A autora procede a uma reflexão psicanalítica sobre os conceitos de Medo e de Liberdade, no contexto da psicopatologia, do processo de desenvolvimento psicológico do ser humano, e no contexto mais vasto da cultura contemporânea. Complementa a reflexão discutindo os resultados a que conduziram os seus trabalhos de investigação empírica sobre o processo de autonomia na adolescência, e os seus trabalhos de investigação clínica sobre o conflito que a autora identificou e que designou por “Medo e Desejo de Crescer”.
Liberdade e medo, dois termos aparentemente desconexos, tecem entre si dinâmicas e interações psíquicas importantes, sobre as quais me proponho refletir neste artigo. Começarei por enquadrar a reflexão no contexto da psicopatologia.
Como clínicos, sabemos que o sentimento de liberdade individual pode ser gerador de medos. Concordo com Paul Denis (2016), quando afirma que “a liberdade provoca medo e existem mesmo fobias da liberdade”. Para ilustrar esta afirmação, referirei a agorafobia e a claustrofobia.
A agorafobia significa medo de lugares abertos. Na clínica apresenta-se, por exemplo, como medo de sair de casa (espaço confinado e habitado por pessoas conhecidas), e ir para a rua (espaço de liberdade, ilimitado, povoado por desconhecidos), ou como um medo de situações em que o socorro imediato não é possível.
A claustrofobia significa medo de ficar cativo dentro de um lugar fechado. Aviões, comboios, salas ou ascensores, transformam-se em estímulos desencadeadores do medo de ficar confinado a um espaço sobre o qual não se tem controlo. Também um poder exercido sobre o sujeito (cumprir um horário, regras, ou qualquer imposição que signifique alguma alienação da liberdade pessoal) pode ser geradora de ansiedade claustrofóbica.
Mudando agora o vértex de reflexão para o contexto do desenvolvimento psicológico do ser humano, penso que a liberdade terá de ser conquistada no quadro da relação com o Outro de que se depende.
E, neste contexto, abordarei a dialética “Medo vs Liberdade”, tendo por base o resultado dos estudos e da investigação empírica que desenvolvi no âmbito da psicologia da adolescência.
No âmago dos processos adolescenciais, pus em evidência duas forças psíquicas antagónicas (Fleming, 2005) que designei por: medo e desejo de crescer.
O desejo de crescer expressa-se pelo desejo de romper com a dependência emocional dos pais, pelo desejo de ser livre. O medo de crescer expressa-se pelo desejo de conservar a proteção dos pais e de se manter no porto de abrigo familiar.
Desta dinâmica entre forças que se opõem podem resultar para o processo de emancipação: retrocessos (regresso à infância), impasses (paragem do desenvolvimento), ou avanços (progressos na autonomia).
Enquanto psicanalista, é frequente encontrar nos adolescentes que tenho em consulta, estas duas forças em confronto, provocando ansiedade e perturbação emocional e pondo em evidência quanto o desejo de autonomia (comportamental, ideacional e emocional) gera simultaneamente muitos medos: medo da desproteção, do desconhecido, da assunção de novas responsabilidades.
Parece-me interessante também referir aqui os resultados duma extensa investigação empírica que realizei (Fleming, 1992a, 1992b) sobre a relação entre a autonomia dos adolescentes e as práticas educativas dos seus pais. Constatei que
Artigo recebido em 26 de Março de 2017 e aceite para publicação em 29 de Abril de 2017.
Psicanalista. Membro Titular, com funções didáticas, da Sociedade Portuguesa de Psicanalise (SPP) e da International Psychoanalytical Association (IPA); Professora Catedrática de Psicologia, ICBAS, Universidade do Porto. e-mail:
os adolescentes que maior sucesso tinham no seu processo de autonomia, eram os adolescentes que diziam ter pais que punham regras e limites aos seus comportamentos, porque esses adolescentes sentiam a imposição de limites como uma rede de proteção que os estimulava e permitia “voar”, ou seja, libertar-se do ninho familiar com mais segurança.
Este estudo, que se encontra publicado em livro (Fleming, 1993), reforça a referência que Paul Denis (2016) faz à afirmação do eminente filósofo francês Tocqueville, quando escreve: “os Homens assustam-se com uma independência sem limites”.
Com efeito, vivemos numa cultura em que o estabelecimento de limites se confunde muitas vezes com opressão e não é visto como um mecanismo de proteção.
Somos seres biológicos e a realidade anatómica tem as suas regras e impõe os seus limites.
Penso que Freud enuncia com a sua afirmação, “a anatomia é o destino”, uma verdade e, penso também que, citando Tolstoi, que “não alcançamos a liberdade buscando a liberdade, mas sim a verdade. A liberdade não é um fim, mas uma consequência”. Mas, “suportar a liberdade implica um aparelho mental bastante elaborado e em particular uma capacidade de estar só” (Paul Denis, 2016) ou, como escreve Fernando Pessoa, no seu Livro do Desassossego, “a liberdade é a possibilidade do isolamento. Se te é impossível viver só, nasceste escravo”.
Diria, neste contexto que, na minha perspetiva, a liberdade extrema é poder pensar, na medida em que o pensamento é infinito, não conhece o limite.
Pertenço a uma geração que, na sua adolescência, cantava com os amigos, o seguinte poema de Carlos de Oliveira, interpretado por Manuel Freire:
Não há machado que corte
a raiz ao pensamento
Porque é livre como o vento
Porque é livre.
Significa isto que: o que ameaça a liberdade, o que pode amordaçá-la, é o colapso, a falha ou a impossibilidade de pensar, e neste sentido digo, citando Virgínia Woolf (que se suicidou): “A doença é a perda completa da liberdade” (in As Grandes Cartas de Amor, 2016, p.161).
Na claustrofobia, na agorafobia, como em qualquer outro síndrome psicopatológico, o Ego submete-se.
O distúrbio do funcionamento psíquico por força das exigências pulsionais (princípio do prazer) ou por força das exigências, por vezes ditatoriais, das instâncias normativas, seja do Super-Ego, seja do Ideal do Ego, leva à perda da liberdade interna, enfraquece o Ego, e o sujeito pode ficar refém de ditames ou leis que aplica a si próprio.
“Não creio, no sentido filosófico do termo, na liberdade do homem. Todos agem não apenas sob um constrangimento exterior, mas também de acordo com uma necessidade interior”, escreveu Albert Einstein.
Escrevi atrás que o pensamento é livre mas, tal como a liberdade, pode ser fonte de medos ou de inquietações.
George Steiner (2005), no seu livro “Dez razões (possíveis) para a tristeza do pensamento”, escreve o seguinte: “De um ponto de vista rigoroso, cada ser vivo – homem, mulher e criança – é um pensador” (p. 57). E escreve também que “O pensamento pode tornar-nos estranhos uns aos outros” (p. 56).
Então, se por um lado “não há machado que corte a raiz ao pensamento”, ao mesmo tempo, o pensamento é opaco e silencioso.
O pensamento é impenetrável e, não sabendo nunca o que o outro está a pensar, “o pensamento torna-nos estranhos uns aos outros”, e a estranheza gera ansiedade.
O labirinto da interioridade pode ser assustador. À pergunta “em que estás a pensar?”, a resposta desdobra-se em múltiplas camadas que têm ainda passado por complexos filtros ou camadas defensivas.
Freud propôs como técnica psicanalítica a associação livre: “Diga tudo o que lhe vier à cabeça”.
O psicanalista esforça-se em ajudar o paciente a compreender a teia do medo com o objetivo de alargar o espaço mental da liberdade do pensamento.
Termino com um olhar da filosofia, desta vez de Nietzsche:
L'homme est une corde tendue entre la bête et le surhumain – une corde sur l'abîme. Il est dangereux de passer de l'autre côté, dangereux de rester en route, dangereux de regarder en arrière – frisson et arrêt dangereux.
Visto a partir deste vértex, diria que o perigo é inerente ao caminho e à condição do caminhante humano, e o perigo arrasta o medo, desde os primórdios. Mas, espantar o medo, ajudar a enfrentar o medo, pensar e dar sentido ao medo, transmitir valores que orientem o caminhante a decidir, é também a arte e o amor dos primeiros adultos cuidadores e um exercício de liberdade.
ABSTRACT
The author offers a psychoanalytic reflection on the concepts of Fear and Freedom in the context of psychopathology, in the context of the process of psychological development of the human being and in the wider context of contemporary culture. She complements her reflection by discussing the results of her scientific research on the process of autonomy in adolescence and of her clinical research on conflict that the author identified and named as “Fear and Desire to Grow”.
KEYWORDS
Agoraphobia
Claustrophobia
Thought
Adolescence
Fear and Desire to Grow