A intenção deste artigo é mostrar como a última leitura de Lacan sobre as psicoses aborda, de forma inédita, as modalidades auto-terapêuticasa que se autoriza a estrutura psicótica quando o sujeito busca encontrar uma solução. Mostramos que essa leitura renovada da teoria das psicoses partiu da rearticulação da estrutura do Outro e implicou na abertura a uma outra maneira de se conduzir o tratamento da psicose, ligada à noção de compensação ou de suplência à carência paterna. O caminho que seguimos na compreensão das soluções psicóticas foi construído em dois tempos: o primeiro refere-se às construções lacanianas em torno da noção de compensação imaginária e de metáfora delirante, que é solidária do período de seu ensino no qual o Outro é considerado como consistente e absoluto; e o segundo refere-se à ampliação da noção de suplência, a partir da introdução da lógica borromeana, que é solidária das elaborações sobre o Outro enquanto inconsistente e barrado. Veremos assim como a suplência é uma resposta do sujeito, sua forma de tratar os retornos do real para restituir a realidade e condensar uma parte do gozo, até que este se torne mais suportável.
Artigo recebido a 15 de Fevereiro de 2014 e aceite para publicação a 29 de Julho de 2014
Psicanalista, Doutora em Psicopatologia e Psicanálise pela Universidade Paris Diderot Sorbonne Cité, Professora adjunta do Centro Universitário de Belo Horizonte. E-mail: fabiana-bap@ig.com.br
A noção de suplência atravessa um longo caminho no ensino de Lacan, que vai desde seu texto Escritos Inspirados de 1931 até à elaboração da clínica dos nós. Apesar desse atravessamento, o termo suplência continua sendo alvo de confusões no campo teórico. Essas confusões são compreensíveis, pois a individualização do termo em relação ao de compensação, por exemplo, não é clara em Lacan. Por falta de uma definição precisa dessa noção, diferentes estudos irão classificá-la como sinônimo de compensação imaginária ou de sinthoma ou associá-la a uma lógica complementar exclusiva da estrutura psicótica3.
Diferentes termos são utilizados para caracterizar as buscas do sujeito psicótico na tentativa de resolver o impasse inaugural relativo ao desencadeamento da doença: solução, estabilização, compensação, suplência. Todos estes termos tentam dar conta de um tipo de solução encontrada pelo sujeito psicótico quando ele se vê confrontado ao súbito desenlaçamento dos anéis que compõem a cadeia borromeana da realidade. Para fazer face à ausência do significante paterno, o sujeito tenta remanejar a realidade, fazendo apelo a um leque de possibilidades de auto-tratamento. Elaboradas ou frágeis, de curta ou de longa duração, podemos dizer que todas as soluções têm em comum o fato de poderem realizar uma espécie de suplência da carência paterna. Essa ideia de suplência só se torna válida se levarmos em conta a relativização do conceito de Nome-do-Pai operada por Lacan. Se a clínica das suplências é contemporânea das elaborações lacanianas dos anos 70, ele admitia, já em 1958, que a psicose é uma estrutura clínica que busca, em determinado momento, uma forma de restituição da doença: Tudo se passa como se o sujeito reagisse à doença por uma tentativa de restituição, de compensação (Lacan, 1956/1981, p.219)
Assim, para se compreender a importância da noção de suplência, é imperativo que se procure quando e porque a psicose se desestabilizou. Se a hipótese da forclusão da metáfora paterna é válida, é preciso saber que o sujeito pode compensar os efeitos dessa forclusão de diferentes formas, e não somente através da construção clássica do delírio. Será então em relação à ausência radical do significante paterno que iremos situar a noção de suplência. Como assinala Colette Soler (2002), quando a estrutura psicótica está em busca de uma forma de estabilização, trata-se de uma auto-elaboração inventiva ou não, onde se manifesta uma espécie de eficácia do sujeito. A suplência é então uma resposta do sujeito, sua forma de tratar os retornos do real para restituir a realidade e condensar uma parte do gozo, até que este se torne mais suportável.
A teoria das psicoses sofreu, ao longo de vinte anos do ensino lacaniano, uma mudança considerável. Um novo rumo foi dado à forma de se pensar o homem e sua loucura, em função das transformações do espírito do tempo, culminando em uma configuração da clínica da psicose voltada para uma abordagem menos clássica. Diversas alterações teóricas foram assim efetuadas. O último ensino revisita a teoria das psicoses apartir da descoberta da falta no campo do Outro, da pluralização do Nome-do-Pai e de seu progressivo declínio. Assim, as reconsiderações teóricas da estrutura do Outro implicaram na descoberta de uma outra clínica das psicoses, ligada à noção de suplência da carência paterna. Esta clínica das suplências abre o caminho para se reconsiderar o tratamento das psicoses, fundada à partir da capacidade desses sujeitos de construírem para si um modo de vida menos sofrido.
O caminho que vamos seguir na compreensão das soluções psicóticas será construído em dois tempos: um primeiro referente às construções lacanianas em torno da noção de compensação imaginária e de metáfora delirante, que é solidária do período de seu ensino no qual o Outro é considerado como consistente e absoluto. O segundo corresponde ao alargamento da noção de suplência, a partir da introdução da lógica borromeana, que é solidária das elaborações sobre o Outro enquanto inconsistente e barrado. Assim, o termo de suplência dá conta de um tipo de construção que permite ao sujeito compensar a forclusão do Nome-do-Pai.
Sabemos que Freud não recomendava o tratamento psicanalítico aos psicóticos e conclui em 1938 pelanecessidade de renunciar em tentar nas psicoses nosso método terapêutico (Freud, 1938/1970, p.41). Muito preocupado em determinar a especificidade da clínica das neuroses, Freud duvida até o fim da eficácia da cura psicanalítica para os psicóticos. A objeção maior estava ligada à questão da transferência,
Fréderic Pellion se pergunta se a distinção entre sintoma e sinthoma é pertinente, pois, para ele, um ponto de partida desse debate poderia começar a partir da diferença entre o caráter egosintônico do sinthoma e a egodistonia do sintoma. PELLION, Fréderic. « Quelques réflexions sur la pertinence clinique et psychopathologique de la notion de suppléance ». In: Recherches en Psychanalyse – Revue en ligne, 7, 2009. Para Biagi-Chai, o sinthoma seria uma forma de estabilização que mostra um savoir-faire ou um talento que o sujeito possui e propõe como solução. A suplência passa pelo viés do significante e pode se desfazer, enquanto o sinthoma se inscreve no registro do objeto a e não se desfaz. BIAGI-CHAI, Francesca. «Sinthome ou suppléance comme réponses au vide». In: Université Lacan, disponible en , jan, 2011. Soler opõe a solução de Joyce à de Schreber. Soler afirma que o caso de Joyce seria um « caso de auto-prevenção da doença » e que o caso de Schreber um «caso de auto-cura fora da transferência». SOLER, Colette. L'inconscient à ciel ouvert dans la psychose. Presses Universitaires du Mirail, 2002. Hoffmann propõe pensar as suplências a partir dos registros da realidade. Para ele, é preciso efetuar uma diferenciação entre suplências simbólicas, imaginárias e reais a fim de esclarecer o que está em jogo nas tentativas de estabilização psicótica. HOFFMANN, Christian. « Le paradigme de suppléances psychotiques ». In: Recherches en Psychanalyse, 7, 2009.
pois nas neuroses narcísicas os investimentos objetais são abandonados, o que faz com que o sujeito repudie tudo o que é do mundo externo.
Por outro lado, Lacan se propõe a não recuar diante dos desafios apresentados no tratamento da psicose, propondo, ao longo de seu ensino, avanços teóricos importantes para compreender os mecanismos que fariam da psicose uma estrutura à parte, passível de ser abordada pelo tratamento psicanalítico (Lacan, 1977). Primeiramente, podemos dizer que, fundamentado em uma lógica estruturalista - marca de seu ensino nos anos 50 - Lacan (1946/1966) inclui a psicose no campo da fala e da linguagem, se afastando de uma abordagem organicista da loucura para se aproximar da lógica do significante. Em uma tentativa de teorização do mecanismo fundamental da psicose, Lacan busca, no seminário III notadamente, encontrar um fundamento significante causal da loucura, a partir do conceito de Verwerfung elaborado por Freud. Da análise genial feita por Freud de Schreber, Lacan elabora seu caminho: na psicose, trata-se da rejeição de um significante primordial, que não adveio ali precisamente onde ele deveria ter advindo, isto é, no lugar do Outro. Trata-se, assim, da ausência de um organizador estrutural no psiquismo, que ele nomeia de forclusão do Nome-do-Pai. Este conceito se apresenta como uma noção fundamental capaz de operar uma distinção estrutural refinada entre a neurose e a psicose.
Na psicose uma falha se produz: o discurso materno, veiculador primordial do significante paterno, falha ao transmitir à criança a função significante e simbólica do pai. Como resultado, a criança não acede nem aos processos de simbolização nem ao significante fálico, que é capaz de dar sentido, através da linguagem metafórica, às suas experiências subjetivas. A função primordial do pai, como o significante que falta ao Outro, é colocada em evidência no texto De uma questão preliminar a todo tratamento possível da psicose. A forclusão não recai sobre um significante qualquer, mas se refere à forclusão do significante paterno, que é o significante que, no Outro, enquanto lugar do significante, é o significante do Outro enquanto lugar da Lei (Lacan, 1956/1966, p.61). Isso significa que o fundamento do Outro da Lei, se encontra no Outro do significante, o que nos levaa compreender, neste momento do ensino de Lacan, que existe o Outro do Outro, isto é, que existe uma referência para o sujeito que é certa e que garante a consistência da cadeia significante. Nessa perspectiva, o Nome-do-Pai redobra no lugar do Outro o próprio significante no ternário simbólico, na medida em que ele constitui a lei do significante (Lacan, 1956/1966, p.56). Lacan admite a existência de uma espécie de conjunto fechado: o Outro comporta nele mesmo o Outro da Lei, representado aqui pelo Nome-do-Pai. A lógica do Pai é, nesse momento de seu ensino, universal: o pai é o representante da Lei. Mas para que ele possa exercer completamente sua função, é preciso que o significante do Outro enquanto Outro também exista. É preciso assim que exista, para além do Outro, um Outro capaz de dar fundamento à Lei. É por isso que Lacan pode afirmar que existe o Outro do Outro.
Desprovido do jogo simbólico – mas não da linguagem – o sujeito tornado assim psicótico é impedido de operar metaforicamente seu desejo, ficando preso em uma espécie de relação imaginária com o desejo devorador da mãe. Sem armas simbólicas para lutar contra a invasão do real, o sujeito psicótico se vê às voltas com um imaginário consistente porém frágil, em cuja superfície pode aflorar o real ameaçador. E quando o real invade a cena, a psicose se desencadeia, na medida em que a função paterna enquanto função simbólica não adveio. Como resultado, o sujeito não consegue encontrar no Outro um lugar que seja fixo. A esse Outro não simbolizado se substituem uma multiplicidade de pequenos outros, imagens especulares onde se alinham rivais mortíferos ou mesmo processos de decomposição corporal. Desse modo, por falta desse operador simbólico, o corpo não consegue encontrar uma unificação senão imaginária, ficando à mercê de uma série de fenômenos de despedaçamento e de desunificação. O falo, significante que produz como efeito a significação da experiência subjetiva, está ausente, impossibilitando ao sujeito de situar-se na partilha dos sexos ou mesmo na própria existência. Assim, para Schreber, por exemplo, seu corpo lhe é estranho. Sem a inscrição fálica, ele atesta a invasão imaginária da subjetividade e a dissolução do outro como alteridade.
Entretanto, outros caminhos são possíveis. O sujeito então desbussolado e errante, às voltas com fenômenos de linguagem invasores e perturbantes, pode encontrar uma saída outra que a classicamente edipiana. É assim que Schreber, diante da vivência de fim de mundo e da sensação de ser um cadáver, passa a realizar um verdadeiro trabalho de reconstrução psíquica que lhe custará uma mudança de concepção: ele passa a ser a “Mulher de Deus”, em uma espécie de
empuxo-à-mulher, que o levará à vivência de um gozo transexual associado à copulação divina. Aquilo que chamamos aqui de “mudança de concepção” é na verdade um complexo sistema de pensamento criado por Schreber para dar conta da experiência enigmática. Esse sistema é seu delírio, ou mais precisamente, uma metáfora de substituição, chamada por Lacan de metáfora delirante. Confrontado à aproximação do vazio, o sujeito se vê na impossibilidade de assegurar a cadeia significante. A estabilização desta situação advém pela criação de uma outra realidade, porém delirante. Nesse sentido, o delírio pode reestabelecer o mundo do sujeito de forma que ele possa ser capaz de restaurar sua relação com a realidade e com os seus semelhantes.
Lacan (1956/1981) mostra que o delírio é uma estrutura sem núcleo central e que se caracteriza pelo fato de que o sujeito dá um sentido particular aos eventos. Na verdade, o sujeito assiste à irrupção de uma significação desconhecida, que foi rejeitada para fora dele: é o surgimento de uma significação totalmente estrangeira a ele. Trata-se, porém, de uma significação essencial, em que o próprio sujeito está concernido. Dito de outro modo, o que se passa no delírio é que o sujeito se encontra desarmado simbolicamente para dar conta de uma significação qualquer que não foi simbolizada e que aparece no mundo externo. Como ele não pode realizar uma mediação simbólica desta significação, que lhe é enigmática, ele entra em um outro modo de mediação, completamente diferente do primeiro, substituindo a mediação simbólica porum formigamento, por uma proliferação imaginária, na qual se introduz, de forma deformada, e profundamente a-simbólica, o sinal central de uma mediação possível (Lacan, 1956/1981, p.101)
É assim que Lacan reencontra o aforismo freudiano que faz do delírio uma tentativa de cura. Freud pôde afirmar, apartir de sua leitura do livro de memórias de Schreber, que o delírio é uma tentativa de cura. Para ele, não se deve confundir a doença e seus fenômenos primários com a ordenação que eles ganham na construção do delírio, jáque são tentativas do sujeito de encontrar uma solução. Freud nota que, em Schreber, o mecanismo de desinvestimento da libido no mundo externo a doença é acompanhado do delírio de fim do mundo a tentativa de cura. A reconstrução de seu mundo interno (e de si mesmo) não é patológica, mas uma tentativa de restauração e de reconstrução da realidade psíquica. Se a doença se refere a um desinvestimento libidinal nos objetos do mundo externo, o delírio seria um ensaio de reconstrução da realidade perdida, de tal forma que o sujeito possa reedificar seu mundo não mais esplêndido, é certo, mas ao menos de forma a nele poder viver mais uma vez. Ele o edifica pelo trabalho de seu delírio. O que nós tomamos como produção mórbida, a formação do delírio, é em realidade a tentativa de cura, a reconstrução. Tal reconstrução após a catástrofe é bemsucedida em maior ou menos grau, nunca plenamente; nas palavras de Schreber, houve uma mudança interna profunda no mundo” (Freud, 1910/1993, p.78). Este segundo movimento em direção à cura não é jamais efetuado em silêncio, o que pode ser o caso do desligamento da libido com o entorno.
Diferentemente da metáfora paterna, que visa substituir o enigmático desejo materno para que o sujeito possa aceder a uma significação fálica, a metáfora delirante substitui o desejo materno de forma a criar uma significação não fálica, porém de efeitos estabilizantes, pois produtora de um sentido para o sujeito. Essa metáfora delirante vem instaurar uma certa ordem no deslizamento sem sentido dos significantes, introduzindo uma barragem, um pointde capiton, uma amarração possível à desordem do mundo. Ao mundo imprevisível e caprichoso da mãe, é preciso que ocorra a entrada de um princípio organizador que é a função paterna, a chave da significação a partir da qual esse mundo incoerente ganha sentido. Na falta do significante do Nome-do-Pai, entretanto, não há metaforização da obscura vontade do Outro em desejo suportado pelo significante. Assim, vivendo em um mundo desorganizado invadido pelo real, Schreber trabalha para introduzir o que ele nomeou de “ordem do universo”, o que culmina em uma significação imaginária compensatória, que é a de ser a “Mulher de Deus”. Essa complexa significação construída por Schreber é delirante mas estabilizadora, pois instituidora de uma ordem no caos produzido pela ausência da função paterna.
Se o delírio é uma tentativa de cura que se desenvolve após o desencadeamento da psicose, devemos assinalar que Lacan indica que antes do desencadeamento o sujeito é capaz de se manter na realidade através de uma identificação imaginária aos seus semelhantes, identificação tal que o permite uma existência mais ou menos estável, ainda que frágil. O desencadeamento ocorre, de acordo com Lacan, em uma determinada
situação da existência do sujeito em que ele é chamado a ocupar um lugar puramente simbólico, que se ancora na função paterna. Diante dessas situações, o sujeito não consegue responder, pois no lugar do Pai há um furo produzido pela forclusão de sua função. O imaginário, que o assegurava até então na realidade, se desfaz e o sujeito se depara com os fenômenos corporais, ou com o sentimento estranho de que o mundo está se transformando ou acabando. A reestruturação desse mundo é assim possibilitada pela construção de uma metáfora delirante que permite ao sujeito uma nova relação com o mundo. Essa forma de conceber as estabilizações psicóticas nos anos 50 dá lugar, nos anos seguintes, a uma reformulação lenta no ensino de Lacan, relativa à reorganização que ele opera do lugar do Outro.
Uma transformação fundamental vem marcar de forma decisiva a maneira de se compreender a função do significante do Nome-do-Pai. Uma mudança na estrutura do Outro se opera: ele não é mais pensado como consistente, masa partir de uma falta. Nem tudo pode ser simbolizado, o Outro não pode garantir o todo da vivência subjetiva. Ele é faltante. A tese da preeminência do simbólico que faz do Nome-do-Pai o significante do Outro – e que permitirá à Lacan afirmar que existe o Outro de Outro – é idealizante, pois se o Nome-do-Pai é aquele que responde à falta no Outro, ele não a sutura e não a tampona completamente. As consequências clínicas dessa virada conceitual serão construídas por Lacan ao longo de seu ensino. A mais importante delas consiste em dizer que o Nome-do-Pai não possui uma função primordial. Ele é reduzido a uma função de nominação, sendo mais um dentre outros significantes possíveis na amarração da realidade. A relação do sujeito ao Outro se realizará, assim, a partir de uma incompletude estrutural. Essas reconsiderações teóricas da estrutura do Outro implicaram a abertura para uma outra maneira de se conduzir o tratamento da psicose, ligada à noção de compensação ou de suplência à carência paterna. A pluralização do Nome-do-Pai nos leva a considerá-lo não como uma Lei simbólica universal, mas como uma invenção própria a cada sujeito, diante da falta no Outro. Vimos que o estatuto do Outro completo se apoiava sobre a dialética do sujeito e, desse ponto de vista, o Nome-do-Pai é o significante do Outro. Lacan assinala que o significante do Outro é completado pelo Outro da Lei e, a partir disso, podemos afirmar que o Outro contém o seu próprio significante. Ora, Lacan descobre nos anos 60 que o Outro é dotado de uma falta radical. A consequência desta falta é que não existe o Outro do Outro, o que permite a Lacan afirmar que o Nome-do-Pai pode ser pluralizado.
Nos anos 70, Lacan introduz a cadeia borromeana para propor uma nova abordagem da estrutura do sujeito e fazer valer a tese da inconsistência do Outro. As primeiras apresentações desta cadeia são introduzidas no seminário XX (Lacan, 1972/1975). A realidade passa a ser pensada de forma tridimensional. Uma amarração dos três elementos forma a topologia mínima para discernir a estrutura do sujeito. Sua estrutura é simples: ela é composta por um nó, de forma que real, simbólico e imaginário estejam entrelaçados de forma borromeana, sem que nenhuma hierarquia esteja presente. Temos três anéis ligados entre si de tal forma que, se um deles é cortado, os outros serão liberados. As instâncias da realidade se equivalem e não existe supremacia de um registro sobre o outro: eles possuem o mesmo valor de importância e a mesma consistência. A realidade depende dessa junção e é impossível os conceber separadamente – o que levaria o sujeito à debilidade.
Entretanto, sendo esse nó a três mítico, é preciso haver um quarto que possa vir efetuar a amarração deles, mas que entre no entrelaçamento da mesma forma que os outros, ou seja, logo que um deles se desfaça, todos os outros se desfazerão também. O quarto nó, ainda que seja aquele responsável pelo enlaçamento dos outros três, entrará na jogada sem função hierárquica maior, ele também se desfazerá, caso um dos outros anéis se desfaça por um motivo qualquer. Esse quarto nó é chamado por Lacan de Nome-do-Pai. Chegamos, assim, à ideia de construção solitária na psicose, ou como nos indica Colette Soler (2002), à ideia de trabalho psíquico da psicose, que consiste precisamente em buscar suas próprias soluções à ausência do significante do Nome-do-Pai. Cabe ressaltar o sofrimento psíquico que envolve essa busca constante, pois aquele elemento que virá suplantar o Nome-do-Pai não será jamais definitivo, já que nada é capaz de compensar de forma perene o furo produzido na cadeia de significantes devido à não inscrição simbólica da função paterna.
Dessa forma, o Nome-do-Pai é reduzido a um elemento suplementar que mantém
o nó a três anéis unido. Ele tem assim uma função de suplência. Na verdade, Lacan funda a topologia justamente para mostrar que a amarração borromeana a três precisará sempre de um quarto elemento para operar a suplência. O Nome-do-Pai, tomado em sua pluralidade, é indispensável, pois cada sujeito irá amarrar sua própria estrutura de forma a fixar o gozo. Lacan renova a definição da função paterna, que não mais advém da universalidade do significante paterno, mas de sua pluralidade e de sua função de nominação. Desse modo, uma nova função do Pai é construída: limitar o gozo produzido pela ligação deste com o significante. Sua função é então compensatória, na medida em que o nó de três não pode se manter sozinho. Assim, a solução individual deve ser sempre operada pela suplência, pois «a ligação do Imaginário, do Simbólico e do Real falha, esta função suplementar de um toro a mais, esta cuja consistência seria a se referir à função dita do pai (Lacan, 1975).
Fazendo corresponder o complexo de Édipo ao nó borromeano, Lacan reconhece uma função de suplemento ou de suplência do Pai. O Pai é ainda considerado como um elemento fundamental da estrutura, mas sua função é somente suplementar e não mais indispensável. Outros elementos podem exercer a função do Nome-do-Pai, notadamente quando há a forclusão de sua função. A carência desta estrutura borromeana conduz a uma deslocalização do gozo e de sua invasão. Lacan não se refere mais no seminário XXIII à noção de falta ou de forclusão no simbólico, mas de falha ou erro na constituição do nó borromeano. Para a psicose, a questão não é mais subordinada à forclusão do significante do Nome-do-Pai, mas à carência da função de nominação do Pai. A psicose se caracteriza por uma amarração não borromeana, em função da falha ou carência da função paterna.
Apesar dessa carência, um outro elemento é capaz de compensar a falha do nó não borromeano e de repará-lo. Este elemento será o quarto anel que virá então efetuar a emenda e impedir que o nó se desfaça. No caso da neurose, o quarto nó é o Nome-do-Pai, que é uma forma de ligar as três consistências independentes. O Nome-do-Pai, reduzido à função de nominação, é então uma solução individual capaz de ligar os três registros de forma borromeana, pois este quarto termo () é essencial ao nó borromeano (Lacan, 1975/2005, p.38). O quarto nó é o sinthoma ou o pai, nas neuroses: o pai é um sintoma, ou umsinthoma, como vocês queiram (Lacan, 1975/2005, p.19). Ele possui uma função fundamental, pois o Édipo falha sempre, o nó de três sempre falha: Lacan assinala que o Outro é barrado e que não há Outro do Outro. Ainda que o Édipo tenha uma função normalizante, ele não chega a liberar o sujeito de seu sintoma. Segundo Lacan, o complexo de Édipo é enquanto tal um sintoma. É na medida em que o Nome-do-Pai é também o Pai do Nome que tudo se sustenta, o que não torna o sintoma menos necessário (Lacan, 1975/2005, p.22).
A partir dessas considerações, podemos dizer que a articulação borromeana permite pensar que a referência à pluralidade de pais e seus efeitos de nominação pressupõe que existem outras soluções ao furo, que é inerente ao campo do Outro. Um outro ponto importante que essa abordagem permite compreender é que todas as estruturas devem encontrar uma forma de manter a amarração do nó borromeano, seja pelas versões do Nome-do-Pai nomeado pela mãe, seja pelos seus semblantes. Uma nova orientação de configura: a clínica das suplências. Existem assim diversas formas possíveis de remediar a falha da amarração borromeana. Lacan indicou a existência de diferentes maneiras em seu ensino. Nos anos cinquenta, como vimos, ele assinalou a existência de modos de compensação pelo imaginário. Em seu seminário XXIII, Lacan (1975/2005) analisa a obra do escritor irlandês James Joyce e hipotetiza que sua escrita opera uma maneira singular de dar conta daquilo que falha.
Uma das consequências clínicas mais importantes nessa virada teórica de Lacan é o desenvolvimento de uma clínica das suplências ao Nome-do-Pai. Noção fluída em seu ensino, a suplência ganha importância maior na leitura que Lacan faz da obra de Joyce. Ele evoca o fato que Joyce efetua uma suplência através de sua escrita, partindo da ideia que sua arte responde a uma forma de corrigir o nó. A partir da valorização de seu nome próprio, o escritor promove sua arte no lugar da ausência do Nome-do-Pai: é de querer um nome que Joyce fez a compensação da carência paterna (Lacan, 1975/2005, p.94)
Lacan introduz um ponto de vista positivo em relação às possibilidades de amarração do nó que falha. Ele nota que a escrita de Joyce é uma correção bem-sucedida do nó, pois a epifania é o que faz que, graças à falta, inconsciente e real se liguem (Lacan, 1975/2005, p.154). Lacan discerne este
efeito hermético de sua obra a partir da leitura das Epifanias, uma série de pequenos textos, apresentados sob a forma de diálogos, a partir dos quais Joyce justificava e fundava a certeza de sua vocação como artista. A via da arte lhe permitiu um uso específico do sintoma, a tal ponto que ele pôde restituir a amarração, acrescentando um corretor em um outro ponto que ligava o simbólico ao real, impedindo o deslizamento do imaginário. Este corretor permitiu a Joyce suprir a ausência da função paterna, erigindo seu Nome próprio de artista no lugar do Pai carente. Lacan se interroga: não haveria aí algo como uma compensação desta demissão paterna, desta Verwerfung efetiva, no fato de Joyce se sentir imperiosamente chamado?” (Lacan, 1975/2005, p.89). Assim, Lacan infere que Joyce pôde realizar a cerzidura do ego por um tipo de escrita fundada nosinthoma. Nessa perspectiva, o sinthoma de Joyce é uma suplência, mas nem toda suplência é um sintoma (ligação entre o simbólico e o imaginário, a fim de impedir o deslizamento do imaginário). Em todo caso, a função de suplência é ligada à possibilidade do sujeito manter-se na realidade de forma a poder encontrar para ele um tipo de inserção simbólica e uma saída outra para seu conflito inicial.
Sabemos que o desencadeamento se produz no momento em que o sujeito é chamado a se posicionar em uma situação a partir de um lugar simbólico. Por não ter a inscrição da função paterna, esse sujeito fica aberto à intrusão catastrófica de um Outro cujo gozo, por não ser regulado pelo significante fálico, é absolutamente desregulado. O Outro é tomado como estrangeiro e o simbólico retorna para ele no real, seja através do significante que se automatiza na cadeia, seja através de vozes, seja através do corpo, em que o sujeito experimenta uma desordem de sensações. O sujeito pode assim sentir que seu corpo, ou a imagem de seu corpo, se desorganiza completamente.
Nesse sentido, um outro elemento, que não o Nome-do-Pai, pode vir efetuar o entrelaçamento dos anéis. No lugar do Nome-do-Pai, solução clássica da neurose, outros nós podem advir. Esse quarto nó será assim uma invenção do sujeito, que não sendo “dupe”, escolhe uma solução singular, fora da impostura coletiva do pai. É assim que os “non-dupes errent”, pois aqueles que não se deixam enganar pelo impostor chamado “Nome-do-Pai”, são fadados à errância, na busca constante de uma solução outra que possa os manter de alguma forma na realidade. Diante dessa posição de ser o objeto de gozo do Outro, o sujeito pode entretanto restaurar um lugar no Outro e relocalizar o gozo, pelo viés, por exemplo, da construção de um delírio, de uma identificação ao outro, da escrita, da construção de uma identidade fora da significação fálica ou através do uso de drogas.
Essa articulação entre desencadeamento e estabilização via suplência abre uma perspectiva nova no tratamento de sujeitos psicóticos, pois passa a considerar outras possibilidades de amarração da realidade para além do Nome-do-Pai. E essa leitura nos convida a ampliar ainda mais as soluções psicóticas, pois supõe que outras soluções podem eventualmente amarrar a realidade para o sujeito, para além do trabalho delirante. Além disso, nem todos os sujeitos são capazes de encontrar uma saída delirante para a invasão do real. A cura na psicose não se funda em uma tentativa de negativizar o gozo, mas de reconciliá-lo com o sujeito.
Chegamos assim a uma clínica rica de suplências, em que a relação do sujeito ao mundo é valorizada, desde que permita ao sujeito de se deslocar e viver, construindo uma trama subjetiva e singular. É a psicose que nos ensina, que nos ensina quanto à variedade de soluções a serem inventadas em cada evento que se produz. Diante do vivido do inesperado, do real, ao qual todos os sujeitos são confrontados, algo de uma criação pode advir, como uma tentativa de sair do impasse sempre angustiando provocado pelo encontro inusitado com o real. Saímos assim da noção de défice para entrar na noção de invenção. É uma mudança de perspectiva. O que pode conter ou localizar o gozo, adquirir contorno simbólico e assegurar de alguma maneira uma inscrição simbólica no Outro, pode ser efetuado de diferentes maneiras. Se Lacan pôde dizer que a psicanálise não deveriarecuar diante da psicose, não foi somente porque a psicose nos ensina sobre a insistência do simbólico na constituição da realidade, mas também porque o psicanalista pode, diante do sujeito, construir com ele um campo de possibilidades que possa mobilizar de maneira singular o conflito. Tal lugar não será guiado pela norma ou pela ordem social, mas pela busca de uma via singular de estar no mundo, construindo assim um outro mundo possível onde o sujeito possa se deslocar e se constituir de maneira singular.
ABSTRACT
This article shows how the last Lacan, in an innovated way, speaks about modalities self-therapeutics which permit the psychotic structure when this subject searches a solution. We show that new lecture about psychosis theory comes of the articulation of the Other's structure and involves in the opening to another way to conduct the psychosis treatment, associated to the notion of imaginary compensation or substitute for the father's deficiency. The way for understanding the psychosis solution makes in two times: the first refers to the lacanian constructions around the notion of imaginary compensation and of delirious metaphor, which refer to the period of his reading which the Other is considered absolute and consistent. And the second refers to the enlargement of the notion of the substitutive, from of the borromean logic introduction, which refer to elaborations about the Other as inconsistent and barred. Then, we'll see how the notion of substitutive is an answer of subject, his way to treat the return of the real for replaces the reality and condenses a part of enjoyment, until this become more tolerable.
KEYWORDS: substitutive, psychosis, therapeutic solution, Other