Trata-se de uma exposição introdutória da Teoria dos Campos, sistema original de pensamento psicanalítico criado pelo psicanalista brasileiro Fabio Herrmann. É dada especial atenção ao seu trabalho de por à mostra os fundamentos metodológicos da Psicanálise e de evidenciar o horizonte de vocação que lhe delineia Freud, o de se tornar ciência geral da psique, e que propiciou também uma generalização do conceito freudiano de inconsciente.
Com Freud, a Psicanálise renovou a psicologia e a psiquiatria. Por um lado, por haver incluído duas aquisições magníficas: a dimensão do inconsciente no conhecimento psicológico e, na prática psiquiátrica, o tratamento eficaz das neuroses que conhecemos por psicanálise. Por outro, porque o método interpretativo que criou, e possibilitou essas renovações, renovou, também, todo saber sobre o homem. Trata-se, segundo Fabio Herrmann, de um giro epistemológico que oferece às ciências e práticas do espírito concreto e encarnado – a psicologia, a psiquiatria – uma nova concepção antropológica sobre o quotidiano dos homens através de uma nova forma de diálogo propiciada pelo método interpretativo.
Nesse universo, a Teoria dos Campos, nome pelo qual ficou conhecido o pensamento de Fabio Herrmann, desvela no método interpretativo a propriedade essencial de criar inconscientes onde quer que seja aplicado. Todo e qualquer sistema de relações humanas, quando interpretado pelo método da Psicanálise, “abre-se”, por assim dizer, revelando seu inconsciente. Entenda-se por “relações”, qualquer produto humano, desde uma idéia singular ou emoção, passando pelas relações intersubjetivas, até à realidade humana enquanto tal, a tentativa de representação do real. Esse inconsciente revelado é constituído por um conjunto de regras que determinam, limitam e dão forma às relações, embora aqueles que nelas se encontrem não possam delas se inteirar. A superfície das relações humanas – ou seja, tudo aquilo que pensamos, lembramos, sonhamos ou fazemos – é formada por “representações” (Vorstellungen). Contudo, suas regras determinantes não estão escondidas na profundidade do espírito, mas, simplesmente, no avesso das próprias representações. Metaforicamente, para Fabio Herrmann tudo se passa de maneira equivalente a um campo de forças que organiza a distribuição de partículas; invisível como seja, este não se oculta nalgum lugar remoto, senão na forma do espaço ocupado por tais partículas.
Concebendo o método psicanalítico como um semeador de “inconscientes relativos”, isto é, inconscientes de relações as mais diversas, para nosso autor é preferível dizer que ele, o método, descobre “campos”, os campos das relações estudadas. Um outro nome, justamente porque a Teoria dos
Comunicação, em versão alterada, apresentada no XXVIII Congresso Latino Americano de Psicanálise -FEPAL, Bogotá, 2010. Encaminhado à Revista Portuguesa de Psicanálise em 13 de Julho de 2013. Aceite para publicação em 18 de Setembro de 2013.
Psicanalista da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo. Doutorada em Psicologia Clínica pela PUCSP. Presidente do CETEC (Centro de Estudos da Teoria dos Campos). R. Agrário de Sousa, 106. 01445-010. São Paulo. SP. Brasil, E-mail:
Campos procedeu a uma generalização do conceito freudiano de inconsciente. Para tal generalização, este pensamento encontra três razões principais
A primeira deve-se à constatação de que, apesar de o método interpretativo haver sido a invenção fundamental de Freud, tem se recoberto de uma camada doutrinária desde o tempo de seu fundador. Como se os psicanalistas, não suportando a proliferação de inconscientes gerada pelo método, decidissem, a cada momento, que certo inconsciente é o bastante, ou é a totalidade. Surgiram várias doutrinas, vários conjuntos de teorias, portanto; sendo a de Freud a melhor certamente, pois nela se encarnava em estado quase puro seu método interpretativo. Recuperar o poder criativo do método, resgatando-o da prisão doutrinária que as várias escolas psicanalíticas lhe impuseram, foi o ponto de partida da Teoria dos Campos.
A segunda razão é de ordem prática. Como os analistas vivem de seus consultórios, sua prática terapêutica, a clínica psicanalítica padrão aí praticada, a psicanálise (grafada com inicial minúscula), ocupou toda sua atenção. Além disso, com a multiplicação das escolas psicanalíticas em meados do século passado, surgiram diferentes receitas técnicas de como analisar. Isto é: o método perdeu-se nas técnicas e nas doutrinas, confundiu-se com elas. No entanto, o resultado obtido por essas doutrinas, com seus modelos diversos do psiquismo e fórmulas distintas de procedimento clínico, parece ser fundamentalmente semelhante do ponto de visa de sua eficácia terapêutica. Com esta constatação, ficou muito evidente para a Teoria dos Campos que um mesmo agente, o método, era o solo comum de todas as doutrinas ou escolas e o responsável por esse efeito terapêutico de cura.
A terceira razão é decorrência desta última. É que a Psicanálise se converteu com o tempo numa espécie de ciência da terapia analítica, estreitando o “horizonte de sua vocação” delineado por Freud. Sua produção escrita aponta para a construção de uma ciência geral da psique que toma em consideração tanto os fenômenos ditos patológicos, como aqueles que se consideram normais.
A Teoria dos Campos nasceu com o projeto de resgatar o método psicanalítico, oculto pelas doutrinas teóricas e embutido nas técnicas da clínica psicanalítica, a fim de contribuir para outro resgate, o do cumprimento desse horizonte de vocação proposto por Freud para a Psicanálise, ou seja, o de tronar-se ciência geral da psique. Logo, a Teoria dos Campos, que nasce no final dos anos 60 do século passado, não surge no cenário da Psicanálise para ocupar o lugar de uma escola psicanalítica a mais. Surge da crítica à prática e à teoria psicanalíticas estabelecidas no e pelo movimento psicanalítico e com a marca de uma interpretação da Psicanálise.
O primeiro texto da Teoria dos Campos, “O campo e a relação”, foi escrito por Fabio Herrmann em 1969 e propunha uma análise do método psicanalítico. Por muitos anos, todo seu trabalho de produção teórica foi dedicado apenas ao aprofundamento da investigação metodológica ali iniciada. Com o tempo, porém, foi necessário aplicar os resultados dessa investigação a configurações da realidade (relações), para testar sua validade. Surgiram daí certo número de psicanálises possíveis, psicanálises do real, especialmente do real quotidiano; também de mitos e de lendas – na esteira das análises freudianas da cultura –; da estrutura de sentimentos negligenciados pela Psicanálise – como a saudade e a teimosia –; estudos de condições da psicopatologia; análise da representação psíquica e da função que a sustenta, a “crença”, especulações sobre a noção de Eu e da própria condição ficcional das construções teóricas e clínicas da Psicanálise. Nos últimos anos de sua vida, Fabio Herrmann toma em consideração a crise que se instala no seio do movimento psicanalítico oficial e não oficial. Neste século e na América Latina, ela explode como uma crise de mercado, mas já se mostrava no início dos anos 90 como uma crise da clínica padrão. É esta crise que a Teoria dos Campos explora, buscando a constituição de uma prática clínica extensa capaz de criar condições de superá-la por encarnar adequadamente as conclusões alcançadas sobre o método psicanalítico.
Como já afirmado antes, surpreendia Fabio Herrmann, desde muito cedo, a desproporção e diferenças flagrantes entre as postulações teóricas e técnicas das escolas psicanalíticas e o efeito terapêutico mais ou menos parecido que as análises, conduzidas por preceitos tão distintos, acabavam por produzir. A hipótese de trabalho que o orientava era a presença de certo operador comum, mas às ocultas, em todas as práticas psicanalíticas e nas psicoterapias interpretativas derivadas da Psicanálise. De imediato descartou a
alegação rotineira de que tudo depende da personalidade do analista, pois não só as personalidades variam tanto ou mais que as doutrinas, como a própria atitude dos analistas, naquilo que têm em comum, derivam de nosso método, e não o contrário. Na tentativa de encontrar alguma descrição essencial da operação analítica, Fabio encontra, sim, ensaios epistemológicos sobre a teoria psicanalítica, conselhos técnicos baseados nos modelos de psiquismo de cada doutrina, estudos sobre o funcionamento psíquico do analista. No entanto, depara-se com uma zona estranhamente despovoada de trabalhos metodológicos. Não tendo outra saída, entrega-se à tarefa isolada de investigar o método da Psicanálise que acredita escondido na clínica, no ato clínico próprio da Psicanálise.
Resumidamente segue uma descrição de seus achados.
Num certo momento da análise, cada paciente orbita em torno de algum tema psíquico que o aprisiona e é por ele transformado em assunto da sessão. O paciente não o pode exprimir diretamente, pois esse tema psíquico é inconsciente, mas todas as suas idéias, sentimentos e falas parecem indicar uma estrutura geradora que o psicanalista também desconhece, mas suspeita existir. A tal estrutura Fabio chamou “campo”.
Na ação interpretativa, o que busca fazer o analista, mesmo sem disso se dar conta? Romper esse campo, para que suas regras se mostrem. Todavia, ele não sabe o que deve romper e, pior, como este campo possui efeito transferencial, igualmente o aprisiona na sessão, não só o paciente. O recurso usado por todos os analistas, mesmo sem disso se darem conta — e esta é uma operação comum a todos, sem exceção —, consiste em pôr em xeque a capacidade estrutural do campo. É pela escuta de seu paciente segundo registros diferentes daquele que lhe é proposto intencionalmente como assunto que tal capacidade estrutural do campo é posta em xeque. Por exemplo, se o analisando conta uma experiência de vida, o analista procura entendê-la como se fosse uma metáfora da situação partilhada no momento na sessão, se lhe narra um sonho, toma-o como ponto de partida para uma rede associativa etc. Ou seja, descentra-se da zona consensual do campo, mesmo sem saber ainda de que campo inconsciente se trata.
É pela escuta em registros diferentes que este efeito de estranhamento sistemático produz resultados. E os resultados não são devidos ao fato de que as representações propostas pelo analista sejam traduções corretas da estrutura ainda desconhecida. Como poderiam? Mas muitas delas produzem suficiente impacto afetivo para desestabilizar o campo; por serem marginais e estranhas e, no entanto, insuportavelmente verídicas, ou melhor, possíveis, traduzindo aquilo que para o analisando passa a fazer sentido, como produto do desejo, isto é, como representações de si.
Depois de certo tempo desse jogo de tensões, onde a norma fundamental é operar com pequenos toques emocionais — dos grandes impactos, o campo sabe defender-se muito bem —, ocorre uma ruptura de campo. Isso significa que o paciente fica momentaneamente sem qualquer centro gravitacional eficaz fazendo uso de outra metáfora física. Para Fabio Herrmann este é o momento lógico que denominou “expectativa de trânsito”, isto é o trânsito entre uma representação perdida e outra que ainda não se estabeleceu. Então é ele, o analisando, quem produz representações estranhas e marginais, muito mais eloquentes que as do analista. Setores inteiros da representação de realidade aparecem sob forma de identidade, há associações por paronímia ou por substrato emocional, fragmentos de sonho invadem a vida desperta e o próprio discurso, antes bem concatenado, assemelha-se à lógica onírica. A este fenômeno, a Teoria dos Campos chama de “vórtice”, pois, como em qualquer outro turbilhão, os elementos que estavam separados entram em contato, misturam-se, revelando agora, ao vivo, quais regras os mantinham em posição, justamente por já não estar vigente sua estrutura.
Fenômenos de vórtice são constantes nas análises em progresso. Há-os mais fortes ou mais fracos, mas sempre indicam a eficácia do processo interpretativo. Porém, atenção! É absolutamente costumeiro que os psicanalistas usem o termo “interpretação” num sentido muito distinto daquele aqui referido. Para a Teoria dos Campos, interpretação é este processo cumulativo de pequenos toques emocionais, como que numa tentativa, em metáfora de Fabio Herrmann, de tanger as cordas da alma alheia (Herrmann, 2004, cap. 6 e 8) e o sentido que ela, a interpretação, põe à mostra é essencialmente produzido pelo paciente, não por seu analista. Interpretação é um processo de ruptura, não uma sentença explicativa. Aliás, o estado de falta de estrutura representacional do vórtice também atinge o analista: tanto um como o outro ficam em “expectativa de trânsito”, isto é, como referido acima, em meio ao trânsito de um campo inconsciente a outro, que ainda
virá reorganizar a vivência emocional do par.
Para a Teoria dos Campos, expectativa de trânsito e vórtice, seu correspondente fenomênico, são a matriz e origem da angústia específica da análise, embora sejam vividos em forma diversa por analista e paciente, e com cores emocionais bastante variáveis, segundo a personalidade de cada um e segundo o campo que se rompeu. O importante, nesta forma de pensar pela ação do método psicanalítico, é a possibilidade que oferece de evidenciar um setor do inconsciente, um inconsciente relativo ou campo. Quando o analista consegue reunir parte das regras expostas numa explicação organizada, numa “sentença interpretativa”, ele pode ter a impressão, contra todas as evidências, que foi tal sentença que gerou a ruptura de campo; por isso chama-a de “interpretação”, sofrendo uma espécie de ilusão de óptica que, da consequência, faz a causa. Sem dúvida, é muito mais confortável descobrir o que já se sabe…
Tanto na montagem de uma sentença interpretativa, como no penoso e importante trabalho descrito anteriormente de construir a interpretação com o paciente, interfere um acervo vasto de idéias e conhecimentos, a que podemos chamar de “interpretante”. Em parte, o interpretante é constituído pelas teorias psicanalíticas caras ao analista, por sua própria análise, por valores culturais, pela experiência de outras análises realizadas; mas, sua fonte mais válida e essencial deve mesmo ser o próprio processo que está conduzindo com seu paciente. As regras inconscientes que se vão mostrando na sucessão de rupturas de campo, para as quais apontam as sentenças interpretativas, acumulam-se ao longo do processo e vão sendo transformadas em teorias pelo analista; teorias personalizadas, sob medida, capazes de orientá-lo na psicanálise que empreende. Afinal, como sempre nos lembrava Fabio, nossos pacientes pagam-nos o suficiente para ter o direito a uma “teorização sob medida”, em lugar de um prêt-à-porter. E, como tais teorias cumprem seu papel mais legítimo na condução à ruptura de campo, é fácil ver que elas mesmas entram, em certa medida, no vórtice, onde se legitimam de novo, ou se refutam.
A este conjunto — campo, ruptura de campo, expectativa de trânsito e vórtice, sentença interpretativa, interpretante e teorização, seguida de outra formação de campo psíquico —, a essa sequência operacional é que chamou de “método”, expresso por esses conceitos metodológicos. O método não decorre da técnica, não decorre das teorias nem do processo analítico, sendo ele, o método, em sua unicidade radical, a origem dessas três outras formas psicanalíticas. O método, como se vê, é em si mesmo uma estrutura de ação, que se esconde na clínica, e que envolve analista e analisando. Contudo, se é verdade que a clínica é o lugar por excelência para sua descoberta, o método não se esgota na direção da cura analítica. Pelo contrário. Qualquer análise, seja de uma produção social, seja de um comportamento individual, sempre deve respeitar o mesmo movimento metodológico, apenas num âmbito diverso.
Duas conclusões gerais seguem-se naturalmente desse trabalho de recuperação metodológica empreendido pela Teoria dos Campos, e que dizem respeito à Psicanálise como ciência da psique:
Operando num campo, não temos acesso a todos os demais, o inconsciente relativo em que estamos com nosso paciente não permite qualquer acesso a todos os outros: não há sentido em falar de inconsciente, como unidade geral. Nossas descobertas têm de ser constantemente referidas ao campo inconsciente de onde surgiram, por conseguinte, sem generalizações apressadas.
Freud foi extremamente convincente na demonstração de que há inconsciente. Mas nunca tentou provar que apenas haja um, ou melhor, que o conjunto de todas as psicanálises que levou a cabo, terapêuticas ou culturais, devam necessariamente pôr em evidência partes de um conjunto harmônico. Para tanto, haveria que se levar a cabo uma tarefa impossível, a de se explorar de ponta a ponta o inconsciente humano, para não saltarmos descuidados por cima das áreas desconhecidas. As psicanálises de Freud romperam campos e fizeram surgir regras inconscientes, algumas de larguíssimo alcance, como o complexo de Édipo, por exemplo. No entanto, vale frisar que a validade metodológica de uma teoria psicanalítica só se comprova a cada nova ruptura de campo que promove. Em nossa peculiar ciência, as certezas adquiridas são necessariamente fruto de doutrinas, das teorias tomadas como doutrinas, não do seu método interpretativo de ruptura de campo.
Conclui-se, assim, que, em primeiro lugar, a Psicanálise lida com uma infinidade de campos inconscientes e, em segundo, que todas as nossas teorias apenas possuem o valor metodológico de interpretantes, sua posição, muito nobre, é a de promover a descoberta de inconscientes, orientando rupturas de campo. A nossa é uma ciência heurística, não uma doutrina ou um sistema axiomático-dedutivo e seu horizonte de vocação, antecipado por Freud, o de tornar-se ciência geral da psique.
ABSTRACT
Multiple Fields Theory and the Horizon for Psychoanalysis Vocation
The paper presents an introductory explanation of Multiple Fields Theory, original psychoanalytical thought created by the Brazilian psychoanalyst Fabio Herrmann. It mainly deals with the author's work to turn into light the Psychoanalysis methodological basis, created by Freud, and his efforts to make clear the horizon for a vocation Freud outlined to Psychoanalysis, that of to turn into a general science of psyche.
KEY WORDS
Multiple Fields Theory, Science of psyche, Relative “unconsciouses”, Fabio Herrmann.