Através da apresentação de um caso de uma psicanálise de uma criança, pretende-se ilustrar a evolução do funcionamento mental, tal como descrito por Melanie Klein na sua concepção de posição esquizo-paranóide. A ansiedade persecutória dá forma a medos destrutivos intensos, colocando a criança face a angústias de aniquilação, surgindo como mecanismos de defesa preponderantes, a clivagem e a projecção, sendo as relações de objecto caracterizadas pela clivagem de self e objecto. Na dinâmica da transferência e da contratransferência, o paciente e a analista vão procurando construir rêveries que permitam transformar as experiências que dão origem ao sofrimento psíquico do paciente, que o impedem de explorar, aprender e crescer.
A infância vem
pé ante pé
sobe as escadas e bate à porta
- Quem é?
- É a mãe morta
- São coisas passadas
- Não é ninguém
Tantas vozes fora de nós!
E se somos nós quem está lá fora
e bate à porta? E se nos formos embora?
E se ficámos sós?
A ansiedade precoce de aniquilamento ou destruição, motivada pelas sensações corporais de desprazer do bebé, põe em marcha as primeiras clivagens e projecções, configurando relações de objecto parciais numa dinâmica entre bons e maus, constituindo a posição esquizo-paranóide descrita por Melanie Klein (1946).
Considerada como o primeiro organizador das experiências vividas pelo bebé, será a intensidade da ansiedade e dos mecanismos de defesa que irá condicionar o seu carácter patológico, impedido a passagem para a posição depressiva.
Partindo de Klein, Bion (1963) propõe que o funcionamento mental se caracteriza por uma permanente dinâmica entre a posição esquizoparanóide (Ps) e a Posição depressiva (Pd).
Bion (1992) considera que nas relações de objecto não é importante apenas compreender se são relações parciais ou totais, mas também o tipo de vínculo que se estabelece: K – Conhecimento; L – Amor; ou H – Ódio.
O mesmo autor propõe o modelo de relação continente/conteúdo (Bion, 1962) como modelo compreensivo do funcionamento mental, no qual a relação mãe-bebé é entendida como uma metáfora extensível às relações intrapsíquicas, pressupondo um aparelho mental que faz face a diversos conteúdos (internos e externos) passíveis de serem pensados ou não.
No caso clínico que nos propomos apresentar, o que chegou ao encontro da analista não foi o medo de ladrões, o medo do escuro ou o medo de animais pequenos ou grandes, os medos clássicos enquanto fenómenos evolutivos que as crianças organizam dando, por exemplo, forma à angústia de abandono ou de castração, que se diluem naturalmente no curso do desenvolvimento.
No caso do Joaquim, encontramos uma mente em permanente estado de alerta face a um perigo eminente, evocando em nós os avisos emitidos pela protecção civil de alertas laranja ou vermelho, que aconselham ao recolhimento de pessoas e bens. É o medo dos furacões, dos terramotos, dos tsunamis, o medo que uma catástrofe eminente o destrua a si e a tudo o que lhe é querido.
Artigo recebido a 5 de Dezembro de 2016 e aceite para publicação em 29 de Abril de 2017.
Comunicação apresentada no XXVII Colóquio da Sociedade Portuguesa de Psicanálise, “Da Liberdade e do Medo”, em Abril de 2016.
Membro Associado da Sociedade Portuguesa de Psicanálise (SPP) e da International Psychoanalytical Association (IPA). e-mail:
Uma representação do mundo não como um lugar de vida, de crescimento, de exploração e construção (em K), mas um lugar de morte, de destruição.
O Joaquim tem sete anos e é filho único de um jovem casal. Teve sempre muitos medos, evitando desde cedo qualquer saída de casa. Tem também desde o nascimento dificuldades alimentares, fazendo diversas recusas.
Contudo, não é este o motivo pelo qual nos procura. Joaquim está no 1° ano e a aprendizagem encontra-se severamente comprometida: os seus cadernos são sujos e desorganizados, as linhas ou os limites das páginas parecem não existir, e parece estar na sala de aula de forma errática.
Também o discurso dos pais é errático e difuso. Parecem não saber muito bem falar/pensar este filho, culpando a professora pelas dificuldades, e tentando estabelecer com a analista uma aliança contra a escola.
Ou talvez procurem, sem que saibam dizer/pensar, um continente para as suas próprias angústias, podendo estas ser contidas e elaboradas, pela função alfa e as rêveries da analista que só uma aliança terapêutica/vínculo pode assegurar.
É uma entrevista difícil, onde a reacção contratransferencial é intensa, caracterizada por uma enorme confusão, uma dificuldade em estabelecer contacto com os pais, com sentimentos de irritação motivados, tanto quanto conseguimos compreender, pela desvalorização constante dos sinais que Joaquim foi dando ao longo do tempo das suas dificuldades, pela dificuldade de contacto dos pais com o mundo interno do seu filho, revelando um enorme desconhecimento sobre ele.
O Joaquim é um menino pequeno, magro, com um ar triste e adoentado, carregando umas olheiras negras e pesadas. Parece uma criança acabada de recolher da rua, com um aspecto muito sujo e descuidado.
Na nossa sala negligencia os ruídos externos, a sua vigilância dirige-se por completo à analista, está assustado, podemos dizer: invadido pela ansiedade persecutória saturando o nosso encontro que é assim vivido como um reencontro.
Dou por mim a pensar: quem me dera que não fique vento, nem passem ambulâncias.
O Joaquim vigia a analista, a analista vigia as outras ameaças. Sobretudo a ameaça de não conseguir conter e transformar o terror desta criança.
Nas primeiras sessões, a cada 5 minutos, o Joaquim pergunta quanto tempo falta para terminarmos, é-lhe penosa a separação dos pais e adiar a ida para o seu abrigo/casa.
A analista não suscita curiosidade mas antes medo, Joaquim pede para que a porta da sala fique encostada, e assim fica na primeira semana. Imaginará que o interior da analista o pode enclausurar num “furacão” destrutivo?
Faz um primeiro desenho que não é acompanhado de história/narrativa. É a história do tempo pré-verbal, dos primeiros perigos, dos primeiros movimentos destrutivos, da representação dos primeiros objectos e suas relações (Desenho 1).
Durante alguns meses nega qualquer referência à sua possível zanga, o Joaquim não pode nunca zangar-se ou irritar-se, a destrutividade está fora/projectada nos elementos da natureza que os ruídos do mundo anunciam e que virá de forma brutalmente destrutiva e ameaçadora, como é característico de um super-ego arcaico.
Analista, pais, professores, avós e ele – sobretudo ele –, esvaziados e clivados de uma parte de si, podem assim manter-se bons.
Com a clivagem e a projecção, uma parte do self passa a fazer parte do objecto e, talvez por isso, também connosco – os bons –, fique uma parte da sua impotência, da sua fragilidade.
O Joaquim assinala uma tolerância muito limitada às intervenções da analista, à palavra enquanto separador, à palavra enquanto estímulo em demasia para uma mente tão saturada. E em regra, seguimos o molde que lhe convém: uma palavra – silêncio – uma palavra – o Joaquim fala ou olha como quem se diz preparado para uma frase, um pensamento. Como neste momento em que modela em plasticina várias bolas e, respeitando a sua tolerância/intolerância, digo-lhe:
Balas?
(silêncio)
Bombas?
Não são minhas!
Ah! Se fossem tuas! Que bom seria atirar as balas ao meu relógio!
Olha-me espantado e responde ao meu sorriso, com um quase sorriso muito preocupado. A interpretação da transferência negativa vai abrindo a possibilidade de contacto com as suas zangas, gerando experiências de compreensão que podem ser diferentes das suas fantasias destrutivas. O Joaquim, a analista e o espaço analítico permanecem e resistem e, para nós, reforçam-se.
As suas zangas e destrutividade podem iniciar um percurso de transformação, permitindo um reconhecimento gradual e diminuindo a necessidade da sua projecção.
Nas sessões seguintes as balas voam pela sala e não precisam de ser deslocadas para o relógio, podem inadvertidamente, cair em cima da analista, enquanto combatemos os soldados maus com o nosso exército bom em Berlim.
“Na próxima vez temos de continuar, sabes, os maus têm sempre mais e mais e nunca mais acabam… Tu já foste a Berlim? Os meus pais foram quando namoravam, mas não me levaram!”
O funcionamento mental do Joaquim vai-se tornando mais rico, como observamos nesta representação de Berlim que nos parece condensar o lugar da sua não-representação na mente dos pais/analista, da sua exclusão e dos conflitos dos pais, elemento do inconsciente parental tornado seu.
Depois de várias guerras em Berlim, o exército bom da analista e do Joaquim começa a viajar para diversos lugares do mundo e os exércitos – o bom e o mau – vão resistindo até que um dia, no final da sessão, o Joaquim a sorrir diz: – hoje fomos mesmo maus, não fomos?
Os bons objectos podem começar a ser pensados também enquanto objectos que frustram os seus desejos, self, e os bons objectos vão começando a ser reconhecidos como contendo partes sádicas.
Agora as guerras podem chegar mais perto e ser representadas em Portugal, guerras tão grandes que aparentam ser “o fim do mundo”.
As brincadeiras e desenhos revelam agora uma maior riqueza narrativa, os conteúdos podem ser transformados, constituindo-se como elementos com possibilidade de serem pensados.
A Praia (desenho 2: a seu pedido, as palmeiras, os limites do horizonte e do mar são desenhadas por mim). O filho está na areia a descansar, os pais foram nadar.
Parece-nos a ilustração do processo analítico, o uso que o paciente pode fazer do aparelho psíquico e do mundo interno da analista. As palmeiras, objectos internos da analista, à sombra das quais o Joaquim pode sonhar o primeiro desenho, os conflictos entre os seus próprios objectos internos, num só oceano intemporal, onde os pais navegam na companhia da serpente do pecado, o tubarão, o carapau-avião-pénis, e a medusa-seio.
A praia ilustra também uma melhor configuração de limites, conferindo uma maior robustez ao aparelho psíquico e abrindo uma maior possibilidade de contenção, de narrativa, de possibilidade de pôr em marcha funções mentais mais diversas.
Nesta praia o Joaquim pode estar excluído do prazer de nadar dos pais, fazendo-os mergulhar numa possibilidade de prazeres e perigos, sem que possam ser destruídos.
Seis meses após o início da análise:
Elsa, lembras-te de quando nós não éramos amigos? Agora somos e não nos zangamos!
Hum! Acho muito difícil os amigos não se zangarem às vezes, como os pais e os filhos… Pois… mas fazem as pazes, não fazem?
O fenómeno transferencial, presente em todas as relações humanas, é condicionado pela riqueza do funcionamento psíquico e das relações de objecto. A qualidade comensal da relação continente-conteúdo, onde bebé (conteúdo), mãe (continente) e +K (conhecimento) beneficiam mutuamente, permite que experiências emocionais, dúvidas e questões (enquanto conteúdos) contribuam para o crescimento do aparelho de pensar e para a possibilidade de aprender com a experiência (Bion, 1962).
Para alguns pacientes, tal como para o Joaquim, os primeiros encontros estão saturados de angústia persecutória, a relação conteúdo-continente encontra-se perturbada e o encontro analítico não é um lugar de projecção de possibilidade de contenção ou de transformação.
Cabe ao analista conter e transformar os elementos transferenciais e contratransferenciais, para que o encontro analítico possa de facto ser uma experiência de conhecimento e crescimento.
O Joaquim brinca agora com a pergunta, quanto tempo falta para terminarmos?, em regra 10/15 minutos antes do fim da sessão e, brincando, apodera-se das minhas palavras: - Faltam miiiiiiiiil minutos, não faltam?
Sim, os mil minutos de uma análise, o tempo finito e infinito que permite que se teçam as rêveries possíveis, para que o mesmo regresse, repetindo-se diferente, em novas narrativas e figurações possíveis, para que o aparelho mental possa vincular-se em K, possa conhecer, saber e tolerar o desconhecido.
O mesmo regressa repetindo-se diferente, como no desenho de um castelo do rei e da rainha, um fantasma e uma torre de menagem. A exclusão do castelo Berlim/do castelo para onde vou nas nossas separações, Joaquim-fantasma é representação frágil na minha mente que o pode exorcizar, o desejo de me assombrar com uma torre
de menagem de onde sai um pénis, avião, carapau, tubarão, espada que ataca o castelo-seio, os reis/pais/analista/marido da analista.
Reconhecendo a sua própria destrutividade, o seu sadismo, a sua inveja, o mundo pode evoluir do oceano primordial do início da vida, para novas construções/castelos, para guerras menos bárbaras e para o reconhecimento do amor, do que é querido.
A possibilidade de introjectar a omnipotência do bom objecto permite a possibilidade de experimentar um self omnipotente, parte integrante do desenvolvimento infantil.
Desenho 3: A tocha. O Joaquim com a sua tocha, descobriu um portal na montanha. Dentro do portal descobriu um metal especial para desmontar tornados e furacões e tremores de terra e tsunamis e remoinhos. O Joaquim construiu à volta da montanha uma protecção especial, que atraía e desmontava essas coisas. Salvou a montanha e salvou o mundo.
Antes das primeiras férias de verão, desenha primeiro uma grande ventania, interpretada como a ventania das férias que ele imagina apagado do meu pensamento. Desenha em seguida três amigos, o menino, o robô e o esqueleto, que foram a um casamento numa igreja.
Na sua ausência/exclusão, a festa do prazer da analista e dos seus objectos internos/casamento dos pais e as possibilidades que a ambivalência traz: o menino-convidado (desejado), que traz o seu amigo robô (talvez objecto transicional) e o esqueleto (o passado, as coisas mortas), que não quis ficar em casa e pôde vir assombrar a festa.
As primeiras férias de verão vão ficando cada vez mais próximas. O Desenho 4 ocupa três sessões. “Sabes o Dom Afonso Henriques? Foi há muito tempo, não foi Elsa? Ele foi o primeiro rei de todos, não foi? Agora vou fazer o castelo dele, ele tinha uma coroa de ouro! E a mãe, espera, como se chamava? Era… Urra… Sim! Urraca! Ela também tinha uma coroa de ouro!”.
“E que grande espada a Urraca tem, Joaquim!”, respondi. “Pois! Não vês que era o princípio? Nós nem existíamos! E eles tiveram de fazer muitas, muitas guerras, e depois conseguiram fazer Portugal. Foi assim! Senão, não existíamos. Depois ele fez Portugal e teve uma rainha e teve filhos… Depois, muito depois fizeram um museu, estás a ver? Foi em 1992… Isto são as estátuas deles porque já morreram, mas as coroas são as verdadeiras, de ouro. E como é um museu muito importante, tem estas torres e seguranças para o guardar. E as pessoas podem ir visitar, queres ver? Nós vamos aqui no carro e também tem jardins e podemos entrar e passear lá um bocado… E tem uma loja e podemos trazer recordações”.
Perante a riqueza deste material deixamos apenas duas notas. Para que a vida prossiga é necessário aceitar a morte, o fim da omnipotência, dos objectos idealizados, sabendo que o ouro resiste, mas este é um movimento percursor do que está para vir muito mais adiante no desenvolvimento, e o Joaquim tem nessa altura apenas oito anos. Entretanto, durante as férias, as histórias das guerras, dos casamentos, dos príncipes e das princesas, têm um lugar para ser guardado e depois visitado, um museu.
A outra nota parece-nos ser a representação que o Joaquim faz da evolução da sua relação e da analista com os seus pais e com a sua história. As sessões com os pais fazem também o seu caminho, abrindo possibilidades de contacto/visitas, de aprendizagem e crescimento, de confiança entre pais e analista.
As viagens com o Joaquim prosseguem. Construímos uma nave espacial e vamos explorar o espaço, onde encontramos um E.T. que pensávamos que era mau mas não era, apenas fazia umas maldades às vezes. Um E.T. órfão de pai e mãe que vamos resgatar com a ajuda da nave super-herói que tem uns braços especiais, e o E.T. vai ser o nosso filho.
O novo, o estranho (E.T.) pode ser acolhido, a parte órfã, desamparada, pode ser resgatada, e o Joaquim pode cuidar dela, por enquanto ainda com a ajuda da analista.
Os objectos internos vão-se enriquecendo na mesma medida em que a projecção diminui pela capacidade de conter e transformar as ansiedades e as angústias que emergem.
Os objectos podem agora ser representados com um interior mais criativo e vivo, onde se geram bebés que podem nascer, crescer e fazer amigos, como num desenho de um pai gordo e grávido.
Os objectos também se vão fortalecendo, podem enfrentar melhor os seus medos e os perigos, o Joaquim pode trazer para junto dos pais um lagarto que tanto medo lhes causa. Ele não tem medo e tem os seus super-heróis. Ou seja, também um self mais fortalecido, mais rico e diferenciado.
E nós? Sucumbimos ao medo e ao terror? Desistimos da vida, do pensamento, do sonho e da liberdade? Desistimos do conhecimento, do saber?
Ficamos no abrigo sob o desígnio do alerta laranja que a nossa ansiedade persecutória reclama? Retaliamos na mesma moeda, por nossas mãos ou por outras mãos armadas por nós, não deixando de ser as nossas? O pensamento, o saber e os afectos, parecem-nos demasiado sábios para conseguir arrumar/clivar assim tão bem os bons e os maus. Essa arrumação traz-nos demasiados órfãos às nossas costas.
ABSTRACT
Through a psychoanalysis of a child, we pretend to ilustrate the evolution of the mental organization as described by Melanie Klein in her conception of Paranoid-schizoid position.
The persecutory anxiety gives shape to intense destructive fears, splitting and projection will prevail as defense mechanisms, and object relations will be characterized by the splitting of both self and object.
In the dinamics of the relation between transference and countertransference, both pacient and analyst search the elaboration of rêveries that allow the transformation of the experiences that are in the center of his psychic suffering, and that prevent him of exploring, learning and develop.
KEYWORDS
Paranoid-schizoid position
Splitting
Projection