O presente livro, “The Dead Father - A psychoanalytic Inquiry”, interroga-se sobre a necessidade de se construir uma rede de compreensão que permita aos psicanalistas reflectirem sobre as dificuldades de uma geração confrontada com a falta da referência paterna.
Os autores, Lila J. Kalinich e Stuart W. Taylor, consideram que, com a libertação do corpo sexual da mulher sem as restrições da gravidez, com o questionamento da abordagem binária do género, com o impacto da mulher no mundo do trabalho e, consequentemente, alteração da estrutura tradicional da família, a autoridade do pai sofreu uma erosão considerável. Os psicanalistas, entre outros, tentaram determinar de que modo os modelos da psicologia individual poderiam clarificar o “lugar do pai”. Questionam-se de que modos os modelos serão inadequados na tarefa de compreender as interfaces das fronteiras culturais. Segundo os autores falar de “bons” ou “maus objectos”, “omnipotência narcisista” e outros conceitos tradicionais não será suficiente para explicar a função paterna, pois, as transformações culturais apontam para uma mudança radical no funcionamento do pai e da sua representação no psiquismo.
Este livro resultou do interesse de um grupo de psicanalistas dentro da Associação para a Medicina Psicanalítica, sociedade afiliada com o Centro Universitário de
Psiquiatra, Psicanalista, Membro associado da Sociedade Portuguesa de Psicanálise/IPA E-mail:jorgecamar@gmail.com
Columbia para o treino e investigação psicanalítica da cidade de Nova Iorque. Foram criados grupos de estudo que se reuniram regularmente durante um ano, tendo em Abril de 2006 organizado um Simposium Internacional e publicado o presente livro. Os autores representam várias escolas psicanalíticas e disciplinas académicas de todo o mundo. Em todos os autores está presente a importância da função organizadora do pai tal como descrita por Freud no seu mito fundador de 1903 no “Totem e Tabu”.
Freud nunca abandonou a ideia de que um crime primevo ocorreu na pré-história da humanidade. Para Freud foi o assassínio do pai que impediu os filhos da hordas primitivas de terem acesso sexual à mãe e mulheres do grupo familiar. Freud no seu trabalho final “Moisés e o Monoteísmo” (1937-1939), refere que este acontecimento histórico único, a morte do pai, marcou a origem da cultura. A culpa sobre o crime, levou os filhos a desenvolverem regras e criatividade mais do que violência e caos. O pai primevo, agora ausente, tinha que ser representado ou simbolizado. Todos os autores deste livro tomam o assassinato do pai pré-histórico muito a sério, na medida em que oferece uma visão da estrutura psíquica contingente com o social. A ameaça de castração, pelo pai, e assassínio deste, pelos filhos, foi central para a teoria psicanalítica em toda a sua evolução conceptual.
Os autores enfatizam que as regras sociais sempre foram violadas havendo sempre a garantia de que um pai algures refreava o jogo. Mas o que dizer do pai que permite a morte de civis em guerras ou que as justifica em nome de Deus ou em as considerar “danos colaterais”?
Segundo os autores, os psicanalistas sempre se debateram com questões tentando determinar se os modelos da psicologia individual poderiam ajudar a esclarecer a interface da cultura, num sistema de significados corporificados em símbolos públicos.
Foram muitas as contribuições dos psicanalistas sobre o papel da mãe no processo da simbolização e da cultura, e entre outros Andre Green. Apesar de realçar a importância do conceito da “mãe morta” no seu livro, “Narcisismo de vida, narcisismo de morte”, Green nunca deixou de estar atento ao pai como um terceiro para a estruturação do psiquismo, com o complexo de Édipo como essencial para a matriz simbólica. Neste livro, o capitulo “a construção do pai perdido”, André Green elabora detalhadamente como é que o terceiro funciona, particularmente através da representação do pai como “ausência”. Os créditos da influência Lacaniana estão presentes. Green considera o afecto como significante, ao contrário de Jacques Lacan. Green abraça a teoria pulsional de modo a manter um lugar para o corpo real enquanto a teoria Lacaniana rejeita-a na medida em que, para esta, o corpo físico é acessível somente através dos seus derivados. É o corpo “imaginário” que é acessível ao psiquismo.
Urribarri escreve como Green outros colegas lutaram para se diferenciarem do pensamento do seu pai psicanalítico Lacan após a morte deste.
Aisenstein apresenta material clinico onde o pai está ausente assim como as falhas da “instalação” do pai simbólico. Os seus dois casos clínicos ilustram pacientes com doenças graves que sofrem de uma insuficiência nas suas capacidades representacionais.
Laurent fala das alterações substanciais causadas à capacidade paterna através das tecnologias reprodutivas.
Anzieu-Premmeurer revela de que modo uma representação paterna problemática nos pais afecta a geração seguinte.
Rosine Josef Perelberg descreve no seu trabalho com adolescentes rebeldes, a não existência de um lugar intra-psíquico para o pai. No seu artigo Perelberg recupera a noção de sacrifício da sexualidade como elemento trágico central da estrutura edipiana, cuja tendência actual é a de a reduzir aos processos de exclusão. Rosine Josef Perelberg sublinha que o assassinato do pai, do ponto de vista Freudiano, é a exigência para que a ordem social se instale ao proibir, a partir desse momento, todos os assassínios. O pai só pode metaforicamente ser assassinado pois o afastamento real do pai levar-nos-ia à patologia psicótica ou perversa. No artigo apresentado discutem-se dois casos clínicos. No primeiro é possível identificar a estrutura perversa em que o pai foi assassinado e no segundo a elaboração progressiva do pai morto (simbólico) no processo analítico. Em resumo, o presente livro alerta-nos para a necessidade de estarmos atentos às transformações culturais que apontam para uma mudança na função do pai e à sua representação no psiquismo humano. É necessária uma equidistância entre o desencanto que poderia minar o pai simbólico, por exemplo, através das técnicas reprodutivas e o encantamento dum mundo anterior aos ideais da objectividade científica, não participando numa posição de “desfile” acrítico.