O autor apresenta uma breve reflexão sobre aspectos de natureza ética, associados ao poder, à liberdade, e à responsabilidade, que surgem na atividade clínica e na exigente formação do psicanalista no século XXI. A visão humanista da psicanálise sempre valorizou a conquista individual de autonomia e da liberdade interna para optar; e não pode nunca esquecer também a responsabilidade consequente da conquista dessa liberdade. Por último, a perversidade, os funcionamentos corruptos e as circunstâncias íntimas do poder são também abordadas, associadas à vivência infantil do gozo ilimitado, e à sua inscrição na construção da identidade analítica.
Sabemos como a exigente e longa formação psicanalítica procura preparar o analista para as múltiplas particularidades a que intimidade clínica o irá expor: torná-lo capaz de enfrentar os medos e respeitar a liberdade de ambos, analista e paciente; de confrontar o risco e a incerteza, de suportar a tremenda responsabilidade e expectativa, de viver o mistério e a exclusividade.
Tenho como certo que tal preparação não se adquire pela mera sanção autoritária ou recurso a manual de boas práticas (qual utensílio pragmático!). A disciplina técnica pode ser facilmente pervertida, transformando-se o manual normativo na finalidade de “melhor controlar”, ao invés de “libertar” o Homem (facto a que Foucault em boa hora nos alertou).
Numa sociedade pós-moderna, que Gilles Lipovetsky nos vem falando nestes últimos vinte/trinta anos (ele que tanto tem para nos ensinar sobre a liberdade), o profissional de saúde mental, estruturado nos dogmas da ciência moderna, surge agora mais liberto da disciplina, alimentado pelas novidades e novas técnicas psicoterapêuticas, novos dados das áreas de vanguarda (neurociências, programação neuronal, ou outras), numa atitude sedutora, de conquistador, diferenciando-se do passado e valorizando o novo. Impõe igualmente alguma normatividade, mas de forma inteligente e subtil, pela aparente escolha e pela espectacularidade, e não mais pela disciplina – basta ver os múltiplos sites de profissionais, onde a novidade da técnica garante a excelência e eficácia, “cientificamente comprovada”, devidamente credenciado, e se apresentam desta forma, qual empreendedor, à conquista do mercado/pacientes, mas também narcisicamente do reconhecimento dos seus pares.
Os centros de ciência e intervenção clínica e os projectos de investigação, para obterem financiamento, terem continuidade, e garantirem emprego aos seus elementos, são eles próprios quase obrigados a reorganizarem-se neste mesmo formato. Estamos perante uma nova maneira da sociedade gerar atitudes, nos profissionais e nos pacientes: desejamos encontrar o máximo de escolhas possíveis, com o mínimo de coerção, da forma mais indolor possível e com o máximo de compreensão e permissividade. É um sistema que parece funcionar mais pela emoção do que pela obrigação ou penalização, afirmando os valores da autonomia individual.
Os profissionais de saúde mental não se estabelecem mais pela autoridade, que se traduzia no passado por uma intervenção clínica que
Artigo recebido em 26 de Março de 2017 e aceite para publicação em 29 de Abril de 2017.
Este texto tem como base duas comunicações diferentes, uma apresentada no VI Congresso Internacional de Bioética. Filosofia Y Salud Mental, em Barcelona, em Novembro de 2015, e uma outra no XXVII Colóquio da Sociedade Portuguesa de Psicanálise, “Da Liberdade e do Medo”, em Abril de 2016.
Psicanalista. Membro titular com funções didácticas da Sociedade Portuguesa de Psicanálise (SPP) e da International Psychoanalytical Association (IPA). Presidente da Sociedade Portuguesa de Psicanálise (SPP). e-mail:
impunha a submissão do paciente, que se pretendia passivo e obediente; os profissionais surgem agora sedutores e conquistadores, apresentando-se como que a dominar a mais recente técnica (ou escola teórica), a novidade do tratamento, mais eficaz e, claro, mais eficiente (com o menor dos esforços e tempo, alcançamos resultados semelhantes ou melhores), reclamando um lugar onde aparecem cheios de si próprios: os melhores, muito diferenciados, mais científicos, modernos e de excelência – uma fácil armadilha para Narciso, por vezes.
Tenho tido oportunidade de reflectir estes incontornáveis aspectos de natureza ética, associados à liberdade, a libertinagens e receios vários, não apenas na clínica, mas igualmente na docência, na investigação e até mesmo na administração directiva de instituições de saúde ou meios universitários. São elementos humanos que, de alguma forma, Freud nos tinha já referenciado sobre a sua presença quando escreveu a Albert Einstein em 1932 em “Por que a Guerra?”. Elementos perturbantes e em convivência conflitual devem ser sempre encarados de forma séria e profunda. Já anteriormente, quando refletira sobre o tema da guerra, no artigo ‘Reflexões para os Tempos de Guerra e Morte’ (), que Freud escreveu logo no início da I Guerra Mundial, e depois nos seus escritos mais sociológicos – O Futuro de uma Ilusão () e O Mal-Estar na Civilização () – manifestou o dilema e responsabilidade inevitavelmente vividos pelo Ser Humano nas suas acções e atitudes, no pior dos cenários – a Guerra – e no mais intimo das suas vivências internas inconscientes.
Parece-me importante recordar algumas das suas reflexões (S. Freud, 1933). Desde sempre:
os conflitos de interesses entre os homens são resolvidos pelo uso da violência. É isto que se passa em todo o reino animal, do qual o homem não tem motivo para se excluir. No caso do homem, sem dúvida ocorrem também conflitos de opinião (…). No início, numa pequena horda humana, era a superioridade da força muscular que decidia quem tinha a posse das coisas ou quem fazia prevalecer sua vontade. A força muscular logo foi suplementada e substituída pelo uso de instrumentos: o vencedor era aquele que tinha as melhores armas ou aquele que tinha a maior habilidade no seu manejo. A partir do momento em que as armas foram introduzidas, a superioridade intelectual já começou a substituir a força muscular bruta (…). À intenção de matar [o inimigo] opor-se-ia a reflexão de que o inimigo podia ser utilizado na realização de serviços úteis, se fosse deixado vivo e num estado de intimidação. Nesse caso, a violência do vencedor contentava-se com subjugar, em vez de matar, o vencido. Foi este o início da ideia de poupar a vida de um inimigo, mas a partir daí o vencedor teve de contar com a oculta sede de vingança do adversário vencido e sacrificou uma parte de sua própria segurança. Esta foi, por conseguinte, a situação inicial dos fatos: a dominação por parte de qualquer um que tivesse poder maior.
E depois de uma interessante explicação de natureza histórico-sociológica sobre as causas de guerra, Freud introduz o que denomina de suas hipóteses explicativas sobre as particularidades do funcionamento mental inconsciente (nosso sublinhado):
De acordo com nossa hipótese, os instintos humanos são de apenas dois tipos: aqueles que tendem a preservar e a unir que denominamos eróticos [Pulsão de Vida] (…) e aqueles que tendem a destruir e matar, os quais agrupamos como instinto agressivo ou destrutivo [Pulsão de Morte]. (…) não devemos ser demasiado apressados em introduzir juízos éticos de bem e de mal. Nenhum desses dois instintos é menos essencial do que o outro; os fenómenos da vida surgem da acção confluente ou mutuamente contrária de ambos. Ora, é como se um instinto de um tipo dificilmente pudesse operar isolado; está sempre acompanhado ou, como dizemos, amalgamado por determinada quantidade do outro lado, que modifica o seu objetivo ou, em determinados casos, possibilita a consecução desse objetivo. Assim, por exemplo, o instinto de auto-preservação, certamente é de natureza erótica [Pulsão de vida], não obstante, deve ter à sua disposição a agressividade, para atingir o seu propósito. Dessa forma, também o instinto de amor, quando dirigido a um objeto, necessita de alguma contribuição do instinto de domínio, para que obtenha a posse desse objeto. A dificuldade de isolar as duas espécies de instinto nas suas manifestações reais é, na verdade, o que até agora nos impedia de reconhecê-los (…). Muito raramente uma acção é obra de um impulso instintivo único (que deve estar composto de Eros e Thanatos). A fim de tornar possível uma acção tem de existir, regra geral, uma combinação desses motivos compostos.
Como se combinam então estes dois instintos – Vida e Morte, Eros e Thanatos – na intimidade do espaço clínico, no desenvolvimento do trabalho do psicanalista? Que implicações de ordem ética poderemos antever face à autoridade, ao receio, mas também à liberdade que o paciente nos reconhece?
Continuarei a minha reflexão com a presunção que tenho inerentemente uma ética duvidosa sobre o meu trabalho clínico. E acho mesmo que só posso
ter uma ética sobre a qual permanentemente me questiono relativamente às minhas intenções.
Tentarei explicar: recordo primeiro que foi Kant quem nos esclareceu que o valor moral de uma acção reside na sua intenção e não tanto nas suas consequências. Aliás, demonstrou também como duas acções diferentes podem ter consequências semelhantes e boas, e uma delas não ter valor moral, e ser portanto eticamente questionável.
Para o Homem, o lugar convocado pela ética está associado à transferência da atribuição da responsabilidade dos seus actos a terceiros (Deuses, magia, ídolos, ciência, produto, teoria ou técnica específica) para agora assumir ele próprio, o Homem, essa responsabilidade. Deste modo, desloca o julgamento Moral externo para o plano interno, desencadeando uma necessária modificação do conceito de sanção divina para um assumir exigente de permanente responsabilidade pelos seus actos.
Podemos entender desta forma que a ética emerge como resultado da ânsia de salvação do Homem, conquistando e assumindo a responsabilidade dos seus actos e atitudes.
É talvez na situação clínica que a velha máxima decorrente destes movimentos libertadores, atribuída a Sócrates, tem maior propriedade, contendo uma forte exigência reflexiva por inerência, ou seja, tens de te conhecer a ti mesmo!
Na clínica psicanalítica o “conhece-te a ti mesmo” tem plena propriedade:
por não se centrar no sintoma e cura imediata;
pela presença de registo não autoritário e não impositivo;
por não dizer ao paciente o que se deve ou não fazer;
por não o julgar moralmente;
e enquanto clínico, não o classifico (não lhe coloco um qualquer rótulo nosográfico); talvez enquanto investigador – a classificação pode servir-me no auxílio do meu trabalho clínico.
Na clínica analítica, o paciente tem oportunidade de assumir a sua responsabilidade da narrativa sobre a sua história, da história passada, e da que irá ter oportunidade de construir no futuro.
A análise pretende ser libertadora e não assumir como fim uma postura paternalista e protetora de providenciar segurança para o seu quase-infantil paciente.
Parece simpático e simples, mas de facto não o é. Pelo contrário, é particularmente difícil, quer para paciente como para o terapeuta. Porque ambos se disponibilizam a descobrir a multiplicidade de intenções dos seus actos, por vezes brutais, contraditórios ou caóticos, onde Eros e Thanatos se parecem combinar em acordos (quase) secretos.
Como entender um funcionamento mental com multiplicidade de intenções complexas, caóticas ou, no mínimo, contraditórias? O contacto com processos inconscientes inscreve-se numa lógica diferente da racional, já que se apresenta atemporal e não-contraditório, entre outras propriedades.
Na clínica actual predominam cada vez mais os mecanismos mentais de clivagem e de negação, que permitem ao sujeito desenvolver áreas paralelas da mente que se desenvolvem, que racionalmente se conhecem, mas que emocionalmente não se tocam – são as duas faces da mesma moeda, como Freud as celebrizou, e que embora saibam da existência da face contrária, nunca se conhecem na intimidade afectiva. Criam situações inteligentes, onde o racional se organiza defensivamente, garantindo o afastamento dentro de si próprio de sentimentos e angústias desorganizadoras ou culpabilizantes. Assumem particular importância no que toca à responsabilidade que a liberdade pode permitir.
Estes funcionamentos perversos da mente – e não falo de patologias perversas mais disruptivas e flagrantes – permitem, por exemplo, cumprir todas as regras, recomendações e disciplinas, mas contudo dar existência secreta, e por vez excitatória, a intenções destrutivas ou des-objectizantes, que remetem para vivências inconscientes pré-genitais de omnipotência e que evitam ansiedades nucleares intensas.
Estamos habituados aos grandes quadros nosológicos, e nem sempre nos apercebemos destes funcionamentos mentais. Talvez a profundidade e duração do trabalho psicanalítico possa dar um contributo importante, na convivência interna de diferentes funcionamentos, aparentemente pacíficos no plano consciente.
Na clínica, o paciente depara-se com estes mecanismos e diferentes intencionalidades, dando-lhes progressivamente consciência e expressão, e sem nos colocar a nós como a divindade externa que o aprova ou desaprova, sendo assim forçado a assumir a responsabilidade das suas intenções e de se questionar.
Perceber, portanto, essa multiplicidade de intenções do nosso inconsciente traduz tensão, sofrimento, e proximidade com loucura. E só nos pode levar à necessidade permanente de ter a responsabilidade de pensar sobre as nossas próprias intenções.
De forma muito curiosa, mas bem interessante, o filósofo Emmanuel Levinas associou a capacidade de pensar ao uso que podemos fazer dos livros: “Há quem tome o livro como mera fonte de informação, como um ”utensílio“ para aprender, como um manual, quando é, na verdade, uma modalidade do nosso ser. Com efeito, ler é manter-se acima do realismo – ou da política - da preocupação por nós mesmos” (Levinas, 1982, pp. 11).
Ler um livro ou um texto científico, para além de instrumento, deverá servir também para nos interrogar a nós próprios, para pensar.
A intervenção em saúde mental não deve esquecer este mesmo propósito – o de promover capacidade de pensar. Daí a importância da proximidade com a filosofia, precioso auxílio no estudo de problemas fundamentais relacionados com a existência, conhecimento e verdade.
O mundo mental obriga a um respeito pela individualidade e existência dos dois intervenientes, terapeuta e paciente, muito diferenciados de outros campos de acção terapêutica. A relação não deve neutralizar a alteridade, mas sim conservá-la e respeitá-la.
Por um lado, precisamos de profissionais livres para pensar criticamente, que saibam pensar, que não sigam simplesmente regras, receitas ou directivas de um qualquer modelo. Mas a atribuição de responsabilidade aumenta desmesuradamente, pelos seus actos e principalmente pelas suas atitudes.
Retorno ao início, e às particularidades formativas do psicanalista: também a ele, humano (e pouco divino), a prática clínica irá expô-lo ao contato com seus próprios refúgios psíquicos e funcionamentos perversos. Daí ser um trabalho formativo para a vida, que obriga a análise pessoal interminável. Primeiro uma análise pessoal, que depois é continuada internamente, auxiliada pelas reflexões com colegas, pela discussão científica, pela partilha envolvida, pela confrontação e evolução (ou mesmo com períodos de análise).
O apelo do paciente, que lhe confere um poder (mais ou menos realista, mais ou menos divinal), suscita particularidades no terapeuta, por ventura nem sempre acessíveis ao plano consciente, abrindo sempre espaço à emergência da pluralidade intencional e do acto perverso.
Parece contudo mais simples pensar primeiro a perversão no plano institucional. Sendo que aí o que verdadeiramente se corrompe é a própria lógica simbólica que sustenta a instituição. Quando corrompida, encontramos uma crise de legitimidade. Por vez difícil de solucionar, porque as instituições têm vida própria, para além das personagens e agentes, e tendem a perpetuar-se. Para tal aliciam inconscientemente o sujeito para alguns níveis de funcionamentos psíquicos, onde jogam fortemente com a promessa de projectar o sujeito para além dos simples humanos, num reforço omnipotente tentador, a que ninguém parece indiferente. Diria mesmo, no limite, a que nenhum de nós é indiferente.
Os códigos de ética são certamente importantes, mas também passíveis de serem pervertidos, e serem transvestidos para normas de conduta moral, controladora e manipulativa.
A nível pessoal, a perversidade da corrupção pode ser pensada como sintoma de certo tipo de enlouquecimento, como nos propõe Marion Minerbo (2007) (colega de São Paulo, que se tem debruçado sobre o fenómeno da corrupção).
A loucura narcísica onde o sujeito surge como o melhor, e passa a sentir que pode tudo, e que nada tem a perder ou a temer – encontramos essa ocorrência em pessoas que têm poder político, financeiro, ou em celebridades. Mas até mesmo um simples gestor de supermercado, ou chefe administrativo, clínico, pode sentir-se poderoso frente aos seus subordinados.
As particularidades da intimidade clínica, decorrente de uma relação prolongada no tempo, em que por vezes o paciente se posiciona de forma reverente, subserviente, idealizando o terapeuta em devoção fascinada e apaixonada, colocam na ordem do dia este tema. Comportam-se com a mesma atitude que a criança pequena tem em relação aos seus pais – e que criança ousaria repreender o seu pai quando este passa dos limites?
E mesmo fora da intimidade clínica, reforçando as particularidades formativas e de alguma espectacularidade de congressos, seminários, supervisões ou aulas, temos que perceber que o homem comum pode olhar para o poderoso e brilhante terapeuta/professor, empresário, político, etc., e exclamar internamente “oh sim, este sim, com todo este poder e genialidade de conhecimento e perspicácia, este goza plenamente, e é amado por todos”. Projecta certamente as fantasias infantis de prazer absoluto a que renunciou, mas nas quais continua secretamente a acreditar.
As situações privadas de poder, ao contrário das públicas, apresentam uma plateia mais diminuta ou quase inexistente (só talvez a do plano interno), que se torna por vezes incapaz de se impor, controlar ou punir, dando assim oportunidade para revelar partes e funcionamento mentais nem sempre conscientes para o corrupto. Não é o poder que corrompe. Como Fábio e Leda Herrman (2014) afirmam: “o poder revela”; revela partes do sujeito que o próprio desconhece, e que nos deve fazer questionar sobre nós próprios.
No plano individual, de formas diversas, precisamos sempre que as pessoas sinalizem como a lei é igual para todos, incluindo para aqueles que concentram um poder elevado, seja financeiro, militar, institucional, clínico ou meramente simbólico.
Inconscientemente todos encontramos uma vivência infantil, de reverência ao poderoso, que alimenta a fantasia de vir a gozar de forma ilimitada.
Claro que existem diferentes níveis de agir estas vivências, e certamente não somos todos sociopatas e agimos acima da lei. Mas ao assumirmos a autonomia de pensar por nós próprios, como sucede na clínica psicanalítica, a responsabilidade sobre os nossos próprios actos aumenta proporcionalmente.
A lógica economicista, que hipervaloriza o empreendorismo, o reconhecimento e o espectáculo
sedutor, perante uma sociedade tão preocupada com conforto e felicidade, coloca-nos perante desafios de tornar a capacidade de fazer a ética da responsabilidade triunfar sobre os comportamentos irresponsáveis. São desafios que, de alguma forma, sempre estiveram presentes na história da intervenção em saúde mental, mas que acredito necessitarem de especial atenção na formação inicial e contínua dos seus profissionais.
Não penso que existam só irresponsáveis e irresponsabilidade. A atitude de responsabilidade co-habita com a irresponsabilidade, incapaz de resistir tanto às solicitações exteriores, quanto ao apelo dos impulsos interiores.
A tomada de responsabilidade pelos próprios actos, como Levinas bem defendia, implica valorizar sempre a inteligência dos Homens e a sua alteridade, mobilizando as instituições e preparando-os para os problemas do futuro.
A psicanálise sempre valorizou a conquista individual de autonomia, autonomia de escolher, a liberdade de poder optar; e não pode nunca esquecer também a responsabilidade consequente da conquista dessa liberdade.
A visão humanista é centrada predominantemente na liberdade interna do sujeito pensante, que se deverá sobrepor à liberdade económica ou científica. É esta a liberdade que penso que deve ser defendida: como Julian Kristeva (2004) referia, a liberdade do indivíduo que se revela no acto de revolta, i.e., quando se volta sobre si mesmo e se questiona.
O conhecimento científico, a cultura e a arte, tal como a comunicação social e o jornalismo, podem dar uma preciosa ajuda nesse mesmo questionamento.
Para concluir, queria apenas afirmar que um dos privilégios desta profissão – de psicanalista – é por vezes conseguir testemunhar a forma como o Outro conquista uma infinita liberdade que só aí parece ocorrer.
ABSTRACT
Taking in count the exigent circumstances of the training in Psychoanalysis today, the author presents few ideas on ethical aspects related with power, freedom and responsibility that arise in the clinical activity.
The humanist view of psychoanalysis have always valued the individual conquest of autonomy and the internal freedom to choose; And we can never forget the consequent responsibility for the achievement of that freedom.
Finally, perversity, corrupt mental process and the intimate circumstances of Power are also discussed, associated with the infantile experience of unlimited enjoyment, and its inscription in the construction of analytic identity.
KEYWORDS
Psychoanalytical identity
Freedom
Power