Robert Hinshelwood contextualiza esta sua obra no que designa como um declínio da influência da psicanálise, relativamente a outros modelos teóricos, nas teorias psicológicas modernas, caracterizado por um predomínio gradual das abordagens instrumentais (comportamentais) na compreensão da experiência humana. O autor assinala a existência dum cepcisimo relativo às teorias psicanalíticas, por parte de outros domínios do conhecimento, como modelos explicativos do funcionamento psicológico, identificando três questões epistemológicas fundamentais que contribuem para este facto: a natureza subjectiva do material psicanalítico; dificuldade do teste e comparação das teorias psicanalíticas resultando numa multiplicidade de novas teorias; e, a existência de suspeição na comunidade cienífica relativamente ao estudo de caso.
O autor divide os conteúdos deste livro em quatro partes. Numa primeira parte, Hinshelwood aborda as questões que dificultam o revonhecimento da psicanálise como uma verdadeira ciência. Na segunda parte, discute as questões epistemológicas promotoras do desenvolvimento duma abordagem rigorosa no estudo da subjectividade humana. Na terceira parte, propõe um modelo lógico de investigação psicanalítica. Na última parte, efectua o teste desse modelo lógico através de ilustrações clínicas.
Robert Hinshelwood começa por abordar o surgimento nos anos mais recentes de argumentos relativos à ausência de evidências sobre a eficácia do tratamento psicanalítico. Nesta linha de pensamento, a psicanálise tem sido proposta, por alguns filósofos, como uma extensão da psicologia popular comum (“folk psychology”). A concepção da psicanálise como uma ciência cujo conhecimento é resultante da singularidade do investigador (psicanalista), reflecte-se numa multiplicidade de teorias psicanalíticas. David Tuckett descreve este estado da psicanálise como um Torre de Babel, verificando-se a utilização dos mesmos termos para conceitos diferentes, ou denominação dos mesmos conceitos através de termos diferentes, em função do quadro teórico de referência.
Esta polifonia terminológica e conceptual leva Hinshelwood a propor a psicanálise como um discurso, variando sob influências sociais, culturais e linguísticas. As teorias psicanalíticas são desenvolvidas implicitamente em função dos quadros teóricos, levando Hinshelwood a defender a necessidade em desenvolverem-se estratégias que permitam o teste das hipóteses e a selecção das teorias mais adequadas. O autor, ainda que reivindicando a distinção entre a psicanálise e ciências naturais, enuncia a necessidade dum modelo lógico tão convincente como o modelo das ciências naturais.
Hinshelwood salienta a distinção, apresentada por Widlocher , entre a psicanálise como instrumento de investigação e a psicanálise como objecto de investigação. A primeira abordagem valoriza o processo psicanalítico como instrumento de investigação (a junktim de Freud), enquanto a última privilegia o processo analítico como gerador de dados a serem investigados após a sessão clínica (“off-the-couch”). Hinshelwood critica a sobrevalorização actual dos estudos de outcome, considerando que apenas visam gerar evidências relativas à eficácia com base em modelos proveniente da medicina. Hinshelwood questiona os critérios de eficácia utilizados nesses estudos, considerando que as diferentes escolas psicanalíticas utilizam diferentes conceitos, efectuando, por isso, diferentes interpretações e intervenções, resultando no alcance de resultados diferentes. O autor salienta, em alternativa, necessidade do desenvolvimento duma investigação conceptual adequada, através dum modelo lógico preciso comparável ao do modelo científico.
A pressão social, particularmente de natureza económica, em obter evidência científica similar ao das ciências materiais, tem conduzido à valorização dos randomized control trials (RCT) como o “gold standard” dos métodos de investigação, em oposição ao estudo de caso. O autor questiona as evidências de eficácia terapêutica como a forma mais apropriada no avanço do conhecimento psicanalítico, considerando que os princípios dos RCT, privilegiando a redução de sintomas, não se adequam às dimensões privilegiadas pela psicanálise.
O autor salienta as diferenças do campo de estudo psicanalítico comparativamente aos objectos materiais e mensuráveis da ciência. A este facto adiciona-se a natureza eminentemente subjectiva do método de observação psicanalítico, em que o instrumento de observação (mente do analista) opera de acordo com os mesmos princípios do seu campo de estudo (mente do paciente), constituindo um processo onde intervém a inter-subjectividade entre analista e analisando, envolvendo o uso da contratransferência do analista.
O conhecimento psicanalítico gerado através do estudo de caso é alvo de suspeição no contexto da investigação médica e psicológica. Hinshelwood apresenta ilustrações da utilização do estudo de caso na ciência no teste de questões binárias (falsificação duma teoria, ou selecção entre duas teorias alternativas), argumentando que esta metodologia cumpre os requisitos de falsificação como requisito do conhecimento científico, possibilitando a validação, ou invalidação, de generalizações.
A crença a respeito da preocupação de Freud em aplicar princípios de causalidade às suas teorias, nomeadamente na etiologia dos sintomas, é questionada por Hinshelwood, propondo, em alternativa, que Freud procurou acima de tudo a presença de similaridade temática no passado e no presente. A pesquisa de afinidades temáticas é apresentada pelo autor como conduzindo à compreensão da psicanálise como uma disciplina hermenêutica, focada na pesquisa dos significados, ao invés da descoberta das causas, adquirindo o estatuto de ciência da interpretação que a afasta das ciências naturais. Deste modo, a psicanálise como disciplina hermenêutica deveria procurar identificar significados na história pessoal e nas narrativas.
Contudo, Hinshelwood considera que este facto coloca dificuldades à psicanálise como método de conhecimento científico, em virtude da incapacidade em observar directamente os fenómenos
psicanalíticos. No trabalho analítico, as intervenções do analista ocorrem com base nas suas inferências, considerado por Hinshelwood como um problema que deverá ser solucionado tanto na investigação psicanalítica como noutros tipos de pesquisa. O autor defende que os dados em ciência adquirem significação através da utilização da teoria ao conjunto de factos, enquanto na psicanálise os dados são já dotados de significados, adquirindo um significado adicional através da aplicação das teorias psicanalíticas. A selecção do material como função das pré-concepções teóricas do clínico poderá resultar em problemas de circularidade de raciocínio, uma vez que as ocorrências utilizadas como instâncias na justificação da teoria, serem as mesmas utilizadas na sua inferência, resultando numa auto-realização de profeciais.
Na terceira parte desta obra, o autor defende o estudo de caso como o delineamento apropriado na investigação psicanalítica, por constituir uma observação de acordo com condições laboratoriais. Tal ocorre porque o setting analítico constitui uma situação altamente controlada, que torna possível efectuar predições efectivas, tal como as que são efectuadas na investigação das ciências naturais.
Hinshelwood estabelece uma distinção entre teorias clínicas (transferência, resitencia) que unem os psicanalistas, e teorias metapsicológicas que devem ser testadas na investigação psicanalítica. O autor defende que estas devem ser observadas nos seus efeitos, verificadas nas inferências e observação dos efeitos a curto-termo duma interpretação na sessão analítica. Hinshelwood considera que este modelo aproxima-se do que ocorre no setting laboratorial, em que a experiência é constituída pela interpretação, formulada a partir duma teoria metapsicológica, e os resultados constituem o efeito da interpretação. A observação das ocorrências através da inferência do significado (que originam a interpretação metapsicológica) e as associações posteriores à interpretação, revelam os efeitos da interpretação. A teoria clínica permite compreender as sequências relacionadas com a interpretação, enquanto os significados fornecidos pela metapsicologia identificam os segmentados das associações livres relevantes para a teoria em teste.
Hinshelwood questiona a dicotomia entre ciência e hermenêutica, propondo a psicanálise como simultaneamente uma ciência e uma hermenêutica, uma vez que os significados da experiência subjectiva possibilitam a criação de generalizações teóricas. Esta integração de disciplina científica e hermenêutica ocorre num modelo de investigação focado no efeito de causalidade duma interpretação através da observação das associações do paciente posteriores à interpretação, bem como nas ocorrências inferidas pelo analista que demonstram os efeitos da interpretação, aproximando-se da proposta de Freud de articulação entre clínica e investigação.
O autor propõe um modelo de investigação psicanalítica que possibilite observar os efeitos da interpretação, na sessão analítica e nas mudanças internas do paciente. A investigação das consequências da interpretação sucede através do uso duma abordagem proveniente da investigação qualitativa, pelo uso do método da triangulação , através da observação de duas perspectivas ocorridas na sessão: o conteúdo do material associativo após a interpretação, e a interacção transferência-contratransferência no momento. Este modelo de investigação psicanalítico através do estudo de caso permitiria a aproximação a um modelo científico de
investigação no estudo dos fenómenos psíquicos, constituindo um método adequado para o teste de questões binárias.
O resultado da sequência da mudança inclui a comparação da ocorrência após a interpretação com a ocorrência antes da interpretação, sendo que uma mudança no material pós-interpretação em linha com a predição como indicado pela teoria, fornece confirmação à interpretação e permite a validação da teoria. Uma mudança após a interpretação que não confirme a predição da interpretação, constitui uma refutação da predição, da interpretação e da teoria.
Consideramos que este modelo de investigação psicanalítica apresentado por Hinhelwood reflecte um dilema actual na investigação psicanalítica. Encontramos nesta obra a defesa duma incompatibilidade da utilização dos critérios de ciência utilizados nas ciências naturais à investigação do campo de estudo psicanalítico. Porém, o autor procura apresentar um modelo lógico de investigação psicanalítica que inclua uma perspectiva hermenêutica dirigida à compreensão dos significados, em simultâneo com uma noção científica de predição e causalidade que se aproxime da investigação nas ciências naturais.
Contudo, consideramos que este modelo de investigação apresentado por Hinshelwood, que procura introduzir contributos e pressupostos tanto provenientes das ciências naturais, como da investigação qualitativa moderna, visa tornar a investigação psicanalítica uma actividade científica geradora de evidências empíricas válidas, respeitando a natureza do objecto de estudo e instrumentos de investigação que integram e caracterizam a prática clínica. Como comentário final, destacamos a singularidade e actualidade do tema abordado pelo autor nesta obra.
Paulo Ferrajão
ISPA/UIPES, Lisbon, Portugal.
Este trabalho foi financiado pelo Programa Operacional de Potencial Humano, QREN Portugal, 2007-2013, através de uma Bolsa de Doutoramento (BD) da Fundação para a Ciência e Tecnologia – Ref.: SFRH/BD/68561/2010.
Artigo recebido a 22 de Julho de 2013. Aceite para publicação a 4 de Setembro de 2013.