Fonte?
| FICHA TÉCNICA | |
| título Gravidade | género |
| título original | Ficção Científica / |
| Gravity | Suspense |
| direcção | distribuidora |
| Alfonso Cuarón | Warner Bros |
| elenco | duração 91 min. |
| Sandra Bullock George | país EUA |
| Clooney | ano 2013 |
É de intensa gravidade emocional o clima de suspense que pesa sobre nós durante todo o filme, passado num universo estranho e francamente hostil à espécie humana, justamente e paradoxalmente pela falta da gravidade física que rege a vida no nosso planeta. A gravidade da falta de gravidade. A insustentável leveza do ser… Estamos imersos no universo. “A 600 kilómetros da Terra, sem nada que transporte o som, sem pressão do ar, sem oxigénio.” Pairamos na imensidão espacial, ouvimos o silêncio ensurdecedor, movimentamo-nos ora nadando, ora voando, ora flutuando, ora rodopiando, desarticulados em coreografias primordiais.
Profundamente desamparados.
Aterrorizadoramente sózinhos.
E como uma espécie de meta-cenário, lá longe e sempre presente, a Terra. Aquela de que Caetano Veloso viu pela primeira vez uma fotografia quando se encontrava preso na cela de uma cadeia e, para a homenagear, gravou em 1978 um hino: “Terra! Terra! / Por mais distante / O errante navegante / Quem jamais te esqueceria?”
É esta a paisagem do cosmo retratado no filme Gravidade de Alfonso Cuarón que tem agradado, como raras vezes acontece, simultaneamente ao público e aos críticos, que espanta pela belíssima fotografia de Emmanuel Lubezki (o director de fotografia de A Árvore da Vida), pela actuação espantosa de Sandra Bullock e George Clooney e que tem despertado estimulantes debates com a comunidade científica sobre exactidão/realidade e imprecisão/ficção.
Sabemos que qualquer produção cultural do
Artigo recebido a 4 Dezembro 2013 e aceite para publicação a 13 de Janeiro de 2014
Membro Associado da Sociedade Portuguesa de Psicanálise Praça das Águas Livres, 8 – SL 1, 1250-001 – Lisboa E-mail:
homem foi e, incontornavelmente passou a ser depois de Freud, uma metáfora, uma mitologia, um sonho, uma ficção, como aliás reconhece Alfonso Cuáron: «Tentámos ser tão precisos quanto podíamos, no âmbito da nossa ficção. No final, é ficção e uma viagem emocional mais do que qualquer outra coisa.“ E uma metáfora precisa da aventura do Homem e da própria psicanálise. Viagem da existência, retratando a nossa angústia mais profunda – o desamparo. Viagem emocional ao mundo interior, com as suas leis e geografia próprias.
Gravidade é uma celebração da vida. Tanto mais vida, quanto mais a morte por ali anda, lado a lado, pairando sofregamente à espreita. Uma homenagem à nossa fragilidade e à nossa dependência. Uma homenagem às fronteiras atuais: as profundezas do oceano e o espaço galáctico. Espaço esse de um significado espiritual e filosófico arquetípico e de uma beleza estonteante, que se transforma num angustiante pesadelo.
Dois astronautas, Ryan Stone (Sandra Bullock), na sua primeira missão espacial, e Matt Kowalsky (George Clooney), veterano na sua última missão, ficam à deriva, isolados na aterrorizante vastidão do espaço infinito, quando a nave espacial em que viajavam é atingida por uma sucessiva chuva de destroços e lixo espacial. Ligados um ao outro apenas por um cabo, com reserva limitada de oxigénio e sem comunicação com a Terra, encontram-se entregues a eles próprios, à sua capacidade de pensar e de encontrar uma eventual solução de retorno, uma vez que não há qualquer chance de resgate.
Segundo Alexandre Cherman (astrônomo, Rio de Janeiro), “ficar em órbita é estar em queda-livre perpétua.” Quando Ryan se solta no espaço, “entra em órbita”… Matt pede-lhe: “Dê-me um ponto de referência, o Explorer, a estação espacial, a posição do sol, a Terra… Preciso de coordenadas.” Ela: “Não há nada, não vejo nada, não consigo respirar.” O suspense é capaz de tirar o fôlego aos mais musculados cinéfilos, e mesmo sendo pouco sensível a filmes de acção, fiquei aprisionada pelo impacto emocional que teve sobre mim. E gradualmente, vários fios se entrecruzaram entre a viagem lá fora no espaço sideral e a viagem cá dentro, no mundo inconsciente, tão infinito como o espacial, tão enigmaticamente belo e por vezes tão pesadélico também.
O enredo é uma metáfora perfeita do nosso desejo insaciável de conhecimento, de exploração e ampliação da nossa visão do mundo. Os astronautas têm como missão consertar o telescópio Hubble, justamente para ampliar a possibilidade de visão e de estudo do cosmo. Também uma psicanálise nada mais é do que expansão afectiva da visão do nosso cosmo interior. Pedido que nos é feito, manifestamente ou não, pelo analisando, para com ele nos aventurarmos e alargarmos a possibilidade de pensar, de encontrar soluções possíveis, de fazer prevalecer o eros sobre o thanatos, de nos ligarmos de forma satisfatória aos nossos bons objetos internos e, consequentemente, à vida. E essa visão só pode ser alcançada, se estivermos em contato com a nossa fragilidade e dependência. É esta que nos permite encontrar os caminhos para alcançar as profundezas oceânicas, os confins do cosmo ou a verdade e a beleza do inconsciente, suportando paralelamente os mistérios e os enigmas do universo e da vida.
“Você devia ver o sol no Ganges. É fantástico.” Matt diz a Ryan, de um lugar afastado no vazio a caminho da própria morte, evocando em poucas palavras a maravilha da vida na Terra. Rio da vida, das nossas origens indo-europeias e rio da morte, onde os corpos navegam na sua última viagem. Através de todas as peripécias dessa jornada, a do filme como a de uma análise, estamos em contacto com a vida e a morte, a terra e o espaço, a solidão e a companhia, o homem e a mulher, o passado e o presente, o tempo e o infinito, a ficção e a ciência, a fantasia e a realidade, mas acima de tudo, com a nossa dependência, da mãe–terra, das relações afectivas que nos sustentam, dos nossos bons objectos internos. Quando os dois astronautas se têm de soltar um do outro, Ryan ficando para lutar pela vida, Matt partindo à deriva para a morte, este último pergunta: “Onde é a sua casa, Dra. Stone?”, e ela: “Lake Zurich, Illinois”. “Existe alguém lá em baixo olhando para cima e pensando em você?” pergunta ainda Matt, ao que Ryan responde: “Eu tive uma filha. Uma garotinha de cabelo castanho. Diga-lhe que não vou desistir.” Mas, quando finalmente ela se encontra sozinha, terrorificamente sozinha, no desamparo mais primordial, decide desligar o oxigénio e morrer, reencontrando assim a sua filha, cujo luto ainda ecoa poderosamente no seu presente. Numa transmissão de rádio, embala-se com o canto de um inuit da Groelândia a embalar o seu bebé e “sonha” que Matt lhe aparece, eroticamente, ou seja, cheio de vida e humor, ajudando-a a não desistir de lutar. A voz humana que nos liga nos primórdios da vida e o mundo onírico, que é afinal essa viagem para dentro perpetuando a vida em todas as noites, permitem que Ryan se separe da morte (e também da sua filha morta) e reabra o oxigénio, inspirando a vida e com ela,
claro, a luta…
Há mais de dez anos, atendi uma menina, Gaia de 7 anos, que nunca tendo visto o filme de Cuarón, o conhecia bem por dentro, no espaço onírico do seu inconsciente. Na primeira consulta ilustra, através do seu desenho, o seu pesadelo de abandono e desamparo. Sozinha, solta no universo, sem limites, sem terra à vista, sem ser contida. A infinitude do espaço, o terror de “entrar em órbita”, de se perder caso não esteja ligada, caso seja cortado o “cordão umbilical”.
Através do seu desenho, claro que Gaia me fala da sua história familiar, a que está minimamente ligada, mas onde sempre se sentiu a vaguear perdida e com pouca clareza do lugar que ocupa. Claro que me fala do seu mundo de objectos internos, que pairam numa lógica pouco habitável, isolando-a com o seu fato astronáutico-protector de um contacto mais pele a pele. E claro que me fala de uma nave-mãe-analista, que ela procura na nossa relação à qual já se sente ligada por um tubo, mas que ainda desconhece. Conta-me sobre o desenho: “É um astronauta. O tubo é para respirar. Está ligado à nave especial.” “Especial”, diz, em vez de “espacial”.
No desenho de Gaia, há um sorriso com dentes, revelando sinais vitais de contacto afectivo. Há um fato que a protege e nos dá conta da sua capacidade de sobreviver num ambiente inóspito. Há um tubo-cordãoumbilical, como afirmação da consciência da dependência. E há uma nave “especial”, atestando que para sobreviver precisamos do nosso planeta-matriz-terra. Sobrevivemos psiquicamente, pela maneira como estamos ligados internamente à nossa estação “especial”, que será em termos planetários a mãe-terra e em termos psíquicos as matrizesmãe-pai, a nossa origem, cujos mistérios gravitamos toda a vida.
No final do filme, no seu regresso ao planeta-casa, a cápsula de Ryan mergulha num lago – tal cena primitiva – do qual ela sai, nadando, arrastando-se pela lama, engatinhando, para finalmente se levantar e se encontrar com a Terra. Bela representação da filogénese/ontogénese, tema tão caro a Freud. Bela representação do re-nascimento e da origem. Também Gaia, através do seu percurso analítico, conseguiu voltar do espaço e aterrar no seu mundo interior para então, usufruir melhor as relações com a sua família e com a escola, espaço de conhecimento e de expansão.