Na clínica dos medos surgem as partes do self que carecem de representação e de simbolização, e será através do setting que a psicanálise se oferece enquanto relação continente/conteúdo capaz de dar sentido e de promover mudança. A autora desenvolve neste trabalho a ideia de que os medos se originam a partir do conflito inconsciente que radica na angústia primordial: temos medo do que precisamos e do que desejamos. O texto é ilustrado com sonhos de pacientes que pretendem sustentar como a tarefa da análise é estabelecer uma escuta, uma tolerância ao negativo e um espaço potencial de significação e de transformação.
Cegonhas brancas de olhos crus voavam sem céu
Rasgavam o linho amarrotado do tempo que escureceu
Em fevereiro estive no Porto, a propósito das Jornadas Clínicas do IFTP, tendo aproveitado para um fim-de-semana com a família. Em visita muito desejada e apreciada pelo meu filho mais novo ao Sea Life, vi-me envolvida num quizz sobre vida aquática e preservação do planeta que terminava com a seguinte questão, plasmada numa grande superfície espelhada na qual nos víamos refletidos: qual o animal mais perigoso do mundo?
A incompletude e finitude da condição humana imprimem uma angústia depressiva originária. Condenados à vida, destinados à morte, a sobrevivência biológica obriga à relação, mas a relação corrobora o desamparo, pois pressupõe a descontinuidade e a frustração. Esta fragilidade, que se organiza simultaneamente enquanto matriz e radical da espécie, impele à busca de sentido, à pegada migratória e exploratória mas vê-se, ela própria, votada ao desencontro, à consciência dolorosa do verbo, no lugar da coisa.
Vivemos segundo o primado destas duas angústias: do que necessitamos e do que desejamos.
Ou seja: o que nos liga é também o que nos separa; o que nos salva é também o que nos mata. Eis o nosso paradoxo existencial, a raiz da nossa dor. Do sujeito ao objeto relacional e do objeto ao sujeito epistémico: aquilo que eu amo é também o que odeio; mas aquele de quem preciso é também quem me pode libertar.
Resta-nos criar presença na ausência, aceder à exclusão sem rejeição, reinventar édipo em narciso. Cada um de nós traz em si o enigma de saber quem é e, em nome deste, percorrerá o seu caminho: do terror à humildade; do medo à generosidade; da inveja à construção.
Somos uma espécie imatura à nascença, em que temer a morte gera o medo da vida. A sobrevivência biológica e psicológica decorre do potencial de transformação dessa ceasura, na construção de uma relação com outro que se acrescente e perdure para além do outro, na sua subtração. Ou, dito de outra forma, a estabilidade e a esperança são sustentadas pela qualidade da internalização das relações de objeto que decorre dos processos identificatórios e contraidentificatórios.
Esse encontro com o outro nem sempre nos devolve matéria de construção, podendo gerar-se (ou instalar-se) mais angústia, numa não-significação que põe em risco o edifício, o lugar e o caminho. Estas experiências precoces vividas como falhas darão lugar a terrores sem nome, partes órfãs de nós próprios, vivências que passam a acompanhar-nos, orbitando ou perseguindonos, reclamando atenção e filiação. Serão estados transitórios, somáticos, fóbicos, oníricos, quadros sintomáticos ou mais estruturais.
“If I cannot inspire love, then I will cause fear.” (Frankenstein, de Mary Shelley)
Artigo recebido a 24 de agosto de 2016 e aceite para publicação em 17 de dezembro de 2016.
Comunicação apresentada no XXVII Colóquio da Sociedade Portuguesa de Psicanálise, “Da Liberdade e do Medo”, em abril de 2016.
Membro Titular da Sociedade Portuguesa de Psicanálise (SPP) e da International Psychoanalytical Association (IPA). e-mail:
Freud descreve, através do jogo da bobine, os primórdios da representação do objeto a partir da sua “realização alucinatória”. Para Klein, é a própria necessidade do objeto que o torna persecutório: assim, o “mau objeto” decorre da insuportabilidade da experiência de insatisfação. Para Lacan, é necessário que a coisa se perca para que possa ser representada. Winnicott desenvolve o conceito de “espaço transicional” como lugar interno de ilusão necessária à construção da confiança básica que permitirá passar da omnipotência à capacidade de estar só.
Para Bion, a relação continente/conteúdo pressupõe uma área in-saturada, em expansão, a partir da qual a experiência emocional só pode ser concebida no interior de uma equação que contenha a ausência. Neste modelo, a importância da frustração está para além da qualidade e da realidade do objeto externo, numa leitura mais intrapsíquica do que relacional. Mais do que uma “relação de objeto”, o que é internalizado é o processo da própria relação, admitindo o negativo, o desconhecido e a capacidade de tolerar a dúvida e de integrar o infinito, através da função simbólica.
Se o simbólico é o recurso à representação no lugar do objeto perdido, a existência por si só do objeto reenvia-nos, em permanência, para a sua ausência, ou falência, reativando as angústias primitivas, reabrindo na cicatriz o corte de uma ligação originária o que, por sua vez, convida à interrogação.
Existir é uma experiência indagatória: nas nossas histórias, mitos, narrativas individuais e universais, permanentemente questionamos o enigma. Porque nos comove o objeto estético, na sua beleza e horror? As artes plásticas, a música, o cinema, a poesia? Ou tão só a natureza, bela, brutal, imperativa. Ou os medos e as descobertas das crianças. Ou os nossos sonhos…
* Leonor sonha recentemente que se depara com um vulto informe deitado no chão, tornado um obstáculo ao seu caminho. Fica paralisada ao mesmo tempo que ouve uma voz grave que a interroga: qual é o animal mais perigoso do mundo?
No lugar de repetição-na-esperança-de-significação, tal como nas produções culturais, no jogo simbólico das crianças ou nos sintomas e nos sonhos, inscreve-se uma lógica de conteúdos à procura de um continente, num processo ativo através do qual, mais do que o alívio ou a supressão de mal-estar, se aceite, traduza e devolva conhecimento e re-conhecimento, acrescentando verdade interna sobre o próprio.
* Clara, que tem 17 anos, relata o seguinte sonho: “era o universo, era assustador mas fascinante, uma dança de luz, sombras e trajetórias e eu ali, pequenina; então surge, em voz-off, uma pergunta sistemática: qual é o terceiro planeta mais próximo do sol?”.
O que são então os nossos medos? São a tradução dessa angústia, expressão da necessidade e do desejo, solução de compromisso entre a realidade objetal e fantasmática. Nascem do conflito, condensam fragmentos do nosso repertório experiencial, adaptam-se aos requisitos do nosso quotidiano, penalizando e gratificando, de forma hábil, as diferentes instâncias internas que servem. Sinalizam e reclamam uma escuta, encriptando por via do recalcamento e do deslocamento, no melhor dos casos, ou dilacerando e colapsando através da violência do agir e do somatizar, quando o aparelho psíquico é (ou está) mais precário.
* Num sonho, Rute conta: “ estava perante uma máquina, uma trituradora que avançava para mim e eu sentia que não podia escapar! Até que surge uma voz que diz, a única parte que não será destruída é o coração, só o coração te poderá salvar”.
Ao mesmo tempo que exorcizam o mau objeto colocando-o fora do self e procurando, assim, controlá-lo e sobreviver à sua ameaça, submetem-nos aos seus desígnios, mantendo-nos reféns, pelo retorno do clivado ou do recalcado, num equilíbrio de forças conflitual inconsciente. Nesta medida, recordam-nos a nossa fragilidade, lembram-nos a ferida, apelando a uma função parental para fazer face à ameaça ou ao desamparo e, assim, preparam-nos para evoluir. Não devem ser subestimados, nessa sua função de proteção, de comunicação, de superação. Na clínica dos medos é possível dar-lhes nome, sentá-los ao nosso colo, tratá-los por “tu”, conversar com eles.
* Susana sonha que está sozinha num campo à mercê de animais selvagens. Com truques de ninja, consegue evitar golpes de tigres, javalis e ursos mas, de repente, é atacada inesperada e violentamente por… uma ovelha.
Compreender a natureza do medo implica aceitar o seu valor simbólico e situá-lo na cronológica do sujeito: importa pensar porquê, mas sobretudo para quê. Os medos na infância são normativos, estabelecendo as condições para a organização do fantasma. Na adolescência são frequentemente protetores, ao serviço do reajustamento identificatório, amortecendo as angústias originárias e facilitando os lutos obrigatórios. No adulto, sinalizam e balizam as fragilidades inerentes aos conflitos residuais.
“He never gave me a name.”
A escuta dos medos na clínica psicanalítica pressupõe a criação de um espaço mental entre duas pessoas à procura da liberdade. Partindo da incompletude, a relação analítica propõem-se ao encontro de um continente no interior do sujeito. Isto requer da parte do analista uma atitude de
recetividade e de tolerância que vai para além das palavras: o seu setting interno cria as condições para que, no campo analítico, se recupere, se recrie e se transforme a realidade interna do paciente. Na medida em que a relação estabelecida é balizada pelo simbólico dos laços criados, em que os vínculos L, H são norteados por K, o analista cumpre essa complexa função de conter a díade narcísica e, simultaneamente, introduzir a frustração que decorre da inevitável separação e da irrevogável interdição – condições necessárias ao crescimento emocional.
* Luís, na sequência de uma sessão em que me atraso cruza-se com o meu paciente anterior, um menino de 5 anos, sonha que acorda em casa dos pais e que precisa de ir à casa de banho que fica ao fundo de um grande e escuro corredor. Sente um medo tremendo de percorrer esse caminho, como na eminência de ser atacado por um estranho. Através das associações em sessão, ao mesmo tempo que assinala que o meu gabinete fica justamente ao fundo do corredor, ao lado da casa de banho, recupera a recordação de infância do quarto dos pais, a curiosidade de espreitar à porta ou de entrar a pretexto dos seus pesadelos e o sentimento de exclusão que negava até então.
Os medos são matéria dos sonhos, ambos expressão do processo primário, de uma verdade inconsciente com uma intencionalidade relacional. Da mesma forma que, para Winnicott, não há bebé sem mãe, podemos afirmar que não há continente sem conteúdo: o continente pré-existe sem conteúdo, mas não existe sem este. É como um texto à procura de um contexto, um argumento à espera de uma narrativa e de um narrador.
E se o continente pré-existe, também resiste e persiste para além do conteúdo, estando destinado a ser veículo de formulação de novos conteúdos e de novos símbolos. O sujeito pensante constitui-se a partir da relação com o objeto presente-mas-ausente. Em sessão, num momento de importante insight de determinado paciente sobre os seus núcleos fóbicos, digo-lhe: a má notícia é que precisa de mim… mas a boa notícia também.
Por vezes, o medo não encontra possibilidade de ser sonhado, invadindo a mente e contaminado o imaginário com a crueza do não-sentido. Através da relação transferência/contratransferência, a interpretação coloca a realidade interna do paciente em perspetiva, em planos coexistentes: o da relação atual, o da expetativa saturada do seu passado, e o da experiência analítica, numa abertura ao futuro.
Mafalda receia ter um cancro. Apesar da autocrítica, estabelece com o sintoma uma relação de lealdade e de fidelidade absolutas. Em consulta, passo a referir-me a este como “o seu inimigo imaginário”, ou “o seu inimigo de estimação”. O humor, linguagem superlativa ao serviço da liberdade, estabelece qualidades de vínculo porque desconstrói a lógica vigente e convida a novas cumplicidades. Na clínica é usada na tentativa de criar um campo de pensamento que possa conter o paradoxo como espaço potencial.
O que a clínica psicanalítica introduz é a possibilidade de se recuperar, através da relação, o que nesta se perdeu. Fio de ariana do nosso labirinto, cenário interno em que os monstros inomináveis se escondem à sombra da nossa vontade vertical, a análise recria o processo e impele ao caminho, alguém com quem caminhar.
O dia amanheceu cinzento. Repousava sobre mim um tempo de rosas chá e o ar agitava-se em surdina, muito para além dos fogos e dos matagais. Sobre a minha mão vazia pôs Deus o choro dos ventos antigos, o medo dos bisontes feridos e o canto dos pardais.
ABSTRACT
Treating fears arise parts of the self that lack of representation and symbolization. Psychoanalysis offers a continent/content setting able to give meaning and to promote change. The author develops the idea that fears originate from the unconscious conflict that is rooted in the primordial anguish: we fear what we need and what we want. The text is illustrated with dreams of patients who intend to sustain that the task of psychoanalysis listening is both the ability to tolerate negative and a potential space of meaning and transformation.
KEYWORDS
Fear
Helplessness
Continent/Content
Dreams