O “romance histórico” psicanalítico granjeou um lugar nos enredos cinematográficos, sendo exemplos dessa tradição “Freud, Além da Alma” (“Freud: The Secret Passion”) de John Huston (1962) e, mais recentemente, “Um Método Perigoso” (“A Dangerous Method”) de David Cronenberg (2011). Em 2013, o realizador francês Arnaud Desplechin fez chegar às salas de cinema “Jimmy P.: Psycotherapy of a Plains Indian”, um filme que retrata a história verídica da psicoterapia realizada pelo psicanalista/antropólogo Georges Devereux a um índio “Blackfoot”, de nome fictício Jimmy Picard. O filme é uma adaptação de “Reality and Dream: Psychotherapy of a Plains Indian”, obra dada à estampa em 1951, onde, para além do nome fictício, Devereux procura ocultar a identidade do seu paciente apresentando-o como pertencente ao grupo étnico “wolf”.
Nascido György Dobó (1908-1985) em Lugos, na Transilvânia, Devereux escolheu a França como pátria de adopção nos anos 1920. Nos seus trabalhos fundiu a Etnopsicanálise de Geza Roheim (1891-1953), disciplina ancorada nos princípios da psicanálise que estuda os distúrbios psicopatológicos ligados a culturas específicas e a maneira como essas diferentes culturas classificam e organizam as doenças mentais, com a Etnopsiquiatria fundada por Emil Kraepelin (1856-1926). Aos 24 anos, e depois de incursões académicas na área da antropologia, partiu para o trabalho de campo, primeiro no Arizona, entre os índios Mohaves, e depois na Indochina, entre os Sedang-Moï. Este primeiro contacto com
Estagiária da Ordem dos Psicólogos Portugueses, Núcleo João dos Santos (NJS), Instituto Superior Miguel Torga (ISMT).
Professor Auxiliar Convidado do Instituto Superior Miguel Torga (ISMT), Coordenador do Núcleo João dos Santos (NJS), Investigador do Centro de Estudos da População, Economia e Sociedade (CEPESE).
culturas tão díspares conduziu-o a reflexões sobre o problema da diversidade cultural das doenças mentais; mas só após a segunda grande guerra se orientou para a psicanálise, com a análise pessoal realizada em Paris com Marc Schlumberger (1900-1977), e o trabalho clínico em Topeka (Kansas), na clínica de Karl Menninger, onde encontrou um novo campo de experiências transculturais (Roudinesco & Plon, 1998), em que podem incluir-se os eventos romanceados na película em apreço.
A narrativa fílmica, cujo oráculo preambular nos assevera ser baseada em factos reais, tem início numa casa situada nas tranquilas planícies desertas de Browning (Montana, Estados Unidos da América), no ano de 1948. No interior da habitação, uma mulher debate-se para despertar James Picard que, embrenhado nos seus sonhos, se parece recusar acordar para uma vida interrompida. Vive-se no pós-guerra e Picard é um índio Blackfoot, ex-militar do exército, que serviu em França durante a II Guerra Mundial, onde sofreu um traumatismo crânio-encefálico, depois de acidentalmente ter caído de um veículo em andamento quando se encontrava alcoolizado. Ferroviário de profissão, mora no rancho da irmã que cuida dele como uma mãe e o acompanha ao Winter Veterans Administration Hospital em Topeka, devido às fortes dores de cabeça que o atormentam e imobilizam.
No hospital, Jimmy é submetido a uma bateria de exames médicos para avaliar o seu estado de saúde físico e psicológico, com a finalidade de descortinar a origem das queixas somáticas. O seu caso é discutido em reunião de equipa, na qual se conclui tratar-se de um combatente fisicamente saudável, mas psiquicamente inválido e que apresenta uma sintomatologia compatível com um diagnóstico de esquizofrenia. No entanto, admitindo o background étnico e todas as especificidades culturais inerentes, Menninger sugere o auxílio de um antropólogo, entrando em cena Devereux. Secundado pelos dados colhidos em entrevista clínica e a partir da interpretação de um desenho, Devereux afirma que não são visíveis sinais de esquizofrenia, tanto na sua forma latente como declarada. Questionado de que sofria então Jimmy, Devereux replica com o “enigmático” diagnóstico: “I guess what we all suffer from”. Embora não seja abordado explicitamente no filme, uma questão que emergiu e poderia indiciar a presença de uma psicose seria a abundância de sonhos relatados pelo paciente. Segundo Devereux (1998), uma tal profusão de produções oníricas carregadas de afecto num sujeito europeu, ou mesmo de outro grupo étnico, poderia prenunciar a eclosão psicótica, uma invasão maciça dos territórios do Ego pelos derivados das pulsões provenientes do inconsciente. Neste caso particular, a interpretação dos sonhos e a questão do normal/patológico subjacente, deveria tomar em considerações as especificidades culturais do paciente:
Chez les Indiens wolf, les recherches de visions et/ou rêves de grande intensité affective faisaient partie du processus de maturation sociale et constituaient la pierre angulaire aussi bien du système de sécurité psychique de l'individu (…) Faut-il ajouter que ce point de vu ne nous conduit en aucune façon à récuser le fait que, même chez un Indien wolf, les rêves représentent un débordement de l'inconscient dans l'appareille psychique? Il semblait néanmoins probable que la partie de l'inconscient reflétée dans ces rêves dût essentiellement être celle qui contenait les parties inconscientes du moi, à savoir des mécanismes de défense; en effet, dans la culture wolf, les rêves constituent des défenses psychiques majeures. (Devereux, 1998).
Embora não recusasse as formulações freudianas, Devereux defendia que um diagnóstico psicanalítico não podia deixar de indagar a cultura do sujeito que, neste grupo étnico em particular, condicionaria os sujeitos a incorporarem no seu arsenal defensivo a acção de sonhar.
A representação da primeira sessão psicoterapêutica revela a particularidade inovadora do seu trabalho psicanalítico, mais precisamente a utilização da linguagem para entrar no mundo interno do paciente (e.g., perguntar pelo nome índio e seu significado, ou em que idioma sonhava) um método, à época, inovador e conceptualizado como o recurso terapêutico a “alavancas culturais” (“leviers culturels”). O que interessava a Devereux não era tanto a palavra em si (na acepção simples de “tradução”), mas a sua dimensão conceptual, o que ela significava para o paciente, resultando num vaivém permanente entre dois mundos distintos, colocados subitamente em contacto (Nathan & Desplechin, 2013). Com esta atitude, Devereux funda um espaço em que o paciente se sente compreendido e acolhido, partilhando algumas experiências precoces. Fica, assim, a saber que Jimmy perdeu o pai aos cinco anos de idade e que ambas as cuidadoras (mãe e irmã) eram sentidas como “manly hearted woman”, expressão aplicada a um grupo particular de mulheres da tribo e
que contrasta com a docilidade imputada às mulheres índias das planícies (Lewis, 1941). Em termos psicanalíticos, tal expressão remete para a fantasia inconsciente da mãe fálica, ou da mulher provida de falo, com significado simbólico de poder (Laplanche & Pontalis, 1985).
Jimmy adere ao processo terapêutico e detalhadamente narra os seus sonhos, num dos quais Devereux surge como amuleto da sorte, evidenciando a conexão ao aliado no processo psicanalítico. O fortalecimento progressivo da aliança terapêutica facilita o acesso ao mundo interno de Jimmy, que recorda as difíceis relações com as mulheres que amou, como “ingeriu” (mal) a raiva pela traição da esposa durante a comissão de serviço em França, e o avassalador sentimento de culpa por abandonar a filha.
Depois de um agravamento do seu estado de saúde, com retorno de dores de cabeça extremamente violentas, Jimmy questiona o método de tratamento de Devereux. Alega que este pede sempre para recordar o que aconteceu antes da guerra, mas que nessa altura ainda não padecia de cefaleias. A resistência em rememorar um passado doloroso, prévio ao acidente, que Jimmy se esforçava por apagar com a ingestão compulsiva de álcool, surge concomitantemente ao aflorar de elementos significativos. Assim, ultrapassando as resistências e admitindo que depende do psicoterapeuta para melhorar, confessa que existem episódios da sua infância de que mais ninguém tem conhecimento. Recorda que, pelos 5 ou 6 anos de idade, assistiu impotente ao afogamento de uma menina com quem costumava brincar. Recorda como ficou aterrorizado e se sentiu incapaz de ajudar, acabando por fugir. Desabafa que após a tragédia, a irmã desta rapariga (6 anos mais velha) o forçava a masturbá-la, acabando surpreendidos pela irmã de Jimmy, que o castigou severamente com uma grande “tareia”. Conta ainda um segundo acontecimento marcante. Pouco tempo depois de o pai ter morrido, quando um dia regressava a casa da escola, surpreendeu a mãe com outro homem na cama. Após este episódio, não voltou a morar com a mãe, sendo adoptado pela irmã. Devereux interpreta o material, referindo que Jimmy foi punido por ter brincado com aquela menina, cuja irmã morreu, mas o homem não foi punido por estar com a sua mãe, após o seu pai ter morrido.
Depois de bastantes progressos e avizinhando-se o final da psicoterapia, Jimmy zanga-se com Devereux (transferência negativa). Tal acontece depois de assistir a uma peça de teatro com marionetas, em que se comparou a si mesmo com uma marioneta, pela necessidade de ter uma pessoa (o terapeuta) a segurar nos “cordéis” da sua vida para se manter de pé, projectando transferencialmente nesse “homem acima de si” toda a razão do seu mal-estar interno. Esta sessão viria a revelar-se de extrema importância na evolução e conclusão do tratamento. Com efeito, a neurose de transferência instalada permitiu a identificação da neurose infantil subjacente, aquando de uma recaída de Jimmy (uma violenta dor de cabeça, acompanhada pelo medo de morrer), que ocorre após se mostrar incapaz de se confrontar com a decisão de uma enfermeira. Devereux tranquiliza o paciente, dizendo-lhe que ficar zangado é bom e que as recaídas também podem ter a sua utilidade. Conjugando a transferência negativa do paciente e as vivências reactivadas na sessão, Devereux interpreta o contraste psíquico (edipiano) entre a facilidade com que Jimmy se zanga com o psicanalista/pai/homem, e a dificuldade em entrar em conflito com a enfermeira/mulher/mãe. Esta interpretação, que se adivinhava desde que Jimmy descreveu a “mãe fálica” numa das primeiras sessões da sua terapia, com a dupla vertente identificada – “the fear that you could hurt women… and the fear that they could hurt you” – é, então, tomada por Devereux como a “marca de água” da formação de compromisso que condicionou a vida amorosa de Jimmy.
No final do filme, Jimmy revela-se disposto a corrigir os erros do passado com a filha e voltar a amar uma mulher, e exprime com satisfação que todos os seus “complexos” desapareceram. Esta cena é particularmente interessante pela reacção surpresa de Devereux, que afirma nunca ter usado essa palavra, precisamente por ter medo de “palavras mágicas”, preferindo as palavras simples que aproximam as pessoas. Neste momento, o psicanalista transmite a Jimmy o “verdadeiro” nome para a sua doença: “trauma psíquico”.
Infelizmente “Jimmy P.” não chegou às salas de cinema portuguesas. Em termos estritamente pedagógicos (não confundir com a qualidade cinematográfica ou estética, para a qual os autores da presente recensão não se consideram competentes para tecer comentários), este filme apresenta mais-valias significativas em relação a “Um Método Perigoso”. Como refere Fialho (2013), numa recensão à obra de Cronenberg, esta coloca
em destaque uma suposta perigosidade no método psicanalítico, mas não esclarece que o perigo advém unicamente de um analista insuficientemente analisado, que perverte as regras do “jogo” analítico e se envolve amorosamente com uma analisanda, o que poderá confundir o espectador, leigo ou incauto, resultando no equívoco sobre o método psicanalítico e no seu eventual afastamento da “coisa” psicanalítica. Pelo contrário, Arnaud Desplechin conduz-nos numa viagem através de um processo analítico clássico, em que parece explorar noções basilares da psicanálise, tais como, a importância do diagnóstico psicodinâmico, a interpretação dos sonhos, o “discurso vivo” (Green) entre paciente e analista, a relevância das experiências precoces, a sexualidade infantil, a transferência, a resistência e a centralidade da interpretação na cura psicanalítica.
Ora, a correcção histórica e formal de “Jimmy P.”, parece estar intimamente ligada à apreciação que o realizador faz do método psicanalítico. Com efeito, em uma entrevista à Philosophie Magazine e a propósito da questão da cura em psicanálise, Arnaud Desplechin referiu que:
“je suis me posé le problème pour mon film: qu'est-ce qui permet de dire que Jimmy est guéri? En fait, ce qui permet de le dire guéri, c'est qu'il fait une rechute et d'ailleurs, il n'y a pas grand-chose à en dire, puisque tout a été dénoué auparavant. En termes cinématographiques, c'est intéressant de filmer la façon dont Jimmy se modifie au fur et à mesure qu'il se souvient de ses traumas (…) Et, à un moment, il est capable de se réapproprier son histoire pour se raconter le roman de sa vie. On vit cela en psychanalyse, comme un effet de vérité”
Nesta entrevista, conduzida em forma de diálogo com Tobie Nathan (psicólogo, aluno de Devereux e fundador da primeira consulta de etnopsiquiatria em França), este assinala as diferenças fundamentais entre as visões da psicanálise do realizador e do próprio Devereux: “Arnaud, vous parlez là d'une autre psychanalyse. Ce n'est pas du tout celle de Devereux”. Nathan refere que a perspectiva do realizador é interessante do ponto de vista intelectual (a “cura” associada à capacidade do indivíduo em reapropriar a sua história), mas o que as pessoas procuram num analista, quando não conseguem mais suportar o sofrimento, é um resultado. Devereux teria efectivamente uma visão positivista da saúde mental permeada de critérios objectivos, como a capacidade para entabular relações objectais totais (retomando a fórmula freudiana, segundo a qual, “a pessoa normal é aquela que pode amar e trabalhar”).
Finalmente, podemos referir que, para além do seu rigor histórico/teórico, o filme tem o condão de olhar a psicanálise por uma óptica desprovida dos preconceitos e ambiguidades que em torno dela muitas vezes se geram, sendo dignas de registo as palavras de Devereux a propósito desta psicoterapia, no final da película: “I didn't help Jimmy Picard because he was an Indian, but because it was in my power to help him. What happened between Jimmy and myself concerns only us. It was between two men of good will, looking for common ground. Sure we are different! All men rejoice differently. But still, we should all sit down to the god's banquet”