Gostaria de começar colocando este notável trabalho de Christophe Dejours, e os estudos hoje designados por psicodinâmica do trabalho, na dinâmica milenar do processo de humanização e do processo de criação da cultura. Ambos os processos, ou seja, a humanização e a criação da cultura, tendo embora ao longo da história conseguido resultados admiráveis, estiveram sempre, como se sabe, sujeitos a acidentes e retrocessos por vezes dramáticos. O caso de que nos fala agora Christophe Dejours (C. D.) é disso um exemplo. Penso não exagerar se disser que, com este problema, tocamos algo de fundamental para a evolução da sociedade. O próprio autor fala de viragem histórica, que pode ser uma ameaça para os indivíduos e para a civilização. No entanto, como felizmente muitas vezes acontece, há um grupo de pessoas empenhado em identificar o problema e procurar-lhe uma solução.
É a partir deste ponto de vista que irei organizar este meu breve comentário. Mas não quero deixar de chamar a atenção para a importância do texto de C. D., para a eficácia da síntese que nos apresenta e para a clareza com que escreve.
O problema do trabalho, da sua organização e a maneira como é vivido, está presente desde os primórdios da história. O início da civilização dá-se quando o homem, trabalhando a terra, começa a extrair dela bens e elementos que vêm melhorar e modificar profundamente a sua vida. E a partir desse momento, o problema trabalho aturado, penoso ou gratificante, bem como a maneira de o realizar e organizar, nunca mais se afastou da vida do homem, que foi desenvolvendo prodígios de engenho para resolver os problemas cada vez mais complexos que se iam apresentando, à procura de uma solução que lhe parecia ir sempre
Artigo recebido a 11 de Agosto de 2013.
Membro Didacta da Sociedade Portuguesa de Psicanálise. E-mail: sdiniz@sapo.pt
fugindo à sua frente. Porque, como sempre acontece na história da cultura, quanto mais elaboradas são as respostas que se constroem, tanto mais nos deparamos com interrogações inesperadamente sofisticadas e exigentes que, por sua vez, vão exigindo respostas mais complexas… num trabalho sem fim de pensamento e investigação.
Geralmente considera-se que a primeira civilização identificável como tal, é a dos Sumérios, no Sul da Mesopotâmia. A fertilidade excepcional desses campos criou condições favoráveis ao seu desenvolvimento. Mas exigiu muito trabalho, que o homem considerava penoso. Tendo construído a ideia de deuses que tinham criado a natureza, surgiu naturalmente o desejo de saber porque é que os deuses, se tinham tanto poder, tinham também criado os homens. A resposta ocorreu naturalmente – o homem tinha sido criado para trabalhar para os deuses.
De facto, já no terceiro milénio A. C., os Sumérios tinham organizado um panteão de deuses que mais ou menos personificavam as forças e os elementos naturais com que se confrontavam na sua vida e nas suas atividades. Será exagerado pensar, usando linguagem moderna, que eles os sentiam um pouco como os patrões que lhes exigiam os diferentes trabalhos, ou seja, a entidade para a qual tinham que trabalhar?
A Bíblia reflete uma visão análoga quando diz, na segunda narração da criação do mundo, que não havia na terra nem plantas nem ervas, porque Deus «ainda não tinha feito chover sobre a terra e não existia o homem para a cultivar» (Gen. Cap. 2, v. 5). Quer dizer, faltava quem trabalhasse. Portanto, repito, o trabalho aparece sempre ligado à origem do homem.
Como é óbvio, facilmente se passou do sentimento de ser explorado, inicialmente pelos deuses, para o desejo de explorar o outro, que iria trabalhar para nós. Assim, os historiadores verificam que «o mundo antigo, baseou a civilização numa grande exploração do homem pelo homem, e se isso não era visto como muito cruel, era apenas porque não era concebível outra maneira de organizar as coisas» (J. M. Roberts, 1987).
Face ao que nos diz C. D. e ao que constantemente nos trazem os noticiários, estaremos hoje muito longe desta realidade? Penso que não, e que a crise mundial que hoje estamos a viver nos mostra como afinal se evoluiu pouco neste ponto e como as regressões profundas facilmente acontecem. Os exemplos que se poderiam citar são inúmeros. Basta lembrar que nos Estados Unidos da América, ainda em meados do século XIX, se teve que fazer uma guerra para acabar com a escravatura, e como no mesmo país e em muitos outros considerados
“civilizados” e, no tempo, bem mais perto de nós, tantas e tão dolorosas lutas tiveram que se travar para acabar com a segregação racial. A análise da nossa história de homens mostra bem como aquilo a que se pode chamar o processo de humanização não conseguiu ainda eliminar a desumanidade.
A Psicanálise oferece-nos uma teoria que nos ajuda a compreender a complexidade destes processos e um método que pode ajudar-nos a encontrar soluções. Mas a compreensão serena e corajosa destes dramas que se vão apresentando é sempre o ponto de partida indispensável. Atendendo ao seu trabalho de pensamento e às suas várias intervenções nesta problemática, pode dizer-se que a Psicanálise é perita em humanidade.
Penso que o trabalho é uma função da construção e da vivência do psiquismo humano. C. D. faz notar como o léxico freudiano está semeado de ocorrências da palavra trabalho (arbeit, em alemão), e mostra-nos como o trabalho conduz ao «enriquecimento da subjectividade» já que trabalhar não é apenas produzir, mas é também transformar-se a si mesmo». Penso que C.D. não discordaria da afirmação de que o trabalho tem também uma importante componente de auto-construção. A questão está em que as relações de trabalho e as condições em que é realizado, podem facilmente perverter-se.
C. D. estuda de uma forma clara e sugestiva as relações com a sublimação. No prolongamento das suas ideias, será interessante lembrar que, cronologicamente, na evolução do psiquismo tal como é descrita por Freud, é na teoria da pulsão que pela primeira vez aparece a ideia de trabalho. Como conceito limite entre o físico e o psíquico, a pulsão é vista enraizando no soma e fazendo chegar ao psiquismo as excitações sensoriais. Assim, ela será a medida da exigência do trabalho imposto ao psiquismo pelo facto da sua ligação com o corporal. Mas como “o bebé sozinho não existe” (Winnicott), como bem sabemos, esta excitação proveniente do bebé tende a manifestar-se para atingir o espaço psíquico da mãe, criando nela a exigência de um trabalho psíquico correspondente, para oferecer uma resposta ao estado de desamparo (a palavra usada por Freud é hilflossigkeit) do recém-nascido.
Como diz André Green (1998) “o objeto é o revelador da pulsão”, porque se não houvesse objecto não saberíamos que existia a pulsão,
porque é, precisamente, quando a falta do objecto se faz sentir que ela se manifesta com intensidade. Por outro lado, “não existe objecto que não seja investido e animado pelas pulsões, e, o que é mais, que não seja, ele mesmo, animado pelas suas próprias pulsões» (A. Green, 1998).
Sabemos como o reconhecimento expresso da necessidade de incluir na teoria inicial o papel da qualidade da resposta do objecto só se fez mais tarde, sendo fundamental a contribuição de Winnicott.
Esta referência à teoria é indispensável para se perceber como estas “relações iniciais de trabalho psíquico” condicionam a qualidade pessoal do indivíduo, e portanto, a qualidade das relações humanas que estabelece ao longo da vida, o que depende da maneira como é possível a cada um integrar a percepção do outro e dos seus processos emocionais. E é óbvio que as relações profissionais são um aspecto decisivo das relações entre adultos. Como diz C.D. «trabalhar nunca é (eu diria, nunca deve ser) apenas produzir, mas também viver em conjunto. Regra de trabalho e convivialidade vão sempre a par».
É que desde o início, como acabei de dizer, a satisfação do desejo se confronta com o objecto e com a qualidade da sua resposta. Simplificando um processo muito complexo e que se desenrola ao longo dos anos, direi que a descoberta do objecto como pessoa, portanto como ser animado por desejos e sentimentos, leva a uma maneira pessoal de lidar com os próprios desejos e com a sua eventual frustração, que tem (ou deve ter) em conta a progressiva perceção de que “o outro” tem um mundo interno semelhante ao “próprio”. A gestão da satisfação dos próprios desejos irá assim passar por processos de identificação, que são o modo positivo de aceitar as renúncias que a realidade impõe. E da realidade, naturalmente, faz parte o outro na sua complexidade.
No decorrer deste processo aprende-se o valor dos sentimentos e vai-se descobrindo no outro uma imagem do próprio.
É na descoberta da reciprocidade que a pessoa humana se constrói humanamente, reconhecendo os outros como “semelhantes”. Tanto quanto penso, é na conquista desta reciprocidade que se baseia a Ética, cujo fundamento objetivo é a dignidade da pessoa humana, de todo o ser humano. Os outros devem ser vistos por nós como os “semelhantes”, o “próximo”.
É bem claro no texto de C.D. como o trabalho se apresenta indissociavelmente ligado ao crescimento da pessoa humana e à construção da sua identidade e quais as condições necessárias para que isso seja possível. O trabalho que deve ser visto como uma atividade nobre e indispensável, que enriquece o indivíduo e a comunidade em que está inserido. A frase latina que usei para título destas minhas palavras traduz esse sentimento da grandeza humana do esforço corajoso, que permite vencer todas as dificuldades. Portanto, que permite o verdadeiro crescimento do indivíduo.
A minha escolha deste título “clássico” é devida ao desejo de fazer sentir como no momento presente, e partindo da clara exposição de C.D., estamos longe deste ideal, que fez parte do património afetivo de tantas gerações que nos precederam.
As condições atuais de trabalho a que se refere o texto são uma dramática regressão da sua qualidade humana, que tira ao trabalho a sua dignidade própria. Por isso se torna urgente a denúncia desta situação. Quando o lucro de alguns é visto como o único valor a ter em conta, a pessoa humana aparece despojada da sua dignidade e o trabalho da sua nobreza. É a satisfação imediata do desejo, no esquecimento da reciprocidade e, portanto, da ética. A pessoa humana é vista, neste contexto, apenas como peça de uma engrenagem, e como tal “avaliada”.
Segundo a teoria clássica, a qualidade da resposta do objecto condiciona decisivamente a qualidade da evolução do sujeito. Transpondo esta dinâmica para as relações de trabalho, não será difícil perceber por que razão a falta de qualidade das chefias – o que se refere à sua qualidade pessoal, à qualidade dos seus objetivos “empresariais”, e aos meios de controlo que utiliza – condiciona não só a prestação laboral da pessoa que depende dessas mesmas chefias, mas também, e como consequência disso, a sua qualidade de vida em geral.
Os factos referidos no texto de C. D., mostram bem como é a sobrevivência da pessoa humana enquanto tal que pode estar em perigo. As exigências de trabalho, os métodos de controlo e as pressões exercidas, fazem pensar que se está num caminho cujo ponto de chegada pode ser trágico. E o que me parece mais grave é que os defensores destas medidas tendem a apresentá-las como sendo o ideal de uma gestão empresarial moderna e competente. Sirva-nos de advertência a perversa ironia da inscrição da frase “Arbeit Macht Frei” (o trabalho torna-nos livres), sobre o portão de entrada do campo de extermínio de Auschwitz.
Reconheço que essa foi, sem dúvida, uma situação extrema, que não tem aqui aplicação direta. Mas não podemos esquecer que esses trágicos factos, bem perto de nós no tempo, foram obra de seres humanos, supostamente cultos e civilizados, que como sabemos, desejavam preservar a raça superior de que eles próprios faziam parte. Nos casos referidos por C. D., o objetivo considerado superior, e portanto, justificando o tipo de intervenções referido, são o lucro e a produtividade a qualquer preço.
Repito a observação feita atrás de que o fenómeno humano inclui a desumanidade. Seríamos bem ingénuos se o tentássemos esquecer, caindo num otimismo correspondente aos nossos desejos.
À procura de uma explicação, surge-nos facilmente a ideia da dualidade instintual, eros e destrutividade.
Terminarei com uma citação um pouco longa de Antonino Ferro, onde são bem reconhecíveis as referências bionianas, e que certamente nos deixará a pensar. A propósito do objectivo de instaurar o primado do psíquico, ele diz que o psicanalista, na época presente, «está apenas no início do seu trabalho, no gabinete da análise e fora dele, como testemunha da necessidade para o ser humano de uma educação apropriada do psiquismo». (…) «Nesta ótica, eu não consideraria (…) a pulsão (ou instinto) de morte como uma maldição da espécie, mas como uma acumulação transgeneracional de proto-emoções que só encontra possibilidade de se descarregar segundo um modo evacuativo, recorrendo à destruição em relação à capacidade de sonhar (na vigília como no sonho), em relação ao próprio aparelho de pensar e em relação à sociedade. Vê-se bem como a criatividade, a arte e a capacidade de simbolização estão exactamente na vertente oposta» (A. Ferro, 2010)
Um dos grandes méritos de C. D., será o de nos ajudar a sermos sensatamente realistas, para não deixarmos corromper o muito de bom que, a pouco e pouco, não obstante, múltiplas regressões e oscilações, ao longo de um longo caminho, fomos conseguindo realizar.
Agosto de 2013.