Este livro, que desperta curiosidade e prazer na sua leitura, mostra a importância das experiências emocionais que ocorrem no campo analítico ao longo do processo terapêutico. Roosevelt Cassorla tem a capacidade, através da descrição de certas vinhetas clínicas, de partilhar com o leitor vivências psíquicas que mostram as qualidades da dinâmica da relação que se constrói entre paciente e analista. O leitor entusiasma-se com este livro, porque o autor apresenta e conduz-nos, através de um pensamento psicanalítico contemporâneo, a uma abordagem da dinâmica psicanalítica que se vai construindo entre paciente e analista. O autor, ao longo de diversos capítulos, mostra-nos a sua capacidade de investigação na área da clínica psicanalítica, assim como a sua aptidão para encontrar novos paradigmas que facilitam novas compreensões psíquicas da dinâmica da relação analítica.
Nos três primeiros capítulos aborda a importância do conceito do campo analítico (Baranger & Baranger, 1961, 1962) como uma dinâmica especifica que se constrói e se desenvolve entre psicanalista e paciente. A partir deste paradigma é possível pensar na relação analítica como uma situação total, transferida do passado para o presente, com as mesmas qualidades no que diz respeito às emoções, às defesas e às relações de objetos (Klein, 1952; Joseph, 1985). Chama a atenção para a importância do analista poder sonhar, pensar, e transformar as experiências internas
Membro Titular, com funções didáticas, da Sociedade Portuguesa de Psicanálise (SPP) e da International Psychoanalytical Association (IPA), Diretora da Revista Portuguesa de Psicanálise (SPP)
do paciente que se atualizam na dinâmica da relação transferencial. O analista, ao sonhar o sonho do paciente, descobre e capta novos significados permitindo dessa forma ampliar o seu campo simbólico e ter acesso às áreas não psicóticas da mente. Mas o analista, como descreve muito bem o autor, quando contacta com a área psicótica e traumática da mente do paciente, tenta sonhar o não sonho que se apresenta como falso, estereotipado, sem movimento, sem vitalidade e paralisante. O sonho traumático tem justamente esta característica fatídica enquanto não é sonhado. Quando o não sonho do paciente é projetado no analista, a capacidade de sonhar deste deteriora-se e podem surgir conluios impercetíveis para a dinâmica da dupla analítica. Como sublinha o autor, quando contactamos com a parte psicótica da mente, o campo analítico pode ser evadido por não sonhos, enredos repetitivos, vazios, fanatismos e outras transformações em alucinose.
O autor também nos apresenta um conjunto de capítulos (4, 5, 6 e 9), que constituem um núcleo de importante e agradável leitura, que assentam numa investigação clínica profunda e consistente sobre o enactment na clínica psicanalítica. Começa por sublinhar a importância da diferença de dois conceitos como o acting out e o enactment. Enquanto no primeiro “o analista observa e acompanha as ações não pensadas do paciente, no segundo, o analista está implicado e sujeito às suas próprias transferências e pontos cegos”. Assim, o enactment é considerado pelo autor como um conjunto de comportamentos que envolvem o paciente e o analista e resultam da atualização de situações ou fantasias arcaicas, de medos e de esperanças, na transferência e contratransferência. Desta forma, na relação analítica, são vividas inconscientemente cenas ou situações traumáticas reais ou fantasiadas do passado. No enactment ambos os membros da dupla analítica estão envolvidos, através de identificações projetivas cruzadas, em que representam papéis a dois ou conluios não pensados. O autor salienta ainda que, na sua experiência clínica, o enactment crónico resulta da incapacidade de simbolização quer da parte do paciente quer do analista, mas também uma forma de reviver mecanismos vinculares inicias, obstáculos na capacidade de pensar, nas reversões de função alfa, ou no funcionamento primitivo da mente que nos mostram a génese dos não sonhos.
No capítulo seguinte, o autor mostra como na clínica podem ocorrer enactments crónicos, impercetíveis para a dupla analítica, mas também como certos eventos podem desfazer esse conluio. Esse enactment agudo mostra e indica “que estamos contactando com traumas primitivos, antes congelados, porque a tomada de consciência seria vivida como intolerável”. O autor, ilustrando com material clínico, descreve o valor comunicativo do enactment agudo que ocorre em pacientes narcísicos no momento de oscilação entre defesas de “pele fina” e “pele grossa”. Desta forma, o enactment agudo seria uma manifestação de um impasse, mas também uma forma de comunicação que necessita ser compreendida. Salienta ainda que daria o nome de enactments normais à maioria daqueles que seriam derivados de identificações projetivas normais que se vão diluindo na sequência das intervenções do analista. Enquanto os enactements patológicos, segundo o autor, seriam derivados de identificações projetivas massivas difíceis de se desfazer e que se configuram como agudos quando mobilizam a dupla analítica e que podem durar instantes, se forem compreendidos, ou crónicos, quando se prolongam numa colusão que leva tempo a ser identificada ou se torna num impasse de difícil acesso. O autor apresenta um capítulo, particularmente interessante – “o enactment e função-alfa implícita na análise de configurações borderline” -, na medida em que, habitualmente, é nestas circunstâncias que se torna mais claro a compreensão deste conceito. No campo clínico podem surgir, na dupla analítica, conluios obstrutivos que se podem configurar, segundo o autor, de duas formas: primeiramente, o analista percebe os ataques do paciente, tenta compreendê-los e interpreta-os, acabando por ter bons resultados. Porém, pode também acontecer que a dupla analítica transforme a relação num conluio sadomasoquista, desenhando-se uma componente destrutiva que se pode alternar com momentos de idealização mútua. Nestas circunstâncias, parece que o analista está cego face a esses conluios, embora na dinâmica da relação possa haver um ambiente incómodo. O autor, face às interrogações que se põem nestas situações clínicas descritas, coloca algumas hipóteses teóricas. Assim, o sonho, que ocorre entre analista e paciente, tem também componentes de “não sonho” que, misturados com o sonho, expressam a sua necessidade de serem sonhados. Desta forma, o autor sublinha que o enactment agudo revela, ao vivo, transformações em sonho, e envolve descargas, não sonhos sendo sonhados, e possivelmente sonhos revertendo para não sonhos. O autor sublinha ainda que a experiência de investigação clínica lhe mostrou que as associações dos pacientes levaram à identificação de situações reais ou
Nos últimos dois capítulos o autor analisa e discute por um lado, certas narrativas míticas como Édipo, Tirésias e a Esfinge, que condensam “fantasias ancestrais da humanidade e que refletem complexas configurações emocionais”. E, por outro lado, alguns aspetos ligados à teoria e à técnica psicanalítica, partindo do seu interesse e curiosidade sobre a experiência emocional, assim como da sua transformação em sonho.
Este livro, que se lê com entusiamo da primeira à última folha, constrói uma dinâmica de relações e de interrogações na área da investigação clínica, mantendo sempre um questionamento e interesse através de um diálogo que se vai construindo internamente entre o autor e os leitores.
Lisboa, 20 de Agosto de 2016
imaginárias, com cunho traumático, como as exclusões, separações, deceções, violências e intrusões. Estes dados de investigação clínica, de forte teor traumático, colocam algumas interrogações ao autor relativas à agudização do enactment crónico. Interroga-se, assim, acerca do enactement agudo que surge “como ilustrativo de violenta mudança catastrófica”, questionando se “na fase pré-catastrófica seria possível identificar elementos invariantes”. Enfatiza as características dos enactments crónicos e compara-os aos sonhos traumáticos, sublinhando que nestas circunstâncias a ansiedade não se manifesta ou não é entendida pelos membros da dupla analítica. Interroga se uma das funções do enactment crónico não seria funcionar precisamente como tampão da ansiedade. Desta forma, operava como um “não-sonho-a-dois” com “ansiedades tamponadas” em que a situação traumática é congelada, não se manifestando. Assim, sublinha que estes enactments agudos podem envolver a dupla analítica num conluio obstrutivo, que contém uma condensação de fenómenos congelados, relacionados com traumas. Segundo o autor, o enactment agudo indica o descongelamento e a rutura do bloqueio anterior e, desta forma, o campo analítico é invadido por explosões afetivas que envolvem o abandono, a intrusão, a separação e o aniquilamento. Desta forma, o enactment agudo manifesta uma catástrofe psicológica em que o trauma está a ser revivido no campo analítico. Roosevelt Cassorla enfatiza também que, para além dos enactments patológicos, existem aqueles que são vividos naturalmente como normais pela dupla analítica, numa relação de campo onde pessoas distintas tentam comunicar e sonhar a dois através de movimentos de identificações projetivas normais.