Durante a formação analítica, onde se dá início à construção de uma identidade psicanalítica, são vários os desafios que testam a auto-estima e a coesão do self dos analistas em formação. Os candidatos são confrontados com a escassez de casos para análise para a formação cujo valor simbólico, dado o seu papel central para a qualificação como analistas, é inflacionado. Isto é particularmente saliente quando se trata de um caso referenciado pelo Instituto. No presente artigo reflectimos sobre algumas das implicações subjacentes aos casos acompanhados no âmbito de formação como as dificuldades envolvidas em processos transferenciais e contratransferenciais, os casos falhados ou prematuramente terminados, as idealizações que o candidato tem e as expectativas e pressões a que está sujeito. Outra questão que levantamos relaciona-se com os aspectos da formação geradores de uma ansiedade desestruturante promotores de um falso self analítico. Terminamos com sugestões para fomentar o ajuste construtivo entre a formação e o crescimento individual dos candidatos.
Artigo recebido a 22.11.2015 e aceite para publicação em 22.03.2016
A versão original do artigo foi apresentada no XXI Encontro Europeu da IPSO: Between Realities, Lisboa, 6-8 Novembro, 2015 e 01 de novembro de 2014.
A ideia do artigo surgiu numa sessão de supervisão em grupo por skype, na qual a discussão do tema que apresentamos contou com os contributos de dois colegas, Dra. Judit Mészáros, analista didácta da Sociedade Psicanalítica Húngara e Dr. Nuno Faleiro do Hospital Psiquiátrico Central de Lisboa. Gostaríamos de agradecer a ambos os seus contributos e o seu apoio.
Membro candidato da Sociedade Portuguesa de Psicanálise Email: teresa_abreu@hotmail.com
Membro candidato da Sociedade Portuguesa de Psicanálise; Professor assistente do ISPA – Instituto Universitário de Ciências Psicológicas Sociais e da Vida Email:
Como candidatos, somos diferentes. Une-nos, porém, o objectivo de nos tornarmos psicanalistas e o desejo de integrarmos a Comunidade Psicanalítica. Enquanto candidatos, entramos num programa de formação rigoroso, organizado a partir das normas definidas pela Associação Psicanalítica Internacional (IPA). O programa tem os seus alicerces numa psicanálise pessoal com uma frequência mínima de 3 sessões por semana com um membro da Sociedade Portuguesa de Psicanálise de experiência reconhecida e trabalho clínico e de formação comprovados, na participação em seminários teóricos e clínicos e, na supervisão semanal da análise de dois pacientes por um período não inferior a 3 anos.
Estes casos de formação são cruciais. A experiência que o candidato traz da sua análise pessoal juntamente com a experiência que adquire com os pacientes e com os supervisores durante a formação molda a sua capacidade de escuta e compreensão. Esta vivência contribui de forma decisiva para esboçar a identidade psicanalítica do candidato, não como entidade adquirida, mas como indicadora de uma direcção no trabalho (Hardt citado por Lindner, 2016).
A constituição de uma identidade psicanalítica implica uma dinâmica num contexto intersubjectivo. Num primeiro tempo, essa dinâmica, pode passar por mecanismos como a imitação e identificação com modelos, e posteriormente internalizações mais maduras que visam integrar e transformar o self do candidato num self psicanalítico coeso.
Uma das dificuldades que os candidatos encontram actualmente e que se prende com a realidade externa, é a escassez de casos de análise válidos para a formação. Por um lado, porque poucas pessoas conseguem suportar a intensidade de um processo analítico face à precária situação económica que se vive e, por outro lado, devido ao enfraquecimento da imagem da psicanálise na comunidade face a outras alternativas terapêuticas. A falta de casos de controlo psicanalítico inflaciona o seu valor. Há um sentimento partilhado entre os candidatos de que quando se tem um caso em psicanálise durante a formação, é muito importante mantê-lo, uma vez que a conclusão da formação depende dele.
Há muito em jogo. Os candidatos investem muito do seu empenho, afecto, tempo e dinheiro na formação. Profissionais experientes, enquanto candidatos, assumem o papel de aprendiz inexperiente na base da organização hierárquica das sociedades de psicanálise.
Apesar deste cenário, eventualmente o instituto envia um paciente com requisitos de analisabilidade e disponibilidade para a intensidade requerida do enquadramento analítico. É aí que, o esperançado candidato, se encontra numa situação paradoxal que Epstein (1990, p. 959) ilustra na seguinte conversa imaginária: “Esta é uma situação especial – diz o candidato ao paciente. Eu desejo evoluir na minha carreira através da
compreensão do seu caso e da conclusão da sua análise. Durante o processo eu posso vir a debater-me com um conflito entre as suas necessidades e as minhas. Posso vir a sentir a necessidade de renunciar ao meu compromisso habitual com o paciente em prol dos meus próprios interesses“. Naturalmente, nenhum candidato começa desta forma e alguns podem até nem estar inteiramente conscientes deste dilema. A caricatura de Epstein assinala com clareza a dependência que o candidato tem dos pacientes que são necessários para a validação dos casos. Little (1957) define o processo analítico como uma relação entre alguém que tem algo para oferecer e alguém que precisa de algo. Mas, nesta situação peculiar, na díade candidato-paciente, quem precisa de quem?
Desde o começo, que nas análises no âmbito da formação, a sombra de um abandono prematuro por parte do paciente paira sob a cabeça do candidato, qual espada de Dâmocles. A intuição ou a experiência acautela-o de que a perda do paciente teria um impacto devastador. O seu vulnerável, esvaziado e privado self, inundar-se-ia de uma poção venenosa de culpa, vergonha, e de inveja de outros colegas com análises a decorrer. Uma vez que, as instituições são investidas como entidades grupais e constituem um sistema de parentes extremamente sofisticado (Hennen-Wolff, S., 2016).
Segundo Glick (1996), a maioria dos candidatos tiveram pelo menos um caso “falhado”. É sempre difícil perder um paciente em análise. A falha abre uma ferida narcísica e instaura a necessidade de um luto, quer do paciente em si, quer daquilo que o paciente representa em termos de formação – um self-objecto investido narcisicamente que se integra na fantasia idealizada de se tornar um analista competente. Isto é particularmente doloroso quando o caso é do Instituto. Nessa eventualidade, o processo de reparação é dificultado quando o insucesso, pelo facto de ser comunicado ao supervisor e ao Instituto, se torna público. A dificuldade é acrescida quando os candidatos não têm espaço para partilhar e elaborar as suas vivências no contexto da formação. Consequentemente, não é de admirar que os candidatos manejem os casos da formação de forma diferente dos casos da clínica privada. O clima de necessidades cruzadas evidencia-se através de enactments gratificantes como, por exemplo, a pronta disponibilidade para remarcar a sessão caso o paciente não possa vir na hora agendada ou a abertura para reduzir os honorários mal o paciente mencione dificuldades financeiras (Goretti, 2006). Nessas situações, a flexibilidade do candidato catalisada pela sua ansiedade de perder o caso, pode privar o par analítico de explorar o significado inconsciente dessas solicitações ou outras reacções terapêuticas negativas. O impasse no processo analítico e a escalada de exigências são algumas das consequências previsíveis que podem deixar o candidato numa situação de refém difícil de solucionar.
Num estudo de Cabaniss & Roose sobre casos no âmbito da formação, um número substancial de candidatos admitiu que a necessidade de completar a formação influenciou o trabalho desenvolvido com o paciente. Trinta e nove por cento destes candidatos revelou ter evitado abordar assuntos que poderiam angustiar o paciente. Os autores concluem que “os candidatos têm interesse em manter os seus pacientes em tratamento, facto este que, compromete a sua capacidade de os analisar e impede o desenvolvimento de competências analíticas” (p. 196).
É evidente que as vicissitudes da formação analítica, tal como Granek e Neilman (1997, p. 31) referem “se intrometem, de forma flagrante, no espaço analítico” e modulam as dinâmicas transferencial e contratransferencial. Os autores chamam a atenção para o perigo de o par analítico usar o estatuto de aprendiz do candidato de uma forma defensiva para evitar conflitos subjacentes. Manter a capacidade negativa (Bion, 1970), estar em contacto com sentimentos sem ter o pensamento saturado e sem apressar a compreensão ou a interpretação não são tarefas fáceis para o candidato cuja avaliação depende do seu desempenho com o paciente. Torna-se difícil manter a atenção flutuante quando as preocupações prementes invadem a relação analítica.
A boa notícia é que os candidatos podem contar com a aliança de formação com o supervisor. Quando forte, esta aliança estimula o crescimento afectivo do supervisando num ambiente seguro, facilitador e reparador, em que se verifica uma co-construção e uma parceria com objectivos comuns. Num vínculo educativo seguro o supervisor incentiva e contém as ansiedades e a turbulência emocional do supervisando. Ajuda-o a aceitar a ambiguidade e a apreciar a necessidade de frustrar por vezes o paciente na matriz triádica de relações de objecto – supervisor, supervisando, e paciente – que permeia a totalidade do trabalho conjunto (Watkins & Scaturo cit por Watkins, 2015).
A força da aliança de formação depende de um bom ajuste supervisor-supervisando (Watkins cit. por Watkin, 2015).
A má notícia prende-se com o facto de a supervisão poder também ser uma situação geradora de ansiedade para os candidatos (Hanoch, 2006). A origem desta ansiedade encontra-se na natureza paradoxal da situação em que se espera que o candidato exponha as suas falhas e vulnerabilidades como analista em formação à mesma pessoa que vai avaliar o seu progresso (Hennen-Wolff, 2016).
A supervisão tem o potencial de se tornar numa experiência dissociativa em que o candidato é recorrentemente confrontado com a discrepância entre o seu self e o ideal de ego de vir a ser analista num determinado instituto. Esse conflito pode alimentar o desejo de crescimento e fortalecimento das competências analíticas se a distância for transponível, tal como enunciado no conceito de zona de desenvolvimento proximal de Vygotsky (1978/1930). No entanto, uma má gestão das representações de self contrastantes, i.e., o terapeuta-que-sabe e o supervisando-que-não-sabe, temperadas com expectativas irrealistas e críticas severas de um superego intolerante pode pôr à prova a auto–estima do candidato (Gill, cit. por Hanoch, 2006) e a coesão do self (Hanoch, 2006).
Um estudo da equipa de Ladany (Hanoch, 2006 por Hanoch, 2006) mostrou que 97% dos supervisandos omite dos supervisores informação como falhas clínicas, questões pessoais ou reacções negativas para com o paciente ou com o supervisor e preocupações relativas à avaliação do caso. A omissão não é a única forma de lidar com as falhas. De acordo com Fenichel (1939), o ser humano tem duas formas de lidar com a restrição de poder, pode questioná-la ou juntar-se a ela através da fantasia de fusão com a autoridade idealizada. Impelido pelo desejo narcísico de fazer parte da comunidade analítica e movido pela ansiedade de trabalhar bem analiticamente, o candidato pode remodelar-se, de forma menos reflectida, à imagem do ideal da comunidade.
Berman (2000) discorre acerca das idealizações em psicanálise e de como a expectativa de se tornar num verdadeiro analista pode contribuir para uma atmosfera paranóide nos institutos psicanalíticos e para a regressão e infantilização nos candidatos. Kernberg (1986, p. 855) alertara já para o facto de que “processos de idealização e um ambiente persecutório são praticamente universais nos institutos psicanalíticos”.
Uma forma de lidar com as imposições de uma formação rígida e ansiogénica é desenvolver um falso self analítico, que funciona como medida defensiva e compromete o desenvolvimento intrínseco de uma identidade analítica. A questão não se levanta apenas durante a formação. De acordo com Klauber (1983), durante longos anos, o psicanalista recém-formado funciona em parte com um falso self analítico.
Balint (1948, p. 167) fala sobre uma atmosfera “fortemente reminiscente das cerimónias iniciáticas primitivas, cujo objectivo é forçarem o aspirante a identificar-se com o iniciador, a introjectar o iniciador e as suas ideias e construir com base nessas identificações um superego forte”. Reencontramos a metáfora do ritual iniciático na reflexão de Zimmerman e Messias acerca do trabalho final requerido por muitos institutos como o último passo para a qualificação. Os autores comparam esta apresentação de caso decisiva a um ritual de iniciação de uma tribo africana que espera que os seus noviços imitem correctamente o seu patrono a rugir como um leão: “Saber rugir como um leão significa apresentar um trabalho que representa exactamente a marca de homologação do grupo de analistas com funções didácticas, falar e escrever na forma exacta como esperado pelo grupo que exerce o poder! O rugido do leão transforma-se numa fórmula, um modo padronizado de agir, interpretar e lidar com o paciente” (cit. por Berman, 2000, p. 49).
A escassez de pacientes de psicanálise foi o primeiro assunto que abordámos. Não se trata de um problema exclusivo dos candidatos. É um desafio para a comunidade analítica em geral. Frequentemente ouve-se falar sobre a crise da psicanálise. Como podemos enfrentar então a questão? A psicanálise, entre muitas outras coisas, é um serviço ao público. No nosso ver é um serviço excelente. Todos os psicanalistas passaram por um processo de selecção cuidadoso; fizeram necessariamente a sua análise pessoal; passaram por uma formação rigorosa e o seu trabalho foi supervisionado durante longos anos. A teoria e técnica psicanalítica assentam sobre uma experiência clínica cumulativa de mais de um século. Os psicanalistas são organizados, quer no plano nacional, quer internacionalmente em sociedades e associações que asseguram elevados padrões de profissionalismo. As evidências
objectivas sobre os benefícios duradouros da intervenção psicanalítica estão em franco crescimento na literatura científica. Porém, será que o público sabe disso? Não, o público não sabe. Os resultados preliminares de um estudo nosso sobre a imagem pública da Psicanálise em Portugal indicam que mesmo os estudantes de psicologia pouco sabem sobre a psicanálise. Se continuarmos passivos em informar o público sobre o valor distintivo da psicanálise, corremos o risco de sermos engolfados por uma miscelânea indiferenciada de profissionais, geralmente denominada como os psicólogos e, consequentemente perder a identidade psicanalítica perante o público. Congratulamos as diversas iniciativas que temos presenciado no âmbito do programa de alcance comunitário (outreach) da Sociedade Portuguesa de Psicanálise. Contudo, pensamos que o movimento de chegar ao público, para fortalecer a imagem da psicanálise, deverá assentar sobre um planeamento estratégico a longo prazo. Nesse sentido, um gabinete dedicado à comunicação e imagem poderia ser uma mais-valia. Esse gabinete, para além do planeamento poderia também monitorizar a eficácia das intervenções e fornecer feedback contínuo.
O segundo tópico abordado relaciona-se com os casos falhados. Não existe nenhuma ‘via correcta’ para se tornar psicanalista. A formação estabelece a base, porém, cada candidato tem de construir a sua identidade psicanalítica e ser suficientemente modesto para manter em mente que a construção nunca termina. Falhas e contratempos são inevitáveis, no entanto, se elaborados, os desafios ou obstáculos podem transformar-se em oportunidades de aprendizagem. Tal como muitas outras sociedades, a Sociedade Portuguesa de Psicanálise passou, nos anos que se seguiram a 2007, por uma reorganização turbulenta. As medidas tomadas desde então contribuíram para um clima, tanto na Sociedade como no Instituto, que encoraja a participação activa de todos os membros incluindo os candidatos. Em 2015, pela primeira vez, um seminário, especificamente criado para esse fim, focou os enactments e as falhas na técnica. O ambiente contentor permitiu partilhar experiências clínicas que, de outra forma seriam provavelmente omitidas. Consideramos que a participação de analistas experientes em ocasiões semelhantes e, a partilha das suas experiências, ajudará os candidatos a perceber que algumas dificuldades permanecem, independentemente da experiência acumulada, e o que daí se pode extrair.
No terceiro ponto, reflectimos sobre o possível papel da supervisão no desenvolvimento de um falso self psicanalítico. Os casos no âmbito da formação, comparados com os casos em clínica privada, são mais passíveis de uma padronização consciente ou pré-consciente do estilo analítico do candidato. Eles representam um desafio para o candidato mas também para o supervisor de reconhecer e explorar como os casos no âmbito de formação se diferenciam de análises regulares. Candidato e supervisor devem precaver-se em conjunto contra a ilusão de que se trata de uma análise comum. Ambos precisam ter em mente que o estatuto de aprendiz do candidato pode ser usado defensivamente, tanto pelo próprio candidato como pelo paciente, para evitar conflitos inconscientes e, desta forma, para impedir que a dinâmica transferencial e contratransferencial necessária se instale. Para que tal aconteça, é vital que se exista uma compatibilidade entre candidato e supervisor. As sociedades psicanalíticas mais antigas aparentam ser filiadas em correntes teóricas específicas e parecem assumir uma posição mais autoritária para com os candidatos. Essas sociedades, habitualmente, têm mais analistas com funções didácticas e são mais impermeáveis à supervisão externa. Por outro lado, as sociedades mais recentes tendem a ser mais eclécticas na sua filiação teórica e mais abertas na aceitação de supervisão externa. Em linha com a democratização dos institutos, recentemente, o nosso Instituto alterou a sua política relativamente às análises didácticas. Com a introdução da categoria de analista com funções didácticas, o número de analistas creditados para análise didáctica aumentou consideravelmente. Aplicar a mesma medida aos supervisores potencializaria a escolha de um supervisor compatível (good match). É possível imaginar alargar essa mesma medida para a comunidade internacional de analistas de formação (training analists) da IPA. As vantagens seriam múltiplas. Ter um corpo alargado de supervisores internacionais reforçaria a probabilidade de escolher um supervisor compatível, e permitiria evitar que o candidato fosse supervisionado por um analista que desempenha papéis formativos e administrativos sobrepostos no Instituto ou na Sociedade. Ter supervisão com um analista externo poderá diminuir a dependência do candidato em relação ao Instituto, i.e., uma presença menos vinculativa, e contribuir para uma comunicação mais aberta entre
os membros da comunidade analítica. Os contactos com o exterior permitiriam uma maior circulação de ideias e o fortalecimento da reflexão crítica. Naturalmente, uma medida desta natureza necessita de um conjunto de critérios transversais reconhecidos pela IPA que enquadram a supervisão inernacional. Outras medidas seriam a criação de Workshops de supervisão e a extensão da supervisão em grupo aos anos iniciais da formação. Esta forma de trabalhar permitiria a integração do conhecimento e da experiência em desenvolvimento do candidato, ser exposto a pontos de vista alternativos e dar uma perspectiva mais realista dos limites dos supervisores. Tudo isto poderia contribuir para uma integração positiva dos candidatos no instituto . Essas medidas estão em linha com Kernberg e Kluwer ( por ) quando sublinham a importância de dispersar as tensões que são mobilizadas pelas transferências e contratransferências no trabalho de supervisão individual.
Outra questão a ser abordada prende-se com o esforço financeiro implicado na formação. No sentido de criar uma realidade mais sustentável, a perpetuação do movimento psicanalítico poderia ser um esforço partilhado de todos os membros da comunidade analítica envolvidos na formação. É comum o candidato, em prol da formação, aceitar honorários baixos, no entanto e simultaneamente pagar honorários altos em supervisão e na análise didáctica. O estabelecimento de um limite máximo no valor dos honorários para a supervisão e análise didáctica contribuiria para a diminuição da assimetria regente.
Um outro ponto remeteu para a escrita do trabalho final de avaliação – a Memória – como último passo da formação analítica. Uma tarefa ansiogénica e desorganizadora que põe à prova a capacidade de resistência à frustração. A idealização do candidato sobre o que é desejado, articulada com a exigência do instituto, pode interferir com a apreciação que o analista emergente faz da elaboração da memória. Um dos resultados indesejados deste processo é a procrastinação, por vezes interminável, que impede que o candidato, avançado na sua formação, conclua finalmente e se possa enfim sentir como um analista verdadeiro, reconhecido pelos seus pares. A investigação mostra que a probabilidade de as pessoas chegarem ao fim de um processo aumenta consideravelmente se tiverem marcos no decorrer do mesmo (Sutherland, 2015). Momentos de partilha de sentimentos por vezes difíceis e inaceitáveis acerca das dificuldades na análise de formação e uma aprendizagem específica num seminário dedicado à escrita da Memória poderiam ser formas de fomentar a confiança e a criatividade nos candidatos.
Todas as medidas aqui propostas, visam contribuir para um clima facilitador que permita a todos os candidatos na sua solidão, conscientes da sua singularidade confrontar o outro sem o aniquilar e, ajudar os candidatos a descobrir a sua própria voz. Nas palavras de Garfinkle (2015, p. 70) “as possibilidades mais interessantes encontram-se no espaço que medeia entre desafio e conformidade, dependência e independência”. Uma expressão desta abertura criativa poderia ser a edição de um jornal dos candidatos, talvez num esforço europeu conjunto, à semelhança da edição americana de “O Candidato”.
É fundamental criarmos vínculos de trabalho e objetivos comuns, de modo a desenvolver formas de pertença “conjunta”. Assim como a prática da psicanálise é um processo dinâmico, também a sua transmissão deve ser.
ABSTRACT
There are several challenges that test the candidate's self-esteem and self-cohesion in training to becoming a psychoanalyst and forming one's psychoanalytic identity. Candidates face a scarcity of analytic control cases which along with their essential role in the apprenticeship and ultimate confirmation as a psychoanalyst strongly inflates their symbolic value. This is especially true if it is a patient referred by the institute. In this paper we examine some implications of control cases referred by the Institute as the dynamic pitfalls of transference and countertransference processes, the shadow of premature ending, the idealizations of the candidate and the expectations or pressures of supervisors as representative of the Institutes. The hazard of a rigid and anxiety provoking training is to develop a false analytic self. We then propose some avenues to foster a better fit between Institute training and individual growth.
KEYWORDS
Psychoanalytic training; Training cases; Supervision; Psychoanalytic identity; False self