Com o título provocatório – Um método perigoso – Cronenberg conduz-nos à descoberta da psicanálise por Freud, colocando em destaque uma perigosidade no método psicanalítico.
Podíamos dizer, que a perigosidade da psicanálise de que fala Cronenberg consiste no facto do analista por insuficiente análise se envolver amorosamente com sua analisanda: o escândalo de Jung com Sabina Spielrein.
Jung incapaz de resolver a complexidade das projecções e sobretudo das identificações projectivas da analisanda, confunde o apelo para recuperar o afecto materno com a sedução, acabando por se envolver numa relação amorosa e sexual com um desenvolvimento e fim trágico.
Ferenczi (1932) no seu trabalho “Confusão de língua entre a criança e os adultos” mostrou como a criança ou o adulto seduzem o outro, numa tentativa de obterem o afecto que lhes faltou na infância e muitas vezes o outro (porque também se encontra em carência afectiva) responde sexualmente.
A lacuna afectiva do analisando vai encontrar-se por identificação projectiva com a lacuna afectiva do analista, que responde numa linguagem sexual quando aquilo que se trata é de uma carência afectiva da parte do analisando, que se expressa através da sedução.
Em meu entender, a perigosidade da psicanálise consiste sobretudo no facto do psicanalista decifrar o conteúdo latente do discurso, nomeadamente o discurso social e politico.
Poderíamos perguntar-nos se os ataques que a psicanálise tem sofrido desde a sua criação, não têm sobretudo uma raiz (inconsciente e/ou consciente) no receio de que o psicanalista, através do método analítico, possa ver aquilo que o outro quer ocultar.
O analista e o seu método são perigosos porque podem decifrar aquilo que se pretende manter oculto.
Existe outro grande perigo no método psicanalítico – a psicanálise ajuda o analisando a pensar, a pensar-se e a “pensar os seus pensamentos” (Bion, 1970).
A peste a que se referia Freud quando da sua visita aos EUA é bem a expressão dessa perigosidade.
O Filme inicia-se com uma cena espectacular, no dia 17 de Agosto de 1904, Sabina Spielrein é conduzida à Clínica de Burgholzli – Zurique – Suiça.
A actriz desempenha o papel de forma excepcional no inicio do filme assim como, sempre que manifesta crises histéricas. Por exemplo, a cena do banho, em que as enfermeiras forçam a doente Sabina a tomar banho depois dela se ter atirado para um lago existente na clínica (durante a ausência de Jung a cumprir o serviço militar).
Estas cenas eram manifestações típicas do sofrimento destes doentes, muito comuns na época e que progressivamente foram dando lugar a outro tipo de manifestações pelo que hoje raramente assistimos a este tipo de cenas histéricas tão bem retratadas no filme.
Sabina descreve o sonho do molusco repugnante nas costas. Por sugestão de Jung, fala de masturbação que relaciona com o sonho e associa com os maus tratos admitindo a Jung, que essa situação lhe dava prazer (ser batida/prazer orgástico).
Posteriormente, Sabina vai relacionar as entrevistas com Jung a situações de humilhação, que lhe davam uma grande excitação e a conduziam à masturbação.
Em 1906 Jung visita Freud em Viena. Freud pergunta-lhe pela sua paciente russa – Sabina Spielrein.
Jung relaciona as grandes melhoras da paciente com a catarse (estávamos no tempo em que se acreditava muito no método catártico como libertador e como uma cura para as neuroses).
Freud faz saber a Jung que constava em Viena que ele tinha uma relação sexual com a doente.
Nesse encontro, Freud confidencia a Jung as suas preocupações com a grande oposição à psicanálise sobretudo vinda da classe médica.
É curioso que passados mais de cem anos, mantem-se essa grande desconfiança e até mesmo uma oposição feroz da classe médica para com a psicanálise, o que é estranho porque a psicanálise não é um instrumento contra a medicina, nem contra o acto médico, antes pelo contrário, a psicanálise deveria ser encarada como um complemento da clinica médica e psiquiátrica.
Na conversa entre Jung e Freud que durou treze horas, há uma excessiva insistência da parte de Freud na temática sexual e da parte de Jung, nas ideias místicas assim como no esoterismo. As grandes dificuldades vão se acentuando assim como as divergências entre ambos.
Enquanto Freud insiste no papel da sexualidade ligada com as neuroses, Jung insiste nas suas ideias místicas e esotéricas.
Otto Gross surge como uma voz off defendendo a ideia de que não deve haver limites para a pulsão sexual. Otto Gross funciona como uma linguagem do inconsciente pulsional, sem qualquer travão super-egóico.
Simultaneamente assistimos ao desenrolar da relação de Jung com Sabina Spielrein como dois namorados. Ao mesmo tempo, que Jung se apresenta como defensor da abstinência sexual.
Há aqui de facto esta “voz off” de Otto Gross, como se fosse a expressão máxima das pulsões. Uma terceira voz entre estes dois homens, Jung que se apresenta como puritano, mas que por detrás deste manto de puritanismo passa ao acto com as suas doentes, enquanto que Freud defende a importância da sexualidade como motor do desenvolvimento humano, condenando firmemente as passagens ao acto.
Freud defende uma sexualidade que existe desde o nascimento e que impregna todo o desenvolvimento e que tem uma responsabilidade sobre as patologias, nomeadamente as neuroses.
Grande parte do filme expressa as divergências entre Freud e Jung que culminam numa discussão entre os dois, em que Jung põe em causa “o nome do pai Freud”.
Freud acaba por desmaiar e cai desamparado na frente de Jung, referindo ao despertar: “Que doce deve ser morrer”.
De facto, Freud apercebeu-se nesta grande divergência com Jung que a sua luta pela defesa de uma psicanálise tal como ele a tinha estruturado tinha riscos.
Após a ruptura com Freud, Jung passa por um período depressivo grave, recuperando mais tarde.
Poderíamos dizer, que o filme de Cronenberg revela como surgiu a psicanálise assim como a sua importância bem expressa, na evolução de Sabina Spielrein, que sofria de uma grave histeria mas depois do tratamento com Jung termina os seus estudos de medicina com excelentes classificações, torna-se membro da Associação Psicanalítica de Viena, publica vários artigos, introduz a ideia do conceito de instinto de morte e é não só uma das primeiras mulheres formadas em medicina como uma pioneira da psicanálise de crianças.
No entanto Cronenberg, começa por atacar a psicanálise designando-a como um método perigoso. A sua posição é muito ambígua mas na medida em que ele coloca Jung em primeiro plano dizendo que é um dos psicólogos mais importantes do mundo; a figura de Freud esbate-se perante a grandiosidade de Jung, ainda por cima muito rico, como é sublinhado no filme nomeadamente na viagem que fizeram ambos aos Estados Unidos e em várias sequencias do filme.
É estranho que Cronenberg, defenda Jung como um dos maiores psicólogos do mundo, porque no filme Jung é médico psicanalista. No entanto, um psicanalista ou um psicólogo, que passa ao acto com as suas doentes não pode ser considerado como o melhor psicólogo do mundo. Diríamos que esta seria uma nota fortemente negativa do filme que no seu conjunto é um filme bastante interessante.
Orlando Fialho