A partir do exame de vinhetas extraídas do trabalho analítico com um paciente com manifestações somáticas, a autora traz algumas reflexões sobre a importância da contratransferência como instrumento essencial, e às vezes único, de acesso a ansiedades silenciosas e não-visíveis da análise desses pacientes. O trabalho procura demonstrar como os conflitos pré-verbais ou infra-verbais desses pacientes, não simbolizados e, não raro, não simbolizáveis por estarem inscritos na memória implícita, só podem ser compreendidos na sessão analítica pela bússola da contratransferência do analista.
Trabalho apresentado na I Jornada de Psicossomática Psicanálitica da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo, 30 de outubro e 01 de novembro de 2014.
Artigo recebido a 2/11/2015 e aceite para publicação em 22/03/2016
Membro Efetivo da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo. Coordenadora do Grupo de Estudos sobre as Relações Mente-Corpo da SBPSP. Mestre em Psicologia Clínica pela PUCSP.
“It matters not how strait the gate, How charged with punishments the scroll, I am the master of my fate, I am the captain of my soul.”
William Ernest Henley, Invictus, 1875
Neste trabalho procurarei abordar alguns aspectos da contratransferência na análise de pacientes com manifestações somáticas e sua importância na compreensão de conteúdos psíquicos primitivos desses analisandos.
No conselho “f” de seu artigo “Conselhos ao médico no tratamento psicanalítico” de 1912, Freud destacou a função da mente do analista como órgão receptor e processador das projeções do paciente, devendo aquele utilizar tudo o que lhe é fornecido na sessão. Havia já a ênfase clara de que o psiquismo do analista seria não só um decodificador, mas um aparelho de reconstrução do psiquismo do paciente.
No artigo de 1912, Freud já nos alertava a respeito da contrapartida da “regra psicanalítica fundamental”:
[…] o médico haverá de colocar-se em situação de utilizar, para a interpretação e o descobrimento do inconsciente oculto, tudo o que o paciente lhe fornece, sem substituir com sua própria censura a seleção a que o enfermo renunciou. Ou dito em uma fórmula: Deve orientar ao inconsciente emissor do sujeito seu próprio inconsciente, como órgão receptor, comportando-se com respeito ao analisado com o receptor do telefone com respeito ao emissor.
E prossegue:
Como o receptor transforma de novo em ondas sonoras as oscilações elétricas provocadas pelas ondas emitidas, assim também o psiquismo inconsciente do médico está capacitado para reconstruir, com os produtos do inconsciente que lhe são comunicados, este inconsciente mesmo que determinou as ocorrências do sujeito (p.1657).
Essa elaboração dos conteúdos na sessão, como sabemos, se dá, sobretudo, via a compreensão e o uso instrumental da contratransferência.
Talvez possamos dizer que, no tocante à abordagem da contratransferência, além do caráter de comunicação, esse elemento de reconstrução tenha sido um dos principais focos de autores como Green, Grinberg, Heimann, Winnicott e tantos outros.
Em “Orientações para uma psicanálise contemporânea” (2002), Green aponta para a importância da observação da contratransferência:
“É justamente nesses casos (nos estados-limite) que a contratransferência do analista deve estar alerta e desvelar, por uma receptividade hipersensível, os traços deixados por tais experiências na infância.” (p. 85)
“Receptividade sensível”, verdadeira bússola no processo analítico, ela se mostra tão mais importante quanto mais desintegrados ou não-integrados forem os conteúdos inconscientes.
Em seu artigo “Ódio na
contratransferência“, Winnicott (2000), nos leva a ver de maneira clara a influência, na relação analítica, das fantasias, imagens, sentimentos e sensações do analista, despertados pelo seu paciente. Essa influência é vital, e sem o adequado reconhecimento desses fenômenos, eles não só tenderão a atrapalhar o processo analítico, mas também não poderão ser utilizados como instrumento de compreensão. Nesse mesmo artigo, Winnicott ressalta que: ”Fenômenos contratransferenciais representarão, em certos momentos, o elemento central da análise.“ (p. 278)
Nos pacientes que se apresentam muito pouco integrados – por uma parada no desenvolvimento, devido à regressão a estágios primitivos, ou a ambos os fatores – há uma lacuna, um vácuo até, entre os níveis pré-verbal e verbal, ou entre a representação de coisa e a representação de palavra.
A alexitimia – ‘sem palavras para as emoções’ –, ou o pensamento operatório , é frequente nas patologias graves como a dos pacientes psicossomáticos, nos quais há a impossibilidade de utilizar a linguagem verbal, simbólica, para pensar pensamentos e expressar angústia. Porque, ou não há simbolização, ou ela é insuficiente.
São os pacientes que, devido a traumas precoces, por causa da perda do objeto não suficientemente suportada pelo ambiente, por uma ausência do que Winnicott (1956/2000) cunhou de preocupação materna primária, vão apresentando mais e mais desorganizações progressivas.
Assim refere-se Marty à etiologia das desorganizações progressivas:
Para realçar o ponto de vista etiológico, mais amplamente do que através do número limitado de investigações que oferecemos, e para tornar mais viva a teoria, é tentador desenhar um quadro (forçosamente aproximado e, com certeza, reduzido à nossa experiência atual) dos traumatismos desorganizadores do aparelho mental, dos quais um grande número pode ser considerado sob o ângulo da perda objetal pura, do luto não elaborado (p. 52; g.n.).
Tais analisandos, justamente por causa da não existência ou da fragilidade e debilidade dos elos entre essas dimensões do self, pouco ou nada conseguem simbolizar e, portanto, comunicar verbalmente sobre suas experiências emocionais.
McDougall (1996) aponta a importância do verbal (simbólico) ao dizer que “as palavras são os diques mais eficazes para controlar a energia vinculada às pulsões e aos fantasmas originais” e que quando há falhas na simbolização, uma das saídas para a angústia é o recurso a respostas somáticas. Nessas patologias, os elos, ou se romperam, ou não foram construídos, ficando para o analista a tarefa de ajudar o paciente a edificar pontes possíveis (p. 114).
Mas como? Como estabelecer ligações entre universos de ordens distintas, em que um não tem conhecimento do outro? Como fica a ‘cura pela palavra’ na dimensão do mudo e do indizível?
É nesses casos que a importância do uso instrumental da contratransferência fica mais evidente. Observarmos nossas reações contratransferenciais, sobretudo somáticas procedentes do nosso próprio corpo que fala, específicas a cada momento, com cada paciente, é algo que pode iluminar o escuro caminho que é o caminho sem símbolos.
Nos pacientes somáticos, observo que a contratransferência despertada costuma ser muito “ruidosa”, às vezes incômoda, por ser expressa por sensações e impressões localizadas no corpo do analista. Tal contratransferência requer maior ou menor decodificação – ou mesmo codificação – dependendo do grau de desorganização e/ou de não-organização dos fragmentos e conteúdos psíquicos.
Tais diferenças provocam reações contratransferenciais diversas e implicam um uso diferente desse importante instrumento, como também diferentes tipos de interpretação.
No meu trabalho com tais pacientes, observo ainda que, quanto maior o número de conteúdos não-integrados, mais construção exigirá do trabalho analítico.
O paciente a quem chamarei de Maurício procurou análise porque passava por grande sofrimento devido aos percalços de uma separação conjugal muito difícil.
Porém, seu sofrimento não se traduzia em palavras. Ao contrário, uma de suas queixas era não conseguir expressar o que sentia. Só conseguia falar de sensações, não de pensamentos e só muito raramente de sentimentos, e ainda assim, sentimentos vagos e dispersos não associados a fantasias ou a situações da sua vida, como se essas impressões não pertencessem a ele. Quase uma alexitimia.
No início de sua análise, as sensações e sintomas que mais reportava eram dor no
peito, enjôo, tontura, diarréia e uma enorme dificuldade para sair da cama ao acordar todas as manhãs. Dizia sentir-se muito mal dentro do próprio corpo.
Profissional destacado em sua área, quando o assunto era sua separação, tornava-se um menino assustado e medroso. Ficava perplexo frente à própria indecisão, ao mesmo tempo que esperava de mim respostas e soluções. Dizia ter medo, muito medo, sem saber a razão, ou de onde vinha.
No entanto, eu também me via muitas vezes sem palavras. Momentos de paralisia analítica; uma sensação de que, ou minhas palavras eram inúteis e estéreis, ou que eu simplesmente não tinha o que falar - algo estranho para mim, pois usualmente me vejo com uma analista atuante nas sessões. E era mais uma sensação do que uma idéia ou um pensamento.
Deparava-me constantemente intrigada sobre o que aquele corpo estava querendo dizer que a mente não podia pensar.
O que a separação poderia estar ativando, ou reativando, naquele ser mais corpóreo que mental? Parecia óbvio que a separação estimulava fantasias de perda e abandono, mas por que não podiam ser mentalizadas?
Fui convidando-o a pensar sobre os seus sintomas e sensações, coisa que para ele não fazia o menor sentido o que, aliás, parece ser uma das características do paciente com manifestações somáticas.
Para esse tipo de paciente, o corpo é uma verdadeira incógnita e suas expressões são absolutamente desvinculadas dos pensamentos. Corpo e mente são dois universos distintos que não “conversam” entre si. O pensamento de cunho operatório (Marty et al, 2003) é dirigido somente à dimensão da ação, do agir e do fazer.
Nisso Maurício era ótimo. Quando se tratava de coisas concretas e objetivas surgia a sua inteligência brilhante. Era um homem arguto de conclusões rápidas e precisas.
Mas esse homem tão inteligente, culto e de pensamento lógico fácil, não sonhava e não devaneava. Parecia ter um mundo de fantasia pobre, árido e frio. Não que ele fosse frio e distante. Era afetuoso comigo e com as pessoas em geral mas, no entanto, algo me anunciava um congelamento. Havia um “não-sei-o-quê”, como que uma região ilhada no seu psiquismo, à qual não se tinha acesso, não existia estrada construída, ou sequer pavimentada.
Inúmeras vezes, durante as sessões, uma imagem ocupava minha mente. Surgia “do nada”, sem eu “saber a razão, ou de onde vinha”. Impressão similar à do meu paciente em relação a seus medos…
A imagem era do Mont Saint-Michel na França.
Há muitos anos estive em Mont Saint-Michel, um santuário construído na Normandia no séc. XIII, local de encontro dos Cruzados.
Vários elementos estão presentes nessa minha associação.
Estive lá com pessoas muito queridas na época e que por essas coisas do destino – ou fado – precisei me afastar. Pessoas que desfrutaram da minha amizade e lealdade, mas que se provaram, com o tempo, não merecedoras do meu afeto. Ocorreram várias situações que fizeram me sentir traída e desconsiderada.
Com muita dor no coração acabei por ter de me submeter a um luto lento e sofrido.
Quais seriam a traição e o luto que Maurício não podia pensar, mas apenas sentir no seu corpo e que me fazia pensar por ele?
Dada a miríade de sintomas – e sintomas primitivos principalmente da ordem do oral e pré-oral – não podia ser algo “recente”, mas apenas reativado pela separação pela qual passava.
Outro elemento presente na minha imagem dizia respeito ao fato que com Maurício eu me sentia às vezes numa verdadeira Cruzada.
Os analistas que tratam de pacientes somáticos sabem o que isso quer dizer e se sentem muitas vezes dessa maneira. Parece que temos de fazer uma verdadeira “pregação”. Como se tivéssemos de convencê-los que eles têm mente, psiquismo e, por conseguinte, dor psíquica. E que, na verdade, a dor física ocupa o lugar da dor psíquica ainda não constituída como tal, ou alijada no corpo.
Há nesses pacientes uma resistência feroz e velada às interpretações mais profundas. Faz-se necessário todo um trabalho “preliminar” de sensibilização ao psico-emocional.
Ademais, as interpretações são sentidas como algo perigoso, pois encerram uma necessidade de mudança.
McDougall (1996) resume a forte resistência encontrada no trabalho com esses pacientes.
A resistência à mudança psíquica é muito forte porque esses analisandos estão convencidos de que a mudança só pode ser-lhes desfavorável. Sua força de inércia é a única proteção de que dispõem contra um retorno traumático insuportável e inexprimível (p.103).
Maurício não “via” a ligação entre o material trazido por ele, constituído principalmente por sintomas e sensações, e as interpretações. Não podia enxergar porque não tinha lente adequada e porque lhe era perigoso se aventurar por sítios emocionais.
O terceiro elemento presente na minha associação tinha a ver com algo peculiar e que é o que atrai as pessoas ao Mont Saint-Michel.
Uma vez por mês, na lua cheia, durante a maré alta, as águas cobrem totalmente o acesso ao santuário. É uma visão impressionante, a maré subindo rapidamente mais de treze metros, deixando todo o monte completamente inacessível por horas. A força das águas e a velocidade com que sobem é tão grande que, por momentos, temos a impressão de que ficaremos ilhados para sempre. Ao baixar da maré tudo volta ao normal, quando então é possível sair do Monte a pé.
Não raro, eu me sentia assim na sessão com esse meu paciente. De repente, não havia mais acesso e, ou não chegávamos, ou não conseguíamos sair.
Frequentemente, ficávamos ilhados nas palavras: ou nada significavam e não chegavam a lugar algum, ou provocavam uma inundação. Nessas ocasiões, Maurício ficava tonto, não conseguia pensar, absorver minhas palavras, ou fazer uso produtivo delas.
Sentia-me sempre no fio da navalha. Se eu interpretasse ‘pouco’, corria o risco de ficar no concreto, se interpretasse ‘muito’, podia provocar uma inundação, ou uma invasão.
Contudo, seu corpo enunciava uma profusão de palavras não ditas e não pensadas e, à medida que a análise avançava, mais e mais sensações e sintomas apareciam na sala. Pernas agitadas, tiques no rosto, sobretudo na boca, mãos que suavam e tamborilavam.
Toda uma história parecia estar sendo encenada.
Maurício não se deitava no divã, o que me trazia mais dificuldades para pensar analiticamente e manter a minha atenção flutuando.
À maneira de outros pacientes somáticos, o meu paciente precisava de contato visual. Esses pacientes se sentem desconfortáveis deitados. Não tanto por sentirem não poder controlar o analista, mas porque sentem que perdem a referência do olhar e de nossas reações. “Se eu não enxergo fico surdo e me perco”, me dizia um paciente; “se não te vejo, fico desnorteado”, me dizia outro.
Diferentemente do paciente psicótico que requisita da mente do analista o preenchimento de verdadeiras lacunas estruturais do seu psiquismo, quer por falta de registros mnêmicos, quer pela preponderância do processo primário esvaziador, o paciente somático requer sucessivas elaborações e traduções de seus registros emocionais em direção a construções mentais. Na verdade, talvez o mais adequado seria dizer registros corporais em vez de registros emocionais. A memória dos pacientes somáticos é corporal.
Para Maurício poder ter contato visual era fundamental. Manter-me no seu “horizonte” era sentido como garantia de que eu estava lá e não iria desaparecer.
Gradativamente, o paciente começa a falar de si e de sua trágica história. Começa por falar de algo sabido racionalmente, mas não lembrado.
Conta que perdeu a mãe e um irmão num acidente de carro quando tinha 4 anos. Era o mais novo de todos. Ele e outros dois irmãos mais velhos também estavam no carro no momento do acidente.
A partir daí sua vida mudou radicalmente. Até então morava com a mãe e os irmãos – filhos do primeiro casamento da mãe que, na época, já estava separada do segundo marido, pai de Maurício.
Devido à morte da mãe, os irmãos foram morar com o pai (primeiro marido da mãe) e ele foi morar com seu próprio pai. Tripla perda: perde a mãe e um irmão no acidente, e também os outros dois irmãos ficando anos sem vê-los.
Além das perdas, o paciente viu-se de uma hora para outra à mercê do pai e de suas agressões. Homem violento, não aceitava ser contrariado e submetia o filho a várias humilhações na frente dos amigos. Parece que quem o salvou foi a segunda esposa do pai – a quem chama de mãe – que o acolheu com carinho e amor e que, estando Mauricio já na idade adulta, acabou por se separar do marido violento.
Todavia, no início da análise, todo esse material era apenas uma construção intelectual, sem âncora emocional. Ele o sabia, mas não o sentia. E não se lembrava de absolutamente nada.
Sua vida no começo da análise estava um caos. Estava se esforçando para se separar de uma mulher “totalmente desequilibrada”, que tinha repentes de fúria e descontrole. Durante anos tentou se adaptar aos seus excessos, abdicando da vida própria, de amigos, parentes, e de todo e qualquer relacionamento social, para “não arrumar confusão” e não irritá-la.
Esse casamento havia começado com uma ‘promessa’: a de que iriam curar as feridas um do outro e que jamais passariam, outra
vez, por uma situação de perda, abandono e transbordamento de angústia. Um pacto silencioso, encriptado em suas mentes.
Maurício queria salvar e ser salvo. A esposa também havia vivido situações extremamente penosas de perda e abandono. Tiveram uma filha que enquanto era bebê confirmava a fantasia de fusão familiar.
Com o tempo, com o crescimento da filha e com as demandas da realidade, o equilíbrio narcísico e idealizado passou a ruir. O pacto de sangue transformou-se de claustrofilia em claustrofobia. Quanto mais tentava se afastar dessa relação violenta, mais violência provocava na então esposa, o que estimulava no paciente sentimentos de dúvida, culpa e de derrota sobre se deveria ou não prosseguir no seu intento de se separar.
O conflito e as “surpresas” desagradáveis, como ser ameaçado e perseguido, eram tão grandes que, em poucos meses, Mauricio perdeu mais de dez quilos e adoeceu várias vezes.
A culpa advinha, sobretudo, por sentir-se abandonando a filha. Transformava querer se separar em estar abandonando.
Fazia análise todos os dias e várias vezes me dizia não querer ir embora. Dizia se sentir protegido e acolhido no meu consultório, e que tinha vontade de ficar parado e que o mundo também parasse. Essas falas eram acompanhadas de uma postura encolhida, fetal, muitas vezes acompanhada de dor de estômago.
Contudo, Maurício apesar de sufocado, sentia-se submetido e paralisado, fadado a repetir um passado desconhecido para ele. Submetia-se à violência de uma relação desde que não corresse o risco de nova perda.
Subjugado pelas Moiras4, Mauricio não conseguia fazer seu destino. Sujeitava-se ao fado.
Assim McDougall (1997), expandindo Bollas , diferencia fado de destino:
O ‘fado’ é definido pela maioria dos dicionários como aquilo que é inexorável ou irrevogável. Frequentemente, revela-se por intermédio de oráculos e declarações proféticas – em outras palavras, o fado depende, em larga medida, de pronunciamentos verbais. O ‘destino’, por outro lado, implica um potencial, sugerindo ação iniciada pelo indivíduo mais do que palavras impostas de fora. Como diz Bollas ‘quem for afortunado pode cumprir seu destino’. […] Mauriac , em Vie de Racine, escreve que ‘todos nós tecemos o nosso próprio destino; puxamo-lo de dentro de nós como a aranha faz com sua teia’ (p. 129).
Eu sentia, mais do que percebia, que a análise naquele momento se assemelhava ao jogo “ligue os pontos” e precisava ser voltada, sobretudo, a construir elos e reconstruir outros perdidos, sem o que Mauricio não construiria seu destino, ficando fadado a repetições.
Durante as crises explosivas e destrutivas da esposa, Mauricio descrevia sensações como se entrasse num estado hipnótico. Um terror se apoderava dele, daí a inércia e paralisia. Aos poucos foi ficando claro que o seu temor se relacionava ao medo de que ocorresse uma grande tragédia caso, não só reagisse, mas se se mexesse; sentia que não podia esboçar o menor movimento.
À medida que vamos trabalhando suas sensações e sintomas, sonhos começam a ser sonhados e lembranças passam a surgir, porém, ainda desvinculadas de sentimentos.
Uma primeira lembrança diz respeito à casa em que morou depois que a mãe morreu. Descreve a sala, a janela e os móveis. A maneira como o faz na sessão, me faz pensar em alguém estranho que entra num ambiente pela primeira vez.
Digo isso a ele e Mauricio, surpreso, me responde: “Mas é mesmo, até os móveis parecem grandes! Sabe quando uma criança pequena entra numa casa desconhecida e é uma ‘mesona’, cadeiras grandes, tudo parece maior do que é na realidade, tudo chama a atenção? E lembrar disso, não sei porque, me dá um tremendo alívio”, diz colocando a mão no peito.
Digo a ele que ele estava podendo começar a entrar na sua morada – a interna – como quem entra numa casa pela primeira vez. Tudo parece grande e desconhecido, mas lá ele encontra lembranças, sensações, afetos, experiências, seu passado… E é isso que traz alívio, o poder conhecer e reconhecer. Poder construir-se e resgatar-se.
Numa outra sessão, diz ter se lembrado do cachorro que tinha quando pequeno. Era um cachorro que adorava tendo-o ganhado da “nova” mãe, em relação a quem foi aparecendo muita gratidão durante o trabalho analítico.
Num outro momento traz um sonho: havia uma menina pequena – como a sua filha – andando pela casa. A casa era a que morou com sua mãe antes do acidente. A menina passeava, olhando as coisas, reconhecendo objetos.
Muito lentamente as sensações do corpo passam a ser mentalizadas. Mauricio não só começa a descrevê-las, como elas passam a dar lugar a sentimentos e pensamentos que podem ser verbalizados.
A meu ver tais conteúdos não são propriamente conteúdos reprimidos que,
Na literatura grega as três Moiras determinavam o destino de todos os homens, fixando desde o nascimento a duração da vida e seu curso mediante um fio que uma delas fiava, outra enrolava e a terceira cortava quando chegava a hora pré-fixada para a morte. (Kury, p. 270).
com a análise, passam a ser passíveis de conscientização. São significantes que passam a ser construídos, construção essa solicitada em grande parte via contratransferência.
O colapso da capacidade de simbolização de Maurício devido à situação extremamente estressante que vivia – separação conjugal traumática de um casamento também traumático e que naufragava – fazia com que fossem reativadas outras situações traumáticas que havia experenciado em tenra idade.
A morte da mãe, as várias perdas posteriores, a violência revivida com o pai pareciam não ter representações. Tudo isso, aliado ao inopinado e à intensidade de suas manifestações somáticas, me fez levantar a hipótese de que outras situações graves, mais primitivas ainda, também não estavam representadas. Sua mãe havia se separado, devido à violência do pai. Era mais uma história sabida e não lembrada.
Mas o que não está na memória explícita não pode ser simbolizado, não está inscrito em palavras e, portanto, não pode ser lembrado.
É também importante reconhecer que esses significantes iniciais (os pré-verbais) não podem ser recalcados do modo como o recalque é definido por Freud : isto é, um mecanismo psíquico que mantém no inconsciente representações que estão ligadas a pulsões por meio dos pensamentos e das recordações verbais. Uma vez que as recordações pré-verbais não podem ser manejadas da mesma maneira, sua força dinâmica corre o risco perpétuo de encontrar saída pela repentina irrupção, sob a forma de vivências alucinatórias ou de explosão somática (p.173).
Suas “explosões somáticas” eram seu corpo expressando o que sua mente não podia, ou ao menos, não sabia pensar. E, dramático, mesmo quando ameaçado, seu corpo só podia reagir com o mecanismo de fuga. Qualquer movimento, ou mudança, era perigoso. Com isso, oferecia-se a manipulações e tortura.
Roussillon (2015) diz que quando o ambiente é rígido e há uma imposição do meio ambiente e quando este não atende as necessidades do bebê, o bebê se retira do objeto para um bunker interno.
Poderíamos acrescentar que, nesses casos, o bebê vai desenvolvendo um modo de funcionamento baseado no trauma, em que está sempre, ou pronto para atacar, a fim de defender sua sobrevivência psíquica, como vemos depois nos comportamentos anti-sociais, ou pronto para se recolher, para se refugiar e se encapsular, como nas psicoses e patologias bordeline, ou mesmo pronto a se auto-atacar ou se desintegrar, como nas somatizações e doenças psicossomáticas.
Muitas das reações ao trauma precoce – lembremos que Winnicott nos ensina que “naturalmente são as reações às intrusões que contam, não as intrusões em si mesmas” – não serão nunca “lembradas”, ou, às vezes, sequer pré-simbolizadas e portanto elaboradas psiquicamente, a ponto de poderem chegar à consciência, por fazerem parte da memória implícita ou de procedimento. São experiências do psicossoma, experiências sensoriais e motoras que não passam de representações de coisa, e que constituem fantasias NO corpo e não sobre o corpo (Gadinni, apud Rouco, 2015). Tais representações, para usar a terminologia freudiana, não serão passadas, evoluídas a representações de palavra.
Tal indivíduo, cujo pré-consciente é pouco espesso, nos quais há uma falha na sua constituição, isto é, um pré-consciente com cadeia de representações e associações pobre, , apresenta dificuldade de fantasiar e sonhar, associações pobres ou ausentes, dificuldade de se relacionar afetivamente. É o paciente que vem à sessão para nos contar aspectos de sua vida cotidiana – o paciente-repórter – e não para falar de si, dos seus pensamentos e sofrimentos. Observamos na clínica que é um indivíduo não individuado, indivíduo sem autonomia (capacidade de estar só).
De acordo com Marty e M'Uzan são os indivíduos – cujo pensamento definiram como de pensamento operatório - na gradação máxima, digamos. Pacientes com pensamento operatório não têm noção da alteridade, pois destruíram a alteridade.
Com o desenrolar da análise, foram ficando claros também os conteúdos associados à culpa de Maurício.
Sentia-se abandonando e capitulando, e o extremo desconforto – que chegava a lhe provocar enjôos quando conversávamos sobre isso – estava localizado principalmente na filha. A filha tinha na época a mesma idade que ele quando sua mãe morreu. Ele se identificava projetivamente na filha: colocava na filha seus sentimentos de abandono e traição que havia sentido em relação à própria mãe com a morte desta. Agora era a filha que se sentiria abandonada e traída por ele.
Porém, níveis mais profundos da culpa surgiram: ele se sentia culpado porque não conseguiu salvar a mãe. Culpado por ter sobrevivido. E culpado por ter raiva dela por ela ter morrido e tê-lo, assim, traído e abandonado.
Com pacientes com manifestações somáticas, a contratransferência é, muitas vezes, o nosso fio de Ariadne.
Percorremos seus labirintos, sem saber os segredos da sua comunicação não-verbal encerrada num tempo mítico no qual não há representações, símbolos, ou palavras.
O que nos resta, não raro, é ouvir a nós mesmos, utilizar as nossas sensações, impressões e associações despertadas por um corpo que fala por meio do seu sofrimento, e que ao longo de toda uma vida só encontrou ecos no desconhecido.
A contratransferência utilizada de modo ativo pelo pensamento do analista representa às vezes o único acesso a ansiedades silenciosas e não-visíveis.
ABSTRACT
When Body Speaks – The Importance of Counter-Transference in Somatic Patients' Analysis. From the examination of vignettes of a patient with somatic manifestation, the author reflects on the importance of counter-transference as an essential tool, and sometimes the only one to access silent and non- visible anxieties. The paper aims to show how the pre -verbal or infra-verbal conflicts, that are not symbolized and often, that cannot be ever symbolized, because they are stored in implicit memory, can only be understood in the analytic session by the compass of counter-transference.
KEY-WORDS
Psychoanalysis – somatization – symbolization – implicit memory.