O trabalho procura refletir sobre os desafios que um analista de adolescentes enfrenta atualmente, partindo do princípio de que já nascemos imersos numa cultura que nos precede e nos transcende, que nos influencia diretamente e transgeneracionalmente e que os adolescentes, pelo momento específico de seu desenvolvimento psicofísico, fornecem uma fotografia do mundo adulto. Esta perspectiva torna impossível a observação neutra, de fora: nós, analistas, somos adultos diretamente responsáveis pelo mundo oferecido ao adolescente e, também, influenciados por este contexto de formas que não abarcamos em sua extensão. São discutidos alguns pontos que caracterizam o mundo do adolescente na atualidade e os desenvolvimentos da técnica psicanalítica para enfrentar os desafios que se apresentam.
Artigo de intercâmbio com a Revista de Psicanálise da Sociedade Psicanalítica de Porto Alegre
Psiquiatra, Membro efetivo e analista didata da Sociedade Psicanalítica de Porto Alegre E-mail: vimondrzak@terra.com.br
Começo delimitando qual será minha premissa ao desenvolver uma reflexão sobre os desafios que um analista de adolescentes enfrenta atualmente: parto do princípio de que já nascemos imersos numa cultura que nos precede e nos transcende, que nos influencia diretamente e transgeneracionalmente e que os adolescentes, pelo momento específico de seu desenvolvimento psicofísico, fornecem uma fotografia do mundo adulto. Logo, ao falar da juventude atual, considero que seus caminhos e descaminhos revelam os caminhos e descaminhos da sociedade adulta e sinalizam o encaminhamento futuro destas trajetórias. Esta perspectiva torna impossível a observação neutra, de fora: somos adultos diretamente responsáveis pelo mundo oferecido ao adolescente e, também, influenciados por este contexto de formas que não abarcamos em sua extensão. Há um elemento temporal antes/agora implícito que nos obriga a marcar diferenças, incluindo aquelas que nos diferenciam dos analistas de antes. É claro que só será possível, neste painel, tangenciar estas questões, mas, neste processo, procura-se abrir espaço para discussão e reflexão.
Falar sobre a influência do meio sobre o psiquismo é uma redundância. Freud já destacava esta íntima relação ao longo de toda sua obra e a equação etiológica é talvez uma das sínteses mais plásticas desta intrincada rede causal. O que gostaria de salientar é a visão atual dos vários ramos da ciência que rejeitam a dicotomia entre realidade objetiva (meio externo) e fantasia subjetiva (mundo interno). Ao contrário da visão da época de Freud, que definia uma realidade objetiva externa captada pelos órgãos dos sentidos, guardadas como representações inconscientes “verdadeiras” destas percepções, que depois seriam deformadas pelo pulsional (de acordo com sua aceitação ou não pela consciência), sabemos hoje que a própria percepção já é determinada antecipadamente por aquilo que podemos e conseguimos perceber, definindo a construção permanente de micromundos, correspondentes às várias experiências perceptivas.
Maturana (1984), importante biólogo, criador do conceito de autopoiese (juntamente com Varela), mostra como o meio seleciona a mudança estrutural do organismo e o organismo, através de sua atividade, seleciona a mudança estrutural do meio. O tipo de mudança estrutural que se dá no organismo e no meio é determinado pela estrutura de cada parte. Mas a sequência destas mudanças é determinada pela sequência das interações. O meioseleciona o curso da transformação estrutural que o organismo vivo sofre durante sua vida.
Assim, nos constituímos a partir deste histórico de interações, dentro dos limites do que nossa estrutura humana nos permite.
Winnicott (1971) conseguiu sintetizar esta perspectiva de forma precisa e poética na noção de mãe-ambiente, na sua afirmativa de que não existe um bebê isolado da mãe. É também ele quem oferece uma definição de cultura particular, vista como uma ampliação da ideia dos fenômenos transicionais e da brincadeira. Nesta perspectiva, a ênfase recai na experiência, na tradição herdada, em algo que pertence ao fundo comum da humanidade, para o qual indivíduos e grupos podem contribuir e do qual podem fruir, se tiverem um lugar para guardar o que encontrarem. Neste conceito de cultura, integram-se a originalidade e a tradição, com base na criatividade de cada um.
A sociedade existe como uma estrutura ocasionada, mantida e constantemente reconstruída por indivíduos, não havendo, portanto, realização pessoal sem a sociedade, assim como é impossível existir sociedade independente dos processos coletivos de crescimento dos indivíduos que a compõem (Winnicott, 1971, p. 190).
A partir desta mesma perspectiva, Cahn (2009) destaca a co-responsabilidade do objeto subjetalizante no trabalho de diferenciação e seu papel determinante no bloqueio ou facilitação deste processo e refere-se à necessidade de uma terceira tópica, que permitiria um enfoque metapsicalógico da articulação entre campo intersubjetivo e campo social, o que anteriormente ficava restrito ao campo da fenomenologia ou da sociologia. Destaca, assim, que determinadas características na apresentação do processo adolescente na atualidade revelam, além da história pessoal de cada indivíduo, um panorama da cultura no qual está inserido, gerando um sem número de micromundos adolescentes.
São várias as características dos tempos pós-modernos, que tem sido alvo de inúmeros estudos, mas aprofundar-se nesta discussão foge aos propósitos (e às possibilidades) desta mesa.
A cultura pós-moderna (assim como qualquer cultura) sustenta aspectos eróticos e tanáticos: por um lado, a conscientização cada vez maior de que não existem verdades definitivas e completas facilita o respeito pelo novo e pelo diferente; por outro, as defesas contra esta percepção sempre dolorosa levam à busca do ideal narcísico de completude (Rocca, 2000).
Uma das questões centrais quando pensamos nossos tempos diz respeito, justamente, à falência dos ideais iluministas que caracterizavam a idade moderna, processo que ainda está em metabolização. A crença onipotente nos poderes da razão e nos progressos científicos, na promessa de dominar a natureza e de construir certezas, não tem mais como se sustentar. O fracasso das metanarrativas que sustentavam os ideais do século XX, enterrados após duas grandes guerras, configura uma falta de modelos e perspectivas e uma crise ética de proporções assustadoras. Em linhas gerais, vemos um processo compensatório, que procura preencher o vazio deixado pela expectativa (onipotente, sem dúvida) nos poderes da razão, através de uma série de alternativas que procuram compensar a fratura nesta onipotência. Não é de estranhar que a busca por compensações narcísicas, que procuram negar as faltas, as fragilidades, estejam tão proeminentes. Nesta linha, negam-se as diferenças de gerações, de sexos, a finitude e a passagem do tempo e a juventude é idealizada e perseguida como uma meta. Portanto, não devemos estranhar que, na busca por borrar diferenças, os conflitos sejam evitados e temidos. Mas sabemos que a confrontação generacional é um processo essencial para a aquisição da identidade na adolescência. Tem como condição a presença de um outro como alteridade, que possibilite uma tensão de diferença, admitindo ambas as partes que serem oponentes não é equivalente a serem inimigos (Kancyper, 2005).
Os pais, que durante a adolescência dos filhos, também precisam transitar por complexas elaborações psíquicas, através da reativação e ressignificação de suas próprias adolescências, têm este processo dificultado pela dificuldade maior de aceitação do envelhecimento nos tempos atuais. O que fere mais nosso narcisismo do que a percepção da passagem inexorável do tempo, marcado pelo crescimento dos filhos?
Levando estas questões ainda mais longe, Cahn (1999) propõe que a adolescência seja tomada como modelo da patologia da nossa época, como a histeria foi da época vitoriana, por reunir características encontradas em indivíduos de todas as idades: o estatuto de estranho a si mesmo e aos outros, a marca da crise de identidade, das dificuldades relacionais e o uso de defesas narcísicas. Mas adolescência não é patologia e o uso defensivo de regressão narcísica é esperado. Esta comparação acaba por denunciar a patologia do mundo adulto e configura o adulto (ou pseudo-adulto) com o qual o adolescente vai se defrontar.
É precisa deixar claro que a ideia não é mostrar os males do pós-moderno, o que apenas traduziria uma visão moralista e pouco reflexiva, mas, sim, procurar pensar em que meio nos constituímos como analistas e, principalmente, as questões com as quais os adolescentes nos confrontam no processo de busca de autonomia. A incidência do social se dá em várias dimensões, gerando uma infinidade de configurações sócioeconômicas e culturais em relação às quais os fatores específicos da adolescência se articulam de formas diversas e mutantes (Cahn, 1999).
O interesse da psicanálise pela adolescência veio gradativamente se ampliando, buscando o específico e as nuances deste processo. Assim, a noção inicial via a adolescência como uma época onde seriam ressignificadas as conflitivas edípicas e pré-edípicas com ênfase na forma como o adolescente havia se estruturado até então, o que determinaria a forma como estes conflitos seriam encaminhados. Cada vez mais esta visão foi se expandindo, incluindo as noções de acaso e indeterminação, chamando a atenção não apenas para uma época no desenvolvimento do indivíduo, mas para uma etapa específica no processo de subjetivação, de estabelecimento de um espaço psíquico pessoal, de transformação e criação. Este processo depende não só de determinantes internos, mas da cultura e das normas onde o adolescente está inserido. Nem tudo estaria já determinado pelas experiências anteriores e a adolescência seria um momento que abriria novas possibilidades.
A adolescência costuma ser concebida como crise, como época de mudanças. Mas, na maior parte das vezes, a chamada crise da adolescência se dá de forma silenciosa, circunscrita no tempo e em intensidade. É importante termos em mente que a noção de patologia neste período deve incluir não apenas o excesso de ruído, mas também sua ausência (Ungar, 2004).
Procuro, abaixo, destacar alguns pontos para reflexão a partir do que tenho encontrado em minha prática clínica. Não correspondem a nenhuma sistematização específica e se prestam apenas para serem discutidos e desenvolvidos.
A noção de diferença de gerações é um organizador, estabelecendo uma perspectiva de realidade. Pais confusos, precisando ser eternamente jovens, não se apresentam como modelos que podem e devem ser confrontados. Ao mesmo tempo, tendem a confundir com rigidez sua autoridade e o efeito organizador que ela tem para o adolescente, tendendo a uma perda da noção de limites.
Verifica-se o predomínio do vivido sobre o pensado, com a apresentação cada vez maior de patologias da conduta, que os autores relacionam com enfraquecimento da função paterna e da lei de forma geral, consequência do enfraquecimento dos valores do mundo adulto. Como vimos, adultos desiludidos e sem ideais não podem fazer o contraponto de que o adolescente precisa.
Há uma contradição gritante: por um lado a venda da ideia de que tudo que se quiser pode ser conquistado; por outro, a competitividade dura, a exigência cada vez maior para ingressar no mercado de trabalho. Assim, na cultura atual, vivemos um paradoxo: ao mesmo tempo em que vemos um prolongamento da adolescência, uma maior dificuldade em sair da casa dos pais, com uma tendência à infantilização, também verificamos uma pressão por maturidade e autonomia muitas vezes precoce. Esse quadro também afeta, desnecessário dizer, os adultos e tem interferido na função parental. Ter medo, ficar inseguro, precisar de ajuda não parece ser muito bem-vindo nos dias de hoje.
Os novos comportamentos sexuais, a aceitação da vida sexual ativa dos jovens pelos pais, cada vez mais cedo, trazem dilemas que estão ainda longe de terem sido integrados. Quais os limites que devem ser estabelecidos? Os namorados devem dormir juntos na casa dos pais, a partir de que idade, ou a partir de quanto tempo de namoro? Como encarar o ficar e quando representa problema? Quem vai estabelecer este limite? Já estamos em condições, imersos como estamos nesta realidade, de saber que consequências estas transformações vão trazer para o psiquismo do adolescente?
Em relação à identidade sexual vemos uma maior aceitação da homossexualidade, o que representa uma importante abertura. No entanto, encontramos também uma idealização da bissexualidade, do tudo deve ser experimentado, e a heterossexualidade vista como antiquada. Os próprios critérios diagnósticos andam confusos em relação ao status da homossexualidade. Não falamos aqui apenas de definição sexual, mas da possibilidade de aceitar que não temos os dois sexos, correspondendo ao abandono da posição narcísica de não precisar do outro e se bastar. O que nós, psicanalistas, temos a dizer? Temos isenção suficiente para pensarmos além de nossos preconceitos?
As novas configurações familiares:
Débora, vinte anos, sintetiza algumas destas questões: seus pais se separaram quando tinha cinco anos, foi confidente da mãe a respeito das traições do pai, com a justificativa de que era importante não esconder nada da filha; até hoje acompanha a vida sexual da mãe, que é pouco movimentada. Débora tem mais vida sexual do que sua mãe. O pai casou de novo, tem duas filhas do novo casamento e um enteado, com quem Débora teve um rápido namoro, aprovado pelos pais. Débora tem um alto desenvolvimento intelectual e uma incapacidade para enfrentar os desafios do crescimento. Acha-se feia, gorda, estranha o tamanho de seus seios, a finura das pernas, como se visse, no corpo, suas contradições, o que cresceu demais, antes do tempo, e o que está fino demais, infantil demais. Apesar de já formada, não consegue nenhum tipo de estágio ou trabalho. A sensação de inadequação é permanente, a percepção aguda das contradições dos pais e, neste momento, o impasse da ausência de modelos de identificação a deixam desamparada.
Antes de analistas, somos adultos neste mesmo contexto, com todas as inquietações, medos, dúvidas, mergulhados no entorno sociocultural, sujeitos às tensões econômicas, determinados por este meio de uma forma que não podemos precisar nem controlar. Também fazemos parte do mundo adulto que é oferecido a ele e, se nos apresentamos como fora dele, só criamos uma dissociação entre bons e maus adultos.
A nosso favor devemos alegar que a teoria e a técnica psicanalítica têm se afastado, cada vez mais, de padrões deterministas e de busca de causas: temos procurado trabalhar nossa perda de uma psicanálise onipotente e nos apresentamos menos como possuidores da chave que desvenda segredos da mente e mais como catalisadores do processo de capacitar o paciente a pensar suas emoções. Apenas como um lembrete: neste sentido, parecemos estar na contramão da tendência geral.
A técnica com adolescentes tem se beneficiado especialmente desta evolução da psicanálise. Assim, as variações no setting, essenciais para flexibilizar um contato mais próximo e menos estereotipado com o adolescente, estão sendo integradas ao corpo da teoria da técnica, não como parâmetros e sem que signifiquem afrouxamento de limites. Algo como manter o essencial e ceder no acessório. Mas o que consideraríamos o essencial a ser mantido a qualquer custo? Cada vez mais a ênfase se coloca na atitude mental do analista, de receber as emoções e participar como um continente provisório, menos dominado por princípios superegoicos, procurando auxiliar o paciente a compreender melhor o que sente, se aventurando no vasto campo de possibilidades de seu mundo psíquico. A perspectiva de que não é apenas o que comunicamos pela palavra, via interpretação, que produz efeitos terapêuticos, abre espaço para valorizar tudo que metacomunicamos através de nossa atitude e forma de refletir e pensar (o que é radicalmente deferente de nossas opiniões). As várias contribuições de Bion foram essenciais neste processo de mudança.
Se acreditamos, como dizia Winnicott (1961), que o adolescente não quer e não pode ser compreendido, qual a nossa função? Talvez, retomando Meltzer (1990), ajudá-lo a pensar e tolerar o mistério e a beleza do funcionamento único de cada psiquismo e as inúmeras possibilidades criativas que podem surgir desta expansão.
ABSTRACT
The purpose of this paper is to reflect about the challenges that the adolescent's analyst faces nowadays. The main idea is that we already born in a culture that influences us directly and in trans- generational ways and the adolescents, due to their specific moment of life, can give us a portrait of the adult world. Therefore, it is impossible for the analyst to observe neutrally: we are also responsible for the world that is offered to the adolescent and we are also influenced by this same world in many and not always perceptible ways. Some
KEYWORDS: Adolescent psychoanalysis, Post modernity, Narcissism
Os avanços tecnológicos e o mundo virtual: cada vez mais se invertem as diferenças generacionais e os adolescentes dominam muito melhor do que nós os vastos meios de comunicação digitais, internet, etc. Precisamos, de fato, deles para várias questões do dia-a-dia. Nunca as mudanças foram tão rápidas, algo inventado hoje torna-se obsoleto em um ano. Nossa geração já viu o vinil, a fita cassete, o CD, o blue-ray, o gravador e o I-Phone. É claro que outras épocas experimentaram
revoluções tecnológicas dramáticas (a roda, o fogo, etc), mas a velocidade atual é marcante. Estamos, como psicanalistas, preparados para integrar estas mudanças? Isto é necessário? Vamos saber filtrá-las sem nos deixar levar pela necessidade de nos mostrarmos modernos?
O virtual cria um espaço de comunicação e de estabelecimento de relações que também ainda não sabemos como vai influenciar no psiquismo. As mensagens substituem os telefonemas, há uma nova linguagem mais visual em pleno desenvolvimento. Há defensores e críticos do mundo virtual, mas a verdade é que ele está aí, nos envolvendo diariamente. Todas estas questões refletem-se na discussão do que é público e o que é privado. É impossível não lembrarmos de Meltzer (1990) quando diferencia mistério x segredo, destacando a importância de tolerarmos a impossibilidade de conhecer integralmente a mente do outro, resguardando a noção de mistério.