Pedro Formigal Luzes (1927/2012) não era um homem muito breve, ao contrário do seu último depoimento.
Tratou-se de um encontro condicionado à força do ânimo e ao relâmpago de uma memória evanescente. Junho era já tarde e eram agora possíveis todas as mortes. Não foi pois a entrevista (luxuosa) que o homem e a obra requeriam. Mas o retrato breve, a breve voz possível, tem um valor histórico. Imarcescível. Porque Luzes tem um lugar próprio na Cultura Portuguesa.
Aristocrata do espírito e das relações, cosmopolita da erudição, cultivava uma afectividade miraculosa por aqueles que admirava. Costumava citar Espinosa: apenas os homens livres são muito reconhecidos uns para os outros. E assim era. Nunca fez grande alvoroço sobre os seus feitos de armas. Discreto, tímido, sibilino e de finíssimo humor, não possuía dotes especiais de oratória. Isso não o impediu, porém, de ser um mestre.
Fundou a Psicanálise em Portugal e deu-lhe lastro e reconhecimento junto dos seus pares internacionais. Sempre resistente à vulgata e ao contrabando intelectual publicou uma obra corajosa e consistente que perdurará: Cem Anos de Psicanálise (1997); Sob o Manto Diáfano do Realismo - Psicanálise de Eça de Queiroz (2001); Do Pensamento à Emoção (2004); Sigmund Freud, 150 anos depois (Org., 2006) e Ensaio sobre as Perturbações do Pensamento em Clínica Psicanalítica (1968, 2011).
Teorizador e clínico abraçou a Psicanálise como técnica do nocturno e hermenêutica da cultura. Isto é: a Psicanálise formulada como uma ética de reeducação do desejo. Permitindo a transformação do indivíduo em sujeito, ela torna-se uma disciplina emancipatória antes de ser terapêutica.
Dir-se-á que Pedro Luzes já não é deste reino e deste tempo que tudo olvida. Tempo este em que o homem trágico deu lugar ao homem comportamental, eficiente. E onde o sujeito, de novo, foi reduzido ao indivíduo. Esta operação política deu lugar, também, à crise do mestre. E só a posição de mestre permite a transferência. Daí a obrigação e a necessidade de continuarmos contemporâneos de Pedro Luzes. As palavras seguintes, crepusculares, são já o futuro anterior.
Médico e Psicanalista. Foi membro titular com funcções didáticas da Sociedade Portuguesa de Psicanálise e da International Psychoanalytical Association (IPA). Foi professor da Faculdade de Psicologa da Universidade de Lisboa. Publicou um assinalável número de livros e artigos. Foi presidente da Sociedade Portuguesa de Psicanálise.
Psicanalista, Membro Associado da Sociedade Portuguesa de Psicanálise e da Intenational Psychoanalytical Association (IPA) E-mail:
VS: Como se encontrou com a Psicanálise?
PL: O meu encontro com a Psicanálise esteve envolvido em acontecimentos de há muitos anos atrás. Eu fui aconselhado a ir para a Suíça pelo meu amigo e neurologista Diogo Furtado3 – de quem era discípulo, tal como Francisco Alvim – para me especializar “nesses novos assuntos” de que a Psicanálise fazia parte. Parti em 1955 não sabendo se estava preparado para receber um tal assunto… Antes tinha feito um estágio em Psiquiatria e uma especialização em Neurologia, no Hospital de Queen Square, em Londres. Quando regressei, o Diogo Furtado incentivou-me a explorar outros horizontes. Havia já uma tradição com Egas Moniz. Egas Moniz percebera, no seu tempo, que era preciso levar pessoas para o estrangeiro para fazerem um treino analítico.
VS: Voltando a Diogo Furtado…
PL: Diogo Furtado encontrou em Francisco Alvim e em mim próprio, duas pessoas capazes de fazerem esse percurso (…), de serem precursoras. Eu consegui uma bolsa do, à data denominado, Instituto de Altos Estudos. Com a minha ida para a Suíça eu obtinha vantagens pessoais e impessoais de estar fora e dentro – tinha, digamos assim, dois patrões.
Ah… Em todos os retratos dessa época eu estava feliz! A minha bolsa foi renovada e posteriormente obtive uma bolsa da Gulbenkian.
Digo-lhe, quando fui para a Suíça não sabia o que ia fazer efectivamente. Não sabia o que era a psicanálise mas interessava-me muito o que se estava a desenvolver como pesquisa no serviço do Professor Eric Martin em medicina psicossomática, no Hospital Cantonal de Genève.
Quando comecei a fazer a minha análise não sabia o que ia lá fazer quatro vezes por semana; não tinha uma ideia coesa do que essa fixação à análise psicológica poderia implicar. Fiz análise com Michel Gressot durante três anos. Depois continuei a minha análise com Marcelle Spira, psicanalista que tinha feito a sua preparação na Argentina, durante a guerra. Recebeu-me muito bem e estive com ela, em análise, durante seis anos. O facto de ter feito análise com Spira levou-me a tomar, progressivamente, consciência do papel que poderia vir a desempenhar neste domínio. Esta análise fez-me crer num caminho novo.
Nessa época fazia, simultaneamente, consultas de psicoterapia no Hospital Cantonal de Genève, sob a direcção de Eric Martin. Posteriormente trabalhei com o Prof. Ajuriaguerra, que foi director do Hospital Psiquiátrico de Belle-Air.
(silêncio)
Fiz a apresentação da minha candidatura à Sociedade Suíça de Psicanálise em 1959. Tive sempre a solidariedade e amizade de Raymond de Saussure, um homem encantador e um grande mestre.
A partir dessa altura passei a ver doentes em casa.
Regressei a Lisboa em 1963 para desenvolver a Psicanálise em Portugal. Depois do meu regresso comecei a ir fazer supervisões a Londres. Inscrevi-me, nos anos setenta, no curso superior de Filosofia, tornando-me assistente convidado. Fiz o doutoramento na Faculdade de Psicologia de que me tornei Professor e, no final da carreira, catedrático.
Em Portugal, encontro, pois, Francisco Alvim, João dos Santos, Mário Casimiro, Moreira da Silva e Jaime Milheiro.
A história da constituição da Sociedade Portuguesa de Psicanálise é já suficientemente conhecida, bem como a nossa relação com os espanhóis.
Neurologista, Psiquiatra, Professor Faculdade Medicina Universidade de Lisboa (1906-1964)
VS: Porque escolheu a Filosofia depois de uma formação médica e psicanalítica?
PL: Escolhi a Filosofia porque esta é a base de todas as ciências e representa a síntese do desenvolvimento científico anterior e posterior a todas as ciências e, como tal, compreende a psicanálise.
VS: O que é que os pacientes acrescentaram à sua vida?
PL: Talvez algumas fotografias, uma margem para a alegria… É claro que os pacientes acrescentaram muito à minha vida mas não é fácil de verbalizar. É como alguém que faz uma descoberta, um descobrimento, uma navegação.
VS: Alguma vez teve desejo de se voltar a deitar no divã?
PL: Não.
VS: Como é que vê a sua família e a família analítica?
PL: Andam, sempre, lado a lado.
VS: O que pensa do futuro da Psicanálise?
PL: É uma luta contínua. As descobertas importantes estão nos casos que são continuamente publicados e também no envolvimento positivo e profissional de quem a exerce.
VS: Qual o vertex entre a Psicanálise e a Esperança?
PL: Acho que as pessoas estão, por vezes, envolvidas em coisas negativas. Mas também podem, através da psicanálise, adquirir insight, resiliência e transformarem-se, passando a ver a vida de um modo positivo.
VS: De que forma se cruzou com Eça de Queiroz?
PL: Foi uma atracção libidinal. Não havia quem exprimisse a vida sexual e aquilo que ele imaginou para salvar a sua própria vida sexual. Eu esperava que os meus familiares dormissem para ficar a ler Os Maias. Foi uma paixão precoce. Na obra de Eça de Queiroz há uma parte política e uma parte realista e reside aí, mas não só, o seu encanto. Também no caso de viver e de amar.
VS: E outros autores literários?
PL: Talvez Oliveira Martins, David Mourão Ferreira, Ramalho Ortigão, Fialho de Almeida, Jean-Paul Sartre, Proust. Lisboa, Julho de 2011