No Journal Club (JC) de dezanove de Outubro falámos sobre Enactment e Investigação, dois temas na ordem do dia na Psicanálise, a partir de um artigo publicado no International Journal of Psycho-Analysis - Towards a Better Use of Psychoanalytic Concepts: A model illustrated using the concept of enactment, escrito por um grupo de autores de seis nacionalidades que compõem o Comité de Projecto de Integração Conceptual e que são: Werner Bohleber, Peter Fonagy, Juan Pablo Jiménez, Dominique Scarfone, Sverre Varvin e Samuel Zysman
Ao abordar este texto dispusemo-nos à nossa própria associação livre, aos nossos conhecimentos teóricos e técnicos e á nossa prática clínica. Neste relato não só descrevemos a nossa reunião como nesta posteridade em que nos encontramos, constatamos como um JC numa sociedade científica pode ser também um dos modos de início e continuidade de uma investigação individual, a partir do encontro e dissonância de ideias, num espaço não conflitual mas criador e gerador de novas premissas, encontrando um terceiro científico integrativo sobre o qual nos vamos debruçando. Foi uma discussão viva, onde os apresentadores, a comentadora e o grupo que assistia se foram intercalando na exposição das suas ideias.
No início foi apresentada uma biografia de cada um dos autores do artigo, o que nos permite por si conhecer um pouco do seu posicionamento teórico. É habitual em todos os JC, este trabalho ser feito por Guilherme Canta. A apresentação foi feita por Corina Fernandes e Orlando Santos e comentou a Ana Catarina Duarte Silva.
Foi realçada a forma como o artigo apresenta e sintetiza a metodologia da investigação fenomenológica. E pergunta-se que ciência é esta? O que nos permitiu pensar as várias investigações e ciências possíveis de fazer. A Psicanálise começou a pensar numa investigação teórica mais sistematizada nos anos 60/70 numa vertente abdutiva, a partir do conhecimento que, o analista tem preconcepções que se vão transformado nas sessões, com os aportes do analisando, gerando assim um novo conhecimento. Hoje percebem-se melhor as dificuldades conceptuais, porque a investigação já parte do princípio que há uma “generação” de conhecimentos continuados e há que procurar as invariantes. O artigo apresenta a razão desta investigação não poder ser universal: as escolas francesa e alemã não usam o termo Enactment embora tenham o conceito. Houve uma observação, dizendo que este artigo é interessante porque tenta expor como uma palavra ramifica e não só de onde ela vem.
Começando na palavra AGERE que supõe “fazer qualquer coisa/agir” questiona-se o que é “Acção” em psicanálise?
Foi durante um tempo um conceito associado à resistência ou ligado ao comportamento como se estivesse fora do âmbito psicanalítico para poder ser analisado. Hoje “Acção” faz parte da Psicanálise: Ogden integra-a, ao falar da importância da Acção
tanto antes como após a sessão e também intrasessão, definindo também a interpretação como um Acto.
Jacobs foi o primeiro a falar de Enactment e a este propósito foi comentado por uma das pessoas do grupo que assistiu à apresentação deste artigo no Congresso da IPA em Amesterdão, que este foi violentamente atacado por Green. Saliento aqui o vigor e o interesse que teve no grupo esta experiência vivida, narrada e comunicada na realidade e na subjectividade dos factos, pela quantidade de perguntas que se puseram e assim nos aproximaram muito daquele tempo, espaço e experiência, tornando-o um momento vivo. Na realidade ainda hoje a Psicanálise francesa não usa este termo, conceptualizando a partir da palavra - Acting. A partir daqui discutimos a necessidade ou não de ir a outras escolas buscar para nós uma invariante, o que nos dias de hoje já não parece ser tão conflituoso nem ser impedido pelos pequenos narcisismos.
Talvez estejamos a assistir à época em que a herança de Freud já pode ser sentida tocada e mexida como sendo de todos. Reconhece-se também no JC como as “zangas de vizinhos” foram e são uma forma saudável de se ir escoando a violência não transformável.
O analista ao aceitar a transferência, vestindo tanto a pele do cordeiro como do lobo, está sujeito ao estudo da sua Contratransferência e aqui discute-se se Enactment e Contratransferência são a mesma coisa. Pensamos como Enactment se forma por um conluio não resolvido de Transferência/Contratransferencia que brevemente nos levará a um impasse por colusão, se não diagnosticado a tempo. Aqui não há campo, porque este desaparece. O Enactment emerge de duas psiques em co acção, dado que vem da relação de dois através de material não contido, não conhecido e desadequado na transferência. Há uma Transferência através da Identificação Projectiva que encontra no analista uma contenção para elaboração e uma outra em que o analista actua um Enactment por impossibilidade de pensar, ou seja é um acto que aparece antes de ser pensado. Aqui o Enactment é Contratransferencial processa-se no campo podendo ou não o analista tomar conhecimento dele posteriormente. Isto acontece por um pensamento assimétrico co-definido pela teoria de Matte Blanco. Só chegamos à “coisa” por derivados da “coisa” porque tudo é inconsciente. Dissecando o fenomenológico este é algo que emerge devido à acção de dois que formam “um aqui e agora” e o que aqui se forma é que será o fenómeno em si mesmo.
A dificuldade de clareza em Psicanálise é que é o próprio que assiste ao fenómeno - tanto em si como na relação, e também o define como fenómeno. Continuamos a nossa discussão conceptualizando que há um conceito de acção emergente já dentro do analista e que este pode ser agido. Indo às soluções:
Na escola de Klein preconiza-se a interpretação.
Na escola relacional há uma desculpabilização para não traumatizar.
Percebe-se que só há uma definição universal se houver robustez no conceito. Procura-se de seguida apanhar a continuidade do conceito para lhe poder dar robustez interna, pensando se nas diferentes escolas será possível uma universalidade. E assim se percebe que nem “tudo” é Enactment, e como tal este conceito faz sentido quando aparece.
Lembra alguém que a negação só por si, faz que ele exista - segundo Sartre. Há uma validação externa que não se consegue fazer porque o acontecimento é muito específico da díada. Falamos em continuidade do colapso do diálogo analítico que implica um distúrbio na função simbólica - como se não fosse possível falar - não há palavras. E que este colapso da função simbólica pode implicar um colapso na ética do Psicanalista. Para os kleinianos esta é uma falha na capacidade de contenção. Para Jacobs seja ou não Enactment é um fenómeno mental em que o analista sai de cena.
Distinguimos aqui a Assimbolização - uma forma de simbolização; de Dessimbolização - uma simbolização que foi desfeita. Sendo o Enactment um material pobremente simbolizado é inevitável e imprevisível, tal como uma armadilha. E perguntamo-nos: Estarão os analistas relacionais a descrever outro fenómeno, ou a sua descrição depende da sua definição de setting e do impacto no campo? Ou somos nós que negamos uma tentativa de abrangência? Jacobs fala dos conflitos defensivos inconscientes do analista desdeuzificando os psicanalistas. Searles fala da dissociação interpersonalizada. Fala-se de uma teoria da simbolização diferenciada daquela que o analista pode ter, e aqui surge a pergunta - como fazer investigação que não seja a poesia de cada um?
Comenta-se também o interesse que tem o fim do artigo, onde a investigação parece que se perde – e isto será um defeito ou é uma virtude? Cassorla e Benjamim parecem ser os mais interessantes para o grupo - o 3° na teoria do campo-a reacção triangular. Alguns colegas dizem haver uma confusão em Jacobs, de Contratransferência e Enactment.
Salientam-se os Baranger e Antonino Ferro como mestres da teoria do campo. Considera-se Steiner o mais clínico, que fala na falha da capacidade contentora como um colapsosimbólico e também na ética, enquanto Benjamim é valorizado ao dizer que salta material no Enactment que não saltaria de um outro modo. Diz-se que apesar de a ideia ser meritória esta investigação parece enviesada e fecha um fim para o lado que querem…
Discute-se se o Enactment, é o Édipo - e em que nível? psíquico – fantasiasubjectivação? Conclui-se que tal como a Identificação Projectiva começou por ser patológica até se perceber a sua “totalidade” pelo benefício que trazia, talvez o Enactment possa vir a ter uma evolução semelhante.
Já a terminar vem um tema que daria para um novo artigo:
Os Enactments da supervisão onde o supervisor pode actuar em Enactment induzindo o supervisionando a produzir no analisando e no seu campo analítico, através de Contratransferência não simbolizada.
É interessante como se cruzam estes dois campos psicanalíticos que podem ser profícuos e ou destruidores no sentido.
Terminámos lembrando que:
O sonho é uma produção do inconsciente que nos habita.