Este trabalho reflecte sobre a construção da interpretação na mente do psicanalista, mediante o contacto afectivo proporcionado pela relação transferencial. São discutidas algumas condições básicas do mundo interno do analista para alcançar a interpretação, bem como eventuais critérios para alcançar uma interpretação psicanalítica.
A interpretação em psicanálise tem sido longa e recorrentemente debatida desde os primeiros momentos da criação do método psicanalítico. Diferenciando-se radicalmente da tradição psicológica e médica até então, centrada quase sempre no detalhe descritivo, com a interpretação a psicanálise procurou o sentido ou significado do sintoma, do comportamento ou do pensamento, atribuindo um outro valor compreensivo à complexidade dos fenómenos mentais.
O psicanalista procura, assim, interpretar algo do paciente, dando-lhe a conhecer aspectos que este desconhece em si mesmo, e realiza-o através dos dados obtidos mediante a natureza da vivência transferencial, de comportamentos, das associações que elabora, de sonhos que produz, etc. As especificidades do acto interpretativo são múltiplas, por ventura longamente sistematizadas por vários autores (J. Coderch, 1995; S. Levy, 1996; D. Zimerman, 2005; R. Etchegoyen, 2005), quase sempre essencialmente de um ponto de vista técnico, procurando justificar a adequação da intervenção, ou até mesmo a sua eficácia e/ou a eficiência (F. Leichsenring, 2008) no decorrer do processo terapêutico.
Comunicação apresentada nas II Jornadas Internas do Instituto de Psicanálise: A interpretação e processo psicanalítico, Lisboa, 5 Novembro de 2011.
Artigo recebido a 8 de Outubro de 2012. Aceite para publicação a 27 de Outubro de 2012.
Membro Titular da Sociedade Portuguesa de Psicanálise. .
São vários os aspectos habitualmente debatidos e organizados nos programas formativos, e que certamente merecem uma atenção muito cuidada (por exemplo, ver J. Coderch, 1995):
os tipos de interpretação: à transferência, das resistências, de reconstrução, etc;
ou os constituintes essenciais: o conteúdo interpretado, a forma e a oportunidade para o realizar, a finalidade do acto interpretativo, o destino que a interpretação vai assumir dentro da mente do paciente.
Freud, num estilo muito próprio, e de acordo com cânones da sua rigorosa formação científica, debruçou-se primordialmente sobre a conceptualização metapsicológica, procurando assim dar fundamento à técnica interpretativa como meio para alcançar um fim (terapêutico). Enquadra assim uma tradição hermenêutica, capaz de jogar com a descodificação de uma suposta linguagem codificada segundo determinadas regras (dos processos inconscientes), com uma outra funcional, capaz de desencadear a mobilização de determinados processos mentais no paciente.
As necessidades formativas e porventura as exigências competitivas do panorama investigacional (tradicionalmente mais académico), têm realçado fundamentalmente as capacidades de um determinado método interpretativo para promover determinados resultados: menor sofrimento, diminuição de sintomas, etc – a eficácia da interpretação, ou então a sua tradução eficiente: levando em conta a competência interpretativa para produzir resultados com o dispêndio mínimo de recursos e esforços, salientando assim “o que se transforma”, “como se organiza” e “como evolui”. Na comunidade psicanalítica, Sandor Ferenczi ou depois Franz Alexander deram contributos essenciais neste contexto, num longo e interessante exercício criativo, nem sempre devidamente aprofundado pelos seus pares, e frequentemente distorcidos nos manuais psicoterapêuticos mais eclécticos.
Como assinalado em cima, são já múltiplos os excelentes manuais que encontramos sobre o tema da interpretação (J. Coderch, 1995; R. Etchegoyen, 2005; D. Zimerman, 2005; R. Walesttein, 2000, entre outros). E embora oportunos e muito bem fundamentados, temos, contudo, alguma dificuldade por vezes em reconhecermo-nos clinicamente nas suas sistematizações e diferenciações. Essa evidência torna-se talvez mais clara quando na situação docente, onde a estratificação modelar decorada
dos manuais impede frequentemente um dos elementos essenciais do acto interpretativo analítico: a espontaneidade criativa do analista no exercício da sua função.
A teoria do Pensamento, primeiro com Bion, mas depois com outros importantes contributos actuais (A. Green (1973), T. Ogden (2004), D. Zimerman (2005), A. Ferro (2006), R. Vermote (2011), entre outros) fez deslocar a atenção para o processo de elaboração na mente do analista no acto da construção da interpretação. Deslocando a atenção da procura da suposta interpretação mais correcta (portanto, mais eficaz e eficiente, expressão de uma ânsia obsessiva decorrente da intolerância ao erro do analista), o acto interpretativo coloca-se-nos desta forma num lugar diferente de natureza conceptual. A interpretação parece assim existir para além da capacidade consciente do analista, como o pensamento existe para além do pensador. A verbalização da interpretação, na forma clássica, surge apenas como uma das várias formas, mais elaborada é certo, da expressão do pensamento.
Significa que o analista interpreta sempre que exista enquanto tal, no exercício da sua função psicanalítica. Implica, portanto, que inevitavelmente se conceba o analista como alguém que traz consigo próprio uma teoria pré-concebida, mesmo antes da sua acção interpretativa (verbalizada ou de outra forma). Mesmo que se mantenha em silêncio, ele diz algo inconscientemente sobre a sua capacidade de escuta do paciente: sobre o que escuta (e o que não escuta), e de que forma o escuta, e o que faz com os elementos da nova escuta.
O acto interpretativo, parece, assim, relacionar-se com a maior ou menor disponibilidade do analista e com a sua capacidade de conter e transformar o que escuta dentro de si, mediante o contacto afectivo proporcionado pela relação transferencial. Remete-nos sem dúvida para a dinâmica dos processos transferenciais/contratransferenciais, intensamente debatidos nas últimas décadas: conceptualmente, e nas suas implicações técnicas.
Uma das problemáticas essenciais, que trespassa as discussões técnicas anteriormente referidas sobre a validação da interpretação, reside na semelhança de processos inerentes à elaboração mental de uma interpretação e, grosso modo, no da criação de uma “mentira”. A diferenciação é consideravelmente complexa e subtil. O que as diferencia prende-se essencialmente no facto de que a dita “mentira”, ao contrário da interpretação analítica, não servirá para elaborar novos pensamentos e promover a expansão do espaço mental. Uma teoria, uma classificação,
mesmo que coerente e adequada, mas que não tenha a escuta do sujeito como elemento crucial e nuclear, poderá, desta forma, assumir o lugar desta tranquilizadora “mentira”.
Na elaboração do processo de interpretação na mente do analista (R. Britton, 1994), mais do que a formação de certezas absolutas, deverá paradoxalmente permitir-se vivenciar a incerteza, o não saber, o desconhecido e, por inerência, a frustração – no sentido de que lhe falta algo, onde mentalmente parece ser capaz de criar um vazio (contudo diferente do “no-thing”), do qual poderá então evoluir para um estado próprio que através do qual poderá aceder a ser pensado de múltiplas formas, elaborações e expressões.
A vivência da frustração no processo terapêutico, por vezes intensa, desencadeia no analista mecanismos inconscientes que, fruto de não tolerar esse estado de desconhecimento em contacto com o paciente, se organiza defensivamente na construção de uma “teoria alucinada”, capaz de lhe saturar a mente e de fazer sentir o analista preenchido com uma suposta “mentira” tranquilizadora (auto-tranquilizadora, e por via transferencial tranquilizadora também para o paciente, deixando ambos imediatamente saciados) e até eventualmente eficaz na remoção rápida de sintomas.
A teoria do pensamento, a partir de Bion, talvez mais até a partir do momento que Rudi Vermote (2011) designa de “late Bion” (referindo-se às complexas alterações conceptuais expressas nas últimas e algo diferentes obras de W. Bion), obriga a deslocar o foco de pesquisa para a mente do analista no exacto momento da pré-interpretação: como é que uma emoção sentida ou uma percepção que ainda não o é se torna de facto numa elaboração psíquica? Como é que algo ilegível, mediante o contacto analítico, se passa realmente a organizar numa qualquer formulação útil e dinamizadora das transformações?
Num primeiro momento, Bion socorreu-se de conceitos matemáticos abstractos (elementos β, elementos α, função α, etc.) para lidar com as características inerentes ao inconsciente, através das quais, mesmo desconhecendo as variáveis em jogo (inconscientes, por definição), lhe permitiria abordar e analisar a função mental transformadora que lhe está associada.
A elaboração mental do analista no momento criativo da constituição da interpretação psicanalítica remeteria no essencial para uma mudança subtil, mas diferenciadora. O foco não é mais no pensamento ou na transformação em conhecimento (T(K) que tem lugar ao nível das representações,
mas nas mudanças psíquicas ao nível experimental/vivencial, ao nível da não-representação (ou T(O), nas conhecidas elaborações propostas por Bion). Para ocorrer a interpretação psicanalítica, ambos os processos T(K) e T(O) devem estar presentes no mundo mental do analista, num processo intenso de interacção dinâmica.
Decorrente desta perspectiva sobre a teoria da interpretação, somos obrigados a assinalar uma evolução determinante sobre: o que pretende a psicanálise? Será somente através da resposta a esta questão, genérica mas fundamental, que percebemos então que o acto interpretativo também deverá necessariamente evoluir?
Mais do que a simples remoção de sintomas e resolução de conflitos inconscientes e importante diminuição do sofrimento mental, a psicanálise, na actualidade, procura desenvolver processos de descoberta e de clarificação, bem como a promoção da expansão, potencialmente infinita, da compreensão dos fenómenos mentais (que se aproxima do que Bion concebeu como o aparelho de pensar os pensamentos, condensando desta forma uma ampla e complexa função do aparelho mental).
O psicanalista necessita, então, de criar algumas condições básicas, no seu mundo interno, para alcançar a interpretação, a saber: Ter capacidade para manter permanentemente a dúvida e a incerteza num estado não saturado da mente, e refrear a necessidade de recorrer a respostas rápidas e exaustivas.
A interpretação deverá constituir-se como uma “oferta” do analista a ser utilizada pelo paciente no seu “aparelho de pensar os pensamentos”: para pensar, para se pensar e ainda para o auxiliar na transformação e expansão da mente. Ao contrário, a interpretação não deve constituir-se como uma ideia forçada, que aniquila a mente do paciente; ou não deverá também tornar-se numa manutenção perversa, que obriga à submissão masoquista do paciente.
Bion concebe assim condições essenciais para a mente do analista para que ocorra o acto interpretativo: o analista deverá possuir uma “capacidade negativa”, ou seja, deverá poder abstrair-se da memória, do desejo e da compreensão para que possa observar e apreciar o significado das suas observações, e possibilite a intuição. Na realidade, deverá ser capaz de suportar um estado análogo à vivência da posição esquizo-paranóide, capaz de conter sentimentos de desorganização, de confusão mental e persecutórios.
Abster-se da memória e desejo (que pensamos diferente do “analista sem memória e sem desejo”) deverá permitir ao analista estar em contacto
com os seus próprios objectos internos. E em que se deixa a si mesmo surpreender pelos pensamentos que espontaneamente lhe surgem na mente, estes certamente decorrentes das suas memórias, desejos, conhecimento, juízos de valor e opiniões – da sua identidade!
No final, fica em aberto a discussão sobre eventuais critérios para uma interpretação satisfatória.
Nesta sequência, a interpretação deve iluminar um objecto psicanalítico sob diferentes ângulos ou perspectivas. Este objecto psicanalítico deve poder expressar-se pela interpretação em diferentes dimensões:
por sensações (remetendo para a apreensão pelos sentidos);
deve enquadrar-se no Mito Pessoal do sujeito, na sua narrativa histórica que contextualiza o estado mental;
deve ainda remeter para um estado de paixão, experimentado, por isso, emocionalmente com intensidade e calor, onde o sujeito se sente “tocado”.
Na situação contrária, da interpretação saturada, o significado interpretativo passa a funcionar não para dar sentido, mas como mera alternativa face à ausência de espaço de contenção transformador, numa busca ansiosa.
Através da interpretação, a mente do analista deverá funcionar como função de contenção, para que, mediante o encontro analítico, se processe a realização que dá sentido ao estado mental do paciente.
TITLE: The Analyst and the construction of interpretation
ABSTRACT: This paper reflects on the construction of interpretation in the mind of the psychoanalyst, through emotional contact provided by the transference relationship. Some basic conditions of the inner world of the analyst to achieve the interpretation are discussed, as well as some criteria to achieve a psychoanalytic interpretation.
KEYWORDS: interpretation; psychoanalyst, Bion; validation of interpretation