Neste trabalho a adolescência é vista como um precipitar irreversível da maturação sexual. Recapitulando fantasmas sexuais da infância, a autora relança os eixos fundamentais da Identidade, em torno das vivências do corpo, dos lutos das imagos e da revisão das identificações e das relações de objeto. Num ajustamento espaciotemporal necessário, propõe-se uma compreensão dos movimentos de passividade como expressão de sofrimento em alguns adolescentes, em particular quando o sintoma centrado numa queixa física corresponde a um bloqueio que compromete o projeto de autonomia. Coloca-se o problema da psicanálise aplicada a esta fase, relacionada com o desenvolvimento, mas também com processos internos maturativos.
Comunicação apresentada no XXVI Colóquio da Sociedade Portuguesa de Psicanálise:“Adolescência e Psicanálise”, realizado a 17 e 18 de Abril de 2015, em Lisboa, na Mesa “Outros Olhares”.
Membro Associado da SPP/ IPA - E-mail: conceicaotava-resdealmeida@gmail.com
“Aos nossos filhos só podemos dar duas coisas: raízes e asas”
A clínica do adolescente coloca questões particulares ao psicanalista tanto do ponto de vista da compreensão dos fenómenos ligados ao desenvolvimento, como na abordagem a que a expressão encriptada do sofrimento emocional obriga como ainda, no manejo da técnica. Na origem deste trabalho esteve a experiência clínica com adolescentes cuja sintomatologia se centrava no corpo, em particular, na falência de funções associadas a uma tarefa essencial para a execução do seu projeto de vida. Recordo pelo menos quatro dos casos com os quais trabalhei que tinham em comum a particularidade de lhes ocorrerem lesões sistemáticas, na mão ou no pé, de natureza mais traumática ou mais fantasmática, bloqueando ou comprometendo a escolha subjacente ao seu percurso vocacional: uma bailarina, uma violinista, um escultor e um futebolista.
Em qualquer das situações, o sentimento de impotência vivenciado bem como a dificuldade em comunicar verbalmente esse bloqueio foram fatores concomitantes, sendo que os aspetos mais idealizados e narcísicos pareciam permanecer relativamente clivados de um princípio da realidade que se lhes impunha, como que numa dimensão retaliatória implacável. O trabalho analítico desenvolvido estabeleceu um quadro através do qual foi possível reconhecer valor de comunicação e função conflitual a estes sinais, conferindo-lhes possibilidade de escuta, expressão e elaboração pela palavra e pela atividade onírica.
Segundo Freud, o valor do sintoma traduz um compromisso que tem como função a conservação do Eu; do que nos fala um corpo que não consegue executar o seu desejo, ou um silêncio de quem não se escuta? O trabalho psicoterapêutico desenvolvido estabeleceu um quadro através do qual foi possível reconhecer valor de comunicação e função conflitual a estes sinais, conferindo–lhes possibilidade de escuta, expressão e elaboração pela palavra e pela atividade onírica. Partindo da problemática da identidade e da autonomia, as associações e representações destes jovens no curso da sua análise, versaram as temáticas do corpo, da sexualidade e do luto, pontos segundos os quais organizarei a minha reflexão.
A adolescência constitui-se como um capítulo fundamental na história identitária. Precipitada por transformações pubertárias, inicia-se um movimento psicológico marcado por mudanças, ajustamentos subjetivos e (re) significações de diversa ordem. Ao adolescente acontece adolescer, revisitando cenários internos, reescrevendo diálogos interpelativos em relação às suas identificações, reeditando, assim, a narrativa sobre o seu mundo interno e sobre as suas relações de objeto, na esperança do recurso poliglota que enriquece a língua-mãe e nos faz viajar para fora cá dentro.
Sem dúvida que uma das questões centrais da adolescência é a da identidade. Este período do desenvolvimento marcado por
mudanças fisiológicas profundas, do ponto de vista psicológico equivale a uma crise em que as transformações eminentes relançam interrogações e impelem à ação.
Apesar das pequenas e das grandes transformações que decorrem durante o tempo biológico e psicológico do desenvolvimento, há eixos singulares que definem a pessoa em construção; o desafio da adolescência organiza-se em torno desse fractal identitário de constelações de relações de objeto nucleares em torno das quais orbitam novas possibilidades numa abertura dialética ao futuro.
Perceber a adolescência passa por enquadrá-la como fase do ciclo de vida, mas não só; à semelhança da problemática do luto, podemos estender este conceito à compreensão de movimentos internos para além da estrita dimensão cronológica. Se o entendermos porém no sentido de uma moratória, enquadramos então estes fenómenos à luz do conceito de crise, o que subentende aspetos contraditórios e dinâmicos. A pessoa é colocada num esforço adaptativo e o crescimento harmonioso decorrerá muito mais da capacidade de se integrar estas vivências e experiências do que da ideia de uma ausência de conflitualidade, perplexidade e ansiedade.
Frequentemente o tempo da adolescência é vivenciado ora como um intervalo interminável de tédio e frustração, ora como uma urgência no sentido da curiosidade e do desempenho. Não se saber ainda quem se é leva a movimentos que podem oscilar entre períodos de introversão e aparente passividade e outros de grande agitação, ação e exploração.
Para a criança, a construção da identidade faz-se através da identificação. A diferenciação do eu em relação ao outro permanecerá como a pedra basilar da construção da identidade. Ou seja, mais do que ser como o outro, fazer como o outro, a questão essencial será a de como ser eu próprio através e apesar do outro.
A condição de se precisar do outro para se vir a ser quem se é, deve ser entendida como uma dependência positiva e necessária. Neste sentido, na trama da construção da identidade, a criança precisa de acreditar para além de qualquer dúvida que os pais são fortes, seguros, poderosos. Através deste entendimento do universo parental e de suas leis, a criança sente-se protegida em relação à sua impotência e insegurança, podendo questionar-se sobre a sua origem salvaguardada pela confiança depositada nos modelos que a orientam.
A fantasia suporta a crueza da realidade, da inferioridade, da fragilidade. O afeto e a curiosidade intelectual alimentam a confiança no desenvolvimento e na descoberta. Os pais são, para a criança, os modelos a seguir por uma questão de sobrevivência biológica e psicológica. Há, por um lado, uma crença quase mágica nos seus poderes; por outro lado, o imperativo de lhes agradar. A partir desta base, a criança prepara-se para se projetar no futuro; aquilo que fará em adulto, começou por ser imaginado na infância e será treinado na adolescência.
Num corpo que se transforma e em que essa transformação, ao contrário de ser aleatória, tem um sentido profundo (o da maturação sexual), a procura de sentido pessoal, o valor atribuído à relação com os outros e a perspetiva do tempo futuro, devolvem ao adolescente a consciência de uma identidade desconhecida, inquietante, excitante, irrevogável. Mutável, mas simultaneamente definitiva, nunca antes a vontade e a dificuldade no que se refere à construção da identidade se tornaram tão óbvias.
No plano das identificações inconscientes, o adolescente põe em cena os seus objetos internos e a relação entre estes, fazendo o teste com os seus desejos sexuais infantis: arcaicos, edipianos ou pubertários. Segundo Laufer (1978) na infância, o corpo é ainda vivido como extensão do objeto materno cuidador.
Adolescer, implica que o sujeito estabeleça soluções de compromisso entre fantasia e realidade, reajustando uma representação de si próprio que inclua a maturação física e sexual. Mais do que por à provao seu corpo, o adolescente experiencia o próprio corpo como uma constante prova, em face do qual este submeter-se-á, de forma ativa ou passiva, fazendo apelo à relação de objeto com um materno cuidador, a um fantasma de cena primitiva criativo, ou colapsando pelas vivências de castração, culpa e vergonha.
Lugar do vivido, testemunho do representado, o prazer que ao corpo reporta no adolescente precipita-se como desenho animado, encenação de um repertório construído desses elementos infantis recalcados, inconscientes ou pré-conscientes, (re)ativados. Exposto, exibido, ou pelo contrário, escondido, bloqueado ou transfigurado, o corpo no adolescente transporta conteúdos à procura de continente, significantes à procura de significação. Toda a problemática da adolescência obriga à leitura desse corpo como lugar privilegiado de comunicação. No meu entender, tal como
o desenho e o brincar na clínica infantil, devemos perceber o valor de linguagem na análise do adolescente tendo como ponto de partida este vértex.
Diria que o corpo ocupa uma função transitiva no sentido do ensaio, da caleidoscópica de significações, da oportunidade de se abordar e de se aceder às representações internas e às identificações.
Conteúdos orbitando o seu continente, ele próprio em transformação, na clínica psicanalítica, como se apresenta este corpo, como nos interpela, de que lógica relacional nos fala, para que níveis de transferência nos convoca, em que lugares contratransferenciais nos surpreende? É fundamental que ao analista não escape a dimensão sexual inconsciente subjacente à vivência do corpo do adolescente.
O crescimento leva à maturação e, logo, à oportunidade de escolha sexual, desencadeando vivências conflituais cuja expressão passa pela relação com o próprio corpo. A forma como estes conflitos se expressam na relação terapêutica constitui um grande desafio. Aqui, quer pela exuberância, sedução e excitação, quer também pela passividade e bloqueio, podemos pensar que angústias de castração serão ativadas. Do ponto de vista transferencial isto pode ser entendido como movimento regressivo, no sentido do recuo e da oferta de um corpo assexuado ao objeto materno, colocando o analista no lugar dessa figura cuidadora. Garantindo que este se preocupa e o protege, aconselhando ou tomando mesmo decisões, o adolescente coloca-se de forma a manter um quadro interno pré-edipiano, num evitamento do medo e da deceção, mas num ataque, paralelamente, ao crescimento e à afirmação. Neste sentido, cabe ao analista estar particularmente atento à natureza da transferência que se estabelece, mas não só.
Durante esta fase da vida, processa-se um movimento psicológico de luto percebido como fundamental para uma boa resolução do desenvolvimento. Nessa transição maturativa, ao indivíduo cabe a tarefa de fazer o luto: da sua própria infância, aceitando a renúncia à fantasia e à omnipotência; da representação interna dos pais, no sentido da sua idealização e dependência relacional, com resolução da culpabilização para dar lugar à gratidão; da bissexualidade, no sentido da integração da incompletude da condição de género; da angústia de morte subjacente à condição humana, no sentido da aceitação da própria finitude e da inscrição numa herança patrimonial e transgeracional.
A problemática do luto coloca o sujeito entre eros e tanatos, numa lógica de narcisismo de vidae narcisismo de morte, no sentido de Green, ou entre o medo e o desejo de crescer (Fleming, 2005).
No colapso emocional, ao adolescente pode acontecer oscilar entre uma postura de maior atividade, com o risco deacting, ou de predominante passividade, podendo instalar-se uma situação de bloqueio em várias áreas da sua vida e que tem uma tradução importante ao nível do sintoma e da escolha de um projeto de vida.
Na clínica, este bloqueio aparece com frequência como silêncio representando impasses significativos na dinâmica intrapsíquica e relacional. Segundo Laufer (1996), podemos entender que a palavra possa sersentida como submissão, e por isso vivida como assustadora, dolorosa ou inútil.
O bloqueio no adolescente corresponderá a um movimento regressivo através do qual se opera uma negação da maturação sexual em que a subtração da rivalidade reativada pelos fantasmas edipianos vividos com vergonha/culpa é adiada, com retorno de defesas que visam preservar a omnipotência infantil contra a angústia de morte e que podem resultar no colapso do processo de autonomia e de consolidação identitária.
O “sacrifício” de um órgão vital para o projeto de autonomia, ou o colapso de todo um “eu” corporal parece, no meu entender, corresponder a um movimento defensivo através do qual se condensam as angústias. Estas angústias, de natureza predominantemente fóbica, no sentido da castração, também podem conter aspetos mais arcaicos, sobretudo nas estruturas mais frágeis ao nível da identidade.
Não falar pode representar equivalências a não conseguir, em que o “falo” condensa a polissemia homófona da palavra e da afirmação fálica ligada ao desenvolvimento das capacidades e da autonomia.
Em qualquer dos casos, porém, há que atender ao valor de comunicação contido nesse sintoma e, ao mesmo tempo, tirar partido da oportunidade de uma intervenção, na medida em que se trata de um recurso criado por um hiato transitivo no eixo espaço/tempo. Serve este a que se faça um balanço que revisitará, necessariamente, lugares
do universo interno e suas constelações. O desfecho, mais no sentido da regressão e da desorganização, ou no sentido da maturação e da transformação, permanecerá em grande parte, como uma incógnita.
Nesta cruzada, torna-se quase que inevitável (e até irresistível) ir beber às nossas heranças culturais as narrativas, as metáforas, as mensagens estéticas e poéticas que nos moldam e nos questionam como indivíduos e enquanto espécie.
Dei por mim a reler “Narciso e Goldemundo”. Nessa notável obra de Herman Hesse, apresenta-se o sentido profundo de uma caminhada na procura do próprio, através do percurso que leva a personagem a sair da sua casa (infância) e a encetar essa viagem (adolescência) como descoberta dos outros em si. Numa demanda em que os opostos se interpelam, em que os estranhos se reconhecem, o mundo expande-se, transfigurando-nos irrevogavelmente.
Pensei também no conto infantil dos irmãos Grimm “Bela Adormecida”, cenário por excelência da trama sexual infantil em que a adolescência se perspetiva como solução de compromisso maturativo. A maldição da bruxa representa, de forma condensada, a raiva narcísica e a inveja ativada pela exclusão edípica. Em paralelo esboça-se, de forma implícita, a negação da angústia de morte naturalmente inscrita na sucessão das gerações.
Nessa luta contra o tempo, há todo um esforço no sentido de que a vida se detenha, deixando em suspenso a infância com a clivagem entre o Bem e o Mal, num universo materno arcaico marcado pela relação de objetos parciais no seio do qual os símbolos da maturação sexual (representados pelo interdito, pela atividade transformadora em que a matéria-prima/fio se torna produto final/tecido, pelo picar e pelo sangrar), são excluídos e alienados. Nessa tensão pulsional, jogam-se por fim as forças de eros, sendo que a renovação e a superação, por mérito da paciência, abre lugar à autorregulação dos ciclos da vida.
Também tropecei no Gigante Egoísta, que me lembrou uma espécie de versão infantil do Dorian Gray. Percebe-se como a negação e a cristalização do tempo visam preservar a omnipotência infantil, representada por esses mundos clivados (jardim) com defesas rígidas (muros altos). Só a renúncia ao mito da imortalidade permitirá a aceitação do princípio da realidade onde o narcisismo primário absoluto dará lugar à objetalidade e à relatividade.
“(…) agora já não odiava o inverno pois sabia que era apenas a primavera adormecida”.
No Cinema a ficção científica é rica em metáforas sobre a angústia existencial, uma vez que a lente sobre o micro e o macro cosmos se ajusta, numa questão de escala, tanto à realidade interna intra-subjetiva quanto universal. Esta relação com o cosmos, última das fronteiras no desafio à compreensão, à tolerância ao desconhecido e à angústia existencial, torna-se palco privilegiado para reflexão em psicanálise.
No filme Gravidade, de Alfonso Cuarón, a procura de sentido existencial plasmado através do drama da personagem coloca-a num duplo registo: após um acidente, esta mulher vê-se mergulhada inesperadamente num plano de caos e de perda de referências que interroga a sua sobrevivência. Tendo perdido um filho, percebemos que esta equação de elementos interceta a sua vida, tanto no espaço sideral, como no seu mundo pessoal, convocando ao trabalho de luto como condição necessária ao restabelecimento de um centro de gravidade existencial.
No recente Interstellar de Cristopher Nolan, a questão do micro e do macrocosmos coloca-se com particular sensibilidade. No quadro da nova física quântica e das teorias cósmicas atuais, a espessura espaciotemporal parece assemelhar-se impressionantemente à conceção do Inconsciente, em que o futuro se apresenta enquanto projeção do mundo interno, ou seja, em permanente interseção com os fantasmas do passado. Nesta lógica de “universos paralelos”, o drama da sobrevivência exterior, pessoal ou universal, obriga à busca de sentido interior, sendo que é o luto superado que conduz ao prazer do reencontro com os bons objetos internos.
É curioso como tantas culturas e credos encontram projetado no céu o lugar de uma existência superior, eterna, ou o repertório dos laços com os entes queridos perdidos, como numa espécie de tela que prepara a introjeção das boas relações de objeto decorrente do processo de luto. É frequente que se explique às crianças, mesmo de forma pagã, que aqueles que morreram se transformaram em estrelas ou “foram para o céu”. Curiosamente, as estrelas que avistamos no céu já morreram no momento em que as vemos sendo elas próprias “fantasmas”, representações do nosso mundo interno.
“Quanto caos interior é necessário para parir uma estrela que dança?”
Dos casos clínicos que acompanhei desenvolverei então alguns elementos que me parecem ilustrar de forma particularmente significativa as questões teóricas e existenciais levantadas.
Em comum encontrei aquilo que me pareceu conter uma dimensão conversiva do desejo, numa espécie de sacrifício corporal associado à função. No curso da adolescência a escolha de uma vocação põe necessariamente o indivíduo perante a coerência dos seus desejos infantis e a sua real capacidade de realização. O tempo infinito do “faz de conta” da infância dá agora lugar à contingência e a execução de um plano confronta o próprio com “a prova dos nove” do mundo dos adultos.
O valor do esforço, a rivalidade com os pares, o reconhecimento pelos superiores, são elementos que se jogam num plano multidimensional: a realidade exterior assume grande importância, mas jogam-se internamente movimentos ao nível de identificações, contra-identificações e desidentificações fundamentais. Perante o seu desejo, os adolescentes vêem-se confrontados com o seu medo, o que pode originar um impasse.
Vinheta 1: Tiago tinha 16 anos quando foi encaminhado para a consulta de psicologia pelo médico de família do seu centro de saúde. Após reprovar por duas vezes consecutivas, encontrava-se a repetir o 9° ano, numa escola profissional. No início do ano letivo Tiago desenvolveu uma recusa escolar que evoluiu rapidamente para um quadro fóbico. Este sintoma tornou-se de tal forma exuberante que limitava a sua vida e contaminava toda a organização familiar. Foi acompanhado durante dois anos em sessões com uma frequência de três vezes por semana.
Notoriamente inteligente e com ótimo aproveitamento, Tiago nega essa perceção acerca de si próprio tendo como sonho a ideia de vir a ser futebolista. Praticava esta modalidade num clube desportivo da sua zona de residência bem como na equipa da sua escola do 3° ciclo onde era muito popular. A passagem para o secundário que se aproximava implicava a mudança de estabelecimento de ensino e a escolha da área vocacional. Tiago relata a sua primeira “crise” durante um jogo de futebol no torneio interescolar, após uma queda que resultou numa lesão no pé. Descreve aquilo a que se assemelha a um ataque de pânico, com sensação de desrealização e de despersonalização que se fez acompanhar por um sentimento de exposição e de humilhação insuportável, o que o leva a retirar-se do campo e a nunca mais jogar à bola. Seguem-se depois os insucessos escolares que se devem a bloqueios de vária ordem num crescendo de dificuldade: não conseguir estudar, não conseguir responder aos professores em sala de aula e nas provas, não conseguir estabelecer contato com os colegas, não conseguir entrar na escola, não conseguir sair de casa.
Este bloqueio é sentido pelo Tiago como físico, sendo a sua vivência do corpo durante este período da sua vida expressão clara do seu conflito intrapsíquico. Tiago habita um corpo que cresceu em tamanho mas cujo desenvolvimento pubertário parece estar atrasado. Veste-se de preto, mas parece um menino, com o rosto redondo e o olhar entre o evitamento e o compromisso afetivo. Refere frequentemente “não sentir nada” ou “sentir que os pés não lhe obedecem”, vivendo uma desarmonia clara entre o afeto, o pensamento e a ação.
Tiago é o segundo filho, nasceu prematuro e a mãe, ela própria muito ansiosa, estabeleceu com ele uma relação fortemente ambivalente ou mesmo paradoxal, marcada pelo medo e pela desconfiança. Lutos e angústia de morte acompanham o seu crescimento desde a conceção à entrada na adolescência. A avó materna morre durante a gestação do Tiago e o avô paterno, uns meses antes da primeira crise. A irmã, quatro anos mais velha, fez um episódio depressivo na entrada para a faculdade, estando a ser acompanhada pelos serviços de saúde mental.
As primeiras sessões são feitas de grandes silêncios que são explicados por si por uma ausência de pensamentos e de palavras. Na esfera pessoal Tiago parece coexistir num paralelo virtual, passando os dias a jogar no computador. Criou uma identidade que é o avatar compensatório do seu narcisismo ferido. Os conteúdos dos jogos são marcadamente agressivos e na relação que estabelece com os restantes jogadores, assume-se como um líder destemido mas implacável. Os temas dos jogos vão evoluindo, passando da transgressão pura e do homicídio gratuito a cenários de guerra e, por fim, à reconstrução após uma hecatombe.
Numa segunda fase da terapia estabelece-se uma comunicação através do desenho. Na medida em que a relação terapêutica é sentida como segura, Tiago começa a falar e a sonhar. Paralelamente, assume junto dos outros jogadores da sua rede virtual um papel de escuta e de aconselhamento sobre as suas dificuldades pessoais e relacionais, num movimento claro de identificação à analista e à função analítica.
Não falo porque não consigo: falar. Falo, mas não consigo: dizer o que sinto. Não falo consigo: com você. Agora já falo, mas ainda não consigo: não me sinto capaz de mudar, de ir à escola, de crescer…
Todas estas combinações, para além de ilustrarem de forma compreensível aspetos realmente presentes na dinâmica estabelecida na relação terapêutica, parecem corresponder à encenação dramática a partir da angústia de castração em que o conseguir falar é também a tradução da resolução fálica que prepara a genitalidade, a autonomia e a relação com o bom objeto, sentida como inteira, criativa e maturativa.
Como pontos de viragem determinantes na evolução de Tiago destaco dois episódios muito marcantes: a queda de um último dente de leite e as associações e elaborações que o relato deste fato em sessão permitiu e a resolução de um sonho recorrente que o atormentava desde o episódio traumático. Nesse sonho Tiago era agredido no jogo de futebol por um rapaz mais velho e mais forte lesionando-o no pé e ele bloqueava sem conseguir reagir nem defender-se. Finalmente elabora uma outra versão, colocando-se como um terceiro neste cenário em que intervém para confrontar o agressor e proteger o agredido, ação após a qual há um pedido de desculpas e o jogo pode continuar.
Quando o processo terapêutico terminou, Tiago finalizou os seus estudos que entretanto havia retomado e foi convidado pelos professores para representar a escola num projeto pré-profissional. À laia de conclusão disse-me: “embora pareça estranho até estou contente por tudo isto me ter acontecido; a verdade é que, apesar de todo o sofrimento que me causou, foi por causa deste problema que eu passei a saber que existo e quem quero ser. E isso é muito bom!”
Vinheta 2: Vera é violinista, tem uma bolsa para estudar no estrangeiro e procura-me na sequência de uma lesão repetida, na mão direita, que lhe causa uma dor crónica e “incapacitante”. Vem por encaminhamento do médico fisiatra que, por exclusão de diagnóstico orgânico, a aconselha a consultar um psicanalista. Tem 24 anos, descreve a sua vida como “feliz” e “normal” e encara a possibilidade de iniciar um processo psicoterapêutico com uma certa estranheza, não assinalando nenhum tipo de dificuldade para além desta lesão que, atualmente, compromete por completo o seu projeto de vida. Nas primeiras entrevistas exploratórias, Vera apresenta-se como alguém com dificuldades em identificar e expressar afetos, em estabelecer associações, numa postura de uma certa passividade e imaturidade. Na perceção que tem de si destaca-se uma evidente idealização da infância, bem como uma perceção a-conflitual das relações familiares e sociais. Aspeto curioso sobre a sua pessoa, Vera confessa uma recusa absoluta pela cor preta, sobretudo no vestuário.
No que se refere à sua vida afetiva, tem um namorado de outra nacionalidade mas, à data da primeira consulta, decidira “fazer uma pausa” por sentir que ele vive a relação com muito mais intensidade do que ela. Teve a sua primeira relação amorosa aos 23 anos, de natureza homossexual, o que a intrigou sobre a sua orientação que, aliás, permanece numa incógnita mas, também aqui, sem sinais evidentes de angústia; diz-me sentir desinteresse pela sexualidade adulta, com ausência de desejo e aquilo que vem a descrever mais tarde como uma sensação de estranheza pós-orgástica.
Descreve a sua vida como uma sucessão de acontecimentos que parecem escapar-lhe, sendo que, como me virá a dizer, a única escolha que verdadeiramente fez na vida foi querer ser violinista. Aparentemente mergulhada numa espécie de paradoxal “anedonia festiva e multicolor” desligada de um mundo interno pulsional e conflitual, os únicos medos conscientes que assinala é o de que a avó possa morrer e o de não poder voltar a tocar violino.
Hesito na proposta a fazer em termos de projeto terapêutico, por ponderar riscos em abordar este equilíbrio defensivo sabendo que acresce a este quadro a particularidade de que Vera estará em Lisboa por tempo incerto mas reduzido. O fato de que, quando questionada sobre a sua atividade onírica, Vera me revelar um acesso rico, fértil e querido aos seus sonhos, pesa substancialmente na decisão que tomamos de iniciar um processo intensivo, com três sessões semanais.
Todo este percurso foi pautado pelos seus sonhos, através dos quais se percebem os movimentos transferenciais ativados e a construção de uma função analítica introjetável e transformadora.
Através da sua psicoterapia Vera toma consciência de como a sua adolescência foi bloqueada e de como as suas defesas funcionaram de forma a “suspender” o tempo para manter o espaço ilusório da infância e obviar a vivência das angústias deslocadas e condensadas na lesão que a impede de ser quem escolheu ser. Escolhi cinco sonhos que me parecem ilustrar, particularmente bem, representações e desenvolvimentos significativos do processo. Através destes
percebe-se o quanto o próprio ímpeto de crescer relança no seu mundo interno aspetos arcaicos e desperta movimentos regressivos reativando fantasmas sexuais infantis ligados à oralidade e às identificações primitivas que o processo analítico permitirá transformar.
Num primeiro sonho Vera regressa a casa dos pais; encontrando-a vazia, sente uma fome desmedida acabando por devorar o jantar do pai o que a faz sentir-se muito culpada.
Num segundo sonho Vera vem à sessão e nesse percurso perde-se no espaço mas também no tempo; deambula pelas avenidas de Lisboa, acabando por se atrasar muito e encontrar a analista em casa com a sua família que é constituída por muitos filhos e a analista prepara um prato tradicional ucraniano ou sérvio; Vera oscila sentindo-se ora culpada, envergonhada e intrusa, mas acaba por se sentir bem acolhida e é convidada a partilhar a refeição.
Numa fase do trabalho analítico mais fraturante Vera faz um sonho de angústia: sonha que foi escolhida para fazer uma viagem numa nave espacial estando a fazer os preparativos para a mesma; os seus pais entusiasmam-na para essa missão de descoberta de novos mundos, mas sabe-se que, muito provavelmente, jamais voltará.
Posteriormente, Vera relata um sonho em que está numa praia com o seu grupo de amigos e vivem todos ali, como se fossem náufragos mas onde se sentem absolutamente felizes; um dia dois dos amigos mergulham e surge do fundo do mar um perigo negro sem forma nem nome; todos estão muito assustados mas Vera oferece-se para descobrir, mergulha e é então que descobre os pais de uma amiga que estão mortos.
Num dos últimos sonhos antes do fim deste processo, Vera encontra-se a fazer a travessia a nado de um rio largo parecendo-lhe a ponte de S. Francisco; entre as margens há uma corda, que lhe serve de apoio e, à partida e à chegada, está uma amiga; no percurso sente muito medo (de não ser capaz, de ficar submersa, de não ter fôlego, de se afogar); por vezes perde o contato com a corda mas não desiste, recupera a corda e completa a passagem.
Os temas inerentes à problemática da adolescência neste trabalho enunciados, são facilmente ilustrados pelo material dos sonhos: a autonomia, a sexualidade, o luto. Vera diz ficar a pensar muito entre sessões sobre o que eu lhe digo, muitas vezes sem o compreender, mas isso vai permitindo associações e tomadas de consciência da ressonância afetiva que causam, o que leva a novas associações, recordações da infância, elaborações e criação de novos símbolos. Muitas vezes empresto a minha própria rêverie ao processo.
Sobre (a estranheza da) sexualidade adulta e sobre (a ausência de angústia de) morte, relação que diz não entender, ocorre-me dizer-lhe que os franceses chamam petite mort ao orgasmo. Entusiasmada, Vera fala-me de uma coreografia particularmente bonita cuja peça musical conhece bem.
O processo terapêutico de Vera interrompe-se, entretanto, em abril com tantas questões em aberto por desvendar. Em junho, de passagem por Lisboa, procura-me. Conta-me que a avó falecera nessa semana. Diz-me continuar a refletir sobre a relação entre desejo e medo, que ainda lhe parece estranha; mas logo em associação refere que reatou o relacionamento com o namorado e que, enquanto estiveram separados, ele envolveu-se com outra rapariga. Este fato introduziu a possibilidade de perda como variável que excluía até então, tendo tornado “a relação mais interessante” acabando por me dizer, sorrindo: “se calhar tem a ver com essa ligação que eu afinal já entendo melhor do que pensava”.
Se eu quiser ser mais literária, diria que não deixa de ser curioso o fato da avó de Vera ter falecido precisamente nesta fase, “deixando entrar o Inverno nesse jardim” como no conto do Gigante Egoísta; ou como a vida suspensa de Vera ou de Tiago se assemelham ao conto da Bela Adormecida e o desbloqueio deste universo infantil parece ter reposto temporalidade numa ordem simbólica onde vida e morte, desejo e medo podem coabitar e nutrir o mundo interno, complexificando o universo vital destes jovens.
Vera dir-me-á no nosso último encontro: “…sinto muito mais angústia, mas também muito mais esperança.”
Termino este trabalho com uma breve reflexão sobre a especificidade deste tipo de intervenção. Desde os ajustamentos ao setting que passam pelo atendimento face-a-face; à duração do processo, que pode ser intensivo mas de mais curta duração; ao quadro da intervenção institucional, que muitas vezes passará por serviços públicos, nomeadamente de saúde, justiça ou educação; à importância do trabalho com pais ou em equipa, sendo que a intervenção articulada, combinada ou alargada pode ser uma necessidade ou mesmo uma vantagem. Penso que nestes casos podemos pensar a partir do que nos propõe Winnicott na “técnica de consulta terapêutica”
relativamente à sua experiência da psicanálise aplicada a instituições hospitalares no Reino Unido nos anos 50.
Enfatizo igualmente a importância da atitude do psicanalista, fator a ter em conta na motivação e na formação de psicanalistas de adolescentes Laufer fala daquilo a que chama a“liberdade interna do psicanalista” (1996) como requisito mas também como construção indispensável ao trabalho com esta população. Neste quadro, destacamos a atenção a dar pelo psicanalista aos aspetos transferenciais e contratransferenciais envolvidos nesta clínica, subjacentes ao mergulho no seu próprio processo interno e maturativo onde os riscos de querer “corrigir”, “salvar”, “agir”… podem ser convocados para o cenário da relação atual por força de movimentos inconscientes particulares que se relacionam com as caraterísticas desta fase do desenvolvimento.
Por fim podemos ainda equacionar como pode o adolescer estar presente na Psicanálise do Adulto, ou seja, será que se pode identificar ou pressupor como inevitabilidade do processo psicanalítico que a trama adolescente seja vivenciada neste percurso? Por um lado podemos postular tratar-se da hipótese concetual de uma sequência natural do processo, após adesão, regressão, restauração das relações de objeto e das identificações através da transferência.
Desta forma, a adolescência durante a análise pode ser vivida e percebida através de manifestações tais como: a desidealização do analista, a reação claustrofóbica ao setting, transgressões, contestações ou eventuais passagens ao ato vividas transferencialmente ou deslocadas para o exterior… Mas mais do que conceber uma “fase” durante o processo, parece-me mais razoável admitir a sua expressão através de movimentos, num quadro mais amplo de significação e tradução comunicacional, sabendo que ao analista caberá estar especialmente atento a estes movimentos bem como à sua própria contratransferência.
ABSTRACT
In this paper Adolescence is seen as an irreversible precipitate sexual maturation. Recapitulating sexual unconscious childhood fantasies, the author launches again the discussion based on fourth essential elements: identity, body life experiences, mourning as a mental process of object loss, identifications and object relationships. A spatial-temporal adjustment is required necessary in order to understand some passivity as a suffering expression in some adolescents. Particularly when the symptom is centred on a physical breakdown corresponding to a lock that compromises autonomy. How does Psychoanalysis both applies to clinical situations and helps to understand the developmental function of adolescence during analytic treatment?
KEYWORDS: Identity; Blocking; Body; Sexuality; Mourning