A proposta arrojada e criativa deste novo livro de Celeste Malpique sobre a investigação pessoana à luz da psicanálise, ilustra o que Barthes define como sabedoria: “nenhum poder, um pouco de saber e o máximo de sabor…” E saber deriva etimologicamente de sabor… O tempero de liberdade, abertura e rigor científico que encontrei em Celeste-em-pessoa, “feliz ao transferir o que sabe e ao aprender o que ensina2, traduz-se numa saborosa sabedoria. E Pessoa-em-Celeste? Quando se conheceram? Onde se encontraram? Que desassossego levou uma psicanalista a dedicar-se a esta obra infinita?
Do que pude alcançar, três vias se cruzaram no encontro de Celeste Malpique com Fernando Pessoa. Do lado do seu pai, professor e grande admirador de FP, Celeste recebeu estímulo constante para se aventurar na sua leitura. Do lado do seu marido e respectiva família, Celeste conta ter recebido o fio que a ligou diretamente a Pessoa uma
Membro Associado da Sociedade Portuguesa de Psicanálise e da International Psychoanalytical Association, Formadora do Instituto de Psicanálise da SPP - E-mail: ana.melicias@gmail.com
Cora Coralina, poeta
vez que o seu sogro (António Cobeira), pertenceu à roda de intelectuais das tertúlias do grupo Orpheu, com ele tendo convivido. A genialidade intocável de Pessoa que se respirava no endeusamento que dele foi feito, obrigou Celeste a respeitar/transgredir o que tantas vezes ouviu de seu marido - “os génios não se explicam”. E Celeste tal não pretendeu, como nos lembra Drummond3 pois “procurou encontrar não a explicação (duvidosa) da vida, mas a poesia (inexplicável) da vida.” Last but not least, do lado da psicanálise, diz-nos Celeste “…Pessoa sempre me confrontava com a fragilidade da nossa existência, da nossa Humanidade, e me conduzia a uma solidão essencial”. Fragilidade e solidão, são afinal matéria prima da psicanálise e conduziram a psicanalista Celeste até à esfinge desta obra seminal para nos desvendar a riqueza do impensável e do improvável.
As ligações entre o universo pessoano e a descoberta freudiana, são tão intrínsecas e numerosas que nos parecem muitas vezes evidentes. Mas a verdade é que nem sempre o são e ao contrário demandam um profundo e doloroso trabalho analítico, mobilizado pela procura da Verdade, belamente tecida no novo livro que Celeste nos apresenta. Freud encontrou os seus pares nos poetas, na literatura e na arte e sempre afirmou que onde fosse que ele chegasse com as suas descobertas, já os poetas lá tinham estado antes. Mostrou-nos, através de uma das suas áreas prediletas de investigação, a psicanálise aplicada, de que este trabalho de Celeste é herdeiro direto, a profunda conexão entre poesia e psicanálise.
Antes de chegar propriamente ao livro, devo ainda tocar as publicações prévias que aqui desembocaram. Em 2007, pela Fenda, Celeste deu-nos a conhecer através de uma densa reflexão teórica, a organização heteronímica pessoana, no livro Fernando em Pessoa: ensaios de reflexão psicanalítica. E em 2012, nos famosos Colóquios do Porto, Celeste foi homenageada por vários colegas da psicanálise e da cultura ligados à obra pessoana, que com ela dialogaram sobre o seu tema de eleição Pessoa em Análise, (, Fenda). Este último é já um livro transicional, pois no primeiro capítulo Celeste retoma o livro anterior e, no último capítulo anuncia já o livro atual.
Vamos portanto caminhando pela obra pessoana de Celeste, do Fernando em Pessoa, para Pessoa em Análise, e encontramo-nos agora aqui com Celeste em Pessoa, caminhando pela Floresta do Alheamento. Há uma continuidade e há uma ruptura. Parece-me acima de tudo, haver uma mudança de paradigma na sua abordagem, pois mais do que uma interpretação psicanalítica teórica da personalidade de FP, Celeste coloca-se agora psicanaliticamente no campo da inter-subjetividade. É tomada pela expansão da sua obra e pelo que esta em si provoca. Meltzer muito nos auxiliaria com a sua noção de conflito estético como estruturante do desenvolvimento da mente, ao destacar a dor que reside na qualidade enigmática do mistério: o conflito entre a bela e fascinante obra de Pessoa e o enigmático e misterioso Fernando que ela esconde/revela, a que só temos acesso pela imaginação. Esse conflito beleza/mistério pode paralisar-nos, adoecer-nos ou promover a busca do conhecimento. E é justamente essa busca do conhecimento através da imaginação que Celeste nos propõe.
Proust diz-nos que “Se um pequeno sonho é perigoso, a cura para ele não é sonhar menos, mas sonhar mais – o sonho inteiro.” Celeste quer o sonho inteiro, e sonha acordada inspirando-se no seu próprio ofício de psicanalista, de uma dupla em relação. Ousa abrir a arca de Pandora, a arca pessoana, estilhaçando-se na sua multiplicidade e reorganizando os seus fragmentos através da sua capacidade de reverie, numa unidade que nos guia do seu nascimento até à sua morte.
Celeste tem como objetivo na sua rigorosa reflexão, criar um espaço transicional através do diálogo improvável que habilidosamente tece entre os reflexos da poesia (conteúdo manifesto, elaboração consciente e defensiva) de Pessoa e a expressão intimista-diarística (conteúdo latente, pré-consciente em associação livre) do Livro do Desassossego. Simula um processo analítico, onde reclama contra transferencialmente a inter-subjetividade de Fernando. “Senta-se com ele na pedra da encruzilhada aquecendo-o na lareira que lhe faltou.” Oferece-se como uma psicanalista viva para resgatar Fernando do alheamento do complexo da mãe morta a que sucumbiu, “admirando e aceitando a sua diversidade”, mas “exigindo a sua inter-subjetividade”. Não é mais o desassossego que a inquieta, mas o alheamento que contra-transferencialmente em si ressoa pois, como nos diz tornou-se “imperioso reagir, não ao seu desassossego que compreendo e aceito, mas ao seu alheamento, que tantas vezes me fez sentir excluída…” Ousa sonhar a intimidade de Fernando no grande poeta Pessoa, dizendo-lhe: “Vou confessar-te: tenho ternura maternal por FERNANDO e uma admiração infinita por PESSOA.” Notam-se as duas na leitura do livro e as duas nos comovem.
Carlos Drummond de Andrade - Lembrete
Agostinho da Silva, que aliás Celeste considera “o complemento ativo do que faltou a FP”, sabiamente nos diz que: “Só estamos certos quando dialogamos.” E Celeste cria o DIÁLOGO. E está certa! E esta é a originalidade do seu livro. Celeste conduz-nos pela obra poética de Pessoa para com Fernando dialogar.
E o que é uma psicanálise, se não um diálogo entre o inconsciente do analisando e o inconsciente do analista? Improvável ou ao contrário, bem provável? Não poderemos pensar toda a cultura e produção humana como uma forma de diálogo? Celeste usa a sua própria imaginação para poder com e como ele “sentir com a imaginação”. Pela sua maturidade científica e pela autenticidade da sua ternura e afeto, exige dele a inter-subjetividade e com ele dialoga, contendo a emoção estética que a sua vida e obra nela evocam. Bion ensinou-nos que pensamos através das nossas experiências emocionais. Como aliás fez tão bem Fernando Pessoa. Como aliás faz tão bem Celeste Malpique. Sem saturações interpretativas e com a sabedoria da sua grande experiência clínica, Celeste utiliza o seu aparelho mental para pensar os pensamentos de Fernando, metabolizando-os pela capacidade continente, de reverie, ao acolher os conteúdos fragmentados da sua obra para os ir interligando e integrando.
Como paisagem de fundo à sua análise, Celeste introduz a conceptualização de Green, sobre o complexo da mãe-morta. Este conceito-continente para os conteúdos de Fernando, parece-me criar o cenário de coesão da pluralidade de Pessoa, que Celeste criativamente vai elaborando entre a sua vida e obra. Ocorre-me aqui o quadro Evil Mothers4 de Giovanni Segantini5 que me parece traduzir visualmente bem esse conceito.
As Mães Malvadas ou Más, tem como tema o castigo que “consiste em flutuar eternamente num deserto de neve, com os longos cabelos presos a galhos secos de uma árvore, como almas penadas carregando no seio o bebé abandonado.” Esta obra de Segantini parece figurar a maneira como a criança experiencia emocionalmente a retirada afetiva da mãe, por algum luto ou tragédia, e que tão bem parece descrever o que se passou com Fernando e o levou a construir o sistema heteronímico como uma segunda pele (Bick), como um envelope psíquico (Anzieu). Celeste revolta-se com o paradoxo deste “Paraíso de Ausência”, assim nomeado por Pessoa, encerrando em si - “ó Velada…, ó Silenciosa…” - a ruptura e a inacessibilidade do objeto. Escutamos claramente essa ausência quando Celeste com ele caminha pela floresta do alheamento oferecendo-se como companhia viva-vitalizadora na busca deste objeto materno que precocemente se tornou inacessível para sempre.
A sua enorme precocidade e sensibilidade, e as sucessivas perdas traumáticas na infância, são a floresta pela qual tem de caminhar. Cria um amigo imaginário, Chevalier de Pas, passo a passo, qual Quixote de 6 anos. E é este pas-não que se torna o seu pas-passo, o caminho pelo negativo anunciado no nada-vazio-ausência, ferro em brasa tatuado na sua alma que o perseguirá toda a vida e será paradoxalmente por ele transformado em tudo-multitude-presença. É este deserto-relacional-nevado, que Celeste tenta aquecer e pensar-transformar. E é essa infância que quase o desorganiza na sua adolescência.
Em Durban, nasce Alexander Search, pré-heterónimo, searching já o segredo de ausência constituído na infância, em busca agora da sua identidade “maldita”, inquietantemente “estranha” num país estrangeiro. E na idade adulta, é o seu Drama-em Gente, o seu sistema heteronímico, que vai sendo criado para tentar dar conta do Alheamento e do Desassossego que viveu na infância. Celeste leva-nos através da obra de Alberto Caeiro, Ricardo Reis, Álvaro de Campos e do Livro do Desassossego de Bernardo Soares, para chegarmos a Fernando Pessoa ortónimo, onde o self de Fernando se encontra mais integrado. Finalmente em Mensagem surge uma clarificada expressão identitária. Segundo Celeste, Fernando faz uma psicanálise, vai dialogando com todos estes personagens internos (amigo imaginário, pré-heterónimo, heterónimos, semi-heterónimo e ortónimo) e coloca-os entre eles em diálogo. A língua portuguesa é
Evil Mothers, 1894, Belvedere, Viena
Segantini, como FP, sofre perdas precoces e traumáticas: primeiro, o sofrimento da mãe pela perda de um filho; aos 5 anos a morte da mãe e aos 6 anos o abandono do pai que parte para os EUA. Karl Abraham, dedica-lhe em 1911 um ensaio psicanalítico em torno do tema da maternidade.
o seu “fil rouge”, o continente agregador dos seus conteúdos. É na língua portuguesa que encontra a pátria-pai-perdido, mas também, diria com Caetano Veloso, a mátria-línguamaterna genialmente incorporada, e ainda a frátria-heterónimos-interlocutores à altura do seu diálogo interno e externo. Consegue assim não se perder do seu Self mais nuclear, e caminha para a sua subjetividade, mais integrada e coesa.
Retorna através dessa sua frátria-dramaem-gente à infância onde viveu precocemente a morte (do pai, do irmão Jorge, da pátria e da irmã Madalena), a depressão (da mãe), a loucura (da avó Dionísia). Heteronímia como forma de dar nome ao terror e não sucumbir ao terror sem nome, à morte, à depressão, à loucura, vivenciados tão precocemente… Podemos com Celeste imaginar que, se tivesse vivido mais anos, “Pessoa estava pronto para escrever Pessoa” como diz Zenith. Talvez então bastasse a Pessoa o que Fernando é, ou bastasse a Fernando o Pessoa que nele habita.
Como molduras organizadoras da sua análise, Celeste lança mão de vários autores psicanalíticos, como Fairbairn para a esquizoidia da personalidade de Fernando, o modelo de Bion da busca do conhecimento e o espaço transicional de Winnicott, com a sua dimensão lúdica de criatividade e de espaço potencial de relação. Ocorre-me ainda um outro autor contemporâneo e caro à psicanálise da criança e do adolescente, a quem também dei a mão caminhando com Celeste na Floresta do Alheamento. A conceptualização de Antonino Ferro reúne, como Celeste propõe, tanto o modelo do conhecimento de Bion, como o de Winnicott ligado aqui, através do casal Baranger, ao campo analítico. O terceiro pilar, Ferro traz justamente da teoria literária: a ciência da narratologia. Considera um instrumento valioso para a psicanálise, na medida em que permite pensar os personagens na sessão. Celeste parece caminhar nesta linha “ferroniana”, ao criar com Fernando um campo analítico onde os poemas-heterónimos conectados ao diarístico-intimista Livro do Desassossego, surgem como personagens na sessão, interligando os três vértices propostos por Ferro: a realidade histórica (dados biográficos), o mundo dos objetos internos (heteronímia) e o campo do par analítico (diálogo criado entre Celeste e Fernando). A obra de Fernando e a obra de Celeste, constituem-se portanto na narrativa intersubjetiva da dupla, nem da Celeste, nem do Pessoa, residindo a sua originalidade na criação deste espaço transicional e potencial de diálogo e transformação: o livro constitui-se no campo da narratividade da dupla. Fernando brinca com as palavras e sente com a imaginação. Celeste propôs-se à moda de Antonino Ferro, brincar com a imaginação, com os “hologramas afetivos do par analítico” (Pieta em O Menino da Sua Mãe, p.151) e levar-nos nesta aventura criativa e original de entabular um diálogo com um dos génios maiores da língua portuguesa.
Celeste revela-nos o NÃO-SER em Caeiro, o SER-PARA-A-MORTE em Reis, o SER-TUDO-E-NADA-INFINITAMENTE em Campos, até chegar ao núcleo do Self mais integrado em Pessoa ortónimo. Na sua travessia busca o SER-EM-RELAÇÃO, através deste riquíssimo DIÁLOGO IMPROVÁVEL, que torna bem provável pela sua enorme maturidade psicanalítica. Consegue sonhar Fernando Pessoa neste “waking-dream-thought”, como nos diz Ferro - a continuidade analítica de poder sonhar acordada os analisandos -, sem simplificar o complexo, mas suportando o negativo, o mistério, o enigma. Freud, já em 1900, no ano da sua descoberta dos sonhos, nos falava do “umbigo do sonho”, “esse ponto onde o sonho é insondável, onde se interrompe o sentido ou toda a possibilidade de sentido”, usando para tal a palavra umbigo, a cicatriz que todos os humanos carregam da relação originária mãe-filho.
Todos os psicanalistas sabem bem que “quando se sofreu muito na vida, cada dor é simultaneamente insuportável e insignificante”6. Celeste sabe bem que foi este alheamento e niilismo, que FP transformou num milagre estético, convocando em nós lugares oníricos e despertando intensas experiências emocionais, desassossegando-nos… Essa ressonância afetiva caracteriza o que há de mais supremo na criação e na arte. Ele sente literariamente. Nós temos a sua obra para sentir. Para gozarmos na “sua linguagem poética esses estados de alma dolorosos” que ele como ninguém traduz e que nós tão bem conhecemos.
Celeste ensina-nos o caminho do desassossego ao sossego que uma maior integração traz. Pessoa foi transformado pela leitura de Celeste. Celeste transformou-se na sua criação de Pessoa. E nós leitores, em diálogo triangulado com os dois, saímos certamente transformados e enriquecidos. Caminhemos então com Celeste do alheamento à sua mensagem.
(2003). A Vida de Pi. Lisboa: Difel