é impunemente que o psicanalista passa anos e anos, muitas horas por dia, a ouvir as pessoas falarem-nos de si, do seu percurso de vida, dos seus problemas e das coisas que as preocupam, tentando compreender todo esse rico material humano que assim é apresentado.
O que os outros nos dizem entra em inevitável interacção com o que cada um de nós é, vive, sentiu e sente. O saber psicanalítico, que anima e suporta esta forma de escuta, solicita uma reflexão constante sobre o homem, a sua dinâmica e as suas circunstâncias, vivida naquela relação muito especial.
A multiplicidade das experiências com que nos confrontamos vai exigindo a pouco e pouco a organização de um saber global integrado, que além da sua componente científica inevitável, vai sendo elaborado como sabedoria – uma weltanshauung, ou mundividência pessoal.
No entanto, a complexidade humana com que nos confrontamos, deixa sempre uma enorme vastidão para explorar. E as contradições do comportamento humano são causa de escândalo, e têm preocupado desde a mais alta antiguidade todos os que procuram compreender o fenómeno humano.
Cito, a este propósito, um parágrafo de Edgar Morin:
«Il faut éviter de “penser trop pauvrement l'humanité de l'homme» (M. Heidegger, Lettre sur l'humanisme).«Il ne faut même pas réduire l'humain à l'humain. Comme disait Romain Gary,” le mot humanité comporte l'inhumanité:l'inhumanité est une caractéristique profondément humaine”».(Edgar Morin, La méthode, vol. 5. L'humanité de l'humanité – L'identité humaine, Ed. du Seuil, Paris , p.11.)
Várias explicações foram sendo construídas, das quais as mais importantes e persistentes creio serem as de natureza religiosa, que variam consideravelmente entre si, embora todas tendam para uma visão dualista. Princípio do bem vs. princípio do mal, Deus e o diabo, ou a visão grega do homem espiritual vs. homem carnal.
Nesta mesma linha, mas prescindindo da hipótese religiosa, a psicanálise propõe uma teoria do funcionamento psíquico que nos oferece uma visão unitária do homem, embora organizada a partir do funcionamento articulado de dois princípios.
É a visão dramática que levou Freud à formulação da sua última teoria dos instintos, longo percurso intelectual que André Green, em 2007, nos apresenta, num excelente livro justamente intitulado Pourquoi les pulsions de destruction ou de mort?
Como diz Jaime Milheiro: Todas as pessoas dispõem de tais sentimentos, porque todas dispõem de mistérios inerentes ao facto de existirem (p. 76).
Quer dizer, há sempre um enorme espaço para a interrogação e para o mistério. Como também dizia Fernando Pessoa: Deus é o existirmos e isto não ser tudo.
Ou servindo-me do título de um excelente livro de Lucien Jerphagnon, esse sim de Filosofia, «Les dieux ne sont jamais loin» ou seja, neste processo de pensamento, os deuses nunca estão longe.
Referindo uma posição de Merleau-Ponty, Jerphagnon diz-nos que, de facto, houve o «sonho que existiria o momento em que o espírito, tendo encerrado numa rede de relações a «totalidade do real», e encontrando-se como que em estado de repleção, iria permanecer em repouso para sempre e mais não teria que fazer para além de tirar as consequências de um saber definitivo, e resolver, por alguma aplicação dos mesmos princípios, os últimos sobressaltos do imprevisível. Sendo um filho dos anos vinte, ainda conheci este espírito. A promessa da serpente edénica era, afinal de contas, uma profecia; «sereis como deuses». Expulsai o mito e ele regressa a galope» (Lucien Jerphagnon, Les dieux ne sont jamais loin, Desclée de Brouwer, Paris, , p. 199).
Interessante neste contexto seria também o que nos diz Paul Veyne no seu livro,
muitas vezes reeditado, Les Grecs ont-ils cru à leurs mythes? (Ed. du Seuil, ).
Jaime Milheiro não cai nesta armadilha. Procura encontrar na subtil articulação entre Misteriosidade, religiosidade e religiões uma forma de enquadramento da totalidade da experiência, servindo-se sempre dos conceitos psicanalíticos. É assim que apresenta como sendo os quatro fundamentos da Misteriosidade “o outro desconhecido”, “o processo de identificação”, a “intemporalidade do inconsciente” e a “inevitabilidade instituída”.
O capítulo sobre a Psicossomática Estrutural aparece-me como um eixo central do seu pensamento, como uma forma de enquadrar problemáticas presentes, em abertura na direcção de um saber futuro. Seria o espaço onde deverá brotar a compreensão do homem na sua totalidade, aspiração a resolver a clivagem inicial, que lhe vem de resultar de um pedaço de terra animado pelo sopro de Deus.
Enquanto não o conseguimos, há que ir reflectindo sobre problemáticas concretas. Assim nos são apresentados os capítulos sobre Dores e Patologias dos Afetos, Elogio da Mentira, Teorias da Conspiração, Jogos de Inveja e (In)gratidão, Música e Psicanálise, O Lado Estético da Psicanálise.
O livro fecha, significativamente, com uma entrevista sobre o futuro da Psicanálise.
Disso nos ocupamos todos nós. Será também o nosso futuro.
João Seabra Diniz
Lisboa, Junho de 2012