O Journal Club do Instituto de Psicanálise (IP) é um grupo de trabalho dedicado ao estudo de textos contemporâneos de Psicanálise, publicados nas principais revistas científicas da especialidade. Deste modo, tem procurado criar para os sócios da Sociedade Portuguesa de Psicanálise (SPP) um espaço de debate e discussão em torno da mais recente produção científica internacional.
Considerando o seu valor educacional, o Instituto de Psicanálise e a Comissão de Ensino decidiram incluir o Journal Club no Programa de Formação desde o seu início no ano lectivo de 2011-2012. Este aspecto é um reconhecimento do valor formativo deste grupo de trabalho e simultaneamente da importância de um conhecimento actualizado sobre a evolução da Psicanálise, para além do correcto domínio das suas bases e princípios fundadores. Para além deste valor formativo possui um potencial de actualização de conhecimentos e contacto com as constantes evoluções e novas contribuições em Psicanálise. Deve-se destacar que quer na sua origem, quer na sua organização e na participação existe um significativo envolvimento dos candidatos e de membros com diversos graus num espírito de proximidade e debate amplo e empenhado.
No primeiro ano de trabalhos existiu uma maior atenção aos textos anglo-saxónicos, quer da escola britânica, quer das contribuições norte-americanas. Por sugestão dos sócios que participam do grupo procurou-se no segundo ano de trabalhos incluir de forma equitativa os contributos da escola francesa. Não foi ainda possível incluir uma outra sugestão dos sócios, que passa pela discussão de textos da escola latino-americana. A Psicanálise encontra actualmente desenvolvimentos muitos interessantes em diversas latitudes, pelo que a observação a partir de diversos vértices possui um valor expansivo para a mente individual do Psicanalista e para a comunicação dentro do nosso grupo societário.
A escolha dos textos para discussão prende-se com a sua qualidade global, pertinência do tema discutido, relevância do texto face à realização de eventos científicos – procuramos que os textos se ajustem aos temas dos encontros científicos nacionais e internacionais –, relevância do autor e inovação proporcionada pela contribuição. As principais revistas a contribuir com textos para a discussão foram o International Journal of Psychoanalysis, Psychoanalytic Quarterly, Journal of the American Psychoanalytic Association, Revue Française de Psychanalyse, e Journal de la Psychanalyse de L'Enfant.
De modo a poder caracterizar melhor o funcionamento do Journal Club apresentamos de seguida um resumo do último ano de trabalho.
De início é apresentada uma biografia detalhada do autor escolhido, que tem sido da responsabilidade de Guilherme Canta, seguindo-se a apresentação por Candidatos e o comentário por Membros e Titulares.
Neste último ano lectivo 2012-2013 a apresentação, comentários e debate de artigos iniciou-se com um artigo de Dana Birksted-Breen intitulado “Taking time: The Tempo of Psychoanalysis”. Após a apresentação detalhada da biografia da autora a apresentação foi feita por Filipe Barbosa e Orlando Santos e o comentário por Maria José Gonçalves. Este artigo dedica-se particularmente ao conceito de Impasse. Visita vários Psicanalistas e suas teorias acerca do que se passa numa sessão de análise e mostra como tanto o Psicanalista como o Analisando podem contribuir para que o Impasse se estabeleça a partir do momento em que o “enactment” passa a ocupar o lugar da “atenção suspensa” e da “rêverie”.
Continuámos com a apresentação de um artigo da Escola Francesa de Psicanálise elaborado por Bernard Brusset cujo título “The Therapeutic Action of Psychoanalysis” é só por si entusiasmante. Paula Zaragoza e João Mendes Ferreira fizeram a apresentação e o comentário esteve a cargo de Rui Aragão Oliveira. O autor defende que a Psicanálise é um método de investigação, uma terapêutica assim como também é um corpo de conhecimento antropológico onde há um Outlook científico. Discute o tão actual interesse sobre Psicanálise e Psicoterapia Psicanalítica, e define segundo a teoria psicanalítica a importância de remover impedimentos neuróticos como inibições e formas de comportamento derrotistas, e a fundamental promoção das actividades de pensar, desejar e perceber-pensando.
No terceiro encontro do Journal Club mantivemo-nos na Escola Francesa desta vez com André Green e o seu olhar sobre um dos últimos artigos de Freud que editou com o título “On Construction in Freud s Work”. Corina Fernandes e Orlando Santos fizeram a apresentação, sendo desta vez João Seabra Diniz quem comentou. Green propõe que “Construções” seja um post scriptum de “Análise Terminável e Interminável”. Conclui que o “recordar” não é um material tão decisivo como no início da Psicanálise lhe foi atribuído. Põe vários autores da actualidade em discussão em especial Sara Botella pela sua hipótese de uma memória do Id como traços de memória, com características visual, auditiva e táctil, ligadas a estruturas não neuróticas.
Voltámos depois à Escola Anglo Saxónica apresentando um artigo escrito por Rosemary Davis: “Anxiety: The Importunate Companion. Psychoanalytic Theory of Castration and Separation Anxieties and Implications for Clinical Technique”. Apresentaram este artigo o Filipe Barbosa e o Tomás Miguez, e o Filipe Sá comentou e pôs em discussão. Davies defende neste seu artigo a necessidade de separar, clarificar e pensar teórica e tecnicamente, com profunda compreensão, as ansiedades de castração e de separação, a partir do pensar o “assassinato do pai” e a “morte do pai”. Defende a necessidade de sentir, conhecer e perceber a contratranferência, e interpretar a partir deste terceiro elemento. Propõe que a ansiedade de castração seja um “apres-coup” da ansiedade de separação.
Terminámos o ano escolar com um artigo da Psicanálise da Criança, em especial porque o nosso Instituto tem pela primeira vez esta nova formação. Escolhemos um artigo de Solomon Resnik intitulado “Réflexion sur Autisme et Psycose. Hommage a Frances Tustin”. Foi apresentado por Guilherme Canta e
Paula Zaragoza e fez o comentário Luís Simões Ferreira. O artigo faz uma pequena história da evolução do conceito de autismo a partir de 1911 como um sintoma secundário presente nos pacientes com esquizofrenia. Em 1927 o sintoma passa a ser conceptualizado como fundamental. Aborda o facto da diferenciação entre a tendência á repetição mecânica ser diferente do acto maneirista sendo este um modo codificado de expressão do paciente. E a partir daqui entra na definição de “traço autista” da mente, e da possibilidade de um trabalho psicanalítico de investigação. Acaba falando da contribuição fundamental de Frances Tustin. Seguiu-se um debate animado, onde foram expostos os últimos avanços em relação ao autismo.
Destas cinco reuniões ficou uma revisão da actualidade da Psicanálise por vários autores e com variados temas assim como um aprofundamento da discussão e interesse em mais saber e perceber connosco e com “outros”.
O Journal Club ao promover o conhecimento e discussão de artigos actuais possibilita o cruzar de experiências de todos os analistas presentes que têm outras leituras e outros conhecimentos, podendo ser deste modo considerado um espaço de investigação. A Psicanálise é uma disciplina em constante movimento de maior e melhor conhecimento da mente, do seu funcionamento e de uma abordagem técnica diferenciada.
Elsa Milagre Martins
Membro Associado da Sociedade Portuguesa de Psicanálise
Guilherme Rui Canta
Membro Candidato da Sociedade Portuguesa de Psicanálise