A autora começa por apresentar a obra pessoana como uma matriz generativa de sentidos. Faz, em seguida, uma abordagem psicanalítica da obra de Fernando Pessoa, propondo uma interpretação para a heteronímia enquanto defesa contra o risco de desintegração psicótica e estratégia de reparação subjectal narcísica. Propõe também o poema “Passagem das horas” como chave que abre para a compreensão da infinita capacidade de metaforizar e de simbolizar os sentimentos e as emoções humanas.
“… gosto de palavrar. As palavras são para mim corpos tocáveis, sereias visíveis sensualidades incorporadas. (…) transmudou-se-me o desejo para aquilo que em mim cria ritmos verbais (…). E, assim, muitas vezes, escrevo… deixando que as palavras me façam festas, criança menina ao colo delas”
Jerónimo Pizarro, um dos mais notáveis investigadores pessoanos, dizia numa entrevista concedida a Carlos Vaz Marques que metade dos papéis de Pessoa continua por descodificar, podendo a sua investigação provocar autênticas reviravoltas no conhecimento que hoje temos sobre o escritor. Afirmava ainda que o espólio inédito de Pessoa era sinónimo de trabalho para cinco
Artigo recebido e aceite para publicação em Setembro de 2016.
Psicanalista; Membro Titular, com funções didáticas, da Sociedade Portuguesa de Psicanalise (SPP) e da International Psychoanalytical Association (IPA); Professora Catedrática de Psicologia no ICBAS, Universidade do Porto. E-mail: manuelafleming@iol.pt
ou mais décadas3. Grande parte da poesia escrita na língua inglesa é ainda inédita, e na língua portuguesa cerca de quinhentos poemas, não datados, ainda não estão publicados. Ao deparar-me com centenas de livros e artigos publicados por jovens investigadores estrangeiros, percebi que Pessoa já não é pertença exclusiva nossa.
Pessoa tornou-se um escritor do mundo e a sua obra continua e continuará a fascinar e a ser estudada. Transformou-se numa fonte de onde jorram ideias, a partir das quais se constrói e se desconstrói, se transcreve e se reescreve aquilo que Pessoa escreveu. Todo este movimento num universo em expansão, uma matriz generativa.
Como refere Jerónimo Pizarro, Pessoa parece até que brincava com a posteridade. Parecia já imaginar que iria criar este desassossego todo que nos habita e nos habitará por muito tempo. Fernando Pessoa trouxe-nos o Infinito e continua a desassossegar-nos a nós, psicanalistas, porque também nós temos a pretensão de conhecer, explicar a alma humana com o objetivo último de a aliviar das suas penas.
O presente artigo, ao penetrar no universo pessoano, pretende sondar a alma do poeta-escritor e ousar uma leitura psicanalítica a partir dos aspectos da sua obra que mais me tocaram. Pretende também procurar afinidades (se as há…) entra o método criativo de Pessoa e o método psicanalítico.
“Este intervalo que há entre mim e mim”, escrevia Pessoa através de Bernardo Soares, no Livro do Desassossego. Frase que dá o título a este artigo, gerou um impacto emocional de tal modo grande dentro de mim que me levou ao ponto de partida na escrita deste texto. De que “mim” e “mim” ou de que margens de um mesmo rio fala Pessoa? Na leitura que faço, podemos intuir neste material literário (mas também, ouso dizer, projetivo) duas “margens” desligadas, puxando e rasgando o tecido mental em duas partes opostas e em conflito: uma parte de si que apela constantemente ao sono, que quer dormir para não pensar, como o “Esteves sem metafísica” do poema Tabacaria, de Álvaro de Campos, que escreve que “a grande saúde está em não perceber coisa nenhuma”. Outra parte de si, que não pára de pensar, de se interrogar, que compulsivamente se observa, se auto-analisa e se mostra perplexa perante a sua própria criação heteronímica. Não pude ficar indiferente à sua angústia, quando através da voz de Bernardo Soares lança o lamento: “Meu Deus, meu Deus, a quem assisto?”;“Como se explica isto? A quem me substituí dentro de mim?”; “Mas a que assisto quando me leio como a um estranho?”.
Ou ainda (a citação que mais me interroga): “O que é este intervalo que há entre mim e mim?”. Pergunto: o “mim” que sente e o “mim” que sabe que sente, o “mim” que pensa, mas que assiste atemorizado ou até aterrorizado perante uma “dor sem nome” (Fleming, 2003) procura escapatórias para uma dor mental insuportável?
Como leitora primeiro e psicanalista depois, a mesma perplexidade me acompanha ao revisitar agora e de novo a obra pessoana e o que se continua a produzir sobre a mesma.
Fernando Pessoa, embora visse na psicanálise freudiana um método utilíssimo pela descoberta do inconsciente, também a criticou por se tratar de um método “imperfeito porque não dispõe da chave definitiva da compreensão universal da alma humana” (Santos Jorge, 2012). Assim é: a psicanálise não dispõe desse método perfeito (quanto a mim uma ideia utópica) e ainda bem. Mas os psicanalistas vão beber a todas as fontes que permitam alargar a compreensão do funcionamento mental: vão beber à arte e, sobretudo, aos poetas e aos escritores, pois os artistas são nossos antecessores, precederam Freud no desvelamento do inconsciente.
Ouso dizer que no processo criativo de Fernando Pessoa se revela uma dialéctica idêntica à do método psicanalítico. Passo a ilustrar esta ideia, servindo-me da forma como Pessoa lidou com a sua fobia com as trovoadas e quando compõe o poema Abdicação, permitindo-me ler essa peça literária à luz da minha interpretação: invadido por uma grande perturbação emocional, por um medo atroz de uma trovoada nos céus de Lisboa, Fernando Pessoa corre para casa onde se refugia e escreve. Poderíamos dizer que o poeta transforma a emoção dolorosa sentida numa criação poética. Escreve o soneto Abdicação onde, simbolicamente, podemos observar na casa e na “noite antiga e calma” a figura de uma Mãe calma, acolhedora e apaziguadora da tempestade emocional. Segundo Santos Jorge, “é na invasão do real no simbólico que se engendra o acto poético e acontece o gozo falante” (Santos Jorge, 2012). Na minha perspectiva, é também na invasão do real no simbólico que se engendra o sintoma psicopatológico e é pela procura do seu simbolismo que o psicanalista procede, interpretando, no sentido de apaziguar a
A entrevista pode ser consultada aqui:
tempestade emocional contida e expressa através do sintoma.
Fernando Pessoa também considerou a psicanálise como um método utilíssimo porque identificou nesse método o mecanismo da translação de certos elementos psíquicos mediante processos de deslocamento, metonímia e condensação, ou seja, os tropos maiores da gramática interpretativa do inconsciente.
A questão da Heteronímia é, sem dúvida, o grande enigma, a questão nuclear que se tem colocado como um desafio aos intelectuais e investigadores da obra pessoana. As contribuições de Celeste Malpique (2007) e de Santos Jorge (2007), trouxeram uma luz edificante sobre o enigma. Este último, de referência Lacaniana, coloca uma hipótese psicanalítica interessante: a de que, na base da heteronímia, se encontra uma decomposição espectral do Eu mediante regressão, sendo então “o quaternário heteronímico pessoano a última tentativa de tomar assento no conforto do núcleo (base peduncular) do Eu” (Santos Jorge, 2012).
Vejo aqui a formulação de uma hipótese: a heteronímia serviria como uma defesa contra o risco de uma fragmentação psicótica, uma escapatória à Psicose, ou seja, e servindo-me do texto de Santos Jorge: “o compromisso ficcional funcionaria como um objecto defensivo contra a desintegração do Eu”, e “a escrita ter-lhe-ia servido de elo recuperador dos outros três elos do nó borromeano (real, simbólico e imaginário) em dificuldade, com o objectivo de remediar a consistência subjectiva do escritor, em iminência de desordem psíquica maior”4. Na cena da escrita-vida, ou do “drama-em-gente”, a heteronímia de Fernando Pessoa funcionaria como defesa (contra a sensualidade da vida?, pergunto-me) e o duplo, enquanto figura literária, é o Eu enquanto simulacro. O duplo testemunha a clivagem ou o duplo testemunha sempre de um avatar, uma “alma penada”?
Na conceptualização psicanalítica de Santos Jorge, a identificação ao duplo reenvia ao estádio de desenvolvimento psicológico em que o Objeto e o Eu não são ainda diferenciados, em que o mundo exterior é desconhecido e aí, o escopo de observação psicanalítica é o campo do narcisismo referente ao estádio do espelho. Avança ainda com uma ideia, quanto a mim rica em significado psicanalítico: “os heterónimos presentificam estratégias de resolução de conflitos subjacentes ou até táticas personificadas de reparação subjetal narcísica”5.
Neste contexto, a alma, conceito tão caro a Fernando Pessoa e omnipresente na literatura, seria um duplo constitutivo do ser humano, mesmo se heterogéneo, como diz Santos Jorge, ou heteronímico, diria eu. Em suma, “um energético desmentido da morte”, como diz o psicanalista Otto Rank.
Pelos interstícios, esgueiram-se os duplos, esboços arcaicos do Eu primitivo nunca integrados no Eu “definitivo”, mas largados no cenário da escrita-vida. Os duplos, fantasmas ou avantesmas, entram na arena da existência e corporizam-se em figuras permanentes providas de nome (Alexander, Álvaro, Alberto, Ricardo) e de biografia pessoal. Estou, portanto, em consonância com a hipótese formulada por Santos Jorge, no ponto em que situa a falha ou a fissura numa idade muito precoce, numa fase anterior à triangulação edipiana. Dar-lhe-ia, no entanto, uma formulação diferente, mais de acordo com a psicanálise pós-freudiana, ancorada no pensamento de Melanie Klein, e Wilfred Bion, e inspirada na contribuição de Celeste Malpique. Penso que, na fissura precoce, provavelmente causada pela insuficiência ou frustração sentida na relação com os primeiros objectos de amor, a personalidade e os conflitos da posição esquizo-paranóide, ter-se-ão organizado de modo esquizóide como forma de enfrentar a eminência da fragmentação psicótica do Eu, numa defesa desesperada contra o vácuo que Fernando Pessoa sentiria em si próprio e à sua volta.
Na minha leitura da obra pessoana, entendo que o poeta nos revela um dos segredos da sua heteronímia no poema “Passagem das Horas”. Aí escreve:
Multipliquei-me para me sentirPara me sentir, precisei sentir tudoTransbordei, não fiz senão extravasar-me.
Ao transbordar e ao querer sentir tudo, Pessoa cresce em consciência de si mesmo e em capacidade de metaforizar e de pôr em palavras o que sente. Cresce em querer saber e simbolizar e por essa via previne o adoecer mental. Pessoa não quer ser psicanalisado, mas tem uma “alma psicanalítica”, na medida em que toda a sua obra se constitui como uma profunda investigação sobre a dimensão sensorial e emocional da mente humana. Pessoa não quer ser psicanalisado por outros, mas deseja conhecer-se a si próprio e nesse desígnio é capaz de conter e identificar as suas emoções, é sendo capaz de as simbolizar servindo-se de continentes ou contentores auxiliares – os seus heterónimos (Amaral Dias & Fleming, 1998).
P. 24 do texto proferido por Santos Jorge na Conferência de 2012.
P. 24 do texto proferido por Santos Jorge na Conferência de 2012.
Ao transformá-las em obra poética Fernando Pessoa atribui sentido às sensações e emoções que desassossegam o seu mundo interno e por aí se tranquiliza e sonha.
Na minha perspectiva, em Fernando Pessoa, a sua identidade passou a confundir-se com o texto escrito (com as suas palavras tão amadas), e a sua existência obscureceu perante a luminosidade e a magnificência das suas palavras. E como as palavras não morrem, Fernando Pessoa está condenado a viver.
RÉSUMÉ
L'auteur presente l'ouvrage de Fernando Pessoa en tant que matrice génératrice de sens. Procede ensuite à une reflexion psychanalytique du travail de Pessoa et propose une interprétation de l'hétéronymie comme une défense contre le risque de desintégration psychotique et en tant que stratégie de réparation subjectal narcisique. L'auteur propose aussi le poème “Passagem das horas” comme une clé qui ouvre pour l'éclaircissement de la capacité infinie du poète d'exprimer par métaphores et de symbolizer les sentiments et les émotions humaines.
ABSTRAT
Fernando Pessoa's work may be approached according to different vertexes. A psychoanalytic interpretation is herein proposed to explain the adoption of differently named authors for his poems and books (heteronimy): the choice reflects a defense mechanism against the risk of psychotic disintegration and a strategy of narcisic reparation. The poem “Passagem das horas” (The passage of hours) is singled out as the key to understand the unlimited capacity of Pessoa to metaphor and symbolize human feelings and emotions.
KEYWORDS: Fernando Pessoa, heteronimy, psychosis, narcissism, Passagem das Horas's poem.
RESUMEN
La obra de Fernando Pessoa puede ser abordada de acuerdo con vértices diferentes. Una interpretación psicoanalitica es aqui propuesta para explicar la adopción de nombres diferentes para el autor de sus poemas y libros (heteronimy): la elección refleja un mecanismo de defensa contra el riesgo de desintegración psicótica y una estratégia de reparación narcísica. El poema “Passagem das horas” (El paso de las horas) se destaca como la clave para entender la capacidad ilimitada de Pessoa a la metáfora y al símbolo de los sentimientos y emociones humanas.
PALABRAS CLAVE: Fernando Pessoa, heteronímia, psicosis, narcisismo, poema “Passagem das Horas”