A autora tenta fazer uma leitura analítica de um vasto acervo de relatos de sonhos do arquitecto e pintor, pioneiro nacional do “abstracionismo geométrico”, Fernando Lanhas, personalidade com interessantes intervenções no âmbito da museologia, paleontologia, antropogénese e cosmografia, que leva muitos a considerá-lo um criador renascentista. Numa perspectiva pós-freudiana é de parecer que tais sonhos são formas criativas, autênticas imagens do estado do self (Kohut), e realça a função coesiva da actividade onírica num self frágil.
Artigo recebido a 15/05/2014 e aceite para publicação a 19/09/2014
Psiquiatra, Psicanalista, Membro Titular com funções didáticas da Sociedade Portuguesa de Psicanálise/IPA, E-mail: celestemalpique@gmail.com
Possuo um acervo importante de relatos de sonhos de Fernando Lanhas que me foi facultado pela família com quem a minha irmã mantinha relações de amizade. Pediu-me que lesse e tentasse analisar esses sonhos, uma vez que me dedicara à prática da Psicanálise.
Pouco depois da sua morte, em Fevereiro de 2012, deparei-me com a publicação luxuosa dos Sonhos de Fernando Lanhas, promovida pela administração da Santa Casa da Misericórdia do Porto em comemoração do CXXV aniversário do Centro Hospitalar do Conde Ferreira. Como escreve o Provedor José Luís Novaes (2009) no prefácio “…encontrou no Arq. Fernando Lanhas, cuja vida e obra espelham a Bondade, o Saber e a Genialidade, o intérprete ideal para protagonizar o gesto de homenagem ao Conde de Ferreira.”
Senti-me feliz por tal publicação vir a lume com tão preciosa apresentação gráfica, com a colaboração de Armando Alves, e portanto com a autorização de Fernando Lanhas. Quer nestes comentadores quer nos da Exposição Retrospetiva na Fundação Serralves , em que muitos dos textos dos sonhos alternavam com os quadros, se lamentava que não se tivesse feito uma interpretação psicanalítica dos mesmos. Razão de sobra para sentir que o caminho estava aberto para uma abordagem psicanalítica, que tentarei agora, numa perspectiva moderna da Psicanálise, mas naturalmente modesta e aquém do que tal acervo merece (mais de 200 textos e alguns desenhos que os acompanham).
Recordemos que Fernando Lanhas natural do Porto, é o pioneiro da Arte Abstracta em Portugal, iniciando as suas pinturas em 1944, enquanto se forma em Arquitectura na Escola Superior de Belas Artes do Porto . Além de projectos de arquitectura e de diversos estudos gráficos, dedica-se de preferência à organização de Exposições, à Museologia (foi director do Museu Etnográfico e Histórico do Porto até 1993, onde recolheu notáveis colecções de arte popular e brinquedos portugueses antigos), em 1945 pensa uma intervenção artística nos rochedos da serra de Valongo e entretanto faz escavações na procura de fósseis e mantém durante anos grande interesse pela pesquisa paleontológica. Em 1960 começa a fazer uma interessante colecção de calhaus rolados que apanha nas praias e rios e pinta-os com belas decorações coloridas, que chega a expor com muito êxito. Nos anos 70 descobre gravuras rupestres em vários locais do norte do país. Em 1967 estuda o Quadro da Antropogénese e passa a dedicar-se à Astronomia e Cosmografia e enriquece o Liceu Garcia de Orta, no Porto, com interessantes salas de importância pedagógica, a ponto da NASA convidar um aluno no lançamento da nave Apollo 14, em missão lunar. Colabora com este Liceu em cursos de iniciação à Astronomia. Estuda a trajectória de meteoritos. Inventa o Ortoscópio e tem várias publicações (décadas de 70, 80 e 90) muito bem apresentadas do ponto de vista gráfico expondo várias teorias científicas sobre formação do Universo e a evolução do Homem, sobre o Câmbrico e a formação de Fósseis.
Nesta grande abrangência de interesses e atividade, longe do diletantismo, movem-no preocupações filosóficas, ontológicas a que não será alheia a sua sensibilidade poética e artística.
Recebeu inúmeras homenagens e condecorações, entre as quais destacamos, em 1997 o Prémio Amadeo Souza Cardoso (Museu Municipal de Amarante).
É pois tão vasta e diversificada a sua curiosidade e diferentes os campos da sua investigação e criação artística que alguns dos seus biógrafos o consideram um verdadeiro génio renascentista.
Veremos como os seus sonhos traduzem no seu mundo interno, essa criatividade, essa forma de pensar de um Self vígil e de um Self sonhador em permanente diálogo em busca de
um sentido para Si-Mesmo e para o Mundo que o rodeia. Mesmo sonhando Fernando Lanhas continua a criar, a pesquisar e a filosofar sobre as origens do Homem, sobre o Universo e naturalmente sobre Si-Mesmo Ou seja sobre a vida e a morte. A sua forma de expressar essa angústia existencial merece, pela sua originalidade, que lhe dediquemos alguma atenção.
Freud na sua Obra matricial, Traumdeutung (A Interpretação dos Sonhos, datada de ) revoluciona a perspectiva que até aí se tinha da atividade onírica da mente e a diferencia da Oniromancia popular. Estuda e interpreta os próprios sonhos na sua Autoanálise e preconiza-a depois no tratamento psicanalítico dos seus neuróticos. É pois uma obra fundadora da Psicanálise. Quando hoje se fala da interpretação psicanalítica dos sonhos, que continua a ser um instrumento precioso do tratamento analítico, é a essa teoria freudiana que nos referimos, ainda que alguns autores pós-freudianos a viessem enriquecer (Kohut, Winnicott, Anzieu, Bion, Fairbairn, Federn, Guillaumin, Khan, Meltzer, Pontalis, Resnik, Viderman e, entre nós, F. Pereira).
Freud atribui ao sonho um sentido, um significado que se insere na biografia de cada um obtida através da regra fundamental da associação livre em situação analítica, e que, mediante o “trabalho do sonho” rememora e transforma em palavras, um conteúdo manifesto resultante da deformação pela censura do conteúdo latente. Esta transformação, semelhante à formação do sintoma neurótico, evita o acesso à consciência de desejos e de angústias que viriam a perturbar o sono.
O sonho resultaria assim de uma solução de compromisso que, através de imagens e narrativas mais ou menos fragmentadas permitiria que se realizasse o desejo, a pulsão libidinal ou agressiva, mantendo a necessidade de dormir, ou seja o sono. O pesadelo seria um despertar ansioso que interrompia o sonho e fracassava este seu duplo objetivo. Esta transformação do conteúdo latente em conteúdo manifesto opera-se mediante mecanismos psicológicos de condensação, deslocamento e recurso à figurabilidade. Ou seja a comunicação do pensamento, da narrativa, passa-se sempre em imagens, sejam elas próximas da realidade ou deformadas.
É uma descoberta genial que torna o sonho uma via régia para o Inconsciente e a sua interpretação e integração na Consciência, um dos principais factores da cura analítica, nos pacientes neuróticos. O Sonho tal como o sintoma é uma solução de compromisso entre o Princípio do Prazer e o Princípio da Realidade.
Na interpretação dos sonhos, fundamento da Psicanálise, reside pois e ainda, essa perspectiva mágica desta terapia reveladora do Inconsciente, do Desconhecido que albergamos, das angústias e interrogações que nos atormentam. Talvez por isso se esperasse que a abrangência e singularidade, criativa de Fernando Lanhas fosse finalmente revelada a partir da interpretação psicanalítica dos seus sonhos.
Todavia o conhecimento da Mente Humana tem-se enriquecido com estudo e experiência clínica que psicanalistas pós-freudianos muito acrescentaram. O avanço das Neurociências aí está para enriquecer a investigação e desvendar a complexidade do funcionamento mental.
O sonho continua pois a ser um fenómeno que espelha a mente, uma janela aberta sobre o nosso Self, uma outra forma de pensar, diferente da vígil, que em vez de representações e da palavra, utilizando Imagens, o predomínio da figurabilidade, da condensação e do deslocamento, nos dá informes preciosos sobre o estado da mente, ou seja sobre o nosso SELF, como habitualmente se designa; sobre a sua coesão ou fragilidade, a sua capacidade transformativa, o imaginário que o povoa, a sua criatividade, na permanente tentativa de manter a homeostasia. Ou seja, a sua estabilidade e capacidade de regular a sobrevivência e a ligação à realidade (consciência do corpo e do mundo que nos cerca); Freud não andou muito longe deste conceito, que as Neurociências (Damásio A., por ex.) confirmam.
No caso particular da Mente manter o sono e o desejo de dormir, manter a capacidade de sonhar é certificar a função coesiva do sonho face ao perigo da fragmentação, satisfazer o desejo pulsional compatibilizando-o com as exigências da Realidade, permitir a permanente oscilação entre Ps _ D, ou seja, o equilíbrio entre a Dispersão-Integração, criar um espaço onde a narrativa onírica ganhe sentido e mantenha capacidade transformativa. O sonho é outra forma de pensar (desde a fantasia inconsciente de Klein, aos conceitos de Bion e Meltzer) e o pensamento está sempre activo em estado vígil como em sono. O pensamento onírico é equivalente à acção, o alfa-dream-work é permanente durante o sono e estado vígil, como nos diz Bion. É o próprio Lanhas que o diz num sonho de 1998: “sonhei que já sabia os sonhos mas eles estavam por sonhar.» Bion
diz exactamente o mesmo a propósito do pensamento,“ está lá mas tem de ser pensado, tem de ter um pensador”.
E sempre e, cada vez de modo mais holístico – cérebro e mente e a sua expressão psicológica –, se vão integrando através do pensamento onírico; o sono como fenómeno eminentemente neurofisiológico, da fase de Sono-REM com as suas ondas electroencefalográficas, e ativos movimentos oculares, durante o qual se passa a atividade onírica, o pensamento em imagens; associadas às variações de tonicidade com as suas particulares sensações cenestésicas e posturais. Os sonhos continuam a merecer a nossa melhor atenção e assim ouvimos a narrativa de sonhos de voo, sonhos de levitação, sonhos angustiosos, pesadelos, sonhos de carácter alucinatório, em que o movimento se exprime em imagens, em narrativas imagéticas, mantendo-se o corpo geralmente imóvel.
Talvez nos deixemos arrastar para a questão central das Neurociências que Damásio aborda num dos seus últimos livros, O Sentimento de Si sobre os estados de Consciência, sobre a importância que o tronco cerebral e a formação reticular têm na imagem mental dos objectos e seu padrão neuronal e no estabelecimento da consciência corporal (O Si Nuclear) sem todavia nos dar resposta sobre a diferença entre a Realidade Objectiva e a Realidade Subjectiva. Talvez Damásio falhe em nos explicar porque é tão diferente a leitura subjetiva que cada um de nós faz dessa Realidade; quase chegamos ao ponto de admitir que só a Realidade Subjetiva existe.
Vamos chamar a essa Realidade Subjetiva espaço interno e afirmar que é tão rico e surpreendente como esse outro que nos rodeia e que vamos descobrindo ao longo da vida. Talvez possamos admitir que o fascínio vem da projecção desse nosso mundo interior no mundo externo, pois varia tanto com o modo como cada um o olha, o sente, o imagina, integrado na sua história autobiográfica! Mas não será bem assim porque a realidade externa impõe-se e nos cria limites e frustrações. E tem sido codificada pela Ciência e pela Cultura, que para além dessa leitura pessoal, estabelece leis e nomenclatura universais. Então existe!
A enorme diferença que a subjetividade lhe imprime, a enorme diferença como cada qual olha o Mundo, está nesse filtro transformador e criativo que separa as duas realidades: o nosso mundo interno, o nosso espaço interno, e a realidade externa, objetiva, que nos cerca. Meltzer avança aqui com uma concepção interessante: a relação primária Mãe-bebé é tão sintónica, harmónica e fusional, que se vive como um Impacto Estético, um fascínio que se pode prolongar, que corresponde ao impulso epistemofílico que nos acompanha pela vida fora, ou seja, a irresistível curiosidade em explorar o Universo e os seus objetos. Todavia o crescimento, a frustração-separação, na díada mãe-bebé, faz que surja a dúvida própria do conflito estético: “será tão bela, assim, no seu interior? como será, o que não vejo?…” e a procura não tem fim!
Poderíamos até dizer que uma gera a outra ou simultaneamente se constroem e desconstroem. É a partir dessa interface especular que o homem tem possibilidade de “olhar o mundo” e de “olhar para dentro de si” com o mesmo fascínio da descoberta. A criatividade surge nesse “espaço potencial”, nem totalmente fora nem totalmente subjetivo, é aí que o novo objecto é criado e subjetivado (Winnicott). E essa criação é possível porque na relação precoce Mãe-bebé ela oferece segurança, apoio “holding” para que o Self do bebé cresça na diferença, seja criativo e livre para fantasiar, sonhar e descobrir um mundo que seja o seu!
A capacidade de ficar só junto de alguém – na expressão de Winnicott -, permite que se viaje num espaço sem limites, sem as angústias de desintegração que poderiam ameaçar a coesão do Self e a integridade do corpo, na queda.
Entrar na situação limite e ficar só, preso no imaginário, perante o fascínio do mundo interno, acontece no artista, mas pode igualmente acontecer com alguns espíritos mais aventureiros na descida aos oceanos, nas viagens espaciais à descoberta do Universo. O impulso criativo é o mesmo; a percepção através do Inconsciente, a intuição mobilizadora, o imaginário, a revelação que surge, gera-se nessa interface sensível e transformadora entre o Consciente/Inconsciente (pré-consciente de Freud, espaço potencial de Winnicott, barreira de contacto de Bion… e porque não, já agora?, numa perspectiva neurofisiológica, o sono REM durante o qual o sonho se desenrola). O modo como se perscruta esse Mundo que nos cerca não será assim tão diferente daquele com que se olha e sente esse espaço interno.
O Sonho será assim o fenómeno psicológico mais corrente que nos coloca perante esse mecanismo de transformação, com esse retículo criativo e poroso entre Consciente/Inconsciente.
O Espaço interno em que o sonho se desenrola, Espaço do Sonho, descobre-se e organiza-se simultaneamente com a percepção e organização do Espaço externo.
De um espaço bidimensional na relação primária (Mãe-bebé, o primeiro universo) em que o Ecrã do sonho é, segundo Lewin, o Seio Materno, passa a um espaço tridimensional em que surge a profundidade, a distância, o reconhecimento do Outro, separado e, finalmente, o espaço tetradimensional em que a dimensão tempo (duração, espera) se torna mais visível e espacializada. O processo é fundamentalmente relacional ou não fosse o bebé humano aquele que faz a mais longa aprendizagem. Aliás Bion privilegia a emoção na origem da capacidade de pensar, e na ausência do objecto a origem do pensamento. É provável que a apreensão do espaço externo, a capacidade de nele se organizar e movimentar, não dependa apenas de progressos cognitivos, mas haja correspondência com os factores relacionais e sensoriais (visão, ouvido, tacto). Sabemos que os órgãos dos sentidos que percepcionam o mundo externo, vão de certo modo condicionar e proporcionar a retenção de memórias sensório-emocionais, predominantemente visuais, auditivas, tácteis ou cenestésicas, em função da relação mãe-bebé. Tudo vai depender do estímulo ou erotização dessa relação ou de handicaps que a criança possa ter ou precocemente adquirir (visuais, auditivos, motores). O mesmo poderíamos dizer de um espaço interno que se organiza em função do cruzamento de todos estes factores. Para completar recordemos que há personalidades cujo funcionamento mental é predominantemente visual, recorrem com facilidade a representações visuais e esquemas de organização espacial (pintores, arquitectos, escultores, físicos, astrónomos, etc.) enquanto outras são predominantemente auditivas (músicos e compositores) e as suas concepções mais abstractas têm esse caris (Beethoven compôs algumas das suas melhores sinfonias já surdo).
Vem este intróito a propósito da análise dos Sonhos de Fernando Lanhas à luz de uma Psicanálise moderna. A Atividade onírica de Lanhas é tão rica e dominante que ele próprio rememora, escreve e colecciona os sonhos. Digamos que os sonhos de Lanhas são uma criação que ele junta a outras expressões criativas no domínio das artes plásticas, são croquis de desenhos no seu interior e que o próprio algumas vezes executa em estado vígil. Ultimamente até os transcreve como poemas. O facto de ser surdo de um ouvido, desde criança, vai com certeza condicionar aspectos da sua obra e personalidade.
Aos 79 anos é ele próprio que afirma:
“Aos 5 anos já registava os sonhos. Pedia à minha irmã para os escrever. Passados uns anos, quando já sabia escrever, passei-os a limpo. Sonho todas as noites, como toda a gente; às vezes registo-os. Terei uns 700 ou 800 passados à máquina; acho os sonhos uma coisa interessantíssima. Não são inventados. São uma continuação de nós, tenho alguns que não compreendo. Não parecem sonhados por gente. Não tento interpretar. Hoje em dia estou a pensar fazer um mapa dos sonhos, porque os que tive numa certa idade, deixei de os ter, como os de levitação. Levitei muito, durante anos aprendi a levitar-me. Era doloroso. Ficava cansado, mas aprendi; sei como é que começava a levitar-me. Tudo isto em sonho.”
Não já um desvendar de um conteúdo manifesto que esconde um conteúdo latente, como estava implícito na Interpretação Psicanalítica dos Sonhos em Freud S. , porque poderemos considerá-los, na sua maioria, sonhos do estado do Self . São formas oníricas de se representar, de se pensar, janelas abertas sobre o seu mundo interno. Há pouca espessura do seu pré-consciente. Considerando o sonho como resultante de uma clivagem e numa personalidade esquizoide como a de Lanhas, é de crer que esta tenha sido a sua forma habitual do seu olhar o Mundo centrado sobre si-mesmo, desconfiado, alheado, ainda que fortemente seduzido pelos objectos do Real (parece um mundo povoado de objectos, pedras, fósseis, casas, astros), mais do que por pessoas com as quais a sua interacção foi sempre pobre, em parte pela própria surdez.
O seu abstracionismo Abstracionismo Geométrico como alguns lhe chamam, o equilíbrio de formas que coloca nas suas pinturas de cores suaves, o risco incisivo do seu desenho, são afinal a imagem do seu mundo interno. Pinturas talvez um pouco estáticas e frias, por contraste com os desenhos de alguns sonhos que exprimem maior angústia (perseguição, ataques e morte, fim do mundo anunciado, etc.) e maior mobilidade enquanto explora o espaço (sonhos de levitação, por ex.). Mas também há sonhos em que há prazer e possível realização de um desejo (encontrar um fóssil procurado, certa megalomania narcísica em que é alvo de aclamações públicas, projectos de grande envergadura, fazer descobertas no Universo, descobrir novas Galáxias). O conteúdo onírico de tais sonhos traduz uma excessiva centralização e inflação do seu próprio Self, que se projecta num espaço sem limites (sideral) que, parecendo conduzir a alguma estranheza e sentimento oceânico de fusão com o próprio Universo, lhe desperta fascínio
e curiosidade e simultaneamente uma expansão grandiosa e fusional com o Objecto Estético.
Há todavia uma constante nestes quase 200 sonhos que tive ocasião de ler: a presença da mulher, Maria Luísa, e a referência ocasional à sua ausência, igualmente significativa. Uma presença serena, uma companhia, um continente, o verdadeiro ecrã do sonho, o seio materno em que se deixa repousar para poder sonhar.
Não podendo fazer uma interpretação psicanalítica clássica dos Sonhos, embora alguns fossem claramente a realização do desejo e certa megalomania, a verdade é que perpassa em muitos deles insegurança, desconfiança, ameaça de perseguição, isolamento e dificuldade de comunicação (não entende o que dizem, não ouve, tapa os ouvidos com uma máscara, passa pelos outros sem ser visto, sente-se separado por paredes de vidro, metido em cápsulas de cristal, atravessa a cidade entrapado, quase embalsamado, pedinte ainda que bondoso e venerado, etc.)
Sonhei com um homem que vivia amarrado a um estrado, era um homem bom. As pessoas que passavam davam-lhe de comer. O estrado que lembrava uma padiola, era transportado de cidade em cidade. O homem todo envolto nos panos e cordas que o ligavam ao estrado, estava na posição de sentado, com as pernas cruzadas e os braços estendidos. Os panos que o envolviam eram muito escuros e todo o corpo estava apertado nas cordas grossas.
Uma das características mais originais são os sonhos de levitação (cerca de 10% no meu acervo) que começa a referir em 1958, isto é, com 35 anos - geralmente em posição de sentado com os braços estendidos, mas não raro deitado e em velocidade, a pouco mais de meio metro do solo, olhando e percorrendo o espaço das casas, de corredores, sobre o mar, etc., atravessando paredes e portas sem ser visto. Isso implica sensações cenestésicas de peso, de esforço para se poder levitar, mas às vezes até o faz sem esforço. A minha hipótese será a forma corporal onírica - cenestésica de percorrer com o olhar, mentalmente, o espaço como fazem com frequência os arquitectos e outros operadores que trabalham o espaço (programa Autocad em computador, por ex.). Estes sonhos de levitação, bastante mais raros que os sonhos de voo, explicam-se por fenómenos neurofisiológicos, mudanças de tónus e cenestesias próprias do sono REM, que nada tem a ver com a Santidade ou Religiosidade que dantes se atribuía a certas personalidades. As viagens à Lua, só ou acompanhado de familiares, são frequentes. Viagens ao espaço sideral, sentimento de estar perdido num espaço sem fim, entre estrelas e galáxias é descrito, assim como a estranheza e o reconhecimento de que não era exactamente assim que aprendera na Astronomia. Algo estava errado, não sabia porquê. Ou então algo de que teria um conhecimento antecipado, a comunicar aos outros. Sempre uma inquietante estranheza.
Outro conteúdo importante e dominante nos seus sonhos são os fósseis que procura, que encontra nas escavações e cuja beleza e raridade admira. Identifica-os e chega a
desenhá-los. Por vezes as trilobites animam-se e ficam ternurentas. Chega mesmo a saber que nasceu uma criança – Trilobite – que procura desesperadamente. Outro motivo são as ardósias da Serra de Valongo, onde fez explorações, pinturas, mas o mais impressionante foi sentir-se petrificado numa laje de ardósia.
Em Nov/88 sonhei que era um grande bloco de ardósia. Eu estava ali nesse bloco. Faltavam-me, eu sabia-o, as faculdades dos seres vivos. Sentia no entanto que pensava. Em certo momento, a lousa que eu era, adoece e começa a desconjuntar-se em lâminas. Fiquei desfeito.“
Aliás esta imagem petrificada, fossilizada, embalsamada, morta, do EU, é comum. O sonho de que vai morrer em breve, que está morto, que não existe, aparece com frequência, desde muito cedo. Reconhecemos que há um predomínio de paisagens áridas, frias ou majestosas, quase sempre despovoadas. Aliás os seus sonhos têm poucas pessoas, ou vê multidões anónimas; as pessoas são, quase sempre, os familiares mais próximos, a mulher e os dois filhos identificados pelo nome.
O Fim do Mundo e o Fim do Tempo é um pressentimento que anuncia parecendo que há uma certeza, um conhecimento antecipado que só ele possui. Descreve também sonhos terríficos de perseguição, e recorda que foram frequentes pesadelos na infância. Em Jan/2003 diz que teve um sonho de infância.
Sonhei que era perseguido. Estava num salão onde havia uma grande porta, muito alta, toda chapeada a ferro e pintada com zarcão. Eu estava do lado direito da porta, contrário à abertura. Num momento vejo a porta a abrir-se muito devagar. Logo a seguir começa a aparecer uma garra preta com a forma de um neurónio, arrastando-se pela abertura da porta; aflito solto um grito contido e sufocado. Eu próprio ouvi este grito. Acordo ansioso.“
muito presentes e na sua expressão onírica a figurabilidade leva à espacialização e é descrita como percorrer uma Avenida com lojas, com pessoas vestidas à época e vendendo artigos antigos, ou percorrer um cemitério com jazigos de vários estilos e épocas diferentes.
Os sonhos com cores vivas geralmente têm animais – gatos, cães, lagartas, touros, etc.
Admitimos que mesmo sem um clássico trabalho do sonho o fenómeno onírico parece deter um efeito elaborativo e que o sonho mantenha uma função autónoma, quer por via do mecanismo de condensação e deslocamento que Freud já havia assinalado, quer pelo efeito coesivo em Selfs mais frágeis e com ameaça de fragmentação, quer pela repetição e permanente tentativa de superar, resolver, aliviar angústias presentes ou situações traumáticas passadas. Há angústias existenciais que se mantêm ao longo da vida – a Morte, a vastidão do Universo, a existência de Deus, a eternidade, o fim apocalíptico do Universo etc., que não deixam de preocupar o Homem, o seu estar no Mundo, e que continuam a preencher os seus sonhos para que ele, tal como previu Freud, pudesse dormir… sossegado!
Não, não foi assim, Lanhas nunca viveu nem dormiu sossegado! Foi uma personalidade profunda e metafisicamente angustiada, a sua procura não teria fim! Para terminar nada melhor do que citar Fernando Guedes aquando da homenagem que a Academia Nacional de Belas-Artes lhe prestou em 1997 em Lisboa. “Tudo quanto faz, qualquer acção positiva que empreenda, tende para um fim único, um local isolado, solitário, em qualquer ponto do Universo, deste nosso real ou de um imaginário. No fim dos fins há de estar Deus que Lanhas já desenhou por mais de uma vez na pessoa do Pai e na pessoa de Cristo. Essa busca, essa incessante procura, é realizada com o mais obstinado rigor. Esse Deus, um sabedor das geometrias como se refere num dos seus poemas.”
E agora sim, terminarei eu, nesta difícil e ambiciosa tarefa de interpretar os sonhos de Fernando Lanhas. Escolhi dois, talvez para mim mais significativos como psicanalista.
Sonhei que fiz uma viagem à Lua. Depois de ter chegado à Lua, estava numa casa, interiormente mal iluminada, cuja arquitectura lembrava a das antigas casas altas do Porto. A sala onde eu estava não tinha qualquer móvel. Era uma sala vazia em que a luz muito frouxa vinha do exterior. A meu lado estava minha mulher que compreendeu a curiosidade
Page 23que eu tinha em ver as coisas da Lua. Então apontou-me para um chão feito de mosaicos, em que um estava solto. Minha mulher levantou esse mosaico. Eu abaixei-me para ver uns objectos que o mosaico parecia esconder. Os objectos não tinham qualquer ligação aparente entre si, sendo uma pedra com fósseis, outro era uma vela de vidro e o último uma peça de louça que me pareceu um bule. Vi com maior atenção aqueles objectos: a peça de louça, o bule, tinha no fundo uma marca que devia ser a do fabricante, sendo o seu desenho este.
Pareceu-me poder concluir que as cruzes que estavam de cada lado correspondiam a um alfabeto, de certo com influência dos alfabetos da Terra. Não me interessaram as cruzes mas sim o desenho central. Este desenho sim, teria uma relação com a escrita da Lua. Continuei a analisar a peça, notei haver na sua parte superior uma pequena armação constituída por finíssimos filamentos. Não entendi que finalidade pudesse ter essa armação. Comparei este desenho com o motivo central da marca do fabricante. Havia alguma coisa de comum que não entendia nada.
Observei depois a vela de vidro. Tinha secção quadrada, era seccionada no sentido do seu comprimento, correspondendo a cada secção uma cor diferente. A pedra que apresentava fósseis pareceu-me comum. Os fósseis eram moluscos com forma alongada.
Seguidamente encontro-me noutra sala, estando agora a meu lado o meu filho João. Daquela sala vamos a uma varanda coberta. Em frente da varanda vemos, num telhado cinzento, um grande gato, muito maior que os gatos da Terra. Todo ele era verde, a cabeça muito grande e o corpo parecendo uma alface; as patas da frente lembravam mesmo folhas de alface dobradas. O gato olhou-nos e começou a dirigir-se para nós, muito vagarosamente. Porque não sabíamos as suas intenções e era um grande gato, saímos apressadamente da varanda. Regressados novamente à sala, vimos aí muitas outras pessoas, um rapaz entre os 16-17 anos de idade, bastante magro, de pele esfarrapada e muito branca, estava ali perto da janela. Este rapaz era natural da Lua. Seus pais tinham ido da Terra há muitos anos. Falámos com o rapaz que nos disse haver na Lua uma rua com o nome de DRGBA. Pensei nessa primeira gente que havia seguido para a Lua, num tempo em que as viagens ainda não eram possíveis.
Arriscarei uma interpretação:
Este é dos sonhos mais vivos, mais ricos de cores e figurabilidade. Parece revelar uma emigração (alienação) para um outro Mundo-Lunar onde os pais o deixaram na adolescência, de cuja memória ficou o desejo de desvendar os mistérios, a estranheza - despersonalizante - castradora perante os Outros, o fascínio estético pelos objectos, a procura nunca satisfeita de encontrar um alfabeto que pudesse finalmente revelar “o fabricante”, ou seja a sua origem. Se o bule tem chá, se o grande gato verde (Chat) é o rapaz adolescente em que se transforma e fica para ali abandonado, lunático e triste… só ele julga ter um conhecimento antecipado… pois os outros, os terrenos, nada sabem do seu mundo! Talvez só a mulher-Mãe que o acompanha, compreenda a sua insaciável curiosidade.
Sonhei esta noite que estava sentado no degrau de uma escadaria de madeira de uma casa antiga. Quando eu tinha 6-7 anos, era num degrau assim que costumava brincar, recortar soldadinhos e fazer construções de cartolina. Então vi minha mulher que estava de pé, no grande patamar da escada. Eu e a Maria Luísa falamos de muitas coisas e ela disse-me que tinha feito anos na véspera. Não compreendi, porque tínhamos falado sobre o aniversário, o que seria daí a um tempo. Depois pousei infantilmente a cabeça no degrau da escada e comecei a chorar. A Maria Luísa veio para junto de mim, acarinhar-me.”
Diria eu: A infância perdida … um esquecimento actual imperdoável… uma breve mas dolorosa separação… “por onde tens andado meu filho ?”… um choro infantil que só uma Mãe pode aliviar!
ABSTRACT
The author attempts an analytical reading of a vast collection of dreams, reported by the architect and painter, Fernando Lanhas. Considered to be the national pioneer of «geometric abstraction», he made interesting interventions in the fields of museology, palaeontology, anthropogenesis and cosmography, leading many to consider him a Renaissance man. In a post-Freudian perspective such dreams may be read as creative forms, authentic self-state images (Kohut), which enhance the cohesive function of dream activity in a fragile self.
KEY-WORDS: Fernando Lanhas's Dreams, Self-state dreams, Levitation dreams, Cohesive function of the dream
Quando no final do sonho aguardava o regresso à Terra, num estreito corredor de embarque, falei com outras pessoas que ali também esperavam pela nave. Na conversa que então tive, disse a essas pessoas que tinha um conhecimento antecipado de quanto ia acontecer na visita à Lua, porque já havia sonhado com aquela viagem.”