Ao longo da sua obra, Freud foi acompanhando a construção da teoria psicanalítica com textos sobre as possíveis relações entre a realidade psíquica individual e a realidade social. Essa abordagem, independentemente do interesse que causou entre os psicanalistas, foi alvo de polémica e controvérsia, uma vez que, baseada em estudos de outras ciências, como a antropologia, a sociologia, a história, nunca deixou de usar o método psicanalítico para a análise do que ele chamou os fenómenos da cultura, não só em sentido lato, mas também no sentido mais estrito das produções ligadas à criatividade artística.
Para Freud, o pensamento psicanalítico abarca todas as produções do espírito humano, na medida em que estas fazem parte do psiquismo individual. Assim, em paralelo com os textos em que faz a análise dos fenómenos sociais, também se dedicou, com grande mestria, a aplicar o método psicanalítico à vida e obra de muitos artistas, nomeadamente em textos, como: “Leonardo da Vinci. Uma memória de infância”, “Ilusão e Sonho na Gradiva de Jensen” ou “Moisés de Michelangelo”e ainda em numerosos outros escritos curtos, em que escreve sobre as obras deliterárias de Shakespeare, de Goethe ou Dostoievski, sobre histórias infantis, mitos, etc.
E. Smadja propõe-nos uma reflexão sobre a evolução do conceito de cultura na obra de Freud e sobre os aspectos metodológicos e metapsicológicos dessa abordagem, temas a que tem se tem dedicado e que são da maior importância e oportunidade.
As novas formas da cultura social, as novas exigências impostas por um individualismo exacerbado, as mudanças dos estilos de vida resultantes dos avanços tecnológicos e os acontecimentos que abalam o mundo nos nossos dias, obrigam-nos a manter a “escuta psicanalítica” sobre os fenómenos colectivos e também, de acordo com E. Smadja, a propor novos métodos de análise e a desenvolver um diálogo interdisciplinar.
Na sua análise das ligações entre o funcionamento psíquico individual e os fenómenos sociais, Freud apropria-se de conceitos e achados doutras disciplinas, nomeadamente a antropologia, a sociologia, a história, de que foi um leitor interessado e assíduo, e vai construindo a teoria psicanalítica, pondo em confronto estas duas realidades. Mas não se limita a analisar os fenómenos sociais para validar a sua teoria. Ele próprio vai à procura de elementos da história da humanidade ou dos comportamentos dos povos primitivos, criando o que ele chama, em Totem e Tabu, a propósito do parricídio pela horda primitiva, “o mito científico”.
E. Smadja refere as influências sociais e culturais de Freud, dividido entre o judaísmo (“cultura de pertença”) e a cultura ocidental germânica (“cultura de referência), num período de turbulência política e social na Europa, como elementos estruturantes do seu pensamento.
R. Steiner, no artigo “Die brautbriefe”: the Freud and Martha Correspondence”, traça-nos assim o ambiente em que Sigmund Freud cresceu. “viveu… numa espécie de casulo… numa rede fechada de famílias judias e amigos…, composta essencialmente por médicos, investigadores” e também filósofos, ao mesmo tempo que frequentava o Imperial Realober Gymnasium, (uma escola secundária da elite vienense). Toda a esta vida comunitária impregnada de rituais e celebrações “lembrava constantemente a Freud as suas raízes… dando-lhe por vezes um sentimento sufocante de pertencer a uma comunidade específica” e também claro “a uma história e experiência familiar complexa”. O anti-semitismo latente, mas crescente,
Médica e Psicanalista, Membro Titular com funções didáticas da SPP/IPA. E-mail:
reforçava os laços comunitários e ajudava a cerrar fileiras numa população composta de imigrantes que tinham a memória das perseguições na Europa de Leste.
Freud sempre negou que as circunstâncias da sua vida tivessem influenciado a evolução do seu pensamento, mas parece-me legítimo pensar que esta vivência da dupla influência cultural, forte e rica, o tenha propulsado, por um lado, para uma carreira em que superou a sua “inferioridade/marginalidade” social e, por outro lado, o tenha levado a desenvolver as suas pesquizas e hipóteses sobre a origem e a organização das sociedades.
Verificamos que é a partir dos anos 30, que coincide com a subida do nazismo na Áustria, que aparecem obras fundamentais que aparentemente respondem ao mal-estar social a que Freud e a sua família estão expostos.
Em todos estes textos, Freud introduz conceitos metapsicológicos que vai reelaborando em cada um deles. Entre outros, em Totem e Tabu, a origem filogenética do complexo de édipo e a culpabilidade como cimento organizador da vida colectiva; em Psicologia das Massas e Análise do Eu, a identificação, o Ideal do Eu e a regressão; em o Futuro duma Ilusão, o desamparo e a dependência infantil; em Mal-estar na Civilização, o supereu e o conflito entre as instâncias psíquicas; em Porquê a Guerra?, a pulsão de morte.
Aborda os fenómenos sociais a partir do seu conhecimento dos fenómenos psíquicos individuais, na assunção de que o inconsciente e as suas leis são comuns a todos os indivíduos e que existe um herança arcaica que passa de geração em geração. Para Freud os fantasmas originários (sedução, castração, cena primitiva) existem no inconsciente de todos humanos, estejam eles inseridos em sociedade primitivas ou em sociedades desenvolvidas, dando origem a uma estrutura antropológica comum, muito embora cada uma delas sofra transformações de acordo com a sua especificidade (A. Green). Esta abordagem do colectivo que não pode ser comparada com as de outras ciências, que também elas se dedicam ao estudo dos fenómenos de grupo, quer sejam sociológicas ou antropológicas e que também elas têm as suas metodologias próprias, leva E. Smadja a considerar que Freud faz uma “transferência brutal, directa e maciça” dos conceitos da psicanálise individual “para o campo da psicologia das massas”.
Eu diria que o aspecto mais controverso da sua obra é o carácter especulativo de alguns dos seus pressupostos nesta matéria.
Freud considera que a palavra cultura (“kultur”) tem o mesmo significado que civilização, termo que raramente utiliza nos seus escritos, e foi dessa forma que foi traduzido, na sua obra Mal-estar na Civilização por J. Strachey, para inglês e por M. Bonaparte, para francês. Em português mantivemos essa mesma tradução.
Para Freud, a cultura é o conjunto do saber e do saber fazer para dominar a natureza e também o conjunto das regras que regulam as relações humanas. Se considera que o sofrimento humano é em grande parte resultado dos constrangimentos da vida em comum, também não deixa de pensar que só a sociedade permite aos indivíduos elevarem-se à sua condição de humanos e libertarem-se das amarras da pulsão e que existe uma influência mútua entre estas duas realidades
“Tal como o planeta gira à volta dum corpo central, assim como roda sobre o seu próprio eixo, também os indivíduos participam no desenvolvimento da espécie humana ao mesmo tempo que desenvolvem o seu próprio percurso de vida” diz-nos em Mal-estar na Civilização. Neste texto defende que os processos civilizacionais e o processo de desenvolvimento individual são análogos ou mesmo idênticos, embora aplicados a objectos de estudo diferentes e que “a comunidade também desenvolve um supereu cuja influência preside à evolução cultural” mas, por outro lado, estes mesmos processos divergem, por exemplo, no que diz respeito à distribuição da libido. “No desenvolvimento individual, a enfase é posta mais frequentemente na tendência egoísta ou na aspiração à felicidade; a outra tendência, que poderíamos chamar civilizadora, limita-se, regra geral, a um papel restritivo. Na evolução cultural, o problema é diferente: agregar indivíduos isolados numa unidade colectiva é de longe o objectivo principal e o objectivo de serem felizes mantém-se, mas na rectaguarda”.
Como nos propõe E. Smadja, a evolução do pensamento freudiano nos textos mais directamente ligados às questões da cultura, podem ser divididos em dois períodos. Num primeiro período, que tem como referência a primeira tópica, Freud defende que o trabalho psíquico individual (kulturarbeit)contribui para a instalação duma estrutura civilizacional, que torna ambos os processos “solidários” um do outro e em que é afirmada a inevitabilidade da cultura/civilização, considerada o local em que se gera humanidade, para a sobrevivência do individuo. Nos seus textos mais tardios, sob a influência da segunda tópica e a partir
do “Futuro duma Ilusão”, são as contradições entre os objectivos da felicidade individual e as exigências da vida em sociedade que estão na base dos conflitos e do sofrimento humano e que passam para linha da frente do seu pensamento.
Para Freud, é na perspectiva de kulturarbeit, ou seja do “trabalho de cultura individual, do conhecimento do inconsciente, do controle das pulsões,” numa palavra, da sublimação, que é possível ao ser humano viver em comunidade e desenvolver a criatividade E. Smadja referindo-se à essência dos fenómenos sociais, cita Freud em “A Psicologia das Massas e Análise do Eu” para quem a psicologia individual é simultaneamente uma psicologia social, dada a importância do “Outro” ao longo da vida do sujeito.
Parece-me possível, a partir desta formulação pensar em Winnicott, que também ele tem uma concepção abrangente do conceito de cultura, profundamente enraizada nas trocas do bebé com o dador de cuidados. Winnicott diz-nos que a sublimação é, para Freud, o local da cultura, enquanto para ele é a herança, a tradição, o que é comum à humanidade, para o qual todos os indivíduos e grupos de indivíduos contribuem, que define a natureza desse lugar, enquanto a experiência cultural seria uma extensão dos fenómenos transicionais.
Para a cultura contribuem não só a tradição, em que se repete a história da humanidade através dos mitos, mas também a originalidade individual. Mais do que oposição, Winnicott conjuga o social/ a herança com o individual.
A criança, ao criar o objecto que lhe é apresentado por uma mãe suficientemente boa, que transporta consigo não só a sua criatividade própria, mas também um potencial de tradição transmitido pelos seus comportamentos, tem acesso ao que se virá a tornar numa experiência cultural.
Nos dias hoje, a cultura ocidental vê-se a braços, com profundas modificações e graves ameaças.
Duas questões se põem.
Será que o pensamento psicanalítico contribui para atenuar o mal estar civilizacional com o qual nos confrontamos actualmente?
J. Seabra Dinis considera que a psicanálise cada vez mais é o garante da sobrevivência da nossa cultura, como ainda hoje a conhecemos, e do bem-estar civilizacional.
Desse ponto de vista, o trabalho cultural, no sentido freudiano (arbeitkultur) é, mais do que nunca, um acto de civilização. Garantir tempo para a interioridade psíquica, em vez da externalização, para o sentir, em vez do agir, será um objectivo que cabe aos psicanalistas defender.
Quais as melhores ferramentas para estudar os fenómenos sociais contemporâneos?
Eric Smadja propõe-nos uma abordagem psicanalítica individual e de grupo, mas que integre abordagens doutros quadrantes, como a antropologia, a linguagem, a sociologia e a história. No entanto, nesse entrecruzamento pluridisciplinar, por outro lado, corre-se o risco, a meu ver, de se perder a especificidade do objecto de estudo.