Franco Borgogno, psicanalista e professor, demostra neste artigo - como numa parte substancial da sua obra escrita -, o seu genuíno interesse pela investigação do pensamento de Sándor Ferenczi, num reconhecimento da sua importância e contribuição para a compreensão e aprofundamento de novas formas de olhar para a técnica psicanalítica. Este psicanalista tem partilhado o seu entusiasmo com a International Ferenczi Foundation e, através de diversas publicações, salientado a forma como a obra ferencziana nos continua a surpreender e a proporcionar um gérmen de um pensamento visionário que veio a ser precursor da análise contemporânea.
Com este artigo, o nosso colega Franco Borgogno, partilha connosco - através de uma releitura sobre uma conferência de Sándor Ferenczi feita em 1928 na Hungarian Psycho-Analytical Society intitulada “The Elasticity of Psycho-Analytic Technique” -, uma longa viagem sobre as inovações técnicas que trouxeram uma nova forma de estar e compreender a dinâmica da relação analítica e uma abertura “incrivelmente moderna e atraente para as novas gerações de psicanalistas”. Nesta conferência, Ferenczi sublinha a importância da “elasticidade da técnica” que surge não apenas da sua experiência de campo com pacientes graves ou traumáticos como também da sua capacidade empática - experiência de Einfühlung - e da sua especial forma de se permitir viver, de se identificar ao pensamento, às emoções, às necessidades e às expectativas das pessoas que acompanhava na sua clinica. Neste ponto, o autor do artigo sublinha que este conceito de „elasticidade da técnica“ - ao contrário do que muitos pensaram na altura como uma forma de indulgência e simetria - é um ponto de partida para o analista reconhecer, através da experiência da relação analítica, as funções da dinâmica do processo na sua expansão e nos seus limites. Também sublinha um aspecto em que estamos em sintonia, o de que a experiência da vivência da dupla analítica traz uma maior capacidade de resposta, de representação e de consciencialização dos elementos vividos na dinâmica da relação. O autor sublinha que, quando há um distanciamento dessa relação, a dinâmica psicanalítica pode pôr em evidência certos aspectos destrutivos da mente que eventualmente se transformam em abusos do poder ou numa insensibilidade ao sofrimento e à dor mental do paciente. Acrescenta ainda que esses distanciamentos e, por vezes, desprezo pela dinâmica da relação e pelo método psicanalítico, desencadeando sérias dificuldades na construção de setting, podem transformar-se em problemas graves do foro da ética, ponto de vista que partilhamos.
Este autor sublinha que o foco principal da investigação de Ferenczi era a análise da qualidade psíquica do encontro entre duas mentes. Esta forma visionária de pensar o processo analítico remete-nos para a teoria de campo da relação da dupla analítica , segundo a qual as fantasias individuais do paciente e do analista se interligam num espaço onde se processam todas as mudanças. Assim, nestas circunstâncias, como assinalámos , o surgimento de alguns impasses poderia estar ligado às dificuldades da dupla analítica por impossibilidade de representar simbolicamente ou ilustrar o estado da relação devido a uma aridez representacional onde a capacidade de rêverie é escassa. Neste sentido, o autor sublinha a importância que Ferenczi, com uma vasta experiência com crianças e adultos com traumas, atribuía ao infantil e a forma como tentava não introduzir palavras ou sentimentos estranhos que dificilmente poderiam ser elaborados pela mente do paciente. É a propósito desta questão da
Psicoterapeuta, Psicanalista, Membro Didacta da Sociedade Portuguesa de Psicanálise e da Associação Internacional de Psicanálise (IPA). E-mail:
«Confusão de línguas entre o adulto e a criança» , que retomará alguns anos mais tarde, que aborda a teoria do trauma e da sedução real afirmando na sequência a circunstância «dos adultos confundirem os jogos das crianças com os desejos das pessoas sexualmente adultas». Desta forma, o autor precisa que Ferenczi assinalava que um dos maiores perigos para a evolução do processo analítico seria a paralisação da relação, na sequência de uma obediência servil e cega a um superego e a um narcisismo destrutivo.
Neste artigo, Franco Borgogno mostrou também como Ferenczi olhava para o paciente no «aqui e agora» da relação suspendendo qualquer julgamento momentâneo, elaborava internamente a ressonância que o paciente tinha tido nele e, assim, aprofundava a dinâmica da comunicação transferencial e contratransferencial da dupla analítica. Este modelo de funcionamento, do «aqui e agora» da relação, permitiu-lhe observar o efeito que os silêncios e as palavras do paciente tinham na sua escuta e na sua participação no processo terapêutico. O autor sublinha que as alterações de técnica do processo analítico, nem sempre compreendidas no meio psicanalítico da sua época, prefiguram as investigações clínicas posteriores, desenvolvidas, entre outros, por Rosenfelt, , por Ferro , por Faimberg, .
Outro aspecto importante, assinalado por este autor, é o que diz respeito à capacidade que Ferenczi tinha de aceitar e de se deixar surpreender pelos efeitos ou ressonâncias que certos elementos da narrativa dos pacientes tinham dentro de si, mostrando, julgamos nós, uma construção interna de relações de objectos, de ansiedade e de defesas que prefiguram o conceito de identificação projectiva descoberto pela sua aluna Melanie Klein e, posteriormente, desenvolvido e explorado por Bion Embora não aborde este conceito, ele prefigura-se através da descrição dos casos em que partes não aceites do self causam dor e ansiedade e podem ser projectadas dentro do objecto que o domina ou controla evitando sentimentos de separação. Estas fantasias podem-se organizar numa constelação de defesas de omnipotência e de clivagens de forma a encontrar um equilíbrio interno, mas que é de difícil contacto e intervenção.
Este autor sublinha ainda um aspecto particularmente interessante de Ferenczi que era a sua capacidade de investigação clínica, caracterizada, num primeiro momento, por uma validação dos conceitos freudianos e respectivos procedimentos técnicos para depois, numa segunda fase, encontrar respostas para as questões que a clínica de pacientes muito difíceis lhe traziam. O conceito da «elasticidade da técnica», inspirado numa metáfora de um dos seus pacientes, tinha como função ajudar o paciente a transformar as suas ansiedades e os seus conflitos e traumas em representações mais digeríveis e, portanto, mais integráveis no seu mundo interno. Franco Borgogno mostra neste artigo como este conceito foi pioneiro de uma nova abordagem analítica cujo objectivo era tornar o paciente menos permeável às valências arcaicas e inconscientes da incorporação e da introjecção. O autor acrescenta ainda que os analistas devem simultaneamente aliar-se aos aspectos saudáveis da personalidade de forma a contribuir para a construção de uma barreira anti-traumática contra possíveis tentativas de intrusão ou de projecção, e dar a possibilidade a certos aspectos do self de nascerem ou de se expandirem. O conceito de “elasticidade da técnica analítica”, ou seja, a necessidade de se colocar no lugar do outro e aprender a suportar o sofrimento, constitui um dos resultados principais da psicanálise. Desta forma, este conceito jogou um importante papel na compreensão e desenvolvimento do conceito da contratransferência, sobretudo em pacientes ditos difíceis.
Quando olhamos para a obra de Ferenczi a partir dos actuais conhecimentos e desenvolvimentos da psicanálise, ficamos com a impressão, como de resto Franco Borgogno e André Green salientaram, que ele testemunhou uma qualidade visionária e precursora da psicanálise contemporânea. Ele mostrou de uma forma viva a importância da qualidade da escuta ao escutar a influência das palavras do paciente em si próprio, assim como as qualidades dos elos e das rupturas da relação, revelando dessa forma aspectos visíveis e invisíveis dos conflitos da ligação. Este artigo mostra como a obra de Ferenczi tem vindo a merecer, nos últimos anos, um vigoroso reconhecimento - sobretudo na confirmação de alguns conceitos através da investigação clínica feita pela psicanálise contemporânea – de algumas das suas contribuições analíticas, tais como a importância dos primeiros passos para a teoria das relações objectais, para a descoberta de conceitos, ainda embrionários na altura, como a introjecção, a identificação projectiva, «aqui e agora da relação», relação de campo e o desenvolvimento da contratransferência.
Este artigo do nosso colega Franco Borgogno é de leitura imprescindível porque nos traz o testemunho da importância precursora para a psicanálise moderna de alguns aspectos teóricos, clínicos e técnicos da obra de Ferenczi.