Neste número 35(2) reunimos um importante conjunto de trabalhos sobre o tema da adolescência, com algumas das comunicações que foram apresentadas no XXVI colóquio da Sociedade Portuguesa de Psicanálise, em Abril de 2015, ao que acresce uma colaboração inédita com colegas da Revista da Sociedade Psicanalítica de Porto Alegre, e ainda a possibilidade excecional de entrevistar Antonino Ferro.
Desta forma, este número da Revista de Portuguesa de Psicanálise, constitui-se um volume fundamental para o aprofundamento teórico-clínico em torno da adolescência, tendo merecido um importante apoio do Programa Nacional de Saúde Mental 2007-2016, da Direção Geral de Saúde/Ministério da Saúde, numa medida de articulação inter-setorial, como ação de prevenção e promoção da saúde mental na área da infância e adolescência.
O artigo de Eric Smadja “Freud et la culture”, com o qual iniciamos este número, revela a proximidade natural da Psicanálise com as obras de expressão humana, demonstrando como nos tempos atuais o trabalho cultural é um garante da evolução civilizacional. E. Smadja propõe uma reflexão fundamentada através da abordagem psicanalítica sobre a evolução da cultura e da civilização, iniciada por Freud, e recorrentemente retomada por muitos autores na história da Psicanálise.
Para melhor compreender o alcance desta obra, Maria José Gonçalves elabora um excelente comentário, muito pertinente, questionando a inevitabilidade da relação da Psicanálise com as principais Ciências Sociais.
Exatamente a propósito de uma eminente obra cinematográfica, Rita Marta apresenta uma investigação debruçada na literatura psicanalítica sobre as relações sadomasoquistas, recorrendo à sua experiência clínica para essencialmente abordar a temática masoquista numa perspectiva desenvolvimental.
Rui Paixão guia-nos sobre a evolução histórica dos últimos séculos sobre o conceito de Adolescência, interligando as transformações sociais e suas implicações sintomáticas nos processos de construção de identidade, tema tão caro à adolescência. Sob o olhar atento do psicanalista David Lévisky, compreendemos então como o estudo dos processos de identificação são estruturantes na elaboração adolescente, cruzando de forma complexa sexualidade, elaborações de perdas e rupturas e a possibilidade do aprender com a experiência.
O artigo de Ana Belchior Melícias analisa, entre outros aspectos, particularidades das dimensões narcísicas e edípicas adolescentes, ilustradas através do filme “Into the wild” de Sean Penn. Ana Catarina Duarte Silva problematiza as diferentes formas como o adolescente se relaciona com a pele do seu corpo, e o significado da vivência da tatuagem no seu corpo.
Num texto eminentemente clínico, Conceição Tavares de Almeida debate algumas das principais complexidades do acompanhamento analítico de adolescentes. Asunción Soriano Sala, colega de Barcelona, procura debater no seu artigo a pertinência da intervenção institucional no acompanhamento de um paciente adolescente, e sua inter–relação com a abordagem interdisciplinar.
Na seção de intercâmbio, iniciamos com um artigo de revisão de Fabiana Batista, que desenvolve um interessante percurso da abordagem terapêutica da psicose a partir dos anos 50, numa linha muito próxima dos contributos de Jaques Lacan, mas bastante atual e enriquecedora.
Depois, num momento absolutamente inédito, de partilha e intercâmbio com a Sociedade Psicanalítica de Porto Alegre, procurando divulgar as revistas de ambas as sociedades componentes da Associação Internacional de Psicanálise e alguns dos seus principais autores, Lúcia Thaler, Editora da Revista de Psicanálise da SPPA, apresenta numa breve nota editorial a história e contexto desta troca científica. E em seguida, a psicanalista de Porto Alegre, Viviane Sprinz Mondrzak, questiona os desafios que o psicanalista de adolescentes confronta na atualidade.
Este número encontra-se extraordinariamente enriquecido com a entrevista gentilmente cedida por Antonino Ferro, um dos psicanalistas mais criativo e respeitado da comunidade científica mundial, que aqui nos fala também do seu percurso e visão da Psicanálise e ensino da Psicanálise nos dias de hoje.
Para finalizar, podemos ainda encontrar duas recensões, a primeira elaborada por Corina Fernandes, sobre um livro notável de Rafael López-Corvo, “The dictionary of the work of W. R. Bion”, hoje considerado um clássico mundial, seguido por uma reflexão do mais recente livro de Celeste Malpique “Na floresta do alheamento: diálogo improvável com Fernando Pessoa”, escrito por Ana Belchior Melícias.