Este ano João dos Santos faria 100 anos se fosse vivo. A sua família, em colaboração com várias entidades para as quais a presença dele foi importante, entre as quais se conta a Sociedade Portuguesa de Psicanálise, organizam uma comemoração deste centenário.
Mas a nossa Sociedade, por ocasião deste Colóquio, não quer deixar de assinalar a data. Porque João dos Santos foi um dos seus fundadores e figura central da Psicanálise em Portugal. E em todos os campos de trabalho a que se dedicou com empenho, a sua intervenção foi marcada pelo seu saber e pela sua identidade de psicanalista. Ele faz parte do nosso património científico e afectivo.
O trabalho do psicanalista decorre em condições bem precisas, que são as da sessão psicanalítica, de acordo com as exigências do que se convencionou chamar o quadro psicanalítico. Mas um dos elementos fundamentais desse quadro, é o próprio psicanalista, com a maneira como ele integrou e vive o saber psicanalítico.
Num sentido mais vasto, ser psicanalista não é só o exercício de uma profissão. Porque tratando-se, através do exercício dessa atividade, de compreender e ajudar a evoluir a experiência interior e a dinâmica de uma outra pessoa, o próprio psicanalista tem, ele próprio, de ter interiorizado um modo de funcionar e uma maneira de se relacionar com os outros que reflicta a capacidade resultante da integração do saber psicanalítico.
É essa qualidade do homem-psicanalista que se designa por identidade psicanalítica.
O primeiro aspeto de que vou falar é a maneira como eu vi, ou como me pareceu entender que ele integrava o seu saber e experiência psicanalíticos
Comunicação apresentada no XXIV Colóquio da Sociedade Portuguesa de Psicanálise: A Psicanálise na Era Global, Lisboa, 17 e 18 de Maio de 2013.
Membro Didacta da Sociedade Portuguesa de Psicanálise. E-mail: sdiniz@sapo.pt
na sua maneira de estar de uma forma geral, o que correspondia ao que eu entendia ser a imagem de si mesmo que ele gostava de dar aos outros. Do mesmo modo, isso me ajudará a dizer de que maneira me pareceu ver que ele se situava no mundo da cultura em geral e vivia a sua condição de psicanalista.
Era sem dúvida um homem culto, mas mais do que como um erudito, penso que ele gostava de ser visto como um sapiente. Nem sinto que se lhe pudesse aplicar a imagem que geralmente se tem de um “intelectual”. Porque era um homem portador de conhecimentos que sabia transformar em sabedoria. Que sabia observar e pensar sobre a experiência humana na sua totalidade, e gostava de transmitir aos outros essa sabedoria. Penso que isso se sentia sem dificuldade logo nos primeiros contactos.
Tal facto, devia-se a uma fina sensibilidade, a uma intuição rápida e a uma maneira de integrar a riqueza da componente afetiva com a subtil metaforização que lhe está habitualmente associada, o que permite ver as coisas, “senti-las” e reconhecer-lhes o novo “sentido” que ganham depois de “sentidas”. Porque o mundo exterior, a realidade material, ganha um sentido humano – humaniza-se – através da sua perceção por um homem, que o integra na dinâmica do seu mundo interno e assim lhe dá significados que em si mesmo não tinha. Passou a ter significados porque alguém lhos deu. Passou a ter um sentido porque alguém o sentiu.
A partilha destes significados, através da apreensão do que se sente e do que o outro sente, é que permite a relação humana de boa qualidade, baseada na clareza do que cada um sente e da compreensão de si mesmo que perceciona no outro. Por outras palavras, intuindo o que o outro sente de si próprio.
Estou a falar de um processo complexo, que pode ser mais ou menos bem sucedido. É uma experiência emocional global e subtil, que quando é posta em palavras, como agora estou a tentar fazer, pode provocar certa estranheza em algumas pessoas, menos habituadas a refletir sobre estas “transações” entre mundo interno e mundo externo.
O que é que a Psicanálise tem a ver com isto? É que este não é o modo de funcionar do comum das pessoas.
Na conceção tradicional da cultura ocidental, o homem é sempre considerado como um ser racional, quer dizer que pode, e se espera que o faça, determinar o seu comportamento e as suas decisões por motivos “razoáveis”, ou seja, de acordo com o que a luz da razão proporia que se fizesse.
No entanto, qualquer homem, consciente do que se passa consigo próprio, terá que reconhecer que os seus sentimentos não obedecem aos seus raciocínios. E a ideia de que a “razão” acabaria por prevalecer sobre estes comportamentos “não racionais” foi sempre fazendo sentir o seu peso ao longo da História. O problema está em que não se trata de problemas que se possam resolver apenas com argumentos racionais. Daqui resulta muitas vezes um sofrimento mental que a pessoa não sabe resolver.
No decorrer deste processo de pensamento, nos finais do século XIX a Psicanálise aparece como uma teoria científica que procura uma compreensão integrada do funcionamento da psique humana. Daí que a presença de alguém que integrou a visão psicanalítica do funcionamento humano traz alguma coisa de novo ao convívio dos homens.
João dos Santos nasceu em 1913. Tanto quanto sei, a sua primeira grande entrada no mundo da psicanálise foi a sua análise com Serge Lebovici em 1947. Morreu em 1987. Quer dizer que a sua vida de psicanalista decorreu, quase toda, durante uma época em que a psicanálise estava em grande expansão e gozava de grande prestígio, pelo menos em Paris, onde trabalhou.
Como a primeira etapa da formação do psicanalista é a sua análise pessoal, espera-se que ele seja um exemplo paradigmático desse funcionamento harmonioso, rico e criativo que a psicanálise bem sucedida deveria proporcionar. O tal homem portador de sabedoria de vida, traduzindo na qualidade das relações que estabelece a sua experiência de bem-estar pessoal e a boa qualidade do seu mundo interno.
A imagem pública de João dos Santos, e o que ele gostava de transmitir de si e da riqueza da sua personalidade, enquadrava-se no que acabo de expor. Creio que se pode dizer que era uma figura “carismática” de psicanalista, que ele sabia bem “trabalhar”, porque tinha realmente qualidade pessoal para isso.
João dos Santos teve uma atividade diversificada, com múltiplas intervenções quer culturais, como a sua participação regular na imprensa periódica, ou em programas da rádio, quer, mais especificamente, no campo profissional, não só como analista, mas também como formador e como educador. A sua intervenção era sempre “a de um psicanalista”, como alguém que tem uma maneira de viver e de estar marcada por essa
qualidade e por uma sabedoria conseguida, que põe à disposição dos outros para que dela aproveitem.
Penso que ele cultivava esta atitude conscientemente. Para comunicar o que sentia, ou a maneira como achava que se devia viver, usava muitas vezes, referindo-se a si mesmo, a expressão “entregar-se ao prazer de existir”. Pelos menos eu ouvi-lho várias vezes. Correspondia ao que entendia ser a capacidade de viver com serenidade e de encontrar prazer naquilo que se faz. E isso era claramente apresentado como um fruto da Psicanálise.
No entanto, não se pense que ele era um homem fechado no mundo da Psicanálise, o que seria certamente uma grave limitação.
Era um grande conversador, com quem se podia estar longamente, sem dar pela passagem do tempo. Cultivava vários centros de interesse, passando com agilidade de uns temas para os outros, vendo sempre nesses conhecimentos uma contribuição para a qualidade do mundo interno, e uma fonte de enriquecimento para uma visão da realidade humana, própria de um psicanalista.
Isso tinha a ver com uma integração consciente da sua história e da sua experiência passada, de que falava com gosto, para dar um tom mais pessoal ao que ia dizendo. Este falar do passado não era uma evocação saudosa, mas um revisitar com prazer recordações, que enriquecia com a sua experiência da atualidade.
O Ioga que fizera nessa manhã, ou o cuidar das plantas do seu jardim durante o fim de semana, podiam vir à conversa durante uma reunião de supervisão.
Gostava de integrar a sua experiência profunda de psicanalista com histórias divertidas, que traduziam bem o que queria dizer. Contou que alguém lhe perguntou um dia, com a intenção de fazer espírito com o facto de ele passar todos os dias várias horas a ouvir o que os outros lhe diziam, se os seus pacientes não o enganavam. Ao que ele respondeu: «Não, porque eu acredito em tudo o que eles me dizem». É uma resposta espirituosa que transmite uma grande sabedoria. Porque mesmo na hipótese de que uma pessoa em análise queira mentir, ao querer enganar ela está a transmitir alguma coisa que é verdade.
Diante dos mais novos, de quem então eu fazia parte, colocava-se espontaneamente como o Mestre e gostava de ser reconhecido como tal. Ensinava com gosto, embora não fosse muito tolerante com as discordâncias, se lhe pareciam demasiadamente insistentes. Mas tinha uma elegância própria na comunicação do que sabia, e ensinava com uma
generosidade que nos permitia articular bem o nosso prazer de aprender com o seu prazer de ensinar. Uma capacidade que, infelizmente, alguns Mestres não possuem.
Durante algum tempo, tive a oportunidade de o acompanhar em visitas a Jardins de Infância, com a finalidade de observar crianças no seu ambiente habitual, para formação das equipas educativas. A coisa passava-se, em geral, numa sala onde um grupo de adultos se sentava em círculo e uma criança, cuja educadora estava presente, era deixada à vontade para fazer o que quisesse, se dirigir a quem quisesse, etc. João dos Santos ia vendo e fazendo os seus comentários, que animavam uma troca de impressões.
Claro que a interação com a criança e a “conversa” com ela era o elemento principal das interpretações que ia fazendo. Não me lembro já dos pormenores, mas uma vez, a certa altura a criança presente, que tinha começado a dirigir-se a outra pessoa, inesperadamente infletiu o seu caminho e foi ter com ele. Perante isto, João dos Santos deu uma explicação que não recordo, quanto à inicial intenção da criança ao dirigir-se para outra pessoa, concluindo com esta afirmação: «… mas vendo que havia aqui uma autoridade, veio ter comigo». Um dos presentes perguntou com alguma vivacidade: mas como é que ela sabia que havia aqui uma autoridade?». Com um leve sorriso irónico, mas num tom claramente afirmativo, respondeu: «porque eu sou uma autoridade».
É natural vermos a sua especial sensibilidade à infância e o seu talento para trabalhar com crianças como uma capacidade que lhe vinha da boa relação que tinha com o seu passado e em especial com o seu passado infantil. E isso o terá levado à sua conhecida afirmação de que «o segredo de um homem é a sua própria infância“.
Era a partir deste ponto de vista que procurava fazer a ligação entre os problemas dos adultos e situações correntes da vida das crianças. E como é sabido, o importante trabalho que desenvolveu na saúde mental infantil e na Pedopsiquiatria, marcou profundamente várias gerações de profissionais em Portugal.
Disse atrás que, a meu ver, as várias intervenções de João dos Santos recebiam a sua qualidade e características da riqueza da sua personalidade mas também da sua competência e identidade de psicanalista.
Tinham uma originalidade que todos lhes reconheciam e que faziam dele uma pessoa muito procurada.
O exemplo de João dos Santos não deve ficar perdido. A sua memória continua a representar um património afetivo e uma fonte de inspiração para muitos psicanalistas portugueses e para outros, que sem o serem, trabalham em saúde mental infantil ou em educação.
Escreveu abundantemente, e a sua colaboração nos meios de comunicação social teve uma influência considerável para a difusão do pensamento psicanalítico.
A sua interação com as crianças tinha um encanto especial, porque se sentia a autenticidade do afeto, a riqueza de um saber tradicional e a utilização das mais ricas contribuições da Psicanálise. Tudo integrado harmoniosamente nas pequenas-grandes coisas que se passam entre uma criança e um adulto, que por ela se interessa e a ela está atento. Que a sabe olhar e ouvir.
Dar a conhecer toda a riqueza do mundo da infância e também a dor que muitas vezes o habita, foi uma das grandes contribuições de João dos Santos. Nos seus últimos tempos, ouvi-o uma vez dizer que grande parte da sua vida tinha sido gasta a tentar atenuar o sofrimento infantil. E fiquei com a sensação de que essa ideia o emocionava e lhe trazia serenidade.
Fiquei a pensar que, sendo assim, tinha sido uma vida bem vivida.
Lisboa, Maio de 2013