A autora começa por confrontar duas versões opostas do que hoje se entende por setting psicanalítico – aquela que defende que os aspetos exteriores do setting são o garante do processo; e aquela que se foca sobretudo no setting interno do analista. O mundo contemporâneo conduz a mudanças que devem ser pensadas e as suas circunstâncias impossibilitam com frequência a desejada estabilidade do setting, o que é ilustrado por uma vinheta clínica.
A psicanálise é então vista como a procura dos equilíbrios possíveis entre aspetos muitas vezes inconciliáveis.
Comunicação apresentada no XXIV Colóquio da Sociedade Portuguesa de Psicanálise: “Psicanálise na Era Global”, a 18 de Maio de 2013. Artigo submetido a 17/02/2014 e aceite para publicação a 07/07/2014.
Psicóloga Clínica, Psicanalista, Membro Associado da Sociedade Portuguesa de Psicanálise/IPA, E-mail: ana.t.vale@gmail.com
O setting psicanalítico é considerado de forma unânime como um instrumento essencial para a prática da psicanálise. No entanto, este pode ser entendido de formas diferentes, como C. Farate, (2012) explicita no seu último livro.
Alguns autores consideram os aspetos exteriores do setting como cruciais e indispensáveis, considerando que a imutabilidade das suas regras é o garante do processo psicanalítico (Steiner, J. 2006; Perez-Sanchés, A. 2009).
Assim, para estes autores, a psicanálise define-se por uma determinada frequência de sessões, pela imutabilidade do tempo e espaço físico nos quais decorrem as mesmas, pelo uso do divã, pela gestão sempre igual dos pagamentos e dos períodos de ausência (férias e fins de semana). Pensa-se então que este quadro favorece a associação livre do paciente, a atitude analítica do psicanalista e o estabelecimento da transferência. Daqui decorre que, nesta perspetiva, mudanças ao nível destas regras dão origem a processos diferentes, que já não são considerados psicanálise.
Outros autores privilegiam o setting interno, isto é, a capacidade do analista para manter o espaço-tempo internos para receber o paciente e manter o processo psicanalítico em curso, cumprindo a sua função analítica (Parsons, M. 2007; Martin Cabré, L. 2009).
Neste último caso, não descurando os aspetos exteriores definidos pelas regras do setting, o foco desvia-se para a disposição interna do analista e para a forma como analista e paciente estabelecem um campo emocional em comum, onde o processo se vai desenrolar. Portanto, o setting acaba por ser gerido consoante as características de cada par específico.
Entre estes dois extremos, os analistas posicionam-se mais de um lado ou mais do outro. Na nossa opinião, os aspetos exteriores do setting são fundamentais: não garantem, mas favorecem o processo e, portanto, devem ser mantidos sempre que possível. Mas a instalação e desenvolvimento do processo depende do campo, que é diferente para cada par.
Porém, perante as mudanças políticas, económicas e sociais das últimas décadas, enfrentamos agora um mundo em que o setting que habitualmente consideramos ideal nem sempre é possível.
Hoje em dia, a comunicação processa-se de forma diferente, o mercado de trabalho tem exigências novas em relação aos trabalhadores, os salários descem nos países em crise, o tempo gere-se de forma diversa. O mundo mudou e já não se compadece com determinadas práticas que anteriormente eram consideradas benéficas para a análise.
Como é que o analista reage a estas mudanças, que muitas vezes provocam necessidade de alteração do setting? Considerar que todas as alterações são aceitáveis equivaleria a moldar-se a todas as exigências do mundo moderno, mesmo aquelas que vão contra o próprio pensar. Mas por outro lado, não podemos ignorar que há aspetos que vão sendo integrados na prática psicanalítica contemporânea, mesmo que não deixem de nos colocar dúvidas.
Um exemplo das questões que se colocam aos analistas hoje em dia são as comunicações por telemóvel. Por um lado, são um meio de comunicação normal e amplamente difundido, que substitui em grande medida o telefone fixo; mas por outro lado, promovem a fantasia da disponibilidade total e da resposta imediata.
Para além da comunicação por telemóvel, o que dizer dos meios de comunicação à distância usando o computador? É uma prática que existe e sobre a qual se começa a escrever, levantando muitas questões acerca das especificidades de tais processos.
Alguns autores defendem que conduzir uma análise usando tais tecnologias pode alimentar
defesas como a negação da separação e da perda, para além de não ser suficientemente continente, por privar o paciente da presença física do analista. Muitas vezes é também muito inquietante para o próprio analista. Mas do outro lado temos autores cujas experiências os fazem acreditar que é possível manter o trabalho com o inconsciente, a associação livre do paciente, a atenção flutuante do analista e as dinâmicas transfero-contratransferenciais, podendo inclusivamente trazer ao de cima aspetos que não haviam surgido durante a análise presencial (ver a este respeito a discussão de Scharff, J. 2012).
Outro exemplo ainda seria a gestão dos constrangimentos provocados pelos horários de trabalho que obrigam os pacientes a vir às sessões a horas muito tardias ou os trabalhos por turnos que obrigam a um reajustamento do horário das sessões semana após semana, impossibilitando a desejada estabilidade do setting.
Na vinheta clínica que se segue, o problema que se coloca tem a ver com a descontinuidade provocada na análise dos pacientes que, por obrigação laboral, viajam com frequência, ausentando-se regularmente da análise.
Encontro Jorge primeira vez quando ele tinha 38 anos; a sua mulher estava à espera do primeiro filho do casal. Fala-me da sua ansiedade constante, que não o larga, que se agravou de há um tempo a essa parte devido a uma situação de conflito profissional. À data, isto já o tinha levado a episódios de pânico, vómitos, idas ao hospital.
Por trás das suas palavras, ouço o seu sentimento de desorientação e de desamparo. Fala-me do sentimento de falta de contacto com as pessoas mais próximas, como se nunca pudesse dar-se a conhecer realmente a ninguém.
O paciente comunica-me também uma angústia ligada à ideia da mediocridade – os seus objetos internos são vividos como medíocres, porque não conseguem acalmar a sua angústia; ele próprio oscila entre sentir-se omnipotente ou medíocre.
Jorge fala muito rapidamente, associando umas ideias às outras, muitas vezes confundindo-me e perdendo-se ele mesmo no seu próprio discurso. Há uma indiscriminação dos afetos muito visível, como se não conseguisse diferenciar as suas emoções. Juntos vamos compreender que os seus afetos são para ele fonte de angústia, por não conseguir pensar sobre eles – são sentidos como ameaçadores e portanto o seu primeiro impulso é tentar evacuá-los.
Na análise, vive o início da relação comigo com um misto de esperança e de profunda desconfiança.
O nascimento do filho, seis meses depois do início da análise, provoca em Jorge um grande deslumbramento. É também nessa mesma altura que aceita um trabalho novo, que lhe permite sair da situação profissional em que se encontrava, que se havia tornado insustentável. Mas este trabalho novo tem uma particularidade – implica fazer viagens todos os meses, ou seja, estar fora do país uma semana por mês. Fora da família de origem, longe da mulher e do filho recém-nascido, e fora da análise.
Percebemos rapidamente que aceitar este trabalho, com esta dinâmica de presença / ausência, tem uma motivação – evitar um sentimento de sufoco, relacionado com a angústia que vive face ao nascimento do filho. E de uma forma mais inconsciente, afastar-se da análise, que também tem medo que o sufoque.
Esta situação coloca à analista uma dúvida acerca de como conduzir o processo a partir daí – manter a análise com a sua frequência normal nas semanas em que está na cidade, ou transformar o processo numa psicoterapia que, pela sua menor frequência e características próprias, pudesse suportar melhor estas ausências constantes.
Decido manter a análise, aceitando o constrangimento que é colocado pela descontinuidade provocada pela interrupção mensal, dada a minha convicção de que, para este paciente e no contexto do trabalho que vínhamos a desenvolver, o benefício da análise, mesmo com esta descontinuidade, seria maior do que aquele que ele poderia retirar de uma psicoterapia. Acreditando portanto que seriam precisamente os instrumentos analíticos que iriam permitir elaborar e integrar esta limitação.
Mas, nos primeiros tempos, sempre que voltava de viagem, tínhamos que voltar a restaurar a confiança, que na separação havia sido perdida. A desconfiança em relação à analista e à análise aumentavam consideravelmente, como se o facto da analista ter aceite uma situação não ideal a transformasse num objeto medíocre, que não o orientava, não o ajudava, não o satisfazia, não cumpria a sua função.
Todos os meses, sentíamo-nos a voltar ao princípio. A distância que parecia que diluía o vínculo de Jorge com a analista, a desconfiança que o fazia ter dificuldade em começar a sessão, e a invariável dúvida – será que isto vale a pena?
Por vezes, dentro de mim eu perguntava-me, “será que vale a pena? Talvez o próprio processo analítico não consiga comportar tais ruturas. Será que cometi um erro de julgamento? Será que entrámos numa situação impossível da qual os instrumentos analíticos afinal não chegam para nos fazer sair?”
Apesar dos meus sentimentos contratransferenciais, insisti em trabalhar e elaborar a transferência negativa, sobretudo esta suscitada pelas separações das viagens, e essa persistência foi dando os seus frutos.
Aos poucos, o regresso vai deixando de trazer esta marca de distanciamento e de dúvida, para começar progressivamente a trazer o sentimento de falta, a saudade, o que o paciente pensou durante a separação. Ou seja, o objeto analista vai ficando dentro do seu mundo interno com características progressivamente diferentes e há um campo analítico que continua a funcionar mesmo na separação.
Jorge vai assim aumentando a confiança na sua análise, à medida que vai vendo os frutos do nosso trabalho refletidos no seu estado interno. O reverso da medalha é que cada vez mais tem consciência do quão penosas são estas separações, não só da analista, mas sobretudo da mulher e do filho.
Ao fim de dois anos, a angústia, a falta, o desamparo e a solidão que sente ao ir de viagem tornam-se muito conscientes, e vão-se tornando cada vez mais pesados, até fazer uma crise de pânico que o impede de entrar no avião que o haveria de levar de viagem.
Inicia-se aí uma fase crítica da análise, em que deixa de viajar durante alguns meses e em que, a seu pedido, aumentamos a frequência das sessões e vemo-nos quatro vezes por semana.
As separações mensais, conjuntamente com o trabalho constante de elaboração das questões do afastamento e do reencontro, trazem a descoberto uma angústia muito profunda, ligada com uma sensação de morte eminente e de fragilidade atroz, que Jorge sente que não consegue aguentar sozinho.
As sessões são um dos poucos momentos em que se sente mais protegido, menos sozinho, menos confuso, e portanto entrar num avião e separar-se da analista neste período específico é insuportável.
Durante estes meses, o foco do nosso trabalho centra-se nesta angústia de morte e neste profundo sentimento de vulnerabilidade e desamparo, acompanhados de uma dor mental fortíssima.
Mas ao mesmo tempo é um período riquíssimo do ponto de vista do trabalho analítico, em que Jorge mostra uma capacidade aumentada de elaboração, uma maior capacidade de insight e de ligação, uma melhor discriminação dos afetos e um discurso muito mais claro sobre as suas emoções. Consegue aos poucos voltar a funcionar na vida e fazer face às exigências do trabalho - e com uma capacidade aumentada de cuidar melhor de si e das suas relações.
No quarto ano de análise, na altura do nascimento do seu segundo filho, surge-lhe a hipótese de ir viver para o país para onde viajava - desta vez com a família e não sozinho - para desenvolver no local o projeto no qual trabalhava. Pensa seriamente em aceitar, o que obviamente implicaria o fim da análise comigo.
Mas pesando os vários factores, sente que quer aceitar esta oportunidade. Há uma repetição – nasce um filho, muda de trabalho, vai para longe. Mas agora isso é feito de uma forma muito diferente do que da primeira vez, com tempo para preparar e pensar esta mudança. A última fase da análise teve como foco a separação e a mudança.
Indiscutivelmente, esta análise seria diferente se não sofresse estas descontinuidades. Com o mesmo tempo de análise, estaríamos certamente num ponto diferente. Mas será que podemos dizer que teríamos avançado mais? Ou que a análise teria sido de maior qualidade? Efetivamente, as descontinuidades obrigaram a uma determinada linha de trabalho, trazendo ao de cima aspetos do mundo interior do paciente que, noutras circunstâncias, não apareceriam da mesma forma nem no mesmo timing.
No fundo, os constrangimentos exteriores aceleraram o acesso a uma parte muito dolorosa do seu (nosso) psiquismo e trouxeram à superfície afetos muito profundos, que tipicamente surgem em fases mais avançadas do processo analítico.
Por outro lado, terá sido esta análise mais proveitosa por causa da pressão exercida por estas descontinuidades? Talvez não – terá sido apenas diferente do que seria num setting mais estável. Mas é a análise possível nas condições possíveis: é a análise num mundo contemporâneo. E não deixa de ser psicanálise, porque exerceu uma mudança em áreas profundas do mundo interno do paciente, que levou consigo objetos internos transformados, diferentes do que os que trazia dentro de si no início.
Aceitar as descontinuidades, as limitações, os constrangimentos que a vida moderna coloca pode confirmar no paciente uma fantasia inconsciente de desvalorização, de que a
análise possível terá menos valor do que uma análise ideal de acordo com um setting ideal.
Interfere sem dúvida com o estabelecimento do tempo e do espaço analíticos e as limitações externas podem entrar em conflito com as necessidades internas, visto que o crescimento emocional, a elaboração, a transformação interna têm de facto um ritmo diferente daquele que o mundo moderno nos quer impor a todo o custo.
Mas ao mesmo tempo, o facto do(a) analista aceitar os fatores da realidade e aceitar trabalhar com determinados constrangimentos poderá permitir também que o paciente compreenda que o(a) analista está disposto a aceitar uma situação não ideal. E que será capaz de, perante essas limitações, ainda assim decidir o que for melhor para o par analítico.
A forma como o paciente aceita ou não aceita as regras, recebe, usa e tenta manipular o setting reflete as suas fantasias inconscientes e as suas resistências. É portanto uma das expressões do sofrimento de quem nos procura e deve ser interpretado (Steiner, J. 2006).
No entanto, também é verdade que o mundo contemporâneo nos coloca desafios novos e diferentes, que têm que ser pensados e de alguma maneira integrados. Ficar preso a dogmas inflexíveis e indiscutíveis pode ser sinal de falta de uma identidade analítica sólida ou falta de segurança interior (Laine, A. 2007).
Ao mesmo tempo, fazer todos os ajustamentos urgentemente pedidos por um mundo que cada vez menos quer dar-se tempo para pensar também é a desvirtuação da própria essência da Psicanálise. Mas não será também parte desta essência debatermo-nos constantemente com os equilíbrios possíveis entre aspetos inconciliáveis?
ABSTRACT
The author starts confronting two opposite versions of what we today understand as the analytic setting – those who believe that the external aspects of the setting are the guarantee of the psychoanalytic process; and those who underline the importance of the internal setting of the analyst. The contemporary world brings about many changes that must be questioned, and often its circumstances don't allow the stability we wish for when we start a psychoanalytic process. This is illustrated by a clinical case. Psychoanalysis is then regarded as always searching for the possible balance between irreconcilable aspects.
KEY WORDS: setting; discontinuity; process; internal setting; field