América dos anos 50. Estado do Mississippi. Abolida a escravatura embora a segregação racial se mantenha. Os negros, explorados e destinados a trabalhos menores, são considerados cidadãos de segunda: os homens, são essencialmente operários; as mulheres, estas destinam-se ao emprego doméstico, são as “criadas”, as “helpers”.
Curiosamente, estas “helpers” vivem num estado perto de “helplessness”, à mercê do objecto empregador, as jovens e imaturas, des-tratantes, vis e egoístas, donas de casa. Ironicamente, na incapacidade de desempenharem o seu papel de mãe, utilizam aquelas que desconsideram, as criadas negras, como objecto de apoio para as substituir! Como que parecem dotadas de um sexto sentido para se aperceberem das suas fragilidades enquanto objecto cuidador maternal e do seu registo de vida sobrevivente, numa sociedade que se alimenta essencialmente do material, do visível e do supérfluo e na qual os afectos são renegados e colocados a um nível inferior.
Por seu lado, as negras, mulheres amadurecidas pela dureza da vida mas sem perder a alegria, envolvência e autenticidade, estabelecem com as crianças relações afectivas calorosas e autênticas. E são elas que lhes oferecem uma experiência de amor continuada e sustentada, a qual lhes permite crescer com confiança e auto-estima, com um bom sentimento de si: “You was beautifull, you was smart, you was inteligent”, sabendo de antemão, que quando a criança não é bem amada pela mãe: “it's a long way to run in terms of solitude!”
O filme narra a história de uma serviçal negra, nos seus 50 anos, triste e abatida pela morte acidental do filho de 24 anos num acidente de trabalho na construção civil e ao qual foi negado o tratamento no hospital estatal. De uma interioridade densa e profunda e com uma capacidade narrativa superior, vai falando de si, do seu mundo interior, apesar das condições externas da sua vida tomarem grandes proporções. Desinteressada, a desinvestir de si, prossegue a sua vida mecanicamente e, o seu único alento, é tomar conta de uma pequenina branca de 3 anos, com a qual entra numa área transitiva de ilusão, de amor e de prazer que a preenche e propulsiona para a frente.
Contudo, o assassinato de um jovem negro reaviva a tristeza pela morte do filho. O retorno ao seu interior põe-na a pensar na pobreza das relações afectivas que escuta das vidas destas jovens e imaturas mães histérico-narcísicas, onde o atributo e acessório parecem dominar e em que filantrópicas e hipócritas, criam bailes de beneficência para crianças africanas, esquecendo-se do des-tratamento que infligem às mães destas mesmas crianças africanas.
Entretanto, uma destas jovens brancas, vinda de estudar de Nova Iorque e com pretensões a jornalista, é bastante sensível a estes aspectos da segregação racial. Ela própria, cuidada por uma criada negra pela qual sente uma grande gratidão por todo o amor e carinho que recebeu desta ama, fica descorçoada quando chega da Universidade e percebe que a mãe a despediu por motivos pessoais de ascensão social.
Zangada e revoltada, mostra à mãe como esta foi capaz de provocar a morte da velha ama pelo desgosto que lhe provocou, pelo desrespeito e falta de sensibilidade por alguém que tão bem tratou da sua única filha. De forma a homenagear, pretende então alterar a gramática destes costumes, dando-lhes uma voz através da escrita. Procura as criadas negras e pede-lhes que estas lhe contem as suas estórias… Luther King, começa por esta altura os seus discursos. Nas casas do Mississipi, a maioria dos brancos desliga a televisão para não os ouvir. E os negros assustam-se com a hipótese de mudança!
Paralelamente, o filme conta a vida de outra serviçal negra, que após ter sido despedida de uma casa de brancos, só encontra trabalho em casa de uma outra mulher branca por esta última pertencer a um outro tipo de protótipo de mulher, mais erotizada, mas também mais madura e capaz de entrar em verdadeira relação afectiva. A relação patronal que se estabelece entre as duas é de uma intensidade e profundidade surpreendente, quase que Bergmaniana, e deveras enternecedora. E esta relação acaba por ampliar e dar força às outras narrativas, constituindo-se assim uma consciência de grupo capaz de alterar mundos.
Unidas, partilham as suas estórias com a jovem jornalista que, com o acrescento do deu próprio testemunho “branco”, consegue que estas sejam editadas num livro. É o sucesso! Com ele, a ameaça da retaliação.
A narrativa prossegue, assim como a emoção. Ficamos presos a estas estórias contadoras da história de um povo, segregado, maltratado e…passou-se ainda tão pouco tempo…
É notável como o filme evoca que a esperança activa, a luta daquilo que verdadeiramente acreditamos se alcança pela capacidade de dar, dar de si e, perdoar. Que é através do perdão, fundado num sentimento, não de resignação, mas de amor, que somos capazes de genuinamente mudar.
E perante tamanhas estórias, saímos pequenos, pequeninos…
Ana Catarina Duarte Silva
Lisboa, 11 de Novembro de 2011
Ficha Técnica:
Título: «As Serviçais»
Título original: «The Help»
Realização: Tate Taylor
Elenco: Emma Stone, Octavia Spencer, Sissy Spacek, Viola Davis
Género: Drama
País: EUA
Ano: 2011