A autora pretende mostrar como a humilhação narcísica surge, na clinica psicanalítica, na sequência da tomada de consciência do sentimento de exclusão em relação à intimidade, à confiança dos elos parentais, das relações de amizade ou de trabalho. Estes sentimentos de exclusão e de abandono podem funcionar como uma ameaça de rutura identitária, com consequências nas relações de intimidade e de proximidade, desencadeando uma profunda turbulência traumática no campo da relação analítica. As defesas paradoxais, caracterizadas pela transformação da humilhação em triunfo maníaco, servem para lutar contra experiências dolorosas de perda traumática, com consequências de difícil manejo no campo da relação analítica, que é evadida por um vazio de difícil elaboração com consequentes enactements crónicos. No desenvolvimento saudável, a aceitação da exclusão resulta duma elaboração psíquica da perda, através de um equilíbrio de identificações e contraidentificações, de forma a encontrar a elaboração da sua independência aceitando dessa forma o terceiro.
Artigo recebido e aceite para publicação em Setembro de 2016.
Alguns aspetos deste artigo foram apresentados numa comunicação feita no XXV Colóquio “Psicanálise e Família-Num Mundo em Mudança” da Sociedade Portuguesa de Psicanálise, em Maio de 2014.
Psicoterapeuta e Psicanalista; Membro Titular, com funções didáticas, da Sociedade Portuguesa de Psicanálise (SPP) e da International Psychoanalytical Association (IPA). E- Mail: mfalexandre@mail.telepac.pt
A clínica mostra-nos com frequência pacientes que procuram o processo psicanalítico para encontrar uma compreensão, assim como um apaziguamento psíquico, de certos estados mentais dolorosos, caracterizados por sentimentos narcísicos de humilhação, vexame ou vergonha, vividos sobretudo nas relações de intimidade ou de proximidade. Estes sentimentos, que surgem também na dinâmica do processo analítico, ocorrem na sequência de um movimento psíquico interno cuja fantasia nuclear se parece configurar num afeto de exclusão, abandono, não reconhecimento, no sentimento de se sentir diferente, não pertencer a um grupo ligado à família, aos amigos ou ao trabalho. A humilhação tem origem no sentimento inquietante de viver ou ser levado a sentir afetos de desigualdade e de diferença em relação àqueles que a pessoa imagina como próximos ou iguais.
Ao longo da vida, estes pacientes podem procurar através da compulsão de repetição um reconhecimento narcísico, mas acabam por se sentir insatisfeitos criando, dessa forma, situações de rutura familiar ou de trabalho. Por vezes, os sentimentos de humilhação, experimentados como sentimentos de exclusão dos elos de relações de intimidade ou de proximidade, podem ser negados por um protagonismo maníaco ou de superioridade. O triunfo maníaco – traduzido pelo sentimento de não precisar de ninguém – pode também surgir como uma defesa de negação contra o ressentimento da separação e da exclusão dos elos de relações de intimidade com as figuras de proximidade, como as parentais e fraternais. Desta forma, a dor da perda e da separação funcionam como uma sombra traumática que tem os seus efeitos na relação de campo analítico através de enactements destrutivos, que se abatem sobre a dinâmica da dupla psicanalítica, num conluio paralisante. A humilhação e o triunfo maníaco apresentam-se de mãos dadas, na relação de campo da dupla analítica e surgem como defesas narcísicas contra núcleos traumáticos da vida do paciente, sobretudo de perda e de separação. Assim, esses enactements crónicos podem resultar numa incapacidade de simbolização por parte da dupla analítica como “consequência da necessidade de se reviverem mecanismos vinculares iniciais” (Cassorla, 2015).
Como anteriormente assinalámos, a relação do campo analítico pode ser metaforicamente invadida por variadas personagens, que condensam e configuram uma narrativa onde se interlaçam afetos de diferentes qualidades – como a humilhação e o triunfo –, mas que escondem sempre a precariedade e a falência dos elos psíquicos com as figuras mais importantes de suas vidas. Se pudéssemos figurabilizar, como se de um sonho se tratasse, estes diferentes afetos que surgem na sessão analítica, escolheríamos a última peça de teatro de Shakespeare, que exemplifica as consequências da humilhação narcísica por se sentir rejeitado e espoliado daquilo que lhe pertencia. Esta peça de teatro, A Tempestade, mostra-nos as consequências dos sentimentos dolorosos de renúncia e de abdicação vividos por Próspero, legítimo duque de Milão, em relação ao seu irmão que lhe usurpara o poder. Próspero, humilhado pela perda e pela extorsão de seu ducado, retira-se para uma ilha mítica onde vivera durante vinte anos com a sua filha Miranda, ainda criança, que representaria a esperança: “foste querubim que me salvou”. Nesses vinte anos Próspero permanece nessa ilha deserta e mágica, confrontando-se e vivendo diariamente com o seu mundo interno, onde se erguem uma miríade de fantasmas que nascem, por um lado, do amor e da paixão inspirados por Eros e, por outro, do triunfo e da destruição criados por Thanatos. Próspero vai construir internamente duas personagens imaginárias que o acompanham e que representam os diferentes afetos internos. Ariel, nas palavras de Próspero, “meu espírito valente”, poeta mágico que tem capacidade de encantar, de fazer magia, e de transformar a tristeza e a solidão num canto, ou num voo de pássaro que inspira os poetas. Caliban, “escravo peçonhento engendrado pelo diabo, apresenta a destruição, a angústia paranóide, a raiva: ”são espíritos dele que estão a ouvir-me… Como ouriços que se enrolam no caminho, de espinhos eriçados, para me picarem os pés descalços…“.
Através de Próspero, o poeta descreve as vicissitudes do seu mundo interno, como a dor do abandono e da humilhação que fere o seu narcisismo por ter sido espoliado pelo irmão daquilo que lhe pertencera, mas também, a descoberta do amor, da poesia, da paixão e da criatividade. Ao longo da peça observamos um reconhecimento de duas forças intrapsíquicas que o autor condensa à volta de Ariel e Caliban. O poeta através de Próspero vai elaborando estes afetos díspares, de ordem esquizoparanóide, acedendo a uma fase mais depressiva, onde encontra motivação para integrar estas duas forças psíquicas internas, que se transformam no seu amor de ordem edipiana por Miranda e pela sua criatividade poética. Para certos psicanalistas, esta ilha
mágica representaria os primeiros anos da infância, enfatizando a importância que pode ter o nascimento de um irmão mais novo, encarado como uma terrível usurpação que configuraria diferentes reações da criança (Bergmann, 2013).
Um olhar psíquico sobre esta ilha fantasmática leva-nos a pensar que, nestes vinte anos, Próspero nos conta as vicissitudes psíquicas do desenvolvimento da natureza humana face às diferentes adversidades. Conta-nos também distintas facetas e construções psíquicas do seu mundo interno, assim como a sua relação com a filha Miranda – através da qual é possível elaborar o significado da importância das diversas facetas edipianas vividas pelo pai e pela filha.
Todas estas questões, ligadas ao sentimento de exclusão e de abdicação, servem de pano de fundo da peça e podem ser vividas e pensadas ao longo da sessão psicanalítica. A clínica psicanalítica, face à elaboração do sentimento de exclusão, mostra e confirma a importância do modelo teórico fantasmático, fundamental na construção e compreensão da dinâmica psíquica de Édipo, situação na qual surgem diferentes e variadas formas de fantasias internas, ligadas às relações parentais através de identificações, de contraidentificações e de projeções que, como Klein (1945) e, recentemente, Britton (2014) assinalam, estão intrinsecamente ligadas ao desenvolvimento de todo o ser humano. Estamos em sintonia com Britton (2014) quando este mostra que a situação edipiana se repete ao longo da vida, construindo diferentes configurações que fazem parte do desenvolvimento normal do ser humano.
A propósito destas questões, Melanie Klein (1945) assinalou que – aquilo que a nossa experiência com crianças confirma – há uma miríade de fantasmas com diferentes qualidades: idílicos, violentos, terrificantes, bizarros e outros que aparecem muito precocemente nas crianças, quer estejam no contexto familiar ou no meio institucional. Estes fantasmas agressivos contra o elo de ligação parental e contra o corpo da mãe que – na fantasia da criança, está cheio de bebés –, desencadeiam simultaneamente culpa e desespero, mas também desejo de reparação dos estragos imaginados. Desta forma, a situação edipiana configura-se como bissexual, na medida em que se organiza através de identificações heterossexuais e homossexuais em ambos os sexos, implicando a elaboração dos aspetos negativos e positivos do desenvolvimento, que se vão processando ao longo da vida. As experiências precoces do desenvolvimento edipiano implementam movimentos de uma enorme curiosidade, pois a criança quer conhecer o que está no interior da mãe e perceber a qualidade dos elos parentais, rodeado de mistérios, sobretudo quando os pais estão sozinhos no seu quarto. Esta curiosidade pode ser, como salienta Klein (1926), uma forma de aprender a tolerar a realidade edipiana e poder elaborar os sentimentos dolorosos de exclusão, de solidão e de culpabilidade. Na posição depressiva, ao contrário da fase esquizoparanóide, a criança desenvolve capacidades de compreensão, de reconhecimento, de se recordar e de se situar ou de antecipar a experiência (Britton, 2014). Esta capacidade de integração por parte da criança pressupõe a aceitação da mãe como a mesma pessoa que, por um lado, a protege narcisicamente mas, simultaneamente, é capaz de construir uma relação amorosa com o pai.
Esta situação de elaboração dos elos parentais pode ser complexa, criando dificuldades ao longo do desenvolvimento psíquico, como a clínica psicanalítica demonstra. Estes pacientes, que se sentem excluídos dos elos parentais, retiram-se em cada situação que implica novos reencontros, aquisições de experiências ou de conhecimentos, num processo de retraimento narcísico, trazendo para a dupla analítica fortes conluios de difícil elaboração psíquica. Britton (2014) chama esta situação de “posição de incertidão”, ou seja, que face a novas circunstâncias que fazem apelo à triangulação da situação edipiana, os pacientes não conseguem encontrar uma solução e procuram refúgio na incerteza, na incoerência ou no retraimento narcísico, colocando sérios problemas de abordagem técnica. Nestas circunstâncias podem surgir, através da compulsão de repetição, situações de emergências patológicas que surgem como estados de alerta de pontos de fixação infantil. Face a todas estas questões importantes na clínica, interrogamo-nos sobre quais serão as consequências psíquicas destas “experiências devastadoras” (Steiner, 2011) vividas pelos pacientes, por se sentirem sós e distantes da dinâmica da relação parental, com a sua consequente perda da proteção narcísica dos pais. Como é sentida esta posição de exclusão da relação parental? Quais os efeitos na dinâmica psíquica desta perda de separação na construção de uma autonomia interna?
Estas questões levam-nos a pensar que, como Steiner (2011) salienta, os pacientes que são obrigados a tolerar uma separação, devido ao sentimento intenso de exclusão, perdem a proteção da relação narcísica dos seus pais,
tornando-se vulneráveis à humilhação e à vergonha. Rosenfelt (1964) salienta que a função mais importante da relação narcísica é prevenir a separação do sujeito em relação ao objeto. Como anteriormente foi assinalado, estas situações de perda e de desalento podem ser seguidas de sentimentos de humilhação ou de superioridade narcísica, com uma aparente autossuficiência defensiva, como a clínica psicanalítica nos mostra.
Quando falamos de humilhação queremos abordar um sentimento de abatimento narcísico, de vergonha ou vexame relativo à consciência da inesperada exclusão da intimidade de relações de confiança com aqueles que representariam os elos familiares, sobretudo, os parentais, os elos de amizade ou os de trabalho. Estas experiências de humilhação acontecem, como a clínica nos mostra, em situações de mudanças inesperadas e catastróficas – como as ruturas dos elos familiares, que são acompanhadas pelo sentimento de perda, de separação e de abandono – ou, por vezes, na sequência do desenvolvimento normal do ser humano. As ruturas, nas situações de separações inesperadas ou inscrevendo-se no desenvolvimento normal da vida psíquica, funcionam como um observador, como salienta René Roussillon (2014), que mostra a natureza e as qualidades das formações do elo da ligação entre as pessoas, “salientando os aspetos visíveis e invisíveis que unem e religam os indivíduos entre eles”. O autor mostra como a qualidade psíquica destes elos emerge no momento das ruturas e mostra as diferentes reciprocidades dos investimentos, quer sejam libidinais quer sejam destrutivos em relação aos objetos. Estas relações constroem-se e organizam-se através de fantasmas inconscientes que se apresentam e se configuram segundo as regras como viveram e como organizaram a sua vida pulsional. A introdução do terceiro, na díada mãe e filho, pode ser traumática, provocando pensamentos de vingança contra o terceiro que, na fantasia da criança, vem abalar o modelo básico da relação dos objetos narcísicos (Klein, 1926).
A clínica mostra-nos as dificuldades que certos pacientes colocam, ao longo do processo analítico, devido ao sentimento de paralisação da elaboração da separação – viver a separação pode ser sentido como uma morte, mas viver em conjunto pode também ser sentido como uma insatisfação. Para estes pacientes a separação é vivida como se fosse uma rutura com os elos parentais, a partir dos quais organizaram a sua identidade e o seu narcisismo. Assim, encontramos pacientes que têm uma dificuldade particular em unir os pais internamente, como casal parental, com receio de tomar consciência da insuportabilidade da sua exclusão. Têm dificuldade em elaborar o sentimento de exclusão do olhar dos pais e se retiram narcisicamente para um mundo infantil povoado de desdém, humilhação, inveja e insatisfação narcísica. As figuras parentais funcionam, na sua mente, como que separadas e em constante conflito, enquanto parecem tirar uma satisfação narcísica – e, por vezes, sádica – deste jogo conflitual onde ninguém sabe qual é o seu lugar. Curiosamente, como anteriormente sublinhámos, estes pacientes tentam preencher o sentimento de vazio com fantasias recorrentes de relações triangulares, que mostram os aspetos esquizoparanóides da organização edipiana. A compreensão deste facto clínico, recorrente em certos pacientes, mostra que o conceito de bitriangulação, proposto por Green e Donnet se adequa a esta situação clínica. Não existem sentimentos de ambivalência, mas sim uma clivagem “entre o bom e o mau, o persecutório e o idealizado, onde um dos pais é totalmente maléfico e outro totalmente benéfico”. Esta forma de Édipo é caracterizada por uma organização defensiva que nega as relações psíquicas entre os pais, atacando os vínculos da relação. Britton chamou a este Édipo de “ilusório”, na medida em que nega e ataca os elos parentais.
Na clínica também encontramos pacientes que se colocam numa situação de exclusão e se retiram narcisicamente para um mundo fechado interno, como resultado de uma profunda humilhação por se sentirem longe do olhar das pessoas mais próximas. Nestes pacientes, a humilhação narcísica não pode ser representada, mas só vivida. Ao longo da vida, têm o sentimento bem descrito por Zeca Afonso numa das suas canções: “sou estrangeiro, não sou ninguém”. Para estes pacientes e para a maior parte das pessoas, viver o sentimento de exclusão parental ou do seu meio é doloroso e humilhante. Alguns pacientes retiram-se, metaforicamente, para outro mundo ou para uma ilha, mas o melindre e os ressentimentos surgem nas pequenas coisas sempre que o seu narcisismo é posto à prova. Desligam-se com indiferença das situações importantes e procuram relações conflituais, como repetição do trauma do seu mundo interno habitado por conflito, desespero, solidão e tristeza. Na
fantasia interna destas pessoas a exclusão da intimidade das relações parentais não é vivida como uma forma de independência ou de crescimento, mas como uma perda, sentida com ressentimento e melindre, desencadeando vergonha e humilhação. A separação dos pais, numa idade precoce, pode ser vivida como uma perda catastrófica traumática que leva o paciente a retirar-se ou a esconder-se narcisicamente num mundo isolado onde ninguém pode entrar. Na sua fantasia sente-se culpado por esse desenlace parental e refugia-se num mundo psíquico distante, por receio da vingança superegóica que o pode destruir.
Todas estas situações psíquicas que encontramos com frequência na clínica, tingidas pela humilhação e pela vergonha, emergem de pontos de fixação da situação triangular que podem constituir ou dar origem a aspetos tanto idílicos, como violentos ou bizarros, que se inscrevem num funcionamento psicopatológico. A construção do setting analítico, em tais circunstâncias, torna-se difícil pois os pacientes atacam ou destroem os elos de ligação, através da compulsão de repetição, num constante desligamento e desinteresse pelas situações, tal como fizeram no passado por se sentirem humilhados. Pelo contrário, no desenvolvimento normal, a aceitação do terceiro resulta de uma elaboração psíquica da perda, da separação, do diferente e da exclusão. A elaboração do terceiro, como separador da relação materna, é feita de um jogo de identificações e contraidentificações que permite encontrar, através da posição depressiva, um equilíbrio e uma aceitação da exclusão que resultará numa capacidade de construir a qualidade da sua dependência e independência.
As situações, ressentidas como humilhantes, nem sempre se apresentam na clínica como retiradas narcísicas. Podem também ser configuradas como formas de triunfo maníaco e de superioridade, que surgem como defesas contra a separação e a perda. O triunfo maníaco surge como uma forma de evitar a vergonha sentida pela humilhação da perda ou da sensação de ser excluído do pensamento de alguém com significado narcísico para a pessoa. As vítimas de humilhação e de ressentimentos permanentes podem construir também, como encontramos na clínica, “formas de comunicação paradoxal” (Bigliani et al., 2013). Estas defesas paradoxais, caracterizadas pela transformação da humilhação em triunfo maníaco, têm como função combater o sentimento de repetição de uma experiência de perda traumática, como salientam alguns analistas. Como Bigliani et al. (2013) esclarecem, “os sentimentos de humilhação e de vergonha compartilham de uma fixação precoce de uma sensação de colapso do ego com um desapego crítico das instâncias internas do sujeito”. O triunfo maníaco seria uma forma de esconder e negar os sinais de vergonha e de humilhação que poderiam indicar ou expor, aos olhos dos outros, a sua perda de dignidade como indivíduo . Estes autores mostram como, em certas circunstâncias, a repetição de experiências de humilhação na adolescência se pode transformar num poder maníaco mortífero que os leva a cometer desacatos e crimes. Na mesma linha de pensamento, as experiências de humilhação transgeracional de um povo ou de uma família podem ser facilitadoras de ataques suicidários, de membros da família, ou mesmo de um povo, como a História nos relembra. Da mesma forma, encontramos no campo analítico as consequências dessas experiências humilhantes e traumáticas que não podem ser pensadas, mas que podem ser vividas, através de acting-outs e enactements na dinâmica da relação.
A clínica mostra como as experiências internas de triunfo são quase sempre uma defesa contra os sentimentos de humilhação narcísica. O exemplo que daremos mostra como o triunfo maníaco esconde o sentimento de vergonha narcísica. João era um rapaz de dez anos que tinha iniciado o quinto ano numa nova escola. A sua entrada, para aquela escola e turma, configurou-se como um espaço desconhecido e inquietante e, desde o primeiro período, João apresentava comportamentos de triunfo maníacos em relação aos colegas e professores. Ignorava totalmente as regras da escola em geral, mas particularmente da turma e do convívio com os colegas. Fazia o que bem lhe apetecia e o que lhe vinha à cabeça, como se tivesse acabado de aterrar na terra do nunca e fosse o omnipotente Peter Pan. As expulsões das aulas sucediam-se e João vagueava pelos corredores, com um contentamento maníaco e triunfal, como se tivesse acabado de fazer a maior façanha do mundo. Quando contactámos com este rapaz impressionou-nos, contratransferencialmente, a permanente dinâmica de retaliação dos colegas e dos
professores, que lhe batiam ou expulsavam da turma. Sentimos um primeiro movimento de empatia por este rapazinho que não era compreendido por ninguém à sua volta. Mas também nos interrogámos por que razão este rapaz criava situações que, quase por motivos ingénuos, resultavam na sua expulsão da turma, mas em que a sua saída era sentida por ele não com culpa e tristeza mas como um triunfo maníaco.
O primeiro contacto com os pais deste rapaz desencadeou contratransferencialmente sentimentos de uma certa perplexidade. Imaginámos que teria havido um engano e que aquele casal que estava à nossa frente seriam os avós e não os pais da criança, pois por alguma razão não tinham comparecido à sessão. Contudo, ao longo da sessão, fomos percebendo que o casal idoso eram os pais adotivos do João. Tinham necessidade de falar e queriam compreender o comportamento maníaco deste rapaz, sobretudo na escola. Tinha sido adotado quando tinha cerca de dois anos. Esta adoção tinha sido sentida como um gesto de proteção deste menino que estava desamparado numa família de mendigos que moravam na mesma rua dos pais adotivos. A mãe adotiva mostrou ter dificuldades em colocar limites ao filho e ela própria sentia-se perdida e desamparada com os seus comportamentos paradoxais. Não abordaremos aqui os diversos contornos da dinâmica familiar, mas gostaríamos de assinalar que o João, até ao momento em que nos encontrámos, não sabia que era um filho adotado. Curiosamente, este segredo familiar, escondido e não revelado, esteve sempre presente inconscientemente neste rapaz, através da forma de agir, da procura maníaca de um lugar confortável junto da dinâmica do grupo de colegas e professores. Pareceu-nos que viveu este segredo familiar como se de uma ferida narcísica se tratasse procurando, através da compulsão de repetição, o seu espaço e lugar junto de uma família ou grupo. Estes sentimentos configuravam-se como se sentisse humilhado e envergonhado por desconfiar de que aqueles pais não eram os verdadeiros. Desta forma, através de uma identificação projetiva, este rapaz tentava encontrar o seu espaço junto dos colegas e professores, mas simultaneamente desprezava-os. O triunfo maníaco, que aparecia em segundo plano, escondia uma humilhação narcísica por pressentir que não tinha um lugar no coração e no pensamento daquela família. O triunfo maníaco, como anteriormente sublinhámos, surgia como uma forma paradoxal de se defender dos ressentimentos e das experiências de humilhação e de vergonha em relação às pessoas com quem mantinha um elo narcísico. Estes triunfos maníacos surgiam como uma forma de rutura, de se excluir e de se vingar em relação à eventual união dos objetos narcisantes que, habitualmente, são as figuras parentais.
O processo terapêutico e a relação de campo analítico eram invadidos por uma paralisação do pensamento, com uma consequente impossibilidade de sonhar, de brincar ou de desenhar. As identificações projetivas evadiam o espaço analítico de situações, reais ou imaginárias, onde prevaleciam um agir de abandonos e de exclusões de origem traumática que eram colocados no analista. Nestas circunstâncias, surgia com frequência, contratransferencialmente, uma paralisação do pensamento e do afeto, instalando-se um vazio de difícil representação e de simbolização. Desta forma surgia um “não-sonho-a-dois” em que a situação traumática era congelada, surgindo o enactement crónico (Cassorla, 2015). Como este autor assinala, esses enactements crónicos transformam-se, ao longo do processo analítico, em enactements agudos permitindo, desta forma, a tomada de consciência de um conluio obstrutivo que assinalava e que facilitava que o trauma fosse revivido.
Com este paciente, que sofreu precocemente uma separação traumática, a relação analítica era vivida sob a ameaça constante de rutura, de desconfiança, mostrando as qualidades narcísicas das ligações precoces com os seus pais.
Todas as separações são vividas pela maior parte das pessoas como “uma ameaça de rutura identitária” (Roussillon, 2014) que põe em evidência as qualidades narcísicas da construção dos elos de ligação. Como Roussillon (2014) assinala, entre crianças e os seus pais há uma espécie de “contrato simbólico” que condensa uma série de afetos ligados às identificações parentais – na sua faceta feminina e masculina –, assim como identificações à qualidade dos elos que os unem como casal e como pais. Estas identificações parentais formam elos psíquicos que se configuram de diferentes formas e apresentam diferentes qualidades psíquicas. A forma como as ruturas são feitas depende, segundo o autor, da qualidade da relação libidinal narcísica e simbólica dos elos de ligação parental. Como já sublinhámos, as
qualidades psíquicas destes elos surgem nas suas diferentes facetas em momentos de rutura. Neste contexto, as defesas paradoxais caraterizadas por transformação de humilhação em triunfo maníaco, servem para o indivíduo se defender de uma experiência de perda traumática dolorosa. A humilhação narcísica surge como a sombra do sentimento doloroso de exclusão. Pelo contrário, no desenvolvimento saudável, a aceitação do terceiro resulta de uma elaboração psíquica da perda, através de um equilíbrio de identificações e contraidentificações, de forma a encontrar a elaboração da sua independência aceitando o terceiro.
ABSTRACT
The intention is to show how narcissistic humiliation arises, in psychoanalytical practice, in the wake of becoming aware of the sense of exclusion in relation to intimacy, the trust in parental bonds, friendship and work relations. These feelings of exclusion and abandonment may function as a threat of an identity breakdown, with consequences on intimate and close relationships, triggering profound traumatic turbulence in the field of the analytical relationship. The paradoxical defences, borne out through the transformation of the humiliation into maniacal triumph, serve to defend oneself from a painful experience of traumatic loss with consequences that are difficult to tackle in the field of the analytical relationship which is circumvented by an emptiness that is difficult to approach with consequent chronic enactments. In a healthy development, acceptance of the exclusion results from a psychic enactment of the loss, through an equilibrium of identifications and counteridentifications, in order to enact one's independence, accepting others in this way.
KEYWORDS: Narcissistic humiliation, Sense of Exclusion, Breakdown in Identity, Enactments in the Analytical Process