Virginia Ungar, presidente eleita da Associação Internacional de Psicanálise, apresentou em Boston, na quadragésima nona conferência da IPA, este interessante e corajoso texto, que implicitamente contém uma visão global do trabalho psicanalítico da comunidade científica na atualidade.
Partindo da conceptualização da “ferramenta de trabalho” do psicanalista e suas implicações evolutivas, Virginia Ungar nunca perde de vista uma preocupação central: estaremos nós a promover a adequada preparação aos analistas para melhor exercerem a sua atividade? E que ferramentas lhes proporcionamos? E estão estas ao serviço de quem? Essencialmente dos pacientes, também por vezes das instituições, ou mesmo dos próprios analistas?
A suposta ferramenta de trabalho do psicanalista diferencia-se do conhecimento adquirido, da sua personalidade e experiência de vida, da sua análise pessoal e supervisões, das especificidades da sua formação inicial ou contínua e mesmo até do contexto histórico-social em que os colegas se encontram. Essa ferramenta integra certamente estas componentes, porém, não se confunde com qualquer uma delas.
Através deste harmonioso e complexo texto, percebemos claramente como o uso do ato interpretativo se tem constituído como uma das ferramentas mestres, que tem de fato, evoluído nos tempos recentes, em que o objectivo último não é mais o de produzir um insight direto, mas sim o de facilitar o funcionamento psíquico no paciente que o auxilie no alcance do insight, criando associações que tornem possível ultrapassar a resistência, e flexibilizar o contacto estimulante e criativo.
De forma brilhante, o desenvolvimento deste artigo concebe as influências das evoluções socioculturais (a que a todos
Psicanalista. Membro titular com funções didáticas da Sociedade Portuguesa de Psicanálise e da International Psychoanalytical Association (IPA). Presidente da Sociedade Portuguesa de Psicanálise. e-mail: raragao20@gmail.com
os psicanalistas estão inevitavelmente expostos), realçando como nos deslocámos da posição autoritária (marcadamente influenciada pela postura médica mais tradicional), que subentendia a submissão do paciente, para uma posição atual onde o paciente surge mais exigente, com opções e voz própria. Mas expõe igualmente, de forma mais pormenorizada, a expressão evolutiva da ferramenta privilegiada do psicanalista quando exerce o ato interpretativo: relembrando como temos conseguido integrar o modelo dito “arqueológico” de um Freud mais clássico, com a “tradução kleiniana” dos anos 50, 60 e 70, para dar igualmente lugar ao modelo interpretativo transformacional tão valorizado na atualidade.
Virginia Ungar mostra-nos como estes modelos interpretativos estão interligados, colocando o psicanalista de hoje num lugar mais exigente e complexo. Sem nunca desvalorizar as “ferramentas externas” do setting e regras básicas da psicanálise, assinala a emergência da “ferramenta interna” para o exercício da função psicanalítica, que se estrutura na relação do analista com o seu próprio mundo inconsciente. Assinala ainda os novos desafios com que a formação analítica se confronta.
Na atividade clínica todos temos sentido o declínio da predominância da repressão, para agora se imporem os mecanismos de clivagem e negação como processos defensivos mais relevantes. Torna-se, de fato, difícil não nos apercebermos destas alterações a que as mudanças socioculturais, com a omnipotência da tecnologia ou com a permanente atitude sedutora e de conquista pela novidade estonteante, influenciam na forma como o paciente se apresenta, mas igualmente como nós próprios nos posicionamos desde o início. Este trabalho assinala também a presença de ideologia vigente na construção da ferramenta do psicanalista, que a ela deve estar bem atento, numa atitude permanente de questionamento, que é bem cara à investigação psicanalítica. Foi aliás esta atitude que permitiu a criação da psicanálise: perante a prática clínica surgiu a investigação e a descoberta de novos conceitos, que determinam a forma como observamos, como compreendemos, como nos colocamos e o que proporcionamos aos pacientes que nos procuram. O paciente fala livremente em associação livre, mas é ao analista que cabe dar sentido ao que escuta.
São então as condições internas do analista que, no exercício da função analítica, num tempo e espaço próprio, ritmado, têm implicações em diferentes níveis do envolvimento emocional de ambos os intervenientes São então as condições internas do analista que, no exercício da função analítica – num tempo e espaço próprio, ritmado – têm implicações em diferentes níveis do envolvimento emocional de ambos os intervenientes do diálogo analítico (paciente e analista); o que implica intimidade, proximidade, espontaneidade, intensidade emocional e autenticidade, para que assim o paciente encontre na relação analítica o lugar onde a construção da sua noção de intimidade possa ter lugar.
Numa atitude corajosa, Virginia Ungar revela-nos um pouco do seu percurso pessoal, apresentando duas vinhetas clínicas, que demonstram exemplarmente a evolução da técnica, que mais do que o profundo conhecimento do funcionamento mental, revelam um outro lugar que atribuímos ao paciente, à sua formulação e alteridade, bem como à utilidade que atribuímos às nossas ferramentas psicanalíticas.
Só uma Psicanalista tão abrangente e experiente poderia conceber um texto aparentemente simples, mas de consequências vastas, que nos permite refletir sobre a psicanálise e sobretudo sobre a nossa própria evolução como analistas – o nosso agradecimento à autora por assim nos ajudar nesta difícil e interminável tarefa!