Neste número, o leitor irá confrontar-se com a insistente necessidade da procura do representacional, tão caro ao processo psicanalítico, e que particularmente acompanha as vivências traumáticas.
O artigo convidado “Trauma: Depletion and resilience”, da autoria de dois reconhecidos psicanalistas nórdicos, Sverre Varvin e de Bent Rosenbaum, que recentemente nos visitou, dá corpo à estrutura basilar que compõe este número da Revista.
Sverre Varvin, psicanalista em Oslo, tem assumido múltiplas responsabilidades no âmbito da Associação Internacional de Psicanálise, dedicando-se a inúmeras causas humanitárias, em particular com populações vítimas de traumatismos extremos, tendo-lhe sido atribuído em 2004 o The Mary S. Sigourney Award Trust, prémio que reconhece regularmente os contributos mais diferenciados mundialmente no âmbito da Psicanálise. Juntamente com Bent Rosenbaum, psicanalista dinamarquês, ambos têm dinamizado um produtivo grupo de trabalho “working on trauma” na Federação Europeia de Psicanálise, de onde decorre o artigo original que aqui editamos. Os autores discutem aspectos compreensivos do paciente traumatizado, discutindo conceitos de resiliência, exaustão, desvitalização e simbolização, e suas eventuais consequências nos processos terapêuticos.
Cristina Fabião, Psicanalista titular com funções didácticas da Sociedade Portuguesa de Psicanálise, faz-nos então uma reflexão fundamental sobre o texto convidado, que nos realça as particularidades históricas evolutivas dos conceitos trauma, exaustão e resiliência na concepção psicanalítica.
Em seguida, iremos encontrar uma compilação harmoniosa de três artigos marcantemente clínicos, todos eles profundamente debatidos nas Jornadas Internas promovidas pelo Instituto de Psicanálise de Lisboa em 2013. Carla Cruz aborda os aspectos do não representável associados à incapacidade de sonhar. Conceição Melo Almeida reflecte sobre o papel dos processos de clivagem na transformação do trauma psíquico. E Isabel Margarida Pereira, introduzindo primeiro uma revisão teórica mais abrangente, seguida de uma extensa vinheta clínica, remete-nos para as expressões literárias dos sobreviventes de grandes catástrofes, onde “Se isto é um homem”, de Primo Levi, surge com naturalidade.
O texto de Maria José Gonçalves, reflectindo sobre contributos de Donald Meltzer em torno do conflito estético, coloca-nos perante a estranheza vivida na situação analítica, e a suportabilidade da dor mental.
Na secção intercâmbio, apresentamos dois muito interessantes artigos, fundamentalmente clínicos, de escolas bem diferenciadas. Petra Palermiti com o seu “Une petite fille dessine”, debate novamente as questões da não representabilidade e suas consequências no processo terapêutico. A colega de São Paulo, Cândida Holovko, que recentemente nos visitou no âmbito dos seus estudos aprofundados no Committee Women and Psychoanalysis/IPA, demonstra no seu texto clínico a importância dos processos de clivagem e do deficit simbólico nos mecanismos perversos.
Nas recensões, Rita Marta revela-nos a sua vivência e registo como psicanalista do 7th European Psychoanalytical Film Festival, decorrido em Londres em finais de 2013, com apelativo título: “Diálogos secretos entre cinema e psicanálise”, e que se constitui já como acontecimento regular e estimulante entre o cinema, a cultura e o pensamento psicanalítico. Lisboa, Setembro 2014