O presente trabalho é um estudo sobre a toxicomania, à luz da psicanálise, no qual essa patologia é compreendida como uma modalidade singular de funcionamento mental, e dedica-se a pesquisar as relações que o toxicômano estabelece com o corpo. O que ele parece buscar no seu encontro com a droga é dopar o aparelho psíquico, para colocar em cena o corpo, e não ter que lidar com o inconsciente, na tentativa de proteger-se contra a angústia e a depressão. Esse modo de funcionamento mental encontrado nos sujeitos que se intoxicam nos faz interrogar se é possível uma clínica psicanalítica com toxicômanos. Essa clínica é um desafio para nós, pois nos confronta com um sujeito alienado de seu desejo e preso à urgência de satisfação. Esses são alguns temas que pretendemos tratar aqui a partir de uma breve revisão bibliográfica.
“O ato toxicomaníaco é uma experiência que se realiza no imediato do corpo e não possui sentido em si mesmo, porquanto suspende o tempo e o desejo.”
Este trabalho foi produzido a partir dos estudos realizados na pesquisa: A Psicanálise da Toxicomania, desenvolvida no Laboratório de Psicanálise da Universidade Federal de Minas Gerais – Brasil, sob a supervisão da Profa. Dra. Ana Cecília Carvalho, financiada pelo CNPq e pela FAPEMIG.
Artigo recebido a 6 de Junho de 2012. Versão revista recebida a 24 de Julho de 2012. Aprovado para publicação a 31 de Julho de 2012.
Psicóloga pela Universidade Federal de Minas Gerais, Mestre em Psicoanálisis Clínico pela Universidad de Salamanca – Espanha.
Endereço: Av. João César de Oliveira, n. 2959. Bairro: Novo Eldorado. Cidade: Contagem. Minas Gerais – Brasil.
Telefone: (55 31) 8746 6004, E-mail: liberty_angel@hotmail.com.br
A toxicomania é uma relação intensa e que tende à exclusividade, na qual o uso de drogas já se tenha estabelecido também como uma função psíquica. Ela é uma patologia que apela ao corpo. Etimologicamente a palavra adicto significa escravo: “Adicção na lei Romana é a ação de fazer passar ou transferir bens a um outro, seja por sentença de uma corte, seja por via de venda àquele que oferece mais” (V. Bento,2006). Portanto, o sentido latino-romano de adicção é “escravização por determinação legal como última forma para pagamento de dívidas”, e um “aprisionamento a que se é obrigado para saldar dívida”, como “fato de se submeter à dominação de alguém”. “O corpo nas toxicomanias, coloca-se em evidência, presentifica-se numa estranha relação em que cumpre a função de serviçal de um Mestre” (M. Conte, 2003). O corpo do sujeito que se intoxica paga o preço de seu empobrecimento psíquico. O toxicômano apresenta pouco engajamento subjetivo e assume uma posição de descompromisso diante do próprio desejo. O sujeito que se intoxica “prefere, em dúvida, apelar para algo imediato e concreto que venha acalmar o sofrimento, de preferência, com a economia das palavras” (M. Conte, 2003). Ele não se interroga sobre o seu desejo, sobre isso ele nada quer saber, não quer pensar. Para ele a droga é uma resposta para o seu mal-estar, é uma saída possível.
Este estudo dedica-se a pesquisar as relações que o toxicômano estabelece com seu corpo. Percebemos que na toxicomania há uma primazia da sensação, uma busca exagerada de exploração da sensorialidade, um plano que arranca o sujeito do campo da representação, do pensamento e da palavra. O toxicômano experiencia um prazer sem palavras. O efeito que a droga produz no psiquismo do toxicômano é fazê-lo regredir à fase oral, tema que será abordado adiante. A primazia das sensações e do auto-erotismo está diretamente ligada à supressão da atividade de pensamento do Eu de desejar, de fantasiar, de investir. É a função desejante que é atacada, assim como as funções psíquicas.
Esse modo de funcionamento mental encontrado no sujeito que se intoxica, nos faz interrogar se é possível uma clínica psicanalítica sem palavras. Qual é a demanda de um sujeito que não quer pensar, não quer desejar? Sobre sua relação com o mundo o toxicômano nada quer saber. Ele quer o corpo intoxicado na tentativa de dopar seu aparelho psíquico. A clínica com toxicômanos é um desafio para nós, psicanalistas, pois nos confronta com um sujeito alienado de seu desejo e preso à urgência de satisfação. Há o que muitos chamam de uma nova clínica? Uma clínica
que se dedica às novas patologias do ato? Essa é uma importante reflexão que tentaremos desenvolver devido à sua relevância nos tempos atuais, assim como é destacado por E. Mendes e C. Próchno (2004): “(…) a dor nas patologias contemporâneas expressa-se no corpo. Corpo que se traduz ora pelo excesso de ações, caracterizado pela voracidade e pelos comportamentos compulsivos, ora pela ausência de ações, impedido de agir pela angústia (pânico), ou paralisado (depressões). (…) A compulsão e a voracidade em relação aos objetos de satisfação apresentam-se como a principal característica da sintomatologia de nossos dias. A relação com o objeto é da ordem da demanda e do consumo imediato, não tolerando espera ou desejo. Os novos sintomas são decorrentes de um excesso pulsional impossível de nomear”. (p.152)
Vários autores já se debruçaram sobre a questão da relação que o toxicômano estabelece com o seu próprio corpo. Apresentaremos algumas idéias que consideramos as mais relevantes para o desenvolvimento de nosso estudo, no intuito de compreender o que tem sido explorado no campo das toxicomanias, no que tange à relação do sujeito intoxicado com o seu corpo.
D. Liberman, em sua obra A comunicação em psicanálise (1981), procura classificar os diferentes quadros psicopatológicos através dos estilos de comunicação. Um desses estilos é o épico no qual se enquadra as adicções, perversões e psicopatias. Todos esses quadros incluem as “pessoas de ação” ou caráter impulsivo. Liberman apresenta a concepção da toxicomania como uma patologia em que o ponto essencial é a incapacidade de pensar e a substituição do pensamento pela ação. Assim ele caracteriza: A adicção consiste na utilização de algum meio com finalidade de desenvolver uma determinada ação, na qual a própria droga, ou a relação com ela pode constituir em si a finalidade e que, além disso, teria como motivação última o repúdio a determinados aspectos da realidade interna e externa (D. Liberman,1981)
Segundo o autor, a pessoa é capaz de ter a percepção da necessidade, mas não é capaz de traduzi-la verbalmente e transmitir a mensagem para que seja satisfeita. “Trata-se de uma falha simbólica no caminho intrapsíquico que vai da percepção à ação. O efeito desta falha é um estado crônico de frustração, que gera o tédio e a agressão própria da
insatisfação” (D. Gurfinkel, 1996). A única forma que Liberman apresenta para fugir à essa situação frustrante e entediante é a atuação, e neste sentido, acting out, pois a única função do agir é o alívio da tensão, que ao mesmo tempo transmite aquelas mensagens que o sujeito não deu conta de transmitir.
“A compensação para esta falha de comunicação é uma hipertrofia excessiva do controle e da manipulação da realidade externa. A impulsão controladora leva a pessoa a não perceber o outro como separado e distinto dele próprio” (D. Gurfinkel, 1996). Essa idéia coaduna-se com nossa hipótese a respeito do funcionamento psíquico do toxicômano ser regido pelo processo primário, pois ele está regredido a uma fase anterior de seu desenvolvimento, a fase da onipotência e do narcisismo primário, e ainda não possui um ego que o diferencie do outro e do meio e, portanto, crê que detém o poder de controlá-los.
Destarte, as adicções se incluem nas impulsões pois, supõem “(…) manipulações e utilizações de objetos externos desde o álcool e a morfina, até o café e o cigarro, com a finalidade defensiva de bloquear o afeto depressivo em determinadas situações” (D. Gurfinkel, 1996). Liberman chama essa ação como “impulsão para a fuga” que não se limita à adicção às drogas, mas comporta o impulso para roubar, a adicção à comida e à “conduta do impostor clássico que necessita enganar mulheres ingênuas” (D.Liberman, 1981).
Joyce McDougall é outra estudiosa que possui relevantes trabalhos sobre a toxicomania, porém numa vertente um pouco diferente, pois faz uma aproximação entre o toxicômano e o perverso. Ela propõe uma estrutura adictiva: “onde a atuação representa uma maneira compulsiva de evitar um transbordamento afetivo” (D. Gurfinkel, 1996). Os pacientes desse grupo seriam os des-afetizados, nessas pessoas qualquer emergência de emoção é dispersa pela ação. O ponto de vista econômico é ressaltado por McDougall, já que ela enfatiza a ação como descarga.
Segundo a autora, o que caracteriza a personalidade aditiva é a busca constante, fora de si próprio, de solucionar os problemas que são internos. O objeto adictivo é sempre transitório e a atividade tem que ser repetida incessantemente. McDougall denominou esse objeto de “objeto transicional patológico”, já que “se trata de um objeto que nunca completa a transição para o registro da linguagem ou do pensamento, não havendo nunca introjeção da função materna” (D. Gurfinkel, 1996).
Nessa vertente, a aproximação realizada entre a toxicomania e a perversão resulta num elemento comum que é justamente o déficit da simbolização. No artigo, O fenômeno da drogadição em suas relações com a perversão, Eduardo Berendonk e Ana Maria Rudge (2002) indiretamente complementam essa idéia. A falha na identificação da toxicomania à perversão reside no fato de que na toxicomania, a pobreza da atividade fantasmática é freqüente, no entanto, o papel desempenhado pela fantasia é fundamental para que o sujeito se coloque na posição de vítima na perversão. “A satisfação imediata, auto-erótica, do uso da droga, é um curto-circuito que economiza o caminho da fantasia” (E. Berendonk; A. Rudge, 2002). Acreditamos que a toxicomania é o oposto da perversão, ainda que os modos de funcionamento possam apresentar semelhanças, pois o ato perverso exige a presença do objeto da fantasia, objeto que, obviamente, inclui a castração. A toxicomania exclui a presença da castração. “La ruptura con el “pequeño-pipí”, como dice Lacan, tiene como consecuencia que se pueda gozar sin el fantasma” (E. Laurent, 1994), ruptura essa promovida pelo uso da droga.
As características psicossomáticas também são apontadas por McDougall nos casos das adicções. Ao comentar que os des-afetizados tendem a somatizar quando a tensão aumenta, interna ou externa, ela levanta a hipótese de que “as defesas narcísicas e as ações adictivas servem como regressões psicossomáticas”. (D. Gurfinkel, 1996). Portanto, McDougall considera que as adicções podem se dar com vários objetos, em diferentes contextos, pois representam um modelo de funcionamento mental.
Freud (1914) lembra que a paixão é, em geral, a expressão de uma relação de objeto de tipo narcisista, pois o objeto sexual transforma-se em ideal sexual: “é amado aquele que possui a perfeição que falta ao eu para chegar ao ideal”. (S. Freud, 1914) Esta lembrança é importante se considerarmos que o toxicômano sofre de uma espécie de paixão pela droga. A conseqüência da idealização do apaixonado é justamente a sua dependência do objeto. Afinal, não é a dependência a marca fundamental da relação que o sujeito estabelece com a droga? A dependência do toxicômano atinge uma intensidade tal que torna-se escravo diante da droga, que ele se torna “objeto exclusivo de um prazer necessário”. (P. Aulagnier, 1985).
Em Os destinos do prazer, de 1985, Aulagnier forja uma teoria que compara a paixão ao vínculo que o toxicômano estabelece com a droga. A relação passional, é definida pela autora, como aquela na qual o objet
tornou-se para o Eu de um outro fonte exclusiva de todo prazer, tendo sido por ele deslocado para o registro das necessidades, e um protótipo dessa relação é a estabelecida pelo toxicômano com a droga. Aulagnier aproxima a problemática da necessidade à idéia de Joyce McDougall sobre essas pessoas obrigadas a tornar a realidade conforme ao mundo interior que é o delas, sem para isso, recorrerem ao delírio. O Eu só encontrará o prazer se puder provar que o objeto do prazer está entre os objetos da categoria do necessário a seus próprios olhos (o olhar do outro é secundário). A experiência do prazer e o objeto que é sua fonte fazem então parte do que é obrigado, imposto, necessário, do não-escolhido, e isso é o específico da problemática da paixão.
O estado passional, ao transformar o objeto de prazer em objeto de necessidade, e de uma necessidade cuja satisfação é vital, libera o Eu de toda responsabilidade no registro da escolha. Objeto obrigado, prazer obrigado e sobretudo vida imposta. O Eu não vive senão à espera do objeto exclusivo de um prazer necessário, o que quer dizer que o Eu vive por causa desta espera e que através desta mudança do objeto para o registro da necessidade, o prazer e o sofrimento de viver, a esperança de sentir prazer torna-se também parte do imposto. É como se ocorresse uma perversão da pulsão. (D. Gurfinkel, 1996). A característica fundamental do objeto da pulsão é a sua variabilidade ou contingência, sendo a fixação o seu oposto. Podemos, então, supor aqui uma característica específica da toxicomania. O que caracteriza a patologia da toxicomania é a fixação da pulsão em um objeto, fixação tão exacerbada que Ocampo (D. Gurfinkel, 1996) chegou a caracterizá-la como perversão da pulsão. O que está pervertido na pulsão é a própria lei que a fundamenta, a da contingência do objeto. Se o que caracteriza o objeto é a sua subordinação à pulsão conforme lhe sirva na busca de satisfação, na toxicomania é a pulsão que parece se subordinar ao objeto-droga, como se esse fosse o único capaz de proporcionar satisfação. A pulsão se torna escrava do objeto. A perversão (da pulsão) afeta o registro da contingência do objeto, mas não só ele: o modelo da pulsão sexual é deslocado para o da necessidade. Essa metamorfose tem o sentido de recolocar o universo do desejo no plano da necessidade. Ocampo interroga: “A “biologização” à qual o toxicômano reduz seu prazer (“tenho necessidade de prazer” ou tenho prazer graças às propriedades químicas da droga) deve ser compreendida então como uma maneira de “perverter a pulsão”, dado que no sintoma adictivo a pulsão aparece reduzida ao papel mudo e mortífero de “imitar” o instinto?” (1988).
A expressão amor à primeira vista também se aplica aqui. Muitas vezes o encontro inesperado com a droga acontece assim, um encontro não procurado, não previsto, não imaginado, que precipita instantaneamente o sujeito num estado de apaixonamento. A idealização, o deslumbramento passional caracteriza o início de uma paixão e, sobretudo há uma idealização do poder de vida que é atribuída a este outro.
No caso das toxicomanias, Aulagnier ressalta que a experiência de prazer depende da relação que a droga vai induzir entre o sujeito e a realidade enquanto ele está sob o efeito da substância. Em geral, os alucinógenos colocam em estado de repouso a atividade sexual durante o tempo de sua ação; o Eu goza de um conjunto de percepções sensoriais, de representações, de imagens que são a obra e a manifestação do poder do que a autora define como sua “sensorialidade pensada” (P. Aulagnier, 1985). Uma realidade pensada e percebida que seria completamente conforme à sua representação, e mais exatamente, uma maneira de pensar, de perceber a realidade, que torna impossível o surgimento de qualquer questão que se refira a uma possível diferença entre as representações da realidade criadas pelo pensamento.
A droga não afasta o sujeito da realidade a ponto de dizermos que é um funcionamento idêntico ao da psicose. Os tóxicos demonstram que é possível ver as coisas de uma outra maneira, que outras formas de existência são possíveis, e que a recusa de conhecer estas outras formas propiciadas por eles demonstra os limites que se impõem certos sujeitos. No registro do pensamento, Aulagnier (1985) acredita que: A toxicomania é um compromisso entre o desejo de não mais pensar a realidade e a recusa ou a impossibilidade de recorrer à construção delirante desta realidade, ou ainda, a toxicomania é um compromisso entre o desejo de preservar e o desejo de reduzir ao silêncio a atividade de pensamento do Eu.
O Eu parece deslocar para a droga a atividade pensante enquanto se coloca no lugar daquele que contempla e goza o que produz esta atividade, pois “(…) ou se goza do pensamento, e as demandas do corpo são vividas como se fossem um adversário que deveria ser reduzido ao silêncio, ou então goza-se do corpo e neste caso é a atividade de pensar que deve ser silenciada” (P. Aulagnier, 1985).
Como pudemos perceber nos estudos anteriormente abordados, independente do foco de abordagem de cada um deles acerca da toxicomania, os autores concordaram que o toxicômano age ao invés de pensar,
que a atuação configura-se como descarga, independente de simbolização. Há, portanto, na atividade do sujeito que se intoxica um predomínio da atuação compulsiva e repetitiva, o que denota um déficit de simbolização e uma tentativa de domínio da angústia, que não é possível ser elaborada. O fazer com o corpo está no lugar do dizer e, como elucida Freud (1930), com a intoxicação, encontra-se um modo de negar a existência do inconsciente.
O toxicômano tenta inverter a idéia freudiana de que o corpo é fonte de sofrimento. Em diferentes momentos da obra de Freud encontramos distintas abordagens sobre o papel do uso de substâncias tóxicas. A função destas aparece, ora como meio de consolo, ora como desinibição e até mesmo como defesa. Essas idéias aqui destacadas já haviam sido apontadas por Freud em 1930, em sua obra O mal-estar na civilização, quando distingue a intoxicação das saídas substitutivas por se constituir um modo de “tratar a pulsão pela via da sensação e não pela via do inconsciente, ou seja, tratar a pulsão pelo corpo” (L. Pacheco, 2001). Ele destaca o êxito dessa estratégia pela grande influência que tem sobre o corpo, sendo considerada por ele como uma das formas, ainda que rústicas, uma das mais eficazes para lidar com a tarefa árdua da vida em civilização. A droga tem efeito direto no organismo, independe de mediações simbólicas.
Os psicotrópicos, ao prestarem esse serviço apaziguador, em certo sentido, fazem recair sobre o psiquismo um ataque às suas funções: pensamento, representação, percepção, que Freud associou ao funcionamento secundário. Essas funções são substituídas por uma ação sem representação, uma evitação do circuito representativo, simbólico, desejante. A drogadição é, portanto, “um fenômeno que envolve em sua base uma dimensão de violência psíquica” (B. Savietto, 2008).
A urgência da droga suprime o tempo de construção de sentido e de elaboração. “A suspensão de tempo de elaboração culmina nas patologias do ato – depressões, compulsões, perturbações psicossomáticas – com ausência da simbolização”. (R. Volich, 2005). A aquisição do princípio de realidade é o que está deficiente no sujeito intoxicado. A toxicomania é uma estratégia que visa enfatizar o corpo para satisfazer as pulsões, outrora impedidas de êxito, justamente por causa do princípio de realidade. As palavras são como coisas para o toxicômano, não têm estatuto de linguagem, assim como os sonhos, ambos regidas pelo processo primário. A representabilidade, nos sonhos, no qual os pensamentos se transformam em imagens e as palavras são tratadas como coisas,
determinadas por sua representabilidade plástica e não semântica, é semelhante ao funcionamento psíquico toxicomaníaco. É a incapacidade para a frustração que impede o desenvolvimento da função pensante (secundário) como conhecemos.
A pressão, como uma característica da pulsão, também sofre uma mutação. Quando a exigência de trabalho imposta ao psíquico se torna uma urgência compulsiva de drogar-se, subentende-se uma substituição do pensamento pela ação; “a urgência é a impossibilidade de esperar, e a impossibilidade de esperar implica a impossibilidade de pensar”. (D. Gurfinkel, 1996).
“O homem procura na farmácia os meios de fugir, nem que por apenas umas horas, ao seu habitáculo de lodo e arrebatar o paraíso num só gesto.”
A hipótese que defendemos é de que a falha da função pensante e da função simbólica se deve à regressão oral operada na toxicomania. A regressão ao narcisismo primário é a noção central que orienta todo nosso trabalho, tendo sido também tema de um outro trabalho de minha autoria sobre o assunto3.
Em uma carta a Fliess de 22 de dezembro de 1897, Freud escreveu: “Tem me ocorrido que a masturbação é o primeiro e único dos grandes hábitos, a “protomania”, e que todas as demais adicções, como a do álcool, da morfina, do tabaco, etc., só aparecem na vida como substitutos e deslocamentos daquela. A importância que esta adicção tem na histeria é realmente prodigiosa, e talvez origine-se aqui – em parte ou totalmente – o meu magno obstáculo, ainda desconhecido. Ao dizer isto surge naturalmente a dúvida de se tal adicção é curável ou se a análise e a terapia devem deter-se aqui, conformando-se com converter a histeria em uma neurastenia.” .
Neste raro momento em que Freud fala diretamente sobre adicções, ele relaciona este vício – assim como todas as outras adicções – com a masturbação, ou seja, com o auto-erotismo, que é o protótipo da toxicomania.
Tomás, M. A. (2008). Intoxicação: um retorno à onipotência narcísica. Rev. Mosaico: estudos em psicologia. Belo Horizonte, (II), n.1: 35–43.
Na tentativa de (re)conquistar a independência de qualquer oposição do mundo externo, o toxicômano busca realizar-se auto-eroticamente. “En el fondo eso que no soportamos en el otro, es un goce diferente del nuestro” (E. Laurent, 1994). Tudo isso me conduz à hipótese da toxicomania como atividade (sexual) auto-erótica de uma posição narcisista da libido. Uma tentativa do sujeito tornar-se independente do mundo externo, ou de constituir um objeto que não entre em contradição com seu próprio desejo, e que possa assim ser controlado onipotentemente. Gurfinkel (1996) diz que na experiência das adicções, o objeto-droga tem também a característica de estar sempre disponível, para ser utilizado sempre que desejado/necessitado. A droga tem de estar sempre à mão, como o polegar, ou outra parte do corpo. Esse é um prazer de ter o objeto, dominá-lo onipotentemente até ser quase uma parte de si mesmo. Esse é um dos referenciais que a psicanálise contribui no campo de estudo das toxicomanias, pois: “Na dependência do toxicômano o essencial não são as propriedades químicas do objeto nem o prazer suposto no seu consumo, mas sim o auto-erotismo subjacente enquanto ideal narcisista de independência, e cuja função não é outra que a de repudiar a ausência estrutural de um objeto real e adequado ao desejo” (E. Ocampo, 1988).
Ainda é preciso dizer que as propriedades químicas das drogas têm o efeito de potencializar os mecanismos subjacentes no funcionamento mental dos toxicômanos, o que traduz em uma especificidade da toxicomania, em relação a outros vícios, que não podemos desconsiderar.
O narcisismo – especialmente o narcisismo primário – está desde o início articulado aos paradoxos do originário. Ele é também, sem dúvida, um conceito-chave para compreender a toxicomania. O modo de funcionamento mental primário – ou segundo o princípio de prazer, opondo-se ao de realidade – é, pois, uma noção de grande operacionalidade na clínica da toxicomania. O barato da droga talvez expresse um esforço de economia psíquica na busca do caminho mais curto para o prazer. O efeito das drogas sobre o psiquismo, em geral, consiste em provocar uma regressão da libido a etapas anteriores do desenvolvimento. Todos os fatores nocivos ao desenvolvimento sexual externam seu efeito promovendo uma regressão, o que possibilita caminhos laterais de satisfação: “Os nárcoticos visam a servir – direta ou indiretamente – de substitutos da falta de satisfação sexual” (S. Freud, 1898).
Freud (1905) explicou que, durante o desenvolvimento psicossexual, surgem pontos de fixação da libido, graças à sua adesividade, para os quais a pessoa regride quando se defronta com sérias frustrações.
Ora, não pode haver fixação mais atraente do que o período da primeira infância, a do prazer primário. Sobre isso, Freud reflete: “Há, portanto algo mais natural do que persistirmos na busca da felicidade do modo como a encontramos pela primeira vez?” (1930). Acrescento ainda que: “se o presente se diferencia do passado em tempo relativamente curto, o Eu começa por imaginar o futuro como o tempo no qual poderia retornar, idêntico a si mesmo, um estado, um momento, um prazer passados” (P. Aulagnier, 1985). Olievenstein acredita que o toxicômano busca recriar as condições privilegiadas nas quais obteve satisfações precoces incomparáveis: “A toxicomania é sempre uma vivência em ação, uma sucessão de atuações, com a constância de um imaginário que é, na aparência, voluntariamente orientado, e pelo qual o toxicômano procura reviver – ou, mais exatamente, recriar instantes privilegiados de sua infância, ou realizar situações fantasiadas na infância” (C. Olievenstein, 1983).
A partir do modelo do sonho proposto por Freud, entendemos que: o que possibilita a regressão na formação do sonho é justamente um afastamento da realidade. Esse afastamento pode ser entendido também em relação à toxicomania. Um suposto estado narcísico primitivo – ao qual buscamos insistentemente retornar, talvez por efeito de uma força constante, quando adormecemos – é também um estado de afastamento da realidade. Segundo Freud (1930): “Contra o temível mundo externo, só podemos defender-nos por algum tipo de afastamento dele, se pretendemos solucionar a tarefa por nós mesmos […] Os métodos mais interessantes de evitar sofrimento são os que procuram influenciar o nosso próprio organismo […] O mais grosseiro, embora também o mais eficaz, desses métodos de influência é o químico: a intoxicação […]”. E é a essa propriedade tão tentadora de fazer-se independente, que Freud atribui ser um dos grandes perigos da toxicomania: “[…] O serviço prestado pelos veículos intoxicantes na luta pela felicidade e no afastamento da desgraça é tão altamente apreciado como um benefício, que tanto indivíduos quanto povos lhes concederam um lugar permanente na economia de sua libido. Devemos a tais veículos não só a produção imediata de prazer, mas também um grau altamente desejado de independência do mundo externo, pois sabe-se que, com o auxílio desse ‘amortecedor de preocupações’, é possível, em qualquer ocasião, afastar-se da pressão da realidade e encontrar refúgio num mundo próprio, com melhores condições de sensibilidade. Sabe-se igualmente que é exatamente essa propriedade dos intoxicantes que determina o seu perigo e a sua capacidade de causar danos.” (S. Freud, 1930).
Aulagnier (1985) enfatiza a relação entre o Eu e a realidade. A partir do momento em que o Eu é constituído, sua tarefa será conscientizar que o seu prazer depende da presença e do investimento de seus dois objetos externos que, segundo ela, são o próprio corpo e o Eu do outro. O Eu do outro só será fonte de prazer ou de sofrimento enquanto continuar sendo o suporte de um investimento privilegiado pelo Eu que goza ou sofre de sua presença ou de sua ausência. Entre os fatores responsáveis pelo prazer ou pelo sofrimento, um deles merece atenção especial: as representações que o originário e o primário vão realizar do estado afetivo que acompanha o encontro psique-mundo. “Para o originário, a realidade é um não-existente” (P. Aulagnier, 1985), o que não implica que ele não sofra seus efeitos. A tarefa do Eu é: transformar, metabolizar o objeto pulsional a fim de torná-lo conforme ao objeto real com o qual o Eu deve lidar.
Ao contrário da relação passional, na relação amorosa o trabalho de desinvestimento ou sofrimento que o Eu vive em sua relação com o amado só são suportáveis graças à diversificação dos destinatários de suas demandas, os quais lhe asseguram a possibilidade de recuperar prazeres que lhe permitem suportar o sofrimento ligado ao conflito que o opõe ao seu parceiro. Na toxicomania, o que vemos é um desinvestimento dos objetos, das relações amorosas, do encontro com o outro, pois: a posição subjetiva do toxicômano é aquela na qual ocorre uma fixação pulsional a um único objeto. (T. Carvalho, 2008). A relação de exclusividade do toxicômano com a droga é indissociável da sua tentativa de rechaçar, de excluir todo possível companheiro de prazer, aspirando assim a um ideal narcisista de autonomia no gozo. (E. Ocampo, 1988). O toxicômano busca um gozo autístico, pretende uma idealização de um poder de dominação do pensamento sobre a realidade. O afastamento da realidade se dá, então, como corolário da criação de uma neo-realidade do um eu-droga. Certa vez, ouvi de um paciente que acabara de chegar numa clínica para tratar-se, que ele concluiu que precisava de tratamento porque em determinado instante percebeu que “eu e a droga não podíamos mais resolver tudo”.
Para Freud, “O desprazer é sempre a expressão de um grau mais elevado de tensão”. (1914) E conclui que: “Em última análise, todo sofrimento nada mais é do que sensação; só existe na medida em que o sentimos, e só o sentimos como conseqüência de certos modos pelos quais nosso organismo está regulado.” (S. Freud, 1930). A toxicomania pode ser entendida como uma modalidade singular de funcionamento mental, configura-se como uma patologia narcísica.
“A toxicomania é um compromisso entre o desejo de preservar e o desejo de reduzir ao silêncio a atividade de pensamento do Eu.”
O que o toxicômano parece buscar no seu encontro com a droga é dopar o aparelho psíquico, para colocar em cena o corpo, e não ter que lidar com o inconsciente. O corpo se torna foco de seu investimento pulsional – ele se coloca em cena – e encena as conseqüências do desinvestimento psíquico, pagando o preço do desinvestimento de sua vida mental. O que podemos observar é uma tendência radical do psiquismo à pura eliminação do desprazer, realizada por uma espécie de curto-circuito psíquico dos processos de elaboração, de representação, de edificação de fantasias, que estão excluídos do projeto do toxicômano. “O ato toxicomaníaco pode ser referenciado como uma técnica pelo corpo” (L. Pacheco, 2001). Podemos pensar que na toxicomania há uma desintrincação pulsional, e que o psiquismo do toxicômano é regido segundo o trabalho silencioso da pulsão de morte, que é responsável pelo desmantelamento da vida psíquica e pela busca de eliminação do objeto, na tentativa de reconstruir o narcisismo primário.
A pulsão de morte é aquilo que arrasta o sujeito para a desorganização, o desinvestimento e o silêncio: é aquilo que é auto-agressivo, destruidor, mas primariamente autodestruidor.
É sabido que a pulsão de morte opera em silêncio, que o rumor da vida vem de Eros. Isso do ponto vista de Karl Abraham (R. Mezan, 2002) significa que ela é inapta para acolher representações, o que implica em que ela não pode ser facilmente ligada a elas. No entanto, não podemos dizer que ela é totalmente desprovida de representações, a pulsão de morte é inapta a acolhê-las, ao contrário da pulsão de vida, em cujo campo elas são inúmeras: fantasias, objetos, desejos. A idéia de morte, ela própria não é uma representação inconsciente. Segundo Abraham: “Representações inconscientes são fantasias, agenciamento de imagens” (R. Mezan, 2002), e, parece ser isso que Freud quer dizer quando afirma que no inconsciente não existe tal idéia.
A pulsão de morte revela-se no silêncio do prazer experienciado, na quebra do circuito desejante, pensante, simbólico. Sua ação presentifica-se nesse movimento de destruição das funções psíquicas. A pulsão de morte
é a única cuja satisfação independe de um objeto, mas de um ato, a única que é efetivamente autônoma.
De acordo com o modelo da paixão de Aulagnier, o objeto da paixão é um objeto híbrido, capaz de satisfazer ao mesmo tempo Eros e Tanatos. A droga se torna ao mesmo tempo objeto de prazer para a atividade de pensar (recriar a realidade) e objeto de necessidade e de sofrimento para o corpo. O predomínio do sofrimento como o desejo de não mais sofrer e não mais desejar, que daí resultam, mostram que a escolha do objeto na toxicomania é mais obra de Tanatos do que da Eros. Green (1988) ressalta que “o objeto é o revelador das pulsões”.
Abraham ainda comenta que as patologias aditivas fazem do objeto narcísico um objeto de morte. Destarte, estabelece um vínculo entre narcisismo e pulsão de morte, de importância absolutamente central para toda a psicopatologia, o que podemos ver nas patologias anti-objeto, que denotam essa dinâmica que instrumentaliza o objeto em favor da pulsão de morte.
André Green (1988) propõe pensarmos que a meta da pulsão de vida é garantir uma função objetalizante. Segundo ele, “a função objetalizante não se limita às transformações do objeto, mas pode fazer chegar à categoria de objeto aquilo que não possui nenhuma das qualidades, das propriedades e dos atributos do objeto desde que uma única característica se mantenha no trabalho psíquico realizado: o investimento significativo”. (A. Green, 1988). Já a meta da pulsão de morte é realizar ao máximo uma função desobjetalizante através do desligamento. Esta qualificação nos permite compreender que não é somente a relação com o objeto que é atacada, mas também todos os substitutos deste – o eu, por exemplo. Mas a manifestação própria à destrutividade da pulsão de morte é o desinvestimento. O narcisismo negativo, postulado por Green, aspira ao nível zero, que, dessa maneira, expressa uma função desobjetalizante que não se contentaria em recair sobre os objetos ou seus substitutos, mas sobre o próprio processo objetalizante.
O argumento principal que nos leva a acreditar no protagonismo da pulsão de morte na desorganização das funções psíquicas do toxicômano se baseia na proposição de que:“a meta objetalizante das pulsões de vida ou de amor bem como conseqüência principal realizar, mediante a função sexual a simbolização (Bion, Winnicott, Lacan). Tal realização é a garantia da intrincação dos dois grandes grupos pulsionais cujo caráter axiomático continua sendo, para mim indispensável para a teoria do funcionamento psíquico.” (A. Green, 1988).
Luís Cláudio Figueiredo (2003) afirma que aquilo que vai assinalar um funcionamento para além do princípio de prazer é exatamente a crise da mediação simbólica, a crise da capacidade de ligação.
Sabemos que uma característica fundamental das pulsões é não ter um objeto preexistente, predeterminado. Há uma gama de possibilidades para que o sujeito eleja determinada coisa/sujeito como objeto de sua pulsão e é sua história singular que vai determinar essa escolha. No caso do sujeito toxicômano ele elegeu um objeto narcísico – promovendo uma perversão da pulsão – a fim de funcionar autisticamente, auto – eroticamente, transformando seu próprio corpo dopado na solução para seus conflitos psíquicos, e “negar a existência do inconsciente” (T. Carvalho, 2008).
“O que nos diz esse Eu que vem nos solicitar uma análise – pois certamente não é o id que nos faz esse pedido – senão que não pode continuar pagando o preço de um tal sofrimento pela parte de prazer ao qual é obrigado a se agarrar?”
No contexto cultural da atualidade, a clínica da toxicomania tornou-se um dos grandes desafios lançados à psicanálise. Um dos obstáculos a serem transpostos reside, talvez, no fato de os toxicômanos apresentarem um elemento novo e complicador: concentram-se quase exclusivamente na dimensão do efeito psicofármaco no corpo; recusam o intrapsíquico e buscam no exterior respostas imediatas de prazer. O sujeito, quando chega para o tratamento, geralmente vem colado ao seu uso de drogas, só consegue falar de si a partir do uso que faz das drogas (E. Chaves, 2008). “Não há demanda, pois não há angústia” (O.Cirino, 2008). É preciso se deparar com o mal-estar, com a falta, o vazio, para que a angústia possa emergir e construir a demanda de uma análise. Há apenas o toxicômano e a droga e, neste duo, parece não haver abertura possível para a intermediação da palavra, o que se torna um obstáculo para a intervenção terapêutica. A possibilidade de efetuar novas saídas depende da ausência do objeto, da sua falta, para que o vazio apareça e provoque a necessidade de um trabalho representativo.
Quando o “objeto absolutamente necessário” não se deixa esquecer – (…) – ele, com seu excesso, produz uma intrusão intolerável e não dá lugar à representação e ao pensamento, à nostalgia e ao desejo, pois em
todos estes processos o objeto deve estar ausente. Na presença maciça e contínua do objeto primário, não se dão os processos de simbolização. Proliferam então as saídas não-representacionais como as passagens ao ato, as condutas perversas, os adoecimentos psicossomáticos.” (L. Figueiredo, 2004).
Além disso, os atos toxicomaníacos em geral não podem ser decompostos analiticamente como formações do inconsciente, pois, como vimos, não estão estruturados como um sintoma, no sentido de algo que condensa muitos sentidos (T. Carvalho, 2008). Ao contrário, a toxicomania realiza um tratamento pelo corpo que não possui sentido em si mesmo, uma estratégia de afastamento do simbólico para se proteger contra a angústia e a depressão. Muitas vezes o toxicômano chega para o tratamento encaminhado por um agente do Direito, pela família, um médico, ou um empregador, e dificilmente o sujeito se implica no seu comportamento adictivo. O objetivo da análise com esses sujeitos é abrir espaço para o simbólico, para a linguagem, para que aos poucos a problemática do objeto droga possa ser deslocada do centro da vida do toxicômano.
O que observamos em muitas modalidades de tratamentos para toxicômanos é justamente a ênfase que é depositada na dependência química, como sendo uma doença incurável, em detrimento do sujeito do inconsciente. Esse se torna o ponto principal a ser trabalhado, e a droga sendo, sempre, uma questão central na vida do sujeito. Ele continua a manter uma relação de dependência com os tóxicos que deve ser monitorada e controlada; é preciso, por exemplo, evitar o primeiro gole. Dessa forma, todo o tratamento é pautado na condição da abstinência, pois se a droga é o problema, ao suspender seu uso, a cura é alcançada. No entanto, Freud, já em 1898, nos indicava um caminho para estabelecer um tratamento possível com os toxicômanos: “Pois a necessidade sexual, uma vez despertada e satisfeita por algum tempo, não pode mais ser silenciada; só pode ser deslocada por outro caminho. Aliás, o mesmo se aplica a todos os tratamentos para romper com um vício. Seu sucesso será apenas aparente enquanto o médico se contentar em privar seus pacientes da substância narcótica, sem se importar com a fonte de que brota sua necessidade imperativa. O “hábito” é uma simples palavra, sem nenhum valor explicativo. Nem todos os que têm oportunidade de tomar morfina, cocaína, hidrato de cloral etc. por algum tempo adquirem dessa forma um “vício”. A pesquisa mais minuciosa geralmente mostra que esses narcóticos visam a servir – direta ou indiretamente – de substitutos
da falta de satisfação sexual; e sempre que a vida sexual normal não pode mais ser restabelecida, podemos contar, com certeza, com uma recaída do paciente”. (S. Freud, 1898).
Cabe, enfim, perguntar: devemos tratar o sintoma do sujeito, ou o sujeito do sintoma?
A transferência acaba sendo uma vivência de uma função materna de nomeação e de libidinização do corpo do analisando. É preciso que o analista não ocupe o lugar de alienante ao qual é convocado, para que não passe a ocupar o lugar da droga. A clínica com esse tipo de paciente solicita do analista uma extrema delicadeza para tentar manter-se no espaço intermediário, não cedendo às demandas imediatas nem se ausentando demais em um silêncio sem eco (E. Chaves, 2008). Com Aulagnier concluimos que: “O trabalho analítico atinge a sua finalidade quando o sujeito pode operar uma nova diversificação de seus investimentos, diversificação compatível com a escolha de objetos e qualidades, fontes de um prazer que já não impõe o desconhecimento, a fuga, a negação de tal ou qual exigência da realidade, quer se trate do corpo, ou do registro sexual e sem excluir o campo de realidade social.” (P. Aulagnier, 1985).
Um trabalho psicanalítico autêntico pode alcançar seu objetivo com um toxicômano, quando este puder ser um ser plenamente vivente que, liberto da necessidade da química da droga, não tenha mais nem necessidade nem desejo dela, e possa assim ascender a novas possibilidades de investimentos que lhe tornem mais livre.
TITLE: The body on stage in drug addiction.
ABSTRACT: This paper is a psychoanalytic study on drug addiction, in which this pathology is understood as a unique mode of mental functioning, according to the research of the relationship that the addict person has with his body. What he seems to seek with the drug use is to dope the psychic apparatus, to stage the body, and not having to deal with the unconscious, in an attempt to protect himself against anxiety and depression. This mode of mental functioning found in drug addicted people makes us wonder if is effective a psychoanalytic care for addictions. This care is a challenge because presents us a subject alienated from his own desire, enchained to the urgency to satisfaction. These are some issues studied in this paper, based on a brief literature review.
KEYWORDS: Psychoanalysis, drug addiction, narcissism, body, new symptoms.