O artigo pretende realizar uma leitura psicanalítica comparativa dos mecanismos defensivos da personalidade narcísica de Fernando Pessoa e Mário de Sá-Carneiro, através da comunicação intersubjetiva e epistolar que trocam entre Paris e Lisboa (1912-1916). Coloca a hipótese da passagem da produção novelística em prosa (com recurso à projeção no Duplo) à produção poética (1913) em Sá-Carneiro ter provocado uma dor mental insuportável que o levará à rotura do sistema defensivo e ao suicídio. Em Fernando Pessoa, o sistema defensivo heteronímico com os quatro poetas heterónimos, diferentes e complementares, confere-lhe maior estabilidade e integração da personalidade, enriquecendo e diversificando a criatividade e acabando por prevenir o suicídio.
Artigo recebido em 30/03/2016 e aceite para publicação em 14/09/2016.
Psiquiatra; Psicanalista; Membro Titular com funções didáticas da Sociedade Portuguesa de Psicanalise (SPP) e da International Psychoanalytical Association (IPA). E-mail: celestemalpique@gmail.com
Hoje, falho de ti, sou dois a sós.Há almas pares, as que conheceramOnde os seres são almas.Como éramos só um, falando! NósÉramos como um diálogo numa alma.
Não tendo dúvidas sobre a personalidade narcísica dos dois grandes poetas Fernando Pessoa e Mário de Sá-Carneiro, e da incapacidade de amar de que ambos afinal sofriam, gostaria de interpretar psicanaliticamente a comunicação intersubjetiva que entre eles se estabeleceu ao longo da profunda e sincera amizade que os ligou. Tomamos por referência a vida, a obra e a assídua correspondência que trocaram entre Paris e Lisboa entre 1912 e 1916 (ainda que muito poucas cartas de Fernando Pessoa tivessem sido encontradas).
Entre os dois surge uma fácil identificação narcísica, em espelho com a recíproca admiração e idealização que se vai aprofundar ao longo do seu convívio. Embora Fernando Pessoa mantenha correspondência epistolar com vários amigos literatos das suas tertúlias lisboetas, é com Mário de Sá-Carneiro que essa comunicação é mais assídua e íntima, verdadeiramente intersubjetiva. Chegámos a essa conclusão porque a leitura das cartas de apenas de um deles nos permitia adivinhar o conteúdo do interlocutor ausente. Nesta troca epistolar, confessional, apelativa, quase se reproduz uma relação analítica, em que Fernando Pessoa representa o papel do analista (silencioso, idealizado, contido, frustrante por retardar as respostas) numa evidente transferência paterna.
Como dizíamos, a identificação narcísica e a profunda empatia que sustenta esta amizade, obedece a três condições fundamentais para a sua manutenção: a distância geográfica que os separa (Sá-Carneiro sempre em fuga para Paris e Pessoa no círculo fechado de Lisboa); o isolamento com picos de solidão e tédio em que se refugiam; a criação literária que ambos desenvolvem e investem como objetivo de vida, uma complementaridade e dinamismo especular/transformativo, que acompanharemos neste texto. Aliás, o conteúdo epistolar poderia ser considerado equivalente ao terceiro analítico no sentido de T. Odgen.
Para Sá-Carneiro, Pessoa é mestre genial em franca rotura com a corrente literária portuguesa e com o meio provinciano de Lisboa. A sua opinião literária é indispensável, a sua aprovação garante-lhe a qualidade do que escreve. Para Pessoa, Sá-Carneiro é alma gémea, poeta criativo que valoriza o interlocutor privilegiado da Nova Literatura, mensageiro da modernidade europeia que bebe em Paris, aquele que é capaz de fugir, enquanto ele, fóbico, fica enredado na Baixa lisboeta para o resto dos seus dias. Aliciantes projetos literários como o intersecionismo e sensacionismo merecem atenção formal partilhada e Orpheu é um sonho comum que os fascina. Ambos entediados, sonhadores, estetas, incapazes de gozar a vida e com algum altivo desprezo pelos outros (os lepidópteros). Adivinhando uma morte prematura, Pessoa grita pela voz de Álvaro de Campos que se vai matar!, enquanto Sá-Carneiro anuncia e planeia um suicídio que irá acontecer aos 24 anos, em Paris (26/4/1916).
Almada Negreiros completa este trio da Vanguarda Portuguesa. Pertence ao grupo e é amigo de ambos. Ao contrário destes é extrovertido, provocador, artista multifacetado, muito original, com aptidões expressivas nas artes plásticas, literárias e teatrais. Futurista assumido que nos deixou o seu olhar penetrante sobre a personalidade dos amigos, em retratos exemplares que executa anos depois do seu desaparecimento, entre 1954 (Fernando Pessoa) e 1963 (Mário de Sá Carneiro). Notável a sua perspicácia psicológica!
O projeto Orpheu está em curso, há um grande entusiasmo em ativa oposição ao Romantismo e Saudosismo que impera na Literatura Portuguesa. Domina o impulso modernista trazido de Paris por Mário de Sá-Carneiro, Santa Rita Pintor, Almada Negreiros e Amadeo de Souza Cardoso que, entretanto, é bem integrado pela sensibilidade cultural de Fernando Pessoa. A sintonia é completa na escolha dos textos e gravuras.
Através da assídua correspondência que Sá-Carneiro mantem com Fernando Pessoa entre 1912 e 1916, podemos assistir à quase simultaneidade da criação da Heteronímia e à divulgação das novelas de Sá-Carneiro no livro Céu Em Fogo (1915).
Fernando Pessoa vai dando conta ao seu amigo da criação dos heterónimos e chega mesmo a dizer que Alberto Caeiro (de Carneiro sem rn) foi um poeta bucólico que criou para fazer uma partida ao Mário, surpreendo-o com o seu radical sensacionismo. O amigo fica fascinado e acha a ideia muito interessante. O aparecimento dos outros heterónimos levam-no a exclamar: “você, Fernando Pessoa, é uma nação!”, mas é também ele, Sá-Carneiro, que o aconselha a publicar-se como poeta, pois estava a ficar mais conhecido como ensaísta e crítico (na Águia), pois afinal possuía dotes extraordinários como poeta. E aqui talvez dissesse a si próprio que poderia, também ele, passar de prosador/contista a poeta.
Em 1913 Mário de Sá-Carneiro volta para Paris entediado com Lisboa e, sobretudo, em fuga para uma idealização da “Cidade dos Artistas” e para uma Europa moderna e cosmopolita. É ali que sentado à mesa de cafés, perante o constante movimento de uma população flutuante que à sua frente passa, descortina personagens que povoam o seu imaginário criativo, engendra novelas que escreve em quartos baratos de hotel. O pai em Moçambique costeia-lhe os caprichos e a estadia, mas o dinheiro é sempre escasso e disso se queixa ao seu amigo, a quem insistentemente pede que vá as livrarias e editoras para lhe enviarem o resultado das vendas de Céu Em Fogo ou de Orpheu2. De longe em longe tem visitas dos artistas de Lisboa mas, a maior parte do tempo, também ali em Paris se sente só e entediado. As cartas de Fernando Pessoa são ansiosamente esperadas e avidamente lidas como alimento fertilizante. A sua inserção no clima cultural parisiense parece, todavia, pobre e tímida. A cidade de Paris representa no seu imaginário o continente, o espaço potencial, o ambiente materno (Winnicott) do qual a criança precisa para brincar só, na presença de alguém. Fernando escrevia também em mesas de cafés ou escritórios comerciais, ou de pé, na cómoda do seu quarto alugado, onde estava sozinho. Tão longe e tão perto um do outro!
Cabe aqui fazer alguma digressão psicanalítica a partir do que nos é dado conhecer da vida destes poetas. A relação objetal em ambos foi débil, motivada pela perda precoce da mãe aos dois anos em Mário de Sá-Carneiro, e pelo provável desinvestimento da mãe em Fernando Pessoa antes dos seis anos, por morte do marido e do outro filho bebé. Em ambos também foi quase ausente a função paterna. O pai de
José Sobral de Almada Negreiros (Trindade, São Tomé e Príncipe, 7 de Abril de 1893 – Lisboa, 15 de Junho de 1970)
Sá-Carneiro entrega-o a uma ama e mantém com ele uma atitude protetora, mas distante. É pouco definida a orientação sexual em qualquer deles (homossexualidade latente).
A integridade do Self, sempre ameaçada, ativa defesas pela idealização e pela clivagem, terreno fértil ao aparecimento de self-objetos que surgem no seu mundo interno como Duplo, como Sombras, como Perseguidores Internos, na medida em que a alteridade não chega a ser assumida (Sá-Carneiro escreve nas cartas textualmente: “A tristeza de nunca sermos dois!”). O Outro não chega a ser verdadeiramente externalizado e ameaça/confunde o núcleo do Eu. Cresce um self grandioso e uma omnipotência infantil que “esconde a sombra do objeto invisível”. A procura do Duplo não será nunca um complemento mas uma duplicata (André Green), no que respeita a Sá-Carneiro.
A temática das novelas que Mário de Sá-Carneiro escreve entre 1912-1913 e publica em Céu Em Fogo são um tanto repetitivas e, se conseguirmos resumir, versam amores apaixonados por mulheres muito belas e jovens que se esquivam, que abandonam e traem, que morrem, que são portadoras de maldição, levando o herói a um sofrimento insuportável, carregado de culpabilidade por desejos incestuosos (em Incesto) e/ou impulsos assassinos (em A Confissão de Lúcio, e em A Grande Sombra). Terminam sistematicamente com o homicídio ou suicídio do herói. É frequente em tais narrativas a presença de outra personagem masculina que funciona como um perseguidor interno, um autêntico Duplo que é uma autoconsciência punitiva a que chama “obsessão”, da qual tem de se libertar, matando-a. Essa personagem é ambígua, pois tanto pode ser um homem como a mulher amada, por exemplo: Marta (em A Confissão de Lúcio) que após a morte se transforma num homem; ou um homem (Lord Neville) cujo rosto tem as cicatrizes da mulher assassinada (em A Grande Sombra). O herói pode reconhecer-se como o próprio e suicida-se (Luís de Monialvor, em Incesto, etc.).
Nessa elaboração Sá-Carneiro tem consciência de que está perante o seu próprio conflito e ambiguidade, mas tem algum controlo e fascínio sobre a narrativa, algum distanciamento defensivo.
Em Paris, entre 1912 e 1913, Sá-Carneiro congemina as suas novelas em prosa e pede opinião a Pessoa sobre O Homem dos Sonhos e A Grande Sombra, interrogando-se sobre o desfecho da Novela Romântica e anunciando O Mundo Interior que nunca chega a publicar.
É no decurso dessa correspondência, em carta de 26 de Fevereiro de 1913, que Sá-Carneiro se descobre poeta e avisa Pessoa que o vai surpreender, que não se assuste, pois vai enviar um poema que lhe surgira espontaneamente. Não sabe o que vale, se é para rasgar, mas pede a opinião: “A minha poesia será um farrapo que traz preso um pedaço de seda, alguma coisa brilhante. E já é muito para um prosador ter conseguido isto (…). Puro diletantismo”, escreve. Dá a impressão de que é ele quem se assusta. E assim começa a revelar-se, desde logo, grande poeta, admirado e estimulado por Fernando Pessoa, e ambos requintam nos aspetos formais do estilo intersecionista e sensacionista em que são mestres. Em 1913, já estão prontos doze poemas (Partida, Dispersão, Quasi, Como eu não possuo, etc.) para publicar na Dispersão e em Orpheu será publicado o poema futurista Manucure. A partir de 1913, Mário de Sá-Carneiro começa a abandonar progressivamente a prosa e a criação novelística. Aliás, ainda hoje é mais conhecido como poeta modernista de intensa expressão dramática intimista e, nessa qualidade, talvez supere Fernando Pessoa.
Em termos psicanalíticos interessa-nos comparar o significado e eficácia dos mecanismos defensivos que cada uma destas personalidades utiliza no seu equilíbrio narcísico e expressão literária. A Heteronímia em Pessoa e o Duplo em Sá-Carneiro.
Otto Rank4 ajuda-nos a compreender como a personificação do Duplo (o outro, o Luís de Montalvor em Incesto, o Lord inglês em A Grande Sombra, o Ricardo Loureiro em A Confissão de Lúcio, o Inácio de Gouveia em A Ressurreição), a forma como Sá-Carneiro, a nível pré-consciente procura manter a completude narcísica (self-uno) ameaçada, e como vai gerindo a culpabilidade face a fantasias incestuosas sadomasoquistas e impulsos autodestrutivos. É assim, através do Duplo, que assegura a imortalidade da obra no conceito de Otto Rank.
Mário de Sá-Carneiro ao abandonar a produção novelística deixa cair as máscaras dos Duplos masculinos com os quais o herói se relaciona sempre de forma ambígua. Tanto são perseguidores como potenciais amantes, mas só na novela Ressurreição se consuma uma verdadeira relação homossexual.
Todavia, uma análise mais aprofundada destas novelas, permitir-nos-á reconhecer a centralidade amorosa na figura feminina, e é ela que dinamiza toda a narrativa (a filha no Incesto, Marta em A Confissão de Lúcio, Paulette em A Ressurreição, a dama fatal
A investigação de Otto Rank remonta a 1914, mas consultámos a tradução francesa de Don Juan et le Double (Payot, 1932). Freud já (1919) chamara a atenção para a “inquietante estranheza” que O Estranho (Das unheimelich) nos causa. Algo que se encontrava reprimido desde a infância e volta à consciência sob a representação de um outro (Heimelich) que nos é secretamente familiar. Segundo Otto Rank este fenómeno está na génese do Duplo, ou seja, assinala o desdobramento do eu. Desenvolve esta investigação em três áreas: na literatura, com realce sobre o Romantismo europeu do século XIX, folclore e superstições populares; na mitologia e história das religiões. São muitos os dados em que se baseia para chegar à hipótese de que o Duplo seja uma defesa para negar a angústia de morte. A dualidade da psyche permite assegurar a crença na imortalidade da alma já que o eu corporal é mortal. A dualidade da alma permite, através do Duplo, que reste o que o eu valoriza (a obra, por exemplo) e elimina o que a perturba. Na literatura, a aparição do Duplo, do outro, (Hoffmann, Óscar Wilde, Maupassant, Musset, Edgar Poe, Dostoievski, etc.) é descrita com sentimentos de ameaça e mistério, origina um clima emocional de “suspense” ao longo da narrativa, quer no modelo do conto fantástico, quer no enredo romântico. Considera que a maior parte destes escritores são personalidades narcísicas, esquizoides ou borderline, dependentes do álcool ou de drogas, com passado traumático e enquadramento social difícil. A criação do Duplo seria a forma simbólica de assegurar a imortalidade da obra.
do baile de máscaras de Nice em A Grande Sombra). Todas estas mulheres morrem e deixam o herói culpabilizado e nostálgico. Podemos então questionar: quem será o Duplo? Qual representará o verdadeiro self do autor? Uma identificação primária com uma mãe abandónica, da qual só poderia fazer um luto patológico, é uma hipótese que os poemas Feminina e Manucure reforçam.
Poderíamos dizer que se a criatividade é uma forma de superar o sofrimento, a dor mental pode também ser uma forma de arrastar e afundar o self nesse mesmo sofrimento, quando Thanatos domina Eros (Freud), quando o narcisismo de morte domina o narcisismo de vida (Green).
André Green – que tão bem elabora o conceito de narcisismo – afirma que é indispensável pensá-lo com referências espaciais e estimula-me a comparar graficamente os sistemas defensivos destas personalidades, ou seja, a eficácia do sistema heteronímico de Fernando Pessoa que o contém, lhe dá estabilidade e aproxima da integridade, mantendo-o criativo e diversificado. Não se suicida.
Pelo contrário, observamos o fracasso defensivo em Mário de Sá-Carneiro quando só escreve poesia. Ao entrar em intimidade com o núcleo do self, isto é, ao tomar consciência da sua fragilidade, desamparo infantil, desorganização, força pulsional da sua auto-destrutividade, como expressa nos seus poemas (Partida, Dispersão, Quasi, Queda) entra em contato direto com uma dor mental insuportável, que designou por Zoina. Zoina que, numa carta de 24 de Março de 1916, descrevera como “lisonjeira, meu Deus, toda mosqueada a loiro e roxo, por isso cada vez mais Cobra: cada vez maior e mais perigosa. Não sei onde isto vai parar! Será possível que as engrenagens me não esmaguem?” O escritor suicida-se dois dias depois.
Sá-Carneiro, na perversidade do seu masoquismo narcisista, alimentava a Zoina, ironizava, negava clownescamente a tragédia que pressentia, e admitia sem pudor (Feminina, Fevereiro de 1916) “o seu desejo de ser mulher”, talvez para disfarçar a sua misoginia e incapacidade de amar. Os seus últimos poemas (1915-1916) revelam um certo empobrecimento simbólico e metafórico (Serradura, Pajem, Caranguejola, Aquele Outro), se comparados com os publicados na Dispersão (1913).
Deprecia-se e autoflagela-se (“a papa-açorda”, “a esfinge gorda”, “o balofo arrotando Império astral”, “o que anda por Paris às moscas”, etc.). Não admira, pois, estava mergulhado num estado melancólico. E assim na mise.en-cene do seu anunciado suicídio, sofreu a Queda:
…Não me pude vencer, mas posso-me esmagar, Vencer às vezes é o mesmo que tombar E como inda sou luz num grande retrocesso, Em raiva ideais, ascendendo até ao fim: Olho do alto o gelo, ao gelo me arremesso… Tombei…
E fico só esmagado sobre mim!
Recordemos que Freud (1914) define a melancolia como “a sombra do objeto cai sobre o Eu”. Neste desespero aparatoso, talvez apenas confie e espere o perdão do seu amigo de alma, Fernando Pessoa, que não chegou a tempo (atraso das últimas cartas por, também ele, estar deprimido).
Em sua memória, Fernando Pessoa escreverá: “Morre jovem o que os Deuses amam! (…). Uns morrem; aos outros, tirado o instinto com que vivem, pesa a vida como morte, vivem morte, morrem a vida em ela mesma. E é na juventude quando neles desabrocha a flor fatal e única, que começam a sua morte vivida”.
Mário de Sá-Carneiro que se envergonhava de confessar “Vem-me a saudade de ter sido Deus!” só descobriu “o desabrochar da flor fatal e única” quando se tornou grande poeta. É assim que assegura a imortalidade da obra, tal como Fernando Pessoa, a sua alma gémea.
ABSTRACT
Comparative psychoanalytic study of defensive mechanisms of narcissistic personality of Fernando Pessoa and Mário de Sá-Carneiro throught the analyse of letters they exchange between Paris and Lisbon (1912-1916). The author consider that in Sá-Carneiro, the passage from novelistic production in prose (with projections in features as Double) to poems (1913), cause in the poet an unbearable mental pain which leads to disruption of the defensive system and brings him to commit suicide. The heteronimic defensive system of Fernando Pessoa with four-poets – different and complemented – gives him a greater stability, more integrated personality, enrich creativity and prevents suicide.
KEYWORDS: Fernando Pessoa, Mário de Sá-Carneiro, /Defensive mechanisms in Narcissistic Personalities, The Doule, Heteronimic system, suicide.