Segredos, lugar onde cinema e psicanálise se cruzam, foi o tema escolhido para o Seventh European Psychoanalytical Film Festival (Londres, Novembro 2013).
“Os segredos são a espinha dorsal de filmes dos mais variados géneros, desde comédias a dramas familiares, ‘thrillers’, intrigas políticas e de espionagem. Os segredos podem ser descobertos, guardados, dados, vendidos. Quando partilhados, os segredos podem criar vínculos, quando quebrados, os segredos podem destruí-los. A sua função nas interações humanas é de uma enorme importância, daí eles estarem presentes nas diversas narrativas, incluindo as cinematográficas (…) Além disso, a revelação pelos analisandos dos seus segredos mais íntimos, e o respeito pela confidencialidade da parte do psicanalista, são componentes essenciais do nosso trabalho, que na sua maioria se centra no conhecimento do papel dos segredos que o nosso inconsciente tenta esconder do resto de nós mesmos (através da repressão) e também dos outros” (Andrea Sabaddini, organizador e psicanalista da Sociedade Britânica de Psicanálise).
Aqui fica um dos muitos momentos psicocinematográficos do festival a que assisti, e os segredos que consegui ver, ouvir e pensar.
Psicóloga Clínica, Membro Associado da Sociedade Portuguesa de Psicanálise Email: ritamarta7@gmail.com
Em “Eu e Tu ”, de Bernardo Bertolucci (2012), Lorenzo é um adolescente de 16 anos, o farto cabelo castanho encaracolado como um capacete envolvendo (protegendo) a cara pequena (o seu Eu?) salpicada por algumas borbulhas debaixo de uns grandes olhos azuis.
O filme começa numa sessão de Lorenzo com o seu psicoterapeuta que, após lhe perguntar como passou a semana, tem unicamente como resposta o monossílabo “normal”, numa recusa em elaborar o que isso poderá significar. O psicoterapeuta responde-lhe: “Agora não queres pensar nisso, mas um dia irás ser capaz de o fazer”.
Lorenzo parece viver num tempo suspenso, entre a infância e a adolescência, percorre as ruas na ida e vinda do liceu quase como um zombie, mochila às costas, headphones com música alta (no filme, aparece a música alta sempre que ele põe os headphones como que a mostrar-nos o seu mundo subjetivo) e o olhar sem direção. No liceu entra e sai das aulas mas não está lá, recusa socializar com os colegas durante o recreio e recolhe-se num canto, ensurdecido pelo barulho da sua música, que não permite ouvir (-se) mais nada…
Mas a parte fundamental do filme vai ter como cenário a cave do prédio dos seus pais, onde Lorenzo decide viver durante uma semana, e para onde fugiu, após ter fingido ir a uma excursão de snowboard com os colegas. Aquela semana havia sido cautelosamente preparada, comida e bebida enlatada (sete coca-colas para sete dias da semana…), cuidadosamente comprada nos dias anteriores (atestando as suas capacidades de entrar na vida adulta…). Na mochila havia colocado mudas de roupa, o portátil com a sua música, um livro de vampiros… E assim decorre o início do seu retiro, deitado num velho sofá a ouvir música aos altos berros (respondendo aos telefonemas da mãe com relatos imaginários de animadas paisagens de neve rodeado de colegas!), comendo e bebendo sempre que tinha fome, lendo a sua narrativa de horror…
Será a visita inesperada e fortuita de Olívia (uma meia irmã, filha do mesmo pai e da anterior mulher deste), vinda à procura de objectos do passado na arrecadação, o rastilho da transformação daquela narrativa. O nosso “herói” é obrigado a albergá-la contra a sua vontade (ela ameaça contar à mãe dele), e é neste cenário relacional que o enredo vai tomando forma: ela é uma jovem de 18 anos, apaixonada e dependente de heroína, e para poder conquistar o seu amado procura fazer uma cura de desintoxicação; a irmã de Lorenzo, que se sentira abandonada pelo pai (o pai que abandonara a sua mãe), e que por isso procura ser anestesiada (com drogas e comprimidos para dormir) dos seus segredos internos. Aos poucos os segredos são revelados, destapados, vasculhados, tal como os baús que enchem a arrecadação. E será esta relação que se vai criando entre os dois irmãos, de uma imensa beleza, simultaneamente naíf e madura, que acaba por salvá-los a ambos.
Lorenzo assiste à ressaca e à dor física e mental da irmã, e é forçado a sair do seu casulo; ela “fala-lhe” das maravilhas do mundo lá fora, da sexualidade (ela experimenta as roupas de mulher que estão dentro dos baús)… E aos poucos Lorenzo aceita sair daquele tempo suspenso e entrar no fascínio/curiosidade da adolescência. O clímax do filme é uma dança (bela e comovente) que marca o encontro entre dois seres humanos que tentam sobreviver e crescer com os seus segredos internos… e será este encontro, entre Io e Te, que lhes permite salvarem-se um ao outro.
O filme é comentado por um psicanalista, uma crítica de cinema e o próprio Bertolucci. Aborda-se o “Romance Familiar” de S. Freud (1909), e a necessidade/dificuldade de libertação dos indivíduos em relação aos seus pais. Mais do que ser um adolescente rebelde, Lorenzo estaria num estado suspenso, entre a infância e a idade adulta, um “nowhere”, numa necessidade de suspender o tempo. Mas para isso precisa de um sítio secreto, um sítio da infância, e do “day-dreaming”, a cave, metáfora também da irracionalidade dos mortos e do inconsciente… É lá que ele se vai confrontar com os segredos da família, incorporados em Olívia. Ele recusa uma viagem (a da superfície, da neve) e faz outra viagem, na profundeza do Eu, na profundeza da cave. A cave torna-se assim um espaço transicional, um espaço mágico entre o interior e o exterior, possibilitado pela interação das duas personagens.
Io e Te acaba com a separação dos dois irmãos, cada um agarrando a sua vida. Olívia, já sem a anestesia da heroína, vai ao encontro do seu amado; Lorenzo volta para casa, num andar leve, e onde a câmara termina, suspendendo a imagem no rosto de Lorenzo, no seu sorriso enigmático, um sorriso para dentro e para fora…
Terminam-se três intensos dias de cinema e psicanálise com uma discussão plenária, onde se dão os últimos remates, num profundo e animado diálogo com o público. Conta-nos Ian Christie (académico de cinema) como a questão do segredo está intrinsecamente ligada ao cinema e como, quando apareceram os primeiros filmes projetados numa sala escura, esse se tornou o lugar que mais pessoas reunia na obscuridade, e onde consequentemente se realizavam várias atividades secretas (e.g. encontros íntimos e prostituição), chegando mesmo a haver polícia nas salas!
Vários foram os filmes e realizadores europeus que neste fim-de-semana estiveram connosco: o austríaco Karl Markovics, o italiano Bernard Bertolucci, o húngaro Istvan Szabó (para quem o cinema é acima de tudo um rosto e a transformação emocional que ele transmite), entre outros. E também Mike Leigh apareceu secretamente, no “secret event” do festival, com cenas de “Vera Drake” e “Secret Lies”, para nos falar de segredos de família…
Neste encontro desvendam-se os segredos dos personagens, e do script… S. Freud é chamado várias vezes à sala para se falar do trauma, com “Repetir, Recordar e Elaborar” (1914), e da adolescência com “Romances Familiares” (1909).
Mas também se descobrem os segredos dos realizadores… Talvez o maior segredo que descobri neste Festival foi sobre a intencionalidade (ou a falta dela) de um filme, e do seu realizador. A tal intencionalidade, ou “conteúdo latente” que os psicanalistas procuravam… Alguns realizadores afirmam estar desprovidos de uma qualquer intencionalidade, surgindo o script por imagens na sua mente, numa espécie de sonho… Só ali, connosco, parecem associar o seu filme a alguns aspectos da sua própria história, numa espécie de divã de palco frente a dezenas de psis… Outros afirmam uma clara intencionalidade inicial, contudo, o filme adquire posteriormente a sua própria fala, tornando-se um segredo à espera de ser desvendado, ou um pensamento à espera de pensadores…
Essa será talvez uma grande diferença relativamente às obras literárias, cujo autor pode ter um maior controlo sobre os caminhos que toma a sua história e se, como dizem, a história ganha depois a sua própria autonomia, isso será porventura o lado desconhecido, inconsciente, do escritor em ação! Nas histórias do cinema temos vários autores, por um lado, e temos o acaso da realidade. O que fazer quando um cão atravessa a cena, ou quando uma nuvem atravessa o céu supostamente limpo, dizia Bertolucci citando Jean Renoir. “Devemos incluir esse acaso”?
Com maior ou menor intencionalidade, mais ou menos fruto de acasos, a presença do implícito (especialmente característico de filmes europeus, por contraste com o explícito dos filmes de Hollywood, como nos diz Ian Christie) tornará sempre o ecrã, inevitavelmente, um lugar do olhar/projeção do espetador…
It took me a very long time to realize that the actual experience of being psychoanalysed was a traumatic one and it takes a long while before one recovers from it.