Fabio Herrmann (1944-2006) foi o criador da Teoria dos Campos, e profícuo autor psicanalítico. Publicou uma centena de artigos em livros, periódicos científicos, jornais e revistas e mais de dez livros, contando algumas reedições.
Ingressou aos 18 anos na Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo para poder tornar-se psicanalista, viveu Psicanálise por mais de quarenta anos. Estudou-a, praticou-a, pensou-a.
Médico recém-formado, e já com alguns anos de lida psicanalítica, mesmo antes de iniciar a formação psicanalítica no Instituto de Psicanálise da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo, começa a construir um pensamento psicanalítico original. Nas décadas de 1980 e 1990 participa da burocracia institucional do movimento psicanalítico internacional, já como autor psicanalítico brasileiro. Nesse período Fabio ocupou a presidência da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo, da FEPAL (Federação Psicanalítica da América Latina) e diversos postos na hierarquia científica da IPA (Associação Psicanalítica Internacional). Nesse contexto, a Teoria dos Campos — como passou a ser conhecido seu pensamento — difundiu-se nos meios intelectuais brasileiro e latino-americano e vem agregando produção escrita de colegas, principalmente na forma de teses e dissertações acadêmicas.
Trata-se de um pensamento eminentemente crítico e enraizado na produção freudiana. Como leitor de Freud, Fabio declara seu “…escrupuloso respeito à letra — esperem, meus amigos, não à letra do inconsciente, ou a qualquer outra letra metafórica, senão simplesmente à letra tipográfica, ao texto escrito e à intenção do autor, que o contexto da obra se encarrega de estabelecer.” Esclarece que respeito não significa concordância nem obediência e que é da interpretação do texto freudiano que surge o reconhecimento de ideias próprias. (“Para ler Freud”, Jornal de Psicanálise 2004, vol. 37, n° 69, pág. 228).
Descobrindo nos textos freudianos os fundamentos dessa disciplina, propôs-se a trabalhá-los. Considera-a como o principal instrumento de investigação da psique humana, do reino do sentido, nos séculos 20 e 21, mas que depois de Freud sofreu dois tipos de limitação, restringindo-se ao estudo da clínica psicanalítica, por um lado e, por outro, repartida entre algumas doutrinas organizadas em escolas. A obra que produziu, a Teoria dos Campos, cumpriu a tarefa de descer às origens da idéia psicanalítica freudiana para se perguntar sobre a natureza desse conhecimento. Usando da crítica à forma predominantemente clínica tomada pela Psicanálise vigente em nosso meio, a Teoria
Psicanalista da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo. Doutorada em Psicologia Clínica pela PUCSP. Presidente do CETEC (Centro de Estudos da Teoria dos Campos). R. Agrário de Sousa, 106. 01445-010. São Paulo. SP. Brasil, E-mail:
dos Campos toma-a por inteiro para proceder ao desvelamento de seus fundamentos. É dessa forma que tenta resolver a questão das doutrinas teóricas. O resultado alcançado foi o de por em evidência o método psicanalítico de investigação e cura, método tomado como o essencial da descoberta freudiana, que, definido como ruptura de campo, é usado para a investigação de todas as manifestações do psiquismo e não apenas àquela da situação analítica. Pretendeu, com sua obra escrita colaborar para que a Psicanálise cumprisse com o horizonte da vocação que Freud lhe vislumbrou, ou seja, tornar-se a ciência geral da psique.
É tarefa desafiadora apresentar resumidamente esse pensamento. Não só pela extensão da obra, mas por desenvolver uma idéia, por assim dizer, quimicamente simples que, presente e direcionando toda a obra, não se mostra facilmente ao leitor como o elo que o estrutura.
A Teoria dos Campos nascida em São Paulo não veio a se constituir em nova escola psicanalítica, mas em uma maneira de pensar o homem no seu mundo, recuperando a concepção freudiana de psique para além do psiquismo individual.
Partindo da crítica à produção teóricoclínica dos modelos psicanalíticos vigentes na década de 1960 no Brasil, principalmente em São Paulo, que pouco ou nada avançava para lá da repetição, em forma detalhista, dos mesmos temas e conceitos consagrados pelas escolas psicanalíticas dominantes — a freudiana e a klein-bioniana, a Teoria dos Campos, procedendo criticamente, recupera a capacidade heurística do conhecimento formulado pela Psicanálise e coloca em evidência o que Fabio chamou de idéia psicanalítica, ou seja, o trabalho freudiano de incorporação para a ciência de seu tempo da exploração do sentido humano.
O pensamento psicanalítico de Fabio, em seu primeiro texto escrito como notas pessoais, “O Campo e a Relação”, de 1969, já mostra como são interdependentes suas duas idéias formadoras: a de método interpretativo como ruptura de campo e a de absurdo como as regras invisíveis e inapreensíveis que estruturam os campos de sentido humano, a psique, regras que só se mostram pelo processo interpretativo. É esta a idéia simples, no sentido da química, que sua obra desenvolve.
A parte central da obra de Fabio está representada pelos livros que compõem a série dos Andaimes do Real, onde trabalha exaustivamente a idéia simples. Trata-se de três livros que conheceram várias edições. Sob o título geral de Andaimes do Real, dizem respeito à compreensão psicanalítica da construção da vida humana considerada como o real, em seu sentido próprio de estrato produtor do humano individual, social ou cultural; diferenciando-o da representação que se tem do mundo, a realidade, e de si mesmo em identidade, ou seja, representação do real interiorizado no sujeito, o desejo.
O primeiro livro da série traz atualmente o título de Andaimes do Real: O Método da Psicanálise (2001, 3a ed.). Trata da recuperação do método da Psicanálise na clínica, lugar de seu esconderijo, devido ao desenvolvimento, principalmente em Freud, de teorias sobre o sujeito psíquico e sobre a cultura, e de conjuntos de teorias e de técnicas para o tratamento das neuroses. É um ensaio de epistemologia interna da Psicanálise, que desentranha do fazer clínico seu procedimento metodológico de ruptura de campo. A especificidade do diálogo analítico de constante desrespeito ao assunto abordado pelo paciente provoca-lhe um vazio representacional e, por ruptura dos sentidos vigentes, a liberação de novos sentidos ou auto-representações possíveis, potencialmente alcançáveis na forma de um vórtice rodopiante das possibilidades constitutivas do sujeito. Sob tal perspectiva revisita e reordena noções centrais da Psicanálise, como inconsciente, interpretação, fantasia, transferência, e constrói conceitos metodológicos ordenadores desse fazer interpretativo — campo, relação, ruptura de campo, expectativa de trânsito, vórtice, luto primordial.
O segundo livro da série é dedicado à psicanálise do quotidiano, Andaimes do Real: Psicanálise do Quotidiano (2001, 3a ed.), no dizer de Fabio, um ensaio sobre psicanálises possíveis. Tem como propósito mergulhar no quotidiano dos homens para identificar como constroem sua realidade. Penetrando a forma como os homens constroem seu quotidiano, alcança uma descrição do mundo em que vivemos. No primeiro momento, esmiuçando o tecido de que é feito o quotidiano, o absurdo, a que trata por real, o texto penetra as regras constitutivas dos vários campos que o quotidiano dos homens habita. Em seguida, explora o próprio resultado da construção desse quotidiano pela exploração de uma função que descobre, a rotina, função opacificadora dessas regras absurdas em sentidos compartidos pelos homens daquele quotidiano, definidos como realidade. Tecido e resultado da construção do quotidiano impõem-se, no mundo em que vivemos,
como uma psique do real, tomando do sujeito individual a maior parte de sua função de pensar e passando a pensar por ele. Para o sujeito o resultado é o pensamento em ato. É o ato que impõe um sentido ao pensar, invertendo a lógica que leva do pensamento ao ato. Retirado de nosso quotidiano o sentido interior do pensar emocional, é o ato que substitui o pensamento na sua função de representar homem e mundo.
O terceiro livro da série trata da compreensão da lógica do absurdo, estruturante das regras conformadoras do real humano. A exigência imposta pelos achados da ação do método na clínica, que vão tornando mais claro o resultado de oferecimento ao paciente de novas autorepresentações como efeito terapêutico das sucessivas rupturas de campo, é explorada neste livro pela noção da representação como função defensiva face ao absurdo. Constrói o conceito de crença considerando as falhas a que ela pode estar submetida no cumprimento de seu papel de sustentação das representações. Sem falhas a crença é modal e, como uma dama discreta, não se manifesta — por exemplo, a crença no ar que se respira. Abalada pela suspeita na representação que sustenta, manifesta-se mais brandamente no que chama de forma suspeita da crença, encontrada nas neuroses, ou mais fortemente, caso da crença absurda, na forma débil que toma no delírio, provocando no psicótico o surgimento de constantes perguntas sobre o por quê de si e do mundo. Desenvolve todo um pensamento técnico-teórico sobre a clínica da crença. Considera ser o processo interpretativo de ruptura de campo um fator de desestabilização da função da crença, por possibilitar o surgimento de possíveis autorepresentações. A crença é forçada a deixar de sustentar a representação que se desestabiliza, para sustentar uma outra que deixa de ser apenas possibilidade de representação. Este livro, cuja segunda edição foi publicada postumamente, em 2006, torna-se o terceiro volume da série, agora com o título Andaimes do Real: Psicanálise da Crença.
Os outros livros de Fabio e a maioria dos artigos publicados continuam o desenvolvimento desta idéia simples constitutiva de seu pensamento. Assim, Clínica Psicanalítica: A Arte da Interpretação (2003, 3a ed.), aprofunda e sistematiza mais o pensamento clínico da Teoria dos Campos, tratado inicialmente no livro sobre o método da Psicanálise.
O Divã a Passeio: À Procura da Psicanálise onde não Parece Estar (2001, 2a ed.) é uma coletânea de artigos cuja construção teórica filia-se aos desenvolvimentos do livro do método, como em “A Rani de Chittor: o rosto”; a este e àquele sobre o quotidiano, como em “O porquê e o tempo na terra de Hotu Matu'a”, ou ao livro da crença, caso de “O escudo de Aquiles: sobre a função defensiva da representação” e de “43 de abril, ou o drama ridículo de Akesenti Ivanovitch”.
Introdução à Teoria dos Campos (2004, 2a ed.) revisita e apresenta resumidamente os temas tratados pela Teoria dos Campos. Anteriormente esse trabalho fora desenvolvido, de forma menos abrangente, em um pequeno livro de divulgação, O Que é Psicanálise: Para Iniciantes ou Não…(1999, 13a ed.)
A Psique e o Eu, publicado em 1999, começa por um ensaio sobre a condição ficcional da ciência psicanalítica que deslinda a especificidade do conhecimento exigido em Psicanálise. Partindo da observação de que ego é o único conceito positivo em certa esfera da Psicanálise freudiana, em clara contraposição às noções instintivas e defensivas, vai mostrar que mesmo em Freud essa condição é contestada em textos como “A negação” (1925) e a “A cisão do eu” (1938). Considera a positividade do conceito de ego um resíduo pré-psicanalítico, destinado a sustentar e dar destaque ao arsenal teórico que se lhe opõe, mas, como tal, fator impeditivo para que se explore a dialética entre as funções de eu representação e eu agente de ação. É no exercício dessas funções que o eu como que se separa de si e se desdobra. O que daí surge é uma tensão constante entre dois pólos — cada qual dotado de seu próprio solo de memórias, formas de produção psíquica especiais, interesses etc. — que ocupa o lugar de sujeito psíquico; não meramente um ego em conflito, ou luta entre sujeito da consciência contra sujeito do inconsciente, mas uma tensão dialógica em que um eu constitui, sustenta e destrói o outro sem cessar. Tal duplicação sub-reptícia do eu faz com que cada sistema representacional seja necessariamente a verdade possível e um disfarce, tornando impossível, por outro lado, a retirada do disfarce, que levaria consigo, em suas dobras, a própria verdade buscada.
Por fim, merece consideração especial A Infância de Adão e Outras Ficções Freudianas, de 2002. Trata-se de um livro de contos ensaísticos que leva a sério a tese esboçada no capítulo introdutório de A Psique e o Eu, quanto a ter um caráter ficcional o conhecimento produzido em Psicanálise. Seus dois primeiros capítulos são de especulação
teórica: “A ficção freudiana” tematiza a ficção como forma de conhecimento psicanalítico, e “Notícias de Límbia” introduz o leitor ao lugar em que essa forma de produção de conhecimento é privilegiada, a Teoria dos Campos, transvertida ficcionalmente na imaginária Límbia. O pensamento que organiza o livro é o de haver na idéia psicanalítica um lugar próprio onde se encontram, de mãos dadas, ficção e ciência.
Fabio Herrmann, apostando no método psicanalítico, vaticina para a Psicanálise o cumprimento de sua vocação freudiana original de se transformar em uma ciência geral da psique, dando-lhe, no entanto, a tarefa de alterar o padrão epistemológico da ciência contemporânea para que nela possa caber.