O trabalho elaborado por Howard Levine é de uma enorme riqueza e abrangência, reveladora de um profundo conhecimento da transformação do pensamento psicanalítico sobre os momentos de viragem históricos mais significativos, que nos fazem reflectir perante o momento actual: enquadra precisamente a Psicanálise na era global, temática do XXIV Colóquio da Sociedade Portuguesa de Psicanálise, onde apresentou pela primeira vez em Portugal a sua obra.
Levine aborda a transformação no que toca ao objecto de estudo da Psicanálise, a conceptualização do inconsciente e suas manifestações. Realça ainda as implicações técnicas na clínica psicanalítica, redefine os factores de cura analítica, e as exigências acrescidas colocadas ao psicanalista e inevitavelmente à própria formação dos psicanalistas. Demonstra e salienta como também temos mudado, num Mundo em rápida e constante mudança.
O autor consegue sintetizar contributos diversos e muito complexos, de escolas diferentes, de países e continentes díspares, ajudando-nos a identificar pontos de convergência, colocando-nos numa postura arqueológica – e desmascarando elementos nodais da teoria psicanalítica, por vezes encobertos face à enorme e dispersa produtividade! Mas acrescenta criativamente os constituintes de inevitáveis mudanças, que têm transformado a psicanálise e os psicanalistas, em particular nestas últimas décadas.
Percebemos com este texto, como a Psicanálise hoje não é mais a mesma. Ou melhor: sendo a mesma, é agora “Mais e Diferente”, fruto de uma evolução sustentada na reflexão clínica.
Howard Levine assinala-nos as transformações teóricas, as novas descobertas e limitações do acto terapêutico. Penso que as referências aos contributos de André Green de Wilfred Bion são claras e evidentes no texto; mas Levine assinala igualmente como importantes contributos promoveram novas conceptualizações, do inconsciente e dos processos inconscientes do funcionamento mental, e das novas abordagens interpretativas.
Percebemos, por exemplo como a interpretação hoje é claramente diferente da interpretação há 100 anos (essencialmente arqueológica e assente numa lógica dedutiva) ou mesmo há 50 anos atrás (aí talvez mais em “tradução simultânea” do estilo kleiniano).
Nos primórdios da concetualização do tratamento analítico, com Freud, o foco primordial centrava-se na pessoa singular, na compreensão e auxílio ao paciente. Neste importante período de implementação e primeiras descobertas, a interpretação e a análise das defesas iniciavam um processo contínuo de resolução de conflitos que permitiria ao paciente tolerar melhor as suas ansiedades – estávamos pois perante o modelo arqueológico da interpretação, enquadrado na abordagem terapêutica de pacientes predominantemente neuróticos.
O desenvolvimento da teoria psicanalítica permitiu realçar a importância dos aspetos relacionais, e a exigência psíquica solicitada a ambos os intervenientes, analista e paciente, distintos, onde os processos transferenciais e contratransferenciais se assumem como instrumento central da pesquisa clínica.
O acompanhamento de estados limites e psicossomáticos, entre outros, bem mais complexos, levou o analista a promover o desenvolvimento da capacidade de pensar os pacientes, em nomear e elaborar os novos elementos psíquicos criados na mente de ambos, analista e paciente, no espaço intersubjetivo que é potencializado na relação analítica.
Frequentemente citado no texto de Levine, penso que é marcante a influência
Comunicação apresentada no XIV Colóquio da Sociedade Portuguesa de Psicanálise, a 18 de Maio de 2014, em Lisboa.
Membro Didacta da Sociedade Portuguesa de Psicanálise. E-mail:
da obra de André Green, e do seu projecto contemporâneo.
Sabemos bem como André Green aspirava superar a dinâmica repetitiva algo estagnante, e que sentia ao abordar situações humanas muito diferentes e complexas. Fundamentando-se numa leitura contemporânea de Freud, crítica, histórica e problemática, André Green voltou a situar a metapsicologia e o método freudianos como elementos centrais na actualidade, integrando crítica e criativamente as principais contribuições pós-freudianas. Como tal, corresponde a uma ampliação dos limites da analisabilidade, a uma expansão do campo clínico que considera assim as “estruturas não-neuróticas”, tal como Levine aliás referencia.
Penso que estamos ainda perante a introdução do modelo clínico “terciário”, integrando os modelos freudianos (mais centrados na transferência) e pós-freudianos (mais centrados na contratransferência), colocado a partir do conceito de setting analítico – aqui subjacente à internalização do setting, que leva à alteração determinante da posição do analista, que se torna então múltipla e variável, em oposição à predeterminação e à rigidez.
É assim que nesta trajectória transformacional proposta por Howard Levine, o trabalho psíquico do analista se fundamenta num eixo conceptual terciário que inclui a atenção flutuante (numa perspectiva intrapsíquica, sobre a análise de conteúdo), e a contratransferência (numa perspectiva intersubjectiva, com a análise da relação e do espaço continente), subordinando-as a uma gama mais ampla e complexa de operações, na qual se destaca a imaginação e a criatividade psicanalítica.
O analista, no presente, e tomando as palavras de Urribarri, deve saber jogar, tanto no sentido teatral e musical como no lúdico, em função dos cenários desdobrados na singularidade do campo analítico. Visto então que o inconsciente “fala em diferentes dialectos”, o analista deverá ser então “poliglota” (Urribarri, 2010, p.32).
Parece-me ainda que neste texto, Levine realça a preocupação e dificuldade do analista investir mentalmente a tarefa da escuta analítica, onde assinala a evolução dos factores de cura. Penso mesmo que hoje as funções de cura são verdadeiramente mais psicanalíticas (conceptualmente), e com isso com campos de aplicação muito diversos, que realçam uma perspectiva e atitude psicanalítica sobre os objectos de análise ou até mesmo de pesquisa. As ilustrações clínicas relatadas por Levine expõem de forma brilhante como é da natureza deste investimento interno da estrutura mental do analista que decorre a determinante diferenciação entre a psicanálise e a psicoterapia psicanalítica, debate fundamental e sempre controverso a promover.
Coloca-nos assim um desafio difícil, assinalando a mente do analista como o verdadeiro instrumento interpretativo; o que obriga necessariamente a pensar as consequências e ilações significativas da formação dos analistas mas também da formação dos psicoterapeutas de base psicanalítica.
Por último, como texto estimulante que Levine nos deixa, ocorrem inevitáveis questões para uma reflexão futura: por exemplo, se a evidência no movimento transformacional não poderá ela própria fazer esquecer a invariante do objecto a transformar? E esquecendo assim o objecto a transformar e o produto da transformação, coloca em destaque apenas o processo transformacional? Tal como Klein pareceu dar mais atenção ao objecto inconsciente e ao seu destino, e outros colocaram ênfase somente na relação, não poderemos ficar algo ofuscados com o acto criativo e inimaginável até então, capaz de por vezes fazer “cegar” a complexidade mais abrangente da função clínica psicanalítica?
O que no fundo nos remete para a importância da historicidade no âmbito do trabalho psicanalítico, onde mudança e invariância se acompanham, ajudando o sujeito a transformar-se sem deixar de ser quem é… mas que seriam elações para uma outra discussão!