Signos, símbolos, significados e significantes são determinados pela ação recíproca sujeito-família-Cultura. Tríade vincular que se interinfluencia em suas características estruturais, dinâmicas e econômicas. Das configurações deste interjogo de símbolos e de funções relacionais emerge o corpo familiar. As necessidades humanas de sobrevivência e de manutenção da vida individual e coletiva são mobilizadas por anseios, sofrimentos, recursos psíquicos e tecnológicos cujas linguagens conscientes e inconscientes geram malhas de continência individuais e coletivas das projeções humanas. Esses processos psíquicos são complexos e sofrem transformações em diferentes velocidades retroalimentando novas mudanças e promovendo múltiplas configurações que dão o colorido da subjetivação. A passagem da modernidade para a pós-modernidade revela questões metapsicológicas ao nível do ego, superego, ideal de ego, mecanismos de defesa, estrutura narcísica e funções perceptivo-cognitivas. O corpo familiar sofre as influências dessas transformações simbólicas e passa por equivalente a “lutos” devido aos desinvestimentos e reinvestimentos dos significados e dos significantes. Há uma alteração de papéis, das identidades, da malha de continência e da expressividade das ideias, dos afetos e dos pensamentos. São movimentos adaptativos necessários às novas circunstâncias existenciais individuais e coletivas.
Artigo recebido a 15/09/2014 e aceite para publicação a 31/12/2014
Psicanalista didata da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo. Especialização nas áreas da Infância e Juventude. Psiquiatra. PhD em História Social (Universidade de São Paulo). Rua Bruno Lobo, 218, São Paulo- SP CEP: 05578-020, Email:davidlevisky@terra.com.br, Web: davidleolevisky.com.br, Fone: 55 11 99931-3646
O objetivo deste trabalho é focalizar aspectos das transformações simbólicas promovidas pela pós-modernidade como fatores de interferência na constituição do sujeito e do corpo familiar contemporâneo. Sujeito, família e sociedade sofrem mudanças influenciadas pela cultura que, por sua vez, é influenciada pelas mudanças que ocorrem no sujeito, na família e na sociedade. São ações recíprocas que revelam as capacidades plástico-adaptativas da mente humana. As interferências recíprocas e contínuas promovem transformações das representações simbólicas em seus significados e significantes. Ocorrem no inconsciente e influenciam comportamentos bem como as formas de perceber, sentir, pensar e agir dos sujeitos em seus diferentes níveis de subjetivação. Tais movimentos ocorrem com intensidade e velocidade distintas em nível individual e coletivo dependendo do momento de cada cultura. São mudanças que atingem a estrutura, funcionalidade, dinâmica e economia do corpo familiar, primeira célula representativa da sociedade. Ela reflete as transformações simbólicas ao modificar valores éticos, morais, mitos, utopias e fantasias inconscientes que alteram comportamentos individuais e coletivos dentro de uma sociedade e cultura.
Elementos tecnológicos, econômicos, religiosos, geográficos, históricos compõem o leque de influencias que associadas às fantasias de superação individual e grupal contribuem na determinação da intensidade e velocidade das transformações simbólicas e comportamentais que definem as características afetivo-culturais de cada sociedade em cada época.
A cultura é codificada pelas atividades representacionais e simbólicas que se transformam com as conquistas tecnológicas e ocorrências da Natureza que interferem na vida de relação individual, familiar e social. A besta humana torna-se civilizada ao ter a oportunidade de aprender a controlar as atividades das pulsões por meio da percepção e transformá-las em linguagens representativas com seus significados e significantes que constituem as ilusões, fantasias, anseios, medos, mitos e utopias. As atividades simbólicas são capazes de atenuar e sublimar a vida pulsional integrando-as à Cultura. São processos que se iniciam precocemente na vida, talvez antes mesmo do bebê nascer, e depois, como fruto dos vínculos afetivos estabelecidos e que se transmitem como ícones representacionais incorporados ao longo dos processos de desenvolvimento.
A Cultura é uma condição “singularmente humana; somente o homem é capaz de desafiar sua realidade, reivindicando para ela um significado. O processo cultural, portanto, é ao mesmo tempo agente da desordem e instrumento da ordem; lugar da criatividade e também ossatura da regulação normativa.” A cultura tanto inventa quanto preserva. Ela se constitui de descontinuidade e prosseguimento; de rotina e quebra de padrões; de normas e transgressões; do ímpar e do regular; da mudança e da monotonia; do inesperado e do previsível (Bauman, Z. 1999, p.18).
As transformações simbólicas que ocorrem na passagem de cada época promove conflitos entre o conhecido e o novo. Assim, na passagem da modernidade para a pós-modernidade os ícones simbólicos que serviram de base para a organização da modernidade passam por um período de transição, entram em “crise”. Com o passar do tempo adquire-se certo grau de equilíbrio até que surja um conjunto de novos elementos que desorganizem aquela situação.
Na modernidade, desvios do idealizado eram reprimidos e os limites das condutas eram razoavelmente definidos e controlados. As exceções geravam exclusões e muitos estados psíquicos eram considerados patologias. Havia uma ilusão de maior estabilidade social pela solidez das grandes instituições: família, educação, política, religião, ideologia – as quais tinham poderes para determinar a maneira possível e desejável de ser, pensar, sentir e agir ao unir significado e significante a um sistema simbólico supostamente único e natural.
Entretanto, no decorrer do século passado, um conjunto importante de descobertas tecnológicas e de reivindicações sociais levaram à globalização e à miscigenação de culturas até então regionalizadas. Fenômenos que introduziram novas formas dos seres humanos perceberem, sentirem, pensarem, serem, agirem e se relacionarem. Este conjunto complexo de fatores vem interferindo nas atividades conscientes e inconscientes, no sonhar, fantasiar, expressar pulsões e desejos, estruturar o ego e seus mecanismos defensivos, organizar o ideal do ego e do ego ideal, organizar a estruturação das atividades narcísicas construtivas e destrutivas. Surgiram novas habilidades perceptivo-cognitivas. A consequência deste conjunto complexo de transformações vem, progressivamente, interagindo e influenciando
o conceito de família, a construção da identidade, a escolha dos objetos de desejos, a relação com o tempo, com o espaço público e privado, o uso do próprio corpo e do corpo do outro. São transformações que levam inconscientemente à busca de novos estados de equilíbrio psíquico. Fantasias, sonhos e desafios emergem na ânsia do prazer, gozo e realização, mas também, nas maneiras de atenuação do sofrimentos face à ilusão de se alcançar a paz e a felicidade eternas, de poder e de controle do mundo - elementos que compõem o imaginário das civilizações diante de suas fragilidades.
As transformações da pós-modernidade atingem a subjetivação individual, familiar, grupal e institucional interferindo nas definições de papéis, limites e funções dos sujeitos, e consequentemente, nos diferentes níveis de subjetivação individual, grupal, nacional e globalizada. Geram liberação para uns e sofrimento para outros. Uns se adaptam e integram as mudanças ao seu self, outros transformam o sofrimento em sintomas frente aos conflitos compreendidos por novas metapsicologias.
Na pós-modernidade: «As pessoas podem se reinventar com a criação de novas formas de ser e de viver ao contemplar a singularidade do desejo … Ao se reinventar já não conta com o apoio simbolizante das instituições… É uma tarefa solitária, angustiante e exaustiva… A subjetividade tem de se constituir em meio a um estado de “depleção simbólica”, situação em que instituições frágeis não tem lastro, nem credibilidade, para produzir significações operantes» (Minerbo, M. 2013, p.32).
Benghozi (2010, p.36) desenvolve o conceito de “malhagem”, uma metáfora cuja imagem é a rede de pesca que nos ajuda a pensar na tessitura do “tecido mental” que dá continência maior ou menor à estruturação de nosso psiquismo. O fio, os nós, os espaços entre os fios, o enquadramento e os pontos de tensão definem a tessitura da malha, do “emaranhado de laços”, e da continência e possibilidades de selecionar conteúdos. “As malhas são construídas pelo entrecruzamento entre o vínculo de filiação e o vínculo de afiliação”. O conjunto dessas malhas individuais constrói a “malhagem” que define um continente psíquico do núcleo familiar, cujas configurações adquirem diferentes estruturas, mais ou menos porosas, que liberam, reprimem e modelam os vários níveis de subjetividade.
Um exemplo pode ser dado ao se confrontar a Idade Média com a Pósmodernidade. Na primeira, a vida era “dominada por ritmos agrários, livre de pressa, sem preocupação com a exatidão e sem interesse na produtividade (Le Goff, J., 1980, p.44)”. Na pós-modernidade há uma preocupação com exatidão, pressa, eficiência, produtividade, lucro, precisão conceitual e científica; os símbolos ficam fragilizados, múltiplos e relativizados. Há excessos de estímulos mal elaborados e perdas de parâmetros internos e sociais que aumentam a porosidade e a maleabilidade da malha psicológica. Os processos repressivos e de sublimação se modificam e afetam as pessoas, famílias e instituições que se desorientam e tornam-se vulneráveis diante das ambivalências e escolha de caminhos. Aumenta a insegurança, surgem manifestações somáticas, eleva-se o nível de estresses. Fica-se com a impressão de que tudo é possível. Uma cadeia de estímulos leva a novos estímulos criando-se uma espiral difícil de ser interrompida. Gera-se uma tendência a adição às fontes geradoras de estímulos na busca contínua de excitação e de prazer levando à exaustão. O tempo de elaboração psíquica torna-se exíguo frente ao montante de estímulos. Surgem conflitos entre sistemas simbólicos do passado e do presente dificultando as comunicações entre sistemas internos e com o exterior, aumentando os níveis de tensão.
Estas transformações interferem na estrutura, na dinâmica e na funcionalidade do corpo familiar que, por sua vez, depende de aspectos culturais, psicológicos, sociais, religiosos, tecnológicos, geográficos, econômicos quanto às formas de triangulação e de elaboração do Édipo. A tríade paimãe-bebê deixa de representar o modelo único e fundamental da organização familiar quando se constata historicamente inúmeras organizações familiares nas quais os pais biológicos nem sempre foram os pais simbólicos. O filho poderia pertencer ao grupo e o pai ser representado por parentes ou figuras equivalentes, como os pajés (Attali, J., 2007).
Há sociedades cujas organizações familiares são: patriarcal, matriarcal, coletiva, heteroparental, monoparental, pluriparental, pais homossexuais. Os filhos podem ser frutos de reprodução biológica, laboratorial ou adotivos. Na família matriarcal a mulher é o elemento forte e controlador explícito ou camuflado pela figura do homem provedor. Com a expansão social e econômica da mulher o homem tornou-se um complemento afetivo e, às vezes, fica perdido sem saber seu papel na família. Na família patriarcal
o pai ou um dos avós é a figura central à semelhança dos chefes dos clãs ou com a verticalidade encontrada nas relações feudais da Idade Média. Há famílias coletivas, oriundas de casamentos múltiplos, nas quais são preservados relacionamentos cruzados entre parentes de diferentes uniões. Filhos do terceiro casamento do pai se identificam com o primeiro marido da mãe que já se encontra no quarto relacionamento. Famílias se relacionam de forma aglutinada, com perda da individualidade de seus integrantes; em outras, há uma cisão na relação entre seus integrantes capaz de gerar grandes lacunas na comunicação familiar. Há, ainda, aquelas cuja função complementar dos cônjuges é de parceria colaborativa, mas em outras, a complementariedade se dá na função de depositários das mazelas uns dos outros ou como fontes de manifestações competitivas e perversas; unem-se para se destruir, seja de forma ativa ou passiva.
No mundo contemporâneo prevalece o pensamento complexo e policentrico (Ogden, T., 1996) nas configurações familiares quando um elemento periférico de uma relação é o centro de outra. Assim, estruturas e dinâmicas de famílias de uma determinada cultura se interatuam com as de outras culturas, promovendo a quebras de valores e miscigenações de mitos, ritos e funções dos seus integrantes.
Convive-se, tolera-se, aceita-se múltiplas formas de identidade de gênero, de união e de organização familiar com singularidades e particularidades nas formas de ser, de sentir, de se identificar e de se organizar, de escolher fontes de realização dos desejos frente a fantasias até então reprimidas ou de fantasias emergentes da criatividade humana e que no passado seriam consideradas como desvios patológicos.
Em termos de união conjugal, o matrimônio já foi considerado como a união sagrada entre um homem e uma mulher, hoje, pode ser apenas uma das formas de união estável existentes. Estas “novas formas de união”, por exemplo entre homossexuais, podem ser tão harmônicas a ponto de causar inveja entre casais heterossexuais legalmente constituídos e abençoadas pela fé religiosa.
Conclui-se que a organização da estrutura e da dinâmica familiar é variável e depende da cultura e da sociedade à qual ela pertence com seus conjuntos de valores e funções. Na era cibernética, da globalizada e onde tudo é rápido e em tempo real, os processos de elaboração mental sofrem mudanças havendo alteração na estruturação das malhas que constituem as configurações vinculares do sujeito, da família e da sociedade. Surgem estados transitórios de “depleção simbólica” ao se desinvestir símbolos dominantes de um dado momento ou época histórica para dar lugar a investimentos em símbolos de uma nova fase. O self necessita se reestruturar assim como o ideal de ego, o ego ideal, os mecanismos defensivos, o superego, as funções narcísicas em relação ao si mesmo e com o outro. Complexos processos de elaboração e de reintegração objetal e do self participam na reconfiguração dos significados e significantes até se tornarem partes integrantes do novo sistema pessoal, familiar e social na busca do reequilíbrio psíquico temporário.
Sabe-se que a realidade virtual é capaz de despertar sensações, emoções e afetos muito próximos da realidade objetiva. Ela tem a capacidade, inclusive, de gerar confusões no processo perceptivo-discriminatório e na organização das ações. Ela promove, também, o desenvolvimento de novas redes neuronais com perdas de outras historicamente estabelecidas em relação ao manejo das realidades interna, externa e virtual. Reproduz-se na vida real e concreta situações do imaginário, do mundo onírico, do mundo virtual como fruto de confusões e perda de discriminação das diferenças entre cada um desses mundos em relação à realidade objetiva e suas consequências (Carr, N., 2011).
A banalização de novos comportamentos e as confusões perceptivo-discriminatórias geradas pelo mundo virtual tendem a integrar a vida social como um valor da cultura que se propaga, como nos casos da violência que se alastra pelo mundo. Einstein teria dito: “Tenho medo do dia em que a tecnologia vai se sobrepor à interação humana. O mundo terá uma geração de idiotas”.
Em “El malestar en la Cultura” (Freud, S., 1930) deixa claro que o homem não tem escapatória, visto que, ao tentar se integrar na realidade ele precisa lidar com sofrimentos. Para escapar da dor criou paraísos terrenos e celestiais, Shangrilas, Cocanhas diante da utopia da vida eterna e na ilusão de ser feito à imagem de Deus. O homem sofre quando as instituições são frágeis e se queixa quando elas são fortes. Mesmo quando está feliz e realizado suporta por pouco tempo esta condição, pois surgem demandas internas ou externas que o tornam inquieto em busca de novos desafios ou se deprime e sofre na constância da mesmice e do marasmo. São condições que o impelem a buscar novas condições de equilíbrio como agentes modificadores
e vítimas das próprias ações sujeitas às forças da Natureza. Nossas ambiguidades, ambivalências e curiosidades nos impele a se aproximar da desordem para reencontrar forças criativas de nova ordem. É preciso se aproximar da morte para redescobrir o valor da vida. Não há porque pensar no ser humano de forma homogênea e eterna, pois tudo muda apesar de, em muitos aspectos, darem a nós a impressão de constância. As mudanças podem ser tão lentas que só serão percebidas no longuíssimo tempo, porém a vida se caracteriza pelo movimento. Nisto se incluem as transformações representacionais, os significados e significantes, as memórias, as associações livres e espontâneas das ideias. Mitos e utopias do passado podem ser realizações do homem do presente como voar, chegar a outros mundos, conquistas que geram choques com resíduos conservados na memória primitiva e que se transmitem entre gerações (Levisky, D.L., 2012).
Em todo grupamento humano há sempre um número de inadaptados. São aqueles que destoam da média, os que transformam sofrimentos em novos modos de pensar, de ser e de agir. São os excluídos, os considerados loucos ou geniais até que uma nova cultura possa inclui-los como parte da sociedade que se transforma. Assim, os heróis de cada época variam em suas expressividades e condições tanto físicas quanto mentais. Um homossexual já não é mais uma aberração; é apenas um outro modo de se identificar e de encontrar o objeto de satisfação amorosa. O sofrimento vem da não aceitação de si mesmo ou da relação com o meio cuja vulnerabilidade e resiliência dependem de aspectos genéticoconstitucionais, de processos históricopsicológicos individuais e coletivos da cultura vigente na construção dos continentes, das malhas psicológicas capazes de albergar os conteúdos mentais (Cyrulnyk, B., 2003).
Concluo com as palavras de Barbery3 (2006, p. 325) que revela como os desinvestimentos simbólicos geram conflitos individuais, familiares e coletivos na cultura pós-moderna:
Então, de repente, eu me disse: Théo terá talvez o desejo de queimar carros mais tarde. Pois é um gesto de cólera e de frustração e talvez de uma grande cólera e de uma grande frustração, causada não pelo desemprego, não pela miséria, não pela ausência de futuro; é o sentimento de não possuir uma cultura quando se está colocado entre culturas de símbolos incompatíveis. Como existir se não se sabe onde se está? Se vai se assumir ao mesmo tempo uma cultura de pescadores tailandeses e de grandes burgueses parisienses? Dos filhos dos imigrantes e dos membros de uma velha nação conservadora? Então queima-se carros porque quando não se tem uma cultura, não se é mais um animal civilizado: se é uma besta selvagem, então se queima, se mata, se pilha.
Entre tantas diversidades no modo de ser da pós-modernidade há pessoas, famílias e sociedades que buscam encontrar os elos de um passado perdido ou esquecido como a gente da Vila de Carção, norte de Portugal, marranos em busca da identidade judaica atacada durante a Inquisição (Levisky, D.L., 2011). A reconfiguração dos vários níveis de subjetivação se faz necessária para se viver a pós-modernidade. A Ética, elemento vulnerável da Cultura, quem sabe, pode nos ajudar a organizar a vida interior e relacional. São tentativas humanas de controle e de sublimação das atividades inconscientes perverso-polimorfas, sádicas e amorosas, criativas e destrutivas, intrínsecas à sua natureza (Levisky, D.L., 2012, p.319).
“Alors tout à coup, je me suis dit: Théo, il aura peut être envie de brûler des voitures, plus tard. Parce que c'est un geste de colère et de frustration et peut-être que la plus grande colère et la plus grande frustration, ce n'est pas le chômage, ce n'est pas la misère, ce n'est pas l'absence de futur: c'est le sentiment de ne pas avoir de culture parce qu'on est écartelé entre des cultures, des symboles incompatibles. Comment exister si on ne sait pas où on est? S'il faut assumer en même temps une culture de pêcheurs thaïlandais et de grands bourgeois parisiens? De fils d'immigrés et membres d'une vieille nation conservatrice? Alors on brûle des voitures parce que quand on n'a pas de culture, on n'est plus un animal civilisé: on est une bête sauvage. Et une bête sauvage, ça brûle, ça tue, ça pille”.
ABSTRACT
Signs, symbols, signifieds and signifiers are determined by the interaction of subject, family and culture. These three-way bonds influence each other in their structural, dynamic and economic characteristics. Family architecture emerges from the configurations of this interplay of symbols and relational functions. Human needs for survival and for the maintenance of individual and collective life are mobilized by desire, suffering and psychic and technological resources whose languages, conscious and unconscious, create webs for the individual and collective containment of human projections. These mental processes are complex and change at differing speeds, participating in a feedback loop that creates new changes and promoting multiple configurations that colour subjectivation. The passage from modernity to post-modernity reveals metapsychological questions at the level of ego, superego, defence mechanisms, narcissistic structure and perceptual-cognitive functions. The family body suffers the influences of these symbolic transformations and experiences the equivalent of “mournings” due to disinvestment and reinvestment of signifieds and signifiers. There are changes in roles and identities, in the web of containment and the expressiveness of ideas, affects and thoughts. These are adaptive movements required by new individual and collective existential circumstances.
KEYWORDS: family, symbolic representation, culture, bonds, psychic apparatus, subjectivation.